27.12.11




Eu quero o pano de chão que estava aqui. Onde está o pano de chão que deixei aqui? Eu comprei dois e um estava bem aqui. É este um que eu quero. Você não precisa refletir muito para compreender que eu quero o pano de chão que deixei aqui. Se deixei aqui, ele devia estar aqui. Constantemente presente. Com sua razão de ser. Eu não quero o pano. Eu não quero o chão. Quero o pano de chão. Uma síntese indissolúvel. Não são palavras criadas por mim. São um objeto. Que está faltando. Isso significa uma espera. Eu espero o pano de chão que estava aqui num outro momento e neste exato não está mais. E quanto mais espero mais a minha mão pesa na caneta. A ausência é sentida e pesada. O mundo dos meus objetos não é mais o mesmo. Falta um ponto no mapa. Ou um traço. Falta um lago, uma ruazinha, uma cidade. E se falta, há um buraco. Alguém pode cair nele. Eu poderia dar pela falta de uma árvore, um poste. Um cacho de uva. Uma emoção antiga dita de uma maneira nova. Mas é do pano de chão o rosto na gravura. No primeiro momento de descuido esse rosto disfarçará a voz e não parecerá mais o que é. Isso é o mais longe que ele poderá ir. Quanto mais dou por sua falta, mais jogo o resto que me cerca fora. E por jogar o resto fora, ele se agiganta. Calcule por hectare. E ele só começou com uma frase. Eu quero o pano de chão que estava aqui foi onde tudo começou e agora não consigo alcançá-lo. A distância só faz aumentar, o que é um perigo. Se é um perigo, posso querer negar. Não, o pano de chão não estava aqui. Você tem certeza de que estava aqui? Tem certeza de que você tinha um pano de chão? Quem se importa com o teu pano de chão? De que serve? Mas eu não preciso me explicar com uma palavra, muito menos com três. Muito menos negar. Negar é fugir. Agora eu posso entender o que é uma emoção. Eu quero verdadeiramente o pano de chão que estava aqui. Arrumo minhas urgências na ordem que eu quero. Dentro do sol quente da manhã.


MP

23.12.11

Vinho de cocaína

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Provei uma única gota do seu vinho mágico 

E tornei-me uma fantástica princesa inca 

A recitar os versos litúrgicos 

Coca yhamuspa sachamanta 

Cutichin hinti guagtaste 

Yathun socoyock hui 

Napipa huinnaimincama 



 Judith Gautier, laudando o Vin Mariani, o primeiro vinho
de coca produzido e muito popular nos anos 1860.

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9.12.11



Double Stops

Inácia é braçuda. Abre mensagens uma atrás da outra,
o cigarro aceso estrangulado entre os dedos, sujeitos que falam.
Apoiando o celular no ombro, aquele bração é um sofá extradiscursivo.
Como era seu costume, Carlota 
pensa nos sistemas de exclusão do século 19 em sábados chuvosos.
As duas estão muito actantes hoje mas não se mexem para me ajudar.
Sigo direto para o meu quarto e faço as malas. Elas ficam sozinhas na sala, palatalizando.
A casa é espaçosa para quem gosta e diz que não gosta.
A biblioteca é cheia para quem não lê e diz que lê.
Inácia e Carlota gostam de poetas parnasianos contemporâneos e me viram a cara
quando chamo seus fluxos de consciência de torrentes de cabriolés.
Eu não me importo, nunca espero elogios de quem me entende.
Etiqueta para ignorantes é distribuir elogios.
O mais difícil é sair de dentro de si sem precisar de focinheira.
Eu gostaria de ver o que elas guardam no sótão para ter em que pensar no trem.
Logo que cheguei me alojaram nos fundos, um aposento úmido com luz de lampião.
Conversávamos no escuro e ao dormir eu sempre caía no sonho errado.
Tive de trabalhar muito com minhas fantasias.
Na cozinha cheirando a refeitório de colégio interno,
o braço enorme me oferece um chá com Mussolini antes de eu partir.
Uma indireta.
Não falam em almoço ou saudades transitivas.
Repasso meu itinerário encaixando algumas mentiras
enquanto bebo na xícara feita por Inácia,
segundo ela uma nova concepção de objeto ocidental.
Carlota inveja minha errância, meu negligée, meus braços fininhos,
mas ao me beijar abrindo a porta da rua, elogia a singularidade de minha “paginação”.
Sensação de ardência no estômago.
Na cabine, percebo que esqueci no criado-mudo do quarto de hóspedes
minha Plongée velha onde fiz anotações para o futuro.
Também não lembro de uma palavra que disse.
Revejo na máquina as centenas de fotos que tirei do Zoo de la Barben.
Inácia e Carlota só aparecem juntas duas vezes na frente de uma jaula.
Não dá para saber de que animal.
À noite me encontrarei com Alice no Baad Bukra.
Se ela não tingiu os cabelos de vermelho e estiver de bom humor,
talvez saiba reconhecer a jaula.
Depois de tanto tempo fora, todas se parecem umas com as outras.


MP

5.12.11

Marlon Brando, carta de amor a uma aeromoça, 1966





- Oh, what a mess! (purr).





Dear Lady -

There is something not quite definable in your face - something lovely, not pretty in a conventionally thought of way. You have something graceful and tender and feminine (sp). You seem to be a woman who has been loved in her childhood, or else, somehow by the mystery of genetic phenomena you have been visited by the gifts of refinement, dignity and poise. Perhaps you cannot be accredited with all that.

Irrespective of your gothic aspects, you have passed something on in terms of your expression, mien and general comportment that is unusual and rewarding.

It's been a pleasant if brief encounter and I wish you well and I hope we shall have occasion to cross eyes again sometime.

Best wishes

Marlon Brando

Savoy


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