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11.6.05

Conde de Lautréamont




Para construir mecanicamente o miolo de uma história de adormecer, não basta dissecar asneiras e embrutecer poderosamente em doses repetidas a inteligência do leitor, de maneira a tornar paralíticas as suas faculdades para o resto da vida, pela infalível lei do cansaço; é preciso, além disso, com um bom fluido magnético, pô-lo engenhosamente na impossibilidade sonâmbula de se mexer, forçando-o a escurecer os olhos, contra o que lhe é natural, pela fixidez dos nossos. Quero eu dizer, para não me fazer compreender melhor mas apenas para desenvolver o meu pensamento, que ao mesmo tempo interessa e irrita por uma harmonia das mais penetrantes, que não acredito que seja necessário, para atingir o fim que nos propomos, inventar uma poesia inteiramente fora do caminho habitual da natureza, e cujo sopro nocivo pareça transtornar até as verdades absolutas; mas conseguir tal resultado (aliás conforme às regras da estética, se pensarmos bem) não é tão fácil como se pensa: era o que eu queria dizer. É por isso que envidarei todos os meus esforços para o conseguir! Se a morte detiver a magreza fantástica dos dois braços compridos dos meus ombros, utilizados no lúgubre esfarelamento do meu gesso literário, quero pelo menos que o leitor de luto possa dizer consigo mesmo: "Há que lhe fazer justiça. Cretinizou-me muito. Que não teria ele feito se tivesse podido viver mais! É o melhor professor de hipnotismo que conheço!"



Conde de Lautréamont, em Cantos de Maldoror, 1869.



21.1.03

É tempo de apertar os freios à minha inspiração e de deter na estrada por um instante, como quando se contempla a vagina de uma mulher; é bom examinar o caminho percorrido e lançar seguidamente num salto impetuoso os membros repousados. Não é fácil fazer uma caminhada de um só fôlego; e as asas cansam-se muito num vôo alto, sem esperança e sem remorso. Não... não levemos mais ao fundo a feroz matilha das picaretas e escavações através das minas explosivas deste canto ímpio! O crocodilo não mudará uma palavra ao vômito que lhe saiu de debaixo do crânio. Tanto pior se alguma sombra furtiva, levada pelo objetivo louvável de vingar a humanidade por mim injustamente atacada, abrir sub-repticiamente a porta do meu quarto, roçando a parede como a asa de um albatroz, e cravar um punhal nas costas do salteador dos destroços celestes! É indiferente que a argila dissolva os seus átomos dessa ou de outra maneira.

-- Conde de Lautréamont, em "Cantos de Maldoror".