9.3.04

Capitão Koons: -- Este relógio aqui foi adquirido pelo seu bisavô. Foi comprado numa lojinha em Knoxville, Tennessee, durante a Primeira Guerra Mundial. Foi comprado pelo soldado raso Erine Coolidge no dia em que ele partiu para Paris. Foi o relógio de guerra de seu bisavô, feito pela primeira fábrica de relógios de pulso que existiu. Porque, você sabe, naquela época as pessoas costumavam carregar relógio no bolso. Seu bisavô usou este relógio todos os dias enquanto esteve na guerra. Quando acabou de cumprir com o seu dever, voltou para casa, para sua bisavó, tirou o relógio do pulso e guardou numa velha lata de café. E ali ele ficou até que seu avô Dane Coolidge foi convocado por sua pátria para atravessar o mar e combater os alemães novamente. Desta vez era a Segunda Guerra Mundial. Seu bisavô deu para o seu avô para lhe dar sorte. Infelizmente, a sorte de Dane não foi igual à do pai. Seu avô era um fuzileiro naval e foi morto com todos os outros fuzileiros na batalha de Wake Island. Seu avô estava enfrentando a morte e sabia disso. Nenhum daqueles rapazes tinha a menor ilusão de sair daquela ilha vivo. Então, três dias antes de os japoneses tomarem a ilha, seu vovô de 22 anos pediu a um atirador do serviço de transporte da força aérea chamado Winocki, um homem que ele jamais viu antes na vida, para entregar ao filho, que ele por sua vez jamais conheceu em carne e osso, seu relógio de ouro. Três dias depois, seu avô foi morto. Mas Winocki cumpriu a promessa. Quando a guerra acabou, ele fez uma visita a sua avó e entregou a seu pai o relógio de ouro do pai dele. Este relógio. Este relógio estava no pulso do seu pai quando acertaram o avião dele sobre Hanói. Ele foi capturado e levado para um campo de prisioneiros vietnamita. Ele sabia que se os chinas vissem o relógio, o confiscariam. Para o seu pai o relógio era dele por direito de herança. E que ele fosse pro inferno se algum cabeça-de-bagre iria pôr suas mãos amarelas gosmentas no direito do seu filho. Então ele o escondeu num lugar onde sabia que podia esconder uma coisa bem escondida. No cu. Durante cinco longos anos ele escondeu este relógio no cu. Quando ele morreu de disenteria, me deu o relógio. Eu escondi esta desconfortável badalhoca de metal no meu cu durante dois anos. Aí, depois de sete anos, fui mandado de volta para minha família. E agora, rapazinho, eu dou o relógio para você.

Quentin Tarantino, no roteiro de Pulp Fiction.