17.8.17

adendo





Associar o nazismo ao ideário ou a qualquer experiência histórica do campo da esquerda é uma imbecilidade em dois sentidos: o sociológico e o historiográfico. A gênese do nazismo (não do antissemitismo ou da ideia de supremacia racial) se funda em perspectiva antípoda a várias correntes de esquerda do início do século XX. Hitler conquistou boa parte de seu prestígio junto às classes dominantes e à direita alemãs perseguindo os partidos comunista e social-democrata. Militantes de tais partidos foram os primeiros massacrados em campos de concentração, uma espécie de première do terror. Na Itália, fascistas usaram comunistas como bodes expiatórios para o recrudescimento do totalitarismo. O grande Gramsci, que era deputado federal (PCI) no Parlamento italiano, foi jogado às masmorras romanas, atendendo ao ódio de Mussolini. Henry Ford, por exemplo, ícone do capitalismo moderno, era um fervoroso entusiasta das ideias nazistas. Banqueiros e industriais alemães apoiaram e ofereceram logística política ao Terceiro Reich. (...) liberais e capitalistas eram perseguidos, basicamente, em duas situações: se fossem judeus ou opositores das barbáries nazistas. Não havia um motivo de concepção ou ideológico, como no caso da esquerda. A burguesia alemã ofereceu apoio explícito ao nazismo, principalmente a partir dos anos 1930. Antes do início da ditadura em 1932, quando o parlamento foi fechado por Hitler, o Führer foi escolhido primeiro-ministro em um gabinete repleto de conservadores liberais e amplamente apoiado pela burguesia. A literatura política e historiográfica sobre o período em questão é farta. (...) foi exatamente durante a ditadura iniciada em 1932 que a burguesia alemã ratificou seu apoio incondicional ao nazismo. Hitler era considerando o porto seguro para a "livre iniciativa" dos burgueses, uma espécie de salvador da pátria dos capitalistas diante da ameaça vermelha. Lembre-se do importante papel desempenhado pela IBM no mapeamento dos judeus alemães. A processualidade histórica concreta revela que a maioria dos ideólogos liberais do capitalismo sempre defenderam regimes autoritários. Hayek, por exemplo, defendeu abertamente a ditadura de Pinochet. Margaret Thatcher defendeu o apartheid e chamava Mandela de terrorista. Hitler teve apoio explícito de grandes empresas como a IBM e a Ford. São fatos conferíveis.O(s) liberalismo(s) constitui(em) um campo teórico, político e ideológico amplo e por vezes contraditório. Sua versão hegemônica e contemporânea está associada à ideia de sociedade de mercado. Nesse caso, verifica-se, em maior ou menor grau, uma certa aversão à democracia de massas e às teses de igualdade social. Foram fervorosamente contrários ao Welfare State europeu, por exemplo.

Flávio Levi Moura

16.8.17

Socialismo x Nazismo e Bolsonaro



por Fernando Horta, via FB



[Afirmam] que Hitler era "socialista" por pertencer a um partido que tinha no nome o "socialista". Na realidade Hitler abomina o socialismo e deixa isto bem claro no livro Mein Kampf. Hitler dizia que a esquerda tinha "roubado" a palavra "socialismo" para definir um sistema de disputa social, "luta de classes", quando ele (Hitler) queria retomar o termo ("o verdadeiro socialismo": Mein Kampf, pág. 290) para indicar uma sociedade onde os trabalhadores trabalhassem para o "bem do Estado, e pela Pátria" (pág. 305). Assim a ideia de "socialismo" que Hitler trazia era totalmente oposta ao socialismo conforme descrito por Marx e Engels e outros pensadores depois deles. 



Hitler diz no Mein Kampf, pág. 236: "Se o programa social do novo movimento consistisse somente em suprimir a personalidade e pôr em seu lugar a autoridade das massas, o nacional-socialismo,já ao nascer, estaria contaminado pelo veneno do marxismo, como é o caso dos partidos burgueses", em que ele cabalmente mostra a diferença entre o que ele chama de "nacional-socialismo" e o "veneno do marxismo". Na pág. 255 do mesmo livro, Hitler diz, profético, que "A diferença entre marxismo e socialismo até hoje ainda não entrou nessas cabeças." Assim, tanto Hitler, quanto Bolsonaro, abominam o que eles acham que seja "socialismo", embora nenhum dos dois realmente tenha se interessado por conhecer o que tanto odeiam.

[Outro] argumento é de que Hitler "odiava judeus" e Bolsonaro apoia Israel. Veja que aqui existe uma falácia. O termo "judeus" é diferente do termo "Israel". Existem milhões de judeus pelo mundo que são contrários às ações do ESTADO de Israel. Bolsonaro apoia a violência que Israel usa para conter os palestinos (e não vou entrar nesta questão aqui), mas é preciso que se diga que entre 1933 e 1944 (quando Hitler esteve no poder na Alemanha) não existia "Estado de Israel" e os judeus viviam pelo mundo afora em situação semelhante à que vivem hoje os palestinos. Se você quiser ver, tem inúmeras associações de "jews against palestinian genocide", aqui: (https://palsolidarity.org/tag/jews-against-genocide/).
O terceiro argumento é de que "Hitler queria eliminar raças inferiores". É outro erro comum sobre Hitler. Hitler entendia que existia uma raça superior (os germânicos), raças intermediárias (as nórdicas) e todo o resto. Mas não achava que as "inferiores" deveriam ser eliminadas, pensava que deveriam ser controladas e governadas pelas superiores. É disto que se tratava, controle ao invés de aniquilação. Tanto é que os campos de concentração só foram campos de extermínio genocida após 1943, quando Hitler percebeu que perderia a guerra. Antes disto eram campos de escravidão e trabalhos forçados. As "raças" que não aceitassem a supremacia germânica deveriam ser mortas, aquelas que "reconhecessem o seu lugar" poderiam viver. No fundo é exatamente o mesmo pensamento do Bolsonaro de que existem seres "superiores" e "inferiores". Hitler fez esta distinção baseada na "raça" e estabeleceu ramificações morais. Bolsonaro faz o mesmo. Veja: "Se o aglomerado de povos a que se dá o nome de "Áustria" fracassou, isso nada quer dizer contra a capacidade política do germanismo na antiga fronteira oriental, mas é o resultado forçado da impossibilidade em que se encontravam dez milhões de indivíduos de conservarem duradouramente um Estado de diferentes raças com 50 milhões de habitantes, a não ser que ocorressem na ocasião oportuna determinadas circunstâncias favoráveis." (Mein Kampf, pág. 16)



Aqui você pode ver Bolsonaro chamando refugiados de "a escória do mundo" (http://www.jornalopcao.com.br/…/bolsonaro-ve-imigrantes-co…/) e ele já fez semelhantes afirmações sobre gays, mulheres e negros. É o mesmo tipo de pensamento o de Hitler e Bolsonaro.

O quarto argumento é de que Hitler "achava o cristianismo uma perda de tempo". É outro erro. Hitler se dizia profundamente cristão e denunciava o Partido Cristão na Alemanha (MK, pág. 147) que, segundo ele, "tentava confundir a fé católica com um partido". Uma parte do "ódio" de Hitler aos judeus é porque eles teriam negado o "verdadeiro cristianismo" e matado Cristo.
"O produto dessa educação religiosa -- o próprio judeu é o seu melhor expoente. Sua vida só se limita a esta terra, e seu espírito conservou-se tão estranho ao verdadeiro Cristianismo quanto a sua mentalidade o foi, há dois mil anos, ao grande fundador da nova doutrina. Verdade é que este não ocultava seus sentimentos relativos ao povo judeu; em certa emergência pegou até no chicote para enxotar do templo de Deus este adversário de todo espírito de humanidade que, outrora, como sempre, na religião, só discernia um veículo para facilitar sua própria existência financeira. Por isso mesmo, aliás, é que Cristo foi crucificado, enquanto nosso atual cristianismo partidário se rebaixa a mendigar votos judeus nas eleições, procurando ajeitar combinações políticas com partidos de judeus ateístas e tudo isso em detrimento do próprio caráter nacional. (MK, pág. 168)

De fato, se perguntarmos ao papa Francisco, nenhum dos dois é realmente cristão. E para entender isto você deveria ler a última encíclica de Francisco, Laudato Si.
O quinto argumento é de que "Hitler desarmou a população". Nada mais errado. Não só Hitler rearmou toda a Alemanha (que estava proibida de ter exército pelo Tratado de Versalhes), como matou opositores seus dentro do exército utilizando esta população armada (A Noite das Longas Facas ou Noite dos Punhais). Se você verificar o Tratado de Rapallo de 1922, verá que já antes de Hitler a Alemanha procurava se rearmar e que em 1934 se cria a "Wehrmacht Oath" em que o exército alemão (Wehrmacht) jura lealdade a Hitler e este jura dar condições à criação de um exército capaz de atingir o sonho da "Lebensraum" -- o "espaço vital" que Hitler julgava ser de direito da Alemanha e que ele iria conquistar a qualquer preço.
Já Bolsonaro não quer armar a população, até quer retirar armas de quem coíbe os crimes que ele Bolsonaro gosta de praticar. Como ele gosta de caçar em locais contra a lei ... ele fez isto aqui:


Ou seja, a ideia é armas para quem pensa igual a ele e para todos os outros a obediência desarmada. Não vi Bolsonaro defendo armas para o MST, a CUT ou o MTST. (...) Quando se fala de Hitler e Bolsonaro, é preciso mostrar a verdade.


2.8.17

Venezuela




Pelo que se noticia e o que se pode acompanhar daqui, mais uma vez as elites oligarcas venezuelanas, lideradas por ex-mandatários como Capriles, Allup, Lopez, tentam dar um golpe de Estado no país. Há 18 anos que eles não conseguem retomar o poder na Venezuela. De lá (1999) para cá aconteceram 14 eleições regionais e nacionais. Em todas elas o governo Chávez-Maduro foi referendado e mantido no poder pela decisão do voto popular. Não conseguiram através de eleições e resolveram boicotar o país. Tentaram nomear unilateralmente um Tribunal Superior de Justiça nacional, bloquearam e continuam bloqueando o abastecimento de mercados e postos de venda de alimentos. Recrutaram ex-mandatários conservadores de direita da América Latina como Fox (México), Pastrana (Colômbia) e Quiroga (Bolívia) para "inspecionar" a situação venezuelana. Todos retornaram aos seus países "denunciando" a instauração, em curso, de uma ditadura bolivariana na região. Todos estes alinhados ao discurso que vem de Washington. Trump impôs novas sanções à potência petrolífera. Aliás o interesse yankee na região é antigo. A Venezuela é dona da 4ª maior reserva de petróleo do mundo e a nação membro da OPEP mais próxima geograficamente dos EUA. A Constituinte convocada por Maduro contou com a participação popular voluntária de mais de 8 milhões de pessoas que votaram sim para o aperfeiçoamento da Constituição promulgada em 1999 com Chávez. Que prevê dentre vários pontos a ampliação dos direitos sociais já conquistados no país, além de uma política econômica específica para a questão do petróleo, o que lá chamam de post-petróleo, que liberta o país da política cambial determinada pelos EUA para a cotação do barril do petróleo no mercado mundial. Esse ponto específico incomoda bastante a potência norte-americana. Já outro ponto que causa desespero nas elites locais: Com a nova Constituição a ser elaborada a partir de agora, os representantes do povo passam a ser eleitos por setores, facilitando o acesso de lideranças comunitárias, de pequenos povoados, lideranças indígenas, negros, mulheres, campesinos, aos espaços de poder institucional. Ao invés de grandes proprietários e empresários locais como é hoje. Claro que há problemas no país, que o governo não é perfeito, como não é em lugar algum na verdade, sobretudo no capitalismo, no entanto o Estado venezuelano tem convocado o povo para participar da vida política e da construção do futuro do país livre do jugo imperialista. Uma coisa é certa. Lá eles não querem a direita de novo no poder. O grosso da população, digo, porque sabem as consequências do retrocesso. Nós estamos sentindo na pele o que acontece depois de um golpe levado a cabo. Recomendo fortemente a leitura de artigos disponibilizados pela TELESURTV dentre outros portais de informação desvinculados das grandes corporações midiáticas globais como CNN, EL PAÍS, BBC, FOLHA...


Gabriel Quintilhano



1.8.17

1 poema de May Ayim (1960-1996)




autumn in germany

it is not true
that it is not true
that’s how it was
first at first and then again

that’s how

it is kristallnacht:
in november 1938
first shattered
were windowpanes
then
again and again
human bones
of jews and blacks
of the weak and the sick
of sinti and roma
and poles of lesbians and
gays of and of
and of and of
and and

first a few then many

more and more:
arms lifted and joined in
applauded clapping
or stealthily gaping
as they and them
and he and she
and him and her
first once in a while
then again and again

again so soon?

a singular incident:
in november 1990
antonio amadeu from angola
was murdered
in eberswalde
by neo-nazis
his child born shortly after by a
white german
woman
her house
shortly after
trashed

ah yes
and the police
came so late
it was too late
and the newspapers were so short
of words it equaled silence
and on TV no picture
of this homicide

no comment on the incident:

in the newly united germany
that so much likes to
likes too much
to call itself re-united
it happened
that here and there
it was first houses
then people
that burnt down
first in the east then in the west
then
the whole country

first at first and then again

it is not true
that it is not true
that’s how it was

that’s how it is:
autumn in germany
i dread the winter


-- In blues in schwarz weiss (Blues in Black and White),
versão em inglês da autora, 1992.)