25.4.16

Peggy Lee "Why Don't You Do Right"




"Why Don't You Do Right (Get Me Some Money Too)"

You had plenty money, 1922 
You let other women make a fool of you 
Why don't you do right, like some other men do
Get out of here and get me some money too 

You're sittin' down and wonderin' what it's all about 
You ain't got no money, they will put you out 
Why don't you do right, like some other men do?
Get out of here and get me some money too 

If you had prepared twenty years ago 
You wouldn't be a-wanderin' now from door to door 
Why don't you do right, like some other men do? 
Get out of here and get me some money too 

I fell for your jivin' and I took you in 
Now all you got to offer me's a drink of gin 
Why don't you do right, like some other men do
Get out of here and get me some money too

Why don't you do right, like some other men do
Like some other men do

11.4.16

A Ana Duarte (In memoriam)




Faleceu ontem no Rio de Janeiro, Ana Maria Duarte, diretora de arte e gerente de produção da editora Rocco. Viúva do poeta Torquato Neto, deixa como legado o seu trabalho intenso e aguerrido na produção de livros, e o respeito e dignidade com que geriu a obra de Torquato, sem permitir a aproximação dos urubus de telhado. Meus agradecimentos a tudo que fez por mim, por sua produção dedicada do meu livro, pela força que deu à minha poesia e a de poetas em geral. RIP






4 poemas de Margarida Vale de Gato





Émulos
Foi como amor aquilo que fizemos
ou tacto tácito? – os dois carentes
e sem manhã sujeitos ao presente;
foi logro aceite quando nos fodemos
Foi circo ou cerco, gesto ou estilo
o acto de abraçarmos? foi candura
o termos juntos sexo com ternura
num clima de aparato e de sigilo.
Se virmos bem ninguém foi iludido
de que era a coisa em si – só o placebo
com algum excesso que acelera a líbido.

E eu, palavrosa, injusta desconcebo
o zelo de que nada fosse dito
e quanto quis tocar em estado líquido.

Com paixão e hipocondria
Confortamo-nos com histórias laterais,
evitamos o toque, há risco de contágio;
por mais que preservemos a franqueza
passou o estágio já da frontal alegria:
estamos bem, obrigada, embora aquém
de antes – entretanto admitimos não
saber, e enquanto resta isto indefinido,
mesmo com luvas, pinças de parafina,
não sondamos mais, sob pena de crescer
um quisto nesse incisivo sítio onde
achámos sem tacto que menos doía

Avô Amaro


Quando o homem pisou a lua no café do meu avô

eu não estava lá [escrevi sobre isto antes por outra

causa mas (montagem, conspiração, solas ufanas de improváveis

galochas de lustro astronómico arrastando um pé retocado

pelo ângulo do vento bafejando ouro azul rubro e branco

e pura Americana forever) nem sempre há-de ser o mesmo

poema; neste o tema serve o desenho de quem era o meu avô:

ele tinha um café e um televisor ainda raro na altura, caixa

cúbica que todos convocou em torno ao espaço, só eu não;

eu era ainda para nascer e por isso lamento quando chegou

o primeiro homem à lua eu não estava lá] em Vendas Novas


e o café ficava em frente ao quartel e os mancebos

treinavam para ir matar no ultramar por causa do senhor

que julgava ainda governar Portugal mas também não esteve

lá e se calhar nem viu nada se calhar nem ouviu se calhar

nem deu por nada mesmo supondo um rouco transístor

seguro pela débil mão junto ao débil coração o enfermo

na cadeira de onde já tinha caído sem ter percebido

nada desconhecendo os mancebos e estes em paga

ignorando por uma vez tudo dele todos olhos e reparo

todos postos no futuro todos sôfregos na respiração

de Neil Armstrong lá longe na lua na televisão do Amaro


preto no branco o dominó em tampo de mármore em câmara

lenta derrubado passado tempo guerra regime ó leve coração

efémero o meu avô no meio do café a serradura era neve

de botas cardadas na lua que ele limpou quando voltou

a tropa ao quartel de fantasia em forma ele só atencioso

ele desperto afã de cuidar de varrer como sempre fazia

ele pepitas semi-acesas eram estrelas fabulosas da alegria

eu não estava lá nem estive quando anos após (eu tinha

dezoito) o coração dele parou eu soube como um soco

a primeira vez que alguém morria a lua não tremeu não se via

o meu avô pela sua fé sem qualquer tecnologia tornou ao céu



Aniversário


Há tanto tempo eu
trazia um vestido curto nós
subíamos as escadas eu
à frente sem reparar deixava
as pernas ao desamparo do teu
agrado, tínhamos bebido ao meu
futuro e era uma fuga o teu
presente um disco que me deste
reluzia em semi-círculo e a nós
excitava seriamente escapar eu
fazia vinte anos tu
relanceavas-me as pernas eu
abandonava a adolescência
nem olhara para trás tu
miravas-me as pernas de trás. Nós
subíamos ao telhado eu
trazia um vestido curto nós
estávamos tristes creio tu
fingias-te um sátiro e nós
subíamos ao alto desarmados.

O tambor do sol batia
nos olhos que a luz e o álcool e a luz
e o álcool diminuíam
e os brancos raiavam o solstício
incandescentes eu
fazia vinte anos tu
tinhas-me dado uma música eu
rodava-a na mão e o sol
girava no gume do metal eu
de vestido curto descrevia
um círculo de desejo nós
estávamos tristes creio nós
tínhamos subido e a crista
das telhas beliscava na pele
petéquias de luz e tu
ao disco do sol dançavas e eu
de olhos cegos espiava fazia calor nós
tínhamos bebido e tínhamos calor eu
já tinha vinte anos nós
éramos o grande amor




8.4.16

For more information please reread





1972 - Campanha do governo local de Scarfolk (UK) para reduzir
a autoestima da população que andava muito satisfeita na vida.
As famílias tinham de frequentar aulas para aprender lições
de subserviência e vergonha. Os adultos recebiam insultos
por cartas ou telefone. A ideia por trás era não alimentar
no povo falsas esperanças de um futuro melhor.
O valor do cidadão era calculado abaixo das
tripas de um boi. 
Não é ficção.






Fernando Assis Pacheco


Louvor do Bairro dos Olivais


Não tive nunca nada a ver com as
guitarras estudantes; eu vivia
num lento bairro da periferia
onde a chuva apagava os passos das
pessoas de regresso a suas casas
fazia compras na mercearia
e algum livro mais forte que então lia
já era para mim como um par d'asas
amigos vinham ver-me que eu servia
de ponche ou Madeira malvasia
para soltar as línguas livremente
um que bramava um outro que dormia
eu abria a janela e só dizia
ao menos estas ruas têm gente


6.4.16

Da dificuldade de ler - Giorgio Agamben




Gostaria de lhes falar não da leitura e dos riscos que ela comporta, mas de um risco ainda maior, ou seja, da dificuldade ou da impossibilidade de ler; gostaria de tentar falar não da leitura, mas da ilegibilidade.
Cada um de vocês deve ter tido a experiência daqueles momentos em que gostaríamos de ler, mas não conseguimos, em que nos obstinamos a folhear as páginas de um livro, mas ele nos cai literalmente das mãos.
Nos tratados sobre a vida dos monges, este era, aliás, o risco por excelência ao qual o monge sucumbia: a acédia, o demônio do meio-dia, a tentação mais terrível que ameaça os homines religiosi se manifesta, antes de mais nada, com a impossibilidade de ler. Eis a descrição que S. Nilo lhe dá:
“Quando o monge acedioso tenta ler, interrompe-se inquieto e, um minuto depois, cai no sono; esfrega o rosto com as mãos, estende os dedos e continua a ler por algumas linhas, balbuciando o fim de cada palavra que lê; e, entretanto, se enche a cabeça com cálculos ociosos, conta o número das páginas que ainda restam a ler e as folhas dos cadernos, e se lhe tornam odiosas as letras e as belas miniaturas que tem diante dos olhos até que, por último, torna a fechar o livro e o usa como um travesseiro para a sua cabeça, caindo em um sono breve e profundo…”.
A saúde da alma coincide aqui com a legibilidade do livro (que é também, para o medievo, o livro do mundo), o pecado com a impossibilidade de ler, com o tornar-se ilegível do mundo.
Simone Weil falava, nesse sentido, de uma leitura do mundo e de uma não leitura, de uma opacidade que resiste a toda interpretação e a toda hermenêutica. Gostaria de lhes sugerir que prestassem atenção aos seus momentos de não leitura e de opacidade, quando o livro do mundo cai das suas mãos, porque a impossibilidade de ler lhes diz respeito tanto quanto a leitura e é, talvez, tanto ou mais instrutiva do que esta.
Há também uma outra e mais radical impossibilidade de ler, que até poucos anos atrás era, antes de tudo, comum. Refiro-me aos analfabetos, esses homens muito apressadamente esquecidos, que, há apenas um século, eram, ao menos na Itália, a maioria. Um grande poeta espanhol do século XX dedicou um livro de poesia seu ao analfabeto para/por quem eu escrevo. É importante compreender o sentido desse “para/por”: não tanto ou não somente “para que o analfabeto me leia”, visto que por definição não poderá fazê-lo, quanto “no seu lugar”, como Primo Levi dizia testemunhar por/para aqueles que no jargão de Auschwitz se chamavam de muçulmanos, isto é, aqueles que não podiam nem poderiam ter testemunhado, porque, pouco depois do seu ingresso no campo, tinham perdido toda consciência e toda sensibilidade.
Gostaria que vocês refletissem sobre o estatuto especial desse livro que, na sua essência, é destinado a olhos que não podem lê-lo e foi escrito com uma mão que, em um certo sentido, não sabe escrever. O poeta ou o escritor que escreve pelo/para o analfabeto tenta escrever o que não pode ser lido, põe no papel o ilegível. Mas precisamente isso torna a sua escrita mais interessante do que a que foi escrita apenas por/para quem sabe ler.
Há, finalmente, um outro caso de não leitura do qual gostaria de falar. Refiro-me aos livros que não encontraram aquela que Benjamin chamava de a hora da sua inteligibilidade, que foram escritos e publicados, mas estão – talvez para sempre – à espera de serem lidos. Eu conheço – e cada um de vocês, eu acredito, poderia citar – livros que mereciam ser lidos e não foram lidos, ou foram lidos por pouquíssimos leitores. Qual é o estatuto desses livros? Eu penso que, se esses livros eram verdadeiramente bons, não se deveria falar de uma espera, mas de uma exigência. Esses livros não esperam, mas exigem ser lidos, mesmo que não o tenham sido ou não o serão jamais. A exigência é um conceito muito interessante, que não se refere à esfera dos fatos, mas a uma esfera superior e mais decisiva, cuja natureza deixo a cada um de vocês precisar.
Mas agora gostaria de dar um conselho aos editores e àqueles que se ocupam de livros: parem de olhar para as infames, sim, infames classificações de livros mais vendidos e – presume-se – mais lidos e tentem construir em vez disso na mente de vocês uma classificação dos livros que exigem ser lidos.
Só uma editora fundada nessa classificação mental poderia fazer o livro sair da crise que – pelo que ouço ser dito e repetido – está atravessando.
Um poeta compendiou uma vez a sua poética com a fórmula: “ler o que jamais foi escrito”. Trata-se, como veem, de uma experiência de algum modo simétrica àquela do poeta que escrevia por/para o analfabeto que não pode lê-lo: à escrita sem leitura, corresponde aqui uma leitura sem escrita. Com a condição de precisar que também os tempos estão invertidos: lá uma escrita que não é seguida por nenhuma leitura, aqui uma leitura que não é precedida por nenhuma escrita.
Mas talvez em ambas essas formulações esteja em questão algo de similar, ou seja, uma experiência da escrita e da leitura que põe em questão a representação que nos fazemos habitualmente dessas duas práticas tão estreitamente ligadas, que se opõem e ao mesmo tempo remetem a algo de ilegível e de inescrevível que as precedeu e não cessa de acompanhá-las.
Vocês terão compreendido que me refiro à oralidade. A nossa literatura nasce em íntima relação com a oralidade. Porque o que faz Dante quando decide escrever na língua vulgar, senão justamente “escrever o que jamais foi lido e ler o que jamais foi escrito”, isto é, aquele “falar materno” analfabeto, que existia somente na dimensão oral? E tentar colocar por escrito o falar materno o obriga não simplesmente a transcrevê-lo, mas, como vocês sabem, a inventar aquela língua da poesia, aquela língua vulgar ilustre, que não existe em nenhuma parte, mas, como a pantera dos bestiários medievais, “espalha em toda parte o seu perfume, mas não reside em lugar algum”.
Eu creio que não se possa compreender corretamente o grande florescimento da poesia italiana no século XX, se não se percebe nela algo como a reconvocação daquela ilegível oralidade que, diz Dante, “uma e única é primeira na mente”. Isto é, se não se entende que ela é acompanhada pelo igualmente extraordinário florescimento da poesia em dialeto.
Talvez a literatura italiana do século XX seja toda ela atravessada por uma memória inconsciente, quase por uma afanosa comemoração do analfabetismo. Quem teve entre as mãos um desses livros, nos quais a página escrita – ou, melhor, transcrita – em dialeto está ao lado da tradução em vernáculo, não pode não se perguntar, enquanto os seus olhos atravessavam inquietos de uma página à outra, se o lugar verdadeiro da poesia não estaria, por acaso, nem em uma página nem na outra, mas no espaço vazio entre ambas.
E gostaria de concluir esta breve reflexão sobre a dificuldade da leitura, perguntando a vocês se o que nós chamamos de poesia não seria, na verdade, algo que incessantemente habita, trabalha e sustém a língua escrita para restituí-la àquele ilegível do qual provém e para o qual se mantém em viagem.

Roma, 2012.



Charles Mingus - Oh Lord Don't Let Them Drop That Atomic Bomb on Me