27.12.11




Eu quero o pano de chão que estava aqui. Onde está o pano de chão que deixei aqui? Eu comprei dois e um estava bem aqui. É este um que eu quero. Você não precisa refletir muito para compreender que eu quero o pano de chão que deixei aqui. Se deixei aqui, ele devia estar aqui. Constantemente presente. Com sua razão de ser. Eu não quero o pano. Eu não quero o chão. Quero o pano de chão. Uma síntese indissolúvel. Não são palavras criadas por mim. São um objeto. Que está faltando. Isso significa uma espera. Eu espero o pano de chão que estava aqui num outro momento e neste exato não está mais. E quanto mais espero mais a minha mão pesa na caneta. A ausência é sentida e pesada. O mundo dos meus objetos não é mais o mesmo. Falta um ponto no mapa. Ou um traço. Falta um lago, uma ruazinha, uma cidade. E se falta, há um buraco. Alguém pode cair nele. Eu poderia dar pela falta de uma árvore, um poste. Um cacho de uva. Uma emoção antiga dita de uma maneira nova. Mas é do pano de chão o rosto na gravura. No primeiro momento de descuido esse rosto disfarçará a voz e não parecerá mais o que é. Isso é o mais longe que ele poderá ir. Quanto mais dou por sua falta, mais jogo o resto que me cerca fora. E por jogar o resto fora, ele se agiganta. Calcule por hectare. E ele só começou com uma frase. Eu quero o pano de chão que estava aqui foi onde tudo começou e agora não consigo alcançá-lo. A distância só faz aumentar, o que é um perigo. Se é um perigo, posso querer negar. Não, o pano de chão não estava aqui. Você tem certeza de que estava aqui? Tem certeza de que você tinha um pano de chão? Quem se importa com o teu pano de chão? De que serve? Mas eu não preciso me explicar com uma palavra, muito menos com três. Muito menos negar. Negar é fugir. Agora eu posso entender o que é uma emoção. Eu quero verdadeiramente o pano de chão que estava aqui. Arrumo minhas urgências na ordem que eu quero. Dentro do sol quente da manhã.


MP

23.12.11

Vinho de cocaína

Photobucket



Provei uma única gota do seu vinho mágico 

E tornei-me uma fantástica princesa inca 

A recitar os versos litúrgicos 

Coca yhamuspa sachamanta 

Cutichin hinti guagtaste 

Yathun socoyock hui 

Napipa huinnaimincama 



 Judith Gautier, laudando o Vin Mariani, o primeiro vinho
de coca produzido e muito popular nos anos 1860.

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9.12.11



Double Stops

Inácia é braçuda. Abre mensagens uma atrás da outra,
o cigarro aceso estrangulado entre os dedos, sujeitos que falam.
Apoiando o celular no ombro, aquele bração é um sofá extradiscursivo.
Como era seu costume, Carlota 
pensa nos sistemas de exclusão do século 19 em sábados chuvosos.
As duas estão muito actantes hoje mas não se mexem para me ajudar.
Sigo direto para o meu quarto e faço as malas. Elas ficam sozinhas na sala, palatalizando.
A casa é espaçosa para quem gosta e diz que não gosta.
A biblioteca é cheia para quem não lê e diz que lê.
Inácia e Carlota gostam de poetas parnasianos contemporâneos e me viram a cara
quando chamo seus fluxos de consciência de torrentes de cabriolés.
Eu não me importo, nunca espero elogios de quem me entende.
Etiqueta para ignorantes é distribuir elogios.
O mais difícil é sair de dentro de si sem precisar de focinheira.
Eu gostaria de ver o que elas guardam no sótão para ter em que pensar no trem.
Logo que cheguei me alojaram nos fundos, um aposento úmido com luz de lampião.
Conversávamos no escuro e ao dormir eu sempre caía no sonho errado.
Tive de trabalhar muito com minhas fantasias.
Na cozinha cheirando a refeitório de colégio interno,
o braço enorme me oferece um chá com Mussolini antes de eu partir.
Uma indireta.
Não falam em almoço ou saudades transitivas.
Repasso meu itinerário encaixando algumas mentiras
enquanto bebo na xícara feita por Inácia,
segundo ela uma nova concepção de objeto ocidental.
Carlota inveja minha errância, meu negligée, meus braços fininhos,
mas ao me beijar abrindo a porta da rua, elogia a singularidade de minha “paginação”.
Sensação de ardência no estômago.
Na cabine, percebo que esqueci no criado-mudo do quarto de hóspedes
minha Plongée velha onde fiz anotações para o futuro.
Também não lembro de uma palavra que disse.
Revejo na máquina as centenas de fotos que tirei do Zoo de la Barben.
Inácia e Carlota só aparecem juntas duas vezes na frente de uma jaula.
Não dá para saber de que animal.
À noite me encontrarei com Alice no Baad Bukra.
Se ela não tingiu os cabelos de vermelho e estiver de bom humor,
talvez saiba reconhecer a jaula.
Depois de tanto tempo fora, todas se parecem umas com as outras.


MP

5.12.11

Marlon Brando, carta de amor a uma aeromoça, 1966





- Oh, what a mess! (purr).





Dear Lady -

There is something not quite definable in your face - something lovely, not pretty in a conventionally thought of way. You have something graceful and tender and feminine (sp). You seem to be a woman who has been loved in her childhood, or else, somehow by the mystery of genetic phenomena you have been visited by the gifts of refinement, dignity and poise. Perhaps you cannot be accredited with all that.

Irrespective of your gothic aspects, you have passed something on in terms of your expression, mien and general comportment that is unusual and rewarding.

It's been a pleasant if brief encounter and I wish you well and I hope we shall have occasion to cross eyes again sometime.

Best wishes

Marlon Brando

Savoy


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26.11.11

Lyrische Novelle





Carson McCullers gostava de

Annemarie Schwarzenbach



que gostava de

Erika Mann



que gostava de

Therese Giehse



que gostava de Annemarie que também gostou de

Marianne Breslauer




e Ella Maillart




enquanto fugia de Carson McCullers
que viveu o resto da vida assombrada
pelos reflexos do olhar dourado e o rosto de
Annemarie que nunca parou de gostar de
Erika Mann e de fugir da mãe Renée
que gostava de Emmy Krüger
e do cachorrinho.




(Anos 1930: a vida turbulenta de escritoras, fotógrafas, atrizes,
uma cantora de ópera e uma mãe nazista neta de Bismarck.)

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25.11.11

Maira Parula

Os 300 francos que você me emprestou em 1976


1.

Flâneur da dialética ao drama barroco, o amigo de André Gide escreveu B-r-e-c-h-t com conhecimento das coisas comunistas. Saiu do túnel pela mão única, Lukács. O trabalho de recolher as passagens era transformar a União Soviética no retrato bem-passado de Walter Benjamin. As alegorias só aparecem visíveis na apresentação. Meu primeiro próprio era pura questão de reflexão. Um modo de pintar o momento como montagem. Contar a história em hieróglifos, fetiches da exceção. Já Baudelaire era uma beleza. Original, passado e trágico no banquinho ensebado da Escola de Frankfurt. Proust foi publicado por uma razão que se desconhece. Uma tradução que dá muito trabalho. Como restaurar a velhice na adolescência. Um homem nunca se consola dos prazeres que perde. Da emoção da época, da expressão nas caras de Victor Hugo. Dos títulos que poderia dar a todos os poemas sem título. Coisas com conhecimento de causa, cartas de amor em francês íntimo. A morte que chega no mundo a qualquer hora achando que é noite -- a universidade sem versos. Escreveu, escrito está. Esqueceu, esquecido está. Tanto faz homônimos ou heterônimos. Se a tia é portuguesa ou os lençóis estão amarfanhados. Camilinho sempre chamará a ciência de coisa. Esteta é o Alberto. Que não é amigo de André Gide, o flâneur da dialética à dama barroca. Desde o cubismo Deus ficou assim meio torto, saído do quinto dos impérios. Ponho o café no fogo e me conformo. A arte rivaliza muito com a análise. Atchiiiim.


2.
Amora admitiu pela primeira vez não entender nada de Aristóteles quando lia na praia. Eu respondi que a arte dos livros pensadores e dos comedores de Dublin era um problema preceptístico que eu ainda tinha de resolver. Amora assentiu com o sorvete e Tartu chegou nesse exato minuto perguntando a que horas saía o nosso ônibus para Martin Heidegger. Amora entendeu menos ainda. Piscou para mim porque desconhecia as modalidades de Tartu embora eu já estivesse acostumado. Sozinho ninguém sabia mesmo. Quando se espalhava a notícia de que ele estava chegando na escola, as aulas terminavam e os professores se escondiam no banheiro. Amora ficou metrificada quando lhe contei. Jakooobson, ela sussurrou no meu ouvido sem Tartu perceber. Mas ele percebeu o sorvete pingando. Virei-me para ele e disse que havíamos desistido da viagem há tempos, só ele não sabia. Ele esmagou um besouro com o pé e senti uma espetada na boca. Vou pedir uma travessa de costeletas de porco bem grossas, ele não se fez de rogado. Sua voz era baixa, estilística. Um memorialista supostamente não deve esquecer de nada. Amora fazia um estudo sistemático de sua barriga. Estou gorda? É impossível que aquilo que não é seja menos ainda, disse Tartu, filosófico. Arrume as malas e vá pro diabo, seus olhos cinzentos me diziam. Ele estava precisando é de raízes nutritivas e hipnóticas que suprimissem aquela fome e sede de saber, pensei comigo mesmo. Amora lambia o vazio. Temperamento não se partilha. Tartu assobiou um scherzo. Não era novidade. A brisa trouxe um cheiro de chumbo. Quanto precisarei morrer para alguém me entender?, ele soltou a pergunta no ar como um balão. Nem nos preocupamos em alfinetar. Sem recepção e efeito, ele acabou indo embora sem as costeletas. Melhor assim. Molière mostra o mundo mas sempre tem um espírito de porco que acha que é Munique.



23.11.11

Venha morrer na minha casa




Eu só tinha um título. E a vítima. Precisava da história que inventaria para atraí-la ao meu destino. Era uma noite seca e eu ouvia atentamente o silêncio embrulhando as folhas que caíam na calçada: se estiver escuro à tua frente, nunca fica de costas para ele. Eu encarava a janela fechada fingindo esperar alguém. Do outro lado da vidraça o céu negro fingindo esperar tudo que espero de uma pessoa. Ao meu lado, a cadeira e a corda. Aqui me darás a mão. Aluguei o apartamento há dois meses, parece que moro ali há centenas. O inquilino perfeito. Sem ninguém além das paredes brancas. Quase como gelo escapado ao mar. O prédio antigo e comercial é um cubo cinza. O próximo à direita. Subo pela escada, na curva trêmula das lixeiras. Em algum andar eu preciso que acabe. Não mandei ligar a luz. Quando entro, acendo a lanterna. Minhas pupilas se dilatam em três segundos. Esqueço a mão nos cabelos. Ninguém me pagou para fazer isso. Não há contrato nem veneno de rato no armário da cozinha. Se trago um café da rua, bebo depressa. A investigação será fácil. O espaço exato das folhas dos jornais. Sem sangue nas luvas para contar-lhes o resto. Só profissionais planejam mínimos detalhes. É a minha primeira vez. O ódio tem mais tempo. Lágrimas formando espuma. Custo a dormir. Ouço risadas na água, não sei a mando de quem. O ruído dos meus lábios debaixo de mim. Fico me perguntando como uma morte a mais no mundo ajudará na formação do meu caráter. Metade do meu cérebro teme por mim. Metade ninguém metade daqui a pouco. Trago anotado o número do telefone no espelho embaçado do banheiro. Certas pessoas não deviam confiar nos amigos. São os primeiros a juntar-nos ao sal para que não fiquemos insípidos. Não me surpreenderia se cortassem metade da cena e a virassem na pia. Há uma outra. A casa sempre aberta, a mesa sempre farta. O conforto de olhos recostados, guarda-chuvas transpirando, ferramentas úteis ao trabalho, à família. O conforto do entulho. Não precisar me mexer para sair do lugar. Esta é a minha parte. Apegar-me a coisas que teria coragem de perder. A mesma noite de volta outra vez dizendo venha jantar comigo. Se ela soubesse que era mentira, não atenderia. Não dobraria o corredor. Sairia correndo da areia sem deixar nenhum rastro. Mas já era um percevejo no alfinete ao cruzar minha porta num clarão de fósforo. O que queria de mim não conseguiu. Não valia muita coisa, mas era meu. Assim seja.

MP, 2011.

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15.11.11

Fliporto 2011



À esquerda, Eliane Garcia, videomaker do meu poeminha,
recebendo o prêmio que abiscoitamos na Fliporto 2011,
em Olinda. Valeu!


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8.11.11




Uma historinha para quem não gosta de spoilers:



O medo de


Irene era casada. Tinha um amante, um apartamento para encontros e dois filhos. O marido, juiz. Da alta sociedade vienense. Até que um dia uma mulher desconhecida descobre o adultério de Irene e passa a chantageá-la. Irene enlouquece e. A desconhecida a assedia sempre que Irene está na. O marido então. Irene tremia sempre que. Os filhos começam a. Um dia o amante resolve. Os criados sabem quando. A sensação de náusea foi ficando cada vez mais. Irene precisava fazer com que. Subiu as escadas com. O marido nem. Se o motorista fosse um pouco menos. A primeira medida foi. Entrou no escritório e. Quando se lembrou da. Imediatamente recusou-se a. Postou-se atrás das grades onde. Acabou que de repente. Ainda doía um. Abriu os olhos e. Muitas vezes.



MP, 14:43.

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4.11.11

e. e. cummings




"next to of course god america i
love you land of the pilgrims' and so forth oh
say can you see by the dawn's early my
country 'tis of centuries come and go
and are no more what of it we should worry
in every language even deafanddumb
thy sons acclaim your glorious name by gorry
by jingo by gee by gosh by gum
why talk of beauty what could be more beaut-
iful than these heroic happy dead
who rushed like lions to the roaring slaughter
they did not stop to think they died instead
then shall the voice of liberty be mute?"

He spoke. And drank rapidly a glass of water


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2.11.11

I do not write rhymes for dad



I do not write rhymes for dad

Ok, aí está. Nosso vídeo conquistou o segundo
lugar no V Prêmio Internacional Poesia ao
Vídeo da VII Festa Literária Internacional
de Pernambuco - a Fliporto.

Meus agradecimentos aos inúmeros
amigos que acreditaram e
participaram da empreitada.
E vamos em frente.

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20.10.11

A Líbia e o que não se vê na TV



Falo quase todos os dias (pelo Skype) com a Lybia. Amigos em Tripoli, Sirte, Bani Walid, Sebha, Misrata.. também muitos refugiados em Túnis, no país vizinho. Gente que conhecia há alguns anos, mas a maioria conhecia há pouco tempo, quando os conflitos começaram. Uma rede que se formou, de solidariedade e respeito mútuos, entre líbios e pessoas comuns (muitos jornalistas, como eu) que verdadeiramente queriam saber notícias sobre o que acontecia na Libya e que iam encontrando pessoas, parentes, amigos, alguém que conhecia alguém.


O motivo? Não há até o momento notícias confiáveis nas grandes redes, a maioria de nós não confia nelas. Nós por força do óbvio, os líbios, por pura indignação (com as mentiras constantes). É fácil entender. Não é possível para qualquer rede de televisão em países que estão bombardeando a Libya, fazer uma cobertura minimamente imparcial. Dentre os outros, a maioria esmagadora, inclusive o Brasil, em função do custo de manter um correspondente ininterrupto, apenas repetem o que dizem as mesmas agências de notícias dos países envolvidos com a ação militar da Organização do Tratado do Atlântico Norte - OTAN.


Há ainda uma grande rede de notícias no mundo árabe, Al Jazeera, que até esse momento, vinha sendo o fiel da balança, o grande "intérprete" do mundo árabe (e em alguns casos, do contexto islâmico) para o mundo ocidental. Até que o país "alvo" fosse um inimigo do príncipe do Qatar, dono da rede Al Jazeera e... membro da OTAN! Restam apenas duas com coberturas feitas in loco: a RT da Rússia e a TeleSur, latino americana. As duas, dando um show de cobertura desde o início dos conflitos na Libya, mas silenciadas por seus tamanhos diminutos, em relação à outras redes, ou mesmo pela acusação de "cúmplices" de Gaddafi (ou seja, não está do lado de Obama, Sarkozy ou Cameron, está contra). Nessa guerra midiática onde a maioria serve a interesses políticos e econômicos, um pouco de inglês e o acesso à internet, permitem a comunicação direta com as fontes, sem intermediários.


Um desses amigos é esse na foto acima. Mohanned Magam, em foto tirada na cobertura do hotel que sediava a imprensa, em Tripoli, com a praça em frente tomada pelo povo e suas bandeiras verdes. Um estudante de ciência política da Universidade de Tripoli, que pegou em armas para defender sua cidade e morreu, não vítima de um combate direto com os ditos "rebeldes", mas por via aérea, atingido por um míssel da OTAN, que matou também vários amigos que estavam próximos a ele.


Depois de passar meses conversando com esse garoto, de 23 anos, um líder estudantil, empolgado com a esperança, aliás, com a certeza na vitória de seu país, contra o que ele chamou de "conspiração", ou uma "tentativa de manchar a imagem" da vida que tinham por lá, foi inevitável uma crise de lágrimas quando soube de sua morte. Meu irmão mais novo tem a idade dele e sua única preocupação é tocar bateria em sua banda de rock.


Demorei a acreditar que era verdade. Tive que perguntar, no Facebook, a vários de seus amigos e obter uma confirmação de um que conversou com sua mãe, por telefone, semanas depois. Ainda assim, olho para essa foto e penso em como estamos vivendo em um mundo estúpido...


É inacreditável que homens como Obama ou Sarkozy durmam tranquilos em seus travesseiros com tantas mortes sob sua responsabilidade. É inacreditável que o planeta inteiro ainda aceite os mesmos argumentos usados na guerra do Iraque e assista pela TV, impassível, ao genocídio que acontece na Libya há meses. Bush configurou-se em Obama, personagens diferentes, para países diferentes, mas uma mesma história de morte e apropriação de recursos que alimentam sistemas financeiros falidos e retroalimentam a indústria bélica - eterna salvadora do modelo capitalista - agora com a nossa audiência globalizada, em horário nobre. Há muitos níveis de omissão e conivência com o que acontece agora na Libya. Mas como sempre, precisamos que ataquem nosso quintal para sermos capazes de nos importar.


E lendo o que escrevi acima, vejo o quanto é difícil usar uma linguagem "jornalística" ou "racional" para descrever tudo isso. Mas aceitei esse desafio de um amigo do exílio, de tentar pelo menos blogar os relatos que recebo, talvez como forma de acompanharmos mais de "perto" as transformações, agora inevitáveis, a que o povo líbio está submetido, e que definitivamente NÃO estamos assistindo pela TV. Aliás, parte da minha indignação, de cidadãos líbios e de profissionais de imprensa independentes, tem sido a observação da atitude submissa e conivente de colegas que em nome da preservação de seus empregos, incorporaram o discurso geral. Mas isso caberia em um livro, talvez. Um case e tanto.


Por outro lado, percebo o quanto é surreal que a informação neste mundo globalizado nos permita vermos um filme em nosso sofá, sabendo que alguém do outro lado, passa a noite em claro em meio a bombas de verdade. E, sim, eu sei que Gaza já vive isso há décadas, hostilizada quase que diariamente por soldados das forças especiais israelenses. Mas a Libya não vivia uma guerra, não vivia uma ameaça mínima que fosse, o povo sequer contava com uma, viviam no país reconhecido pela ONU em 2007 como o maior IDH de seu continente e como "um dos maiores combatentes do terrorismo", um lugar sem impostos, aluguéis, com TODO o aparelho de Estado público e gratuito, com água abundante no meio do deserto do Sahara, de maioria islâmica (sem embates religiosos, como acontece em outros países) e bem, creio que já é possível perceber que essa história de "povo querendo ser salvo de um ditador sanguinário" já demonstrou ser uma das maiores furadas da história contemporânea. Um engodo, que grande parte do mundo comprou e que resultou em um país arrasado e agora alvo de uma disputa de butim. Jihadistas, membros da Al Qaeda (irônicamente alçados à "parceiros" dos países da coalizão), mercenários, líbios opositores, tropas britânicas e do Qatar e, claro, Sarkozy e Obama que já sabem qual será sua cota na partilha.


Hoje falei com a viúva inconsolável de um dos amigos mortos na Libya. Um bem humorado professor universitário, orientador de mestrados na área de pesquisas em biologia - que há poucos meses me dizia pelo skype que tentava ajudar seu governo a combater uma ainda improvável invasão estrangeira, enquanto preparava provas para seus alunos, imaginando como a maioria dos líbios, que tudo não passaria de tensas negociações diplomáticas. Médico veterinário e biólogo, passou cerca de oito anos se especializando no Brasil, na USP e na UnB, entre os anos 80 e 90. Amava o Brasil e aqui fez amigos, como eu e muitos outros. Eu sequer sabia o que dizer para ela, me limitei a ouvir seu desabafo.


De Tripoli, ela informou que nada voltou ao normal. Pelo contrário, o caos está por todos os lados. Não há previsão de retorno às aulas, não há comida, remédios, sobra medo..


O "novo governo" que se anuncia pelos meios de comunicação num embate midiático constante com membros do governo Gaddafi (e o próprio) - que também não deixam de ocupar espaços na mídia local e do mundo árabe - mantém controle de alguns bairros com neuróticos sentinelas que atiram em tudo que vêem auxiliados por bombardeios constantes da OTAN e que "abrem" caminho para as milícias, numa ação coordenada inédita na história humana. Há também muita tensão com corajosos soldados do exército líbio que teimam em seguir na resistência mesmo sem as ordens de seus comandantes.


Minha amiga sequer sai de casa há meses. Sem o marido, tenta proteger os dois filhos, ainda menores de 14 anos. Não há esperança, apenas apreensão. Quando ele ainda estava vivo, depois de iniciada a invasão estrangeira de fato, sua família se limitou a permanecer por semanas totalmente incomunicável, em silêncio, em seu apartamento, esperando que não fossem atingidos pela artilharia antiaérea dos "rebeldes" que miravam aleatoriamente nos prédios residenciais de Trípoli.


Depois de sua morte e de passar alguns dias tentando sepultar o companheiro, numa capital mergulhada em guerra civil, só lhe restou manter-se no apartamento escondida com seus filhos e apenas esperar que novos ventos tragam a tranquilidade necessária para realizar as cerimônias islâmicas de despedida do seu ente querido ou simplesmente, tocar a vida em frente.


Soldados do CNT (o autoproclamado "Conselho Nacional de Transição") que rondam Tripoli, em sua maioria, não são libios mas mercenários contratados pela OTAN, Qatarianos e soldados das forças especiais britânicas. Existe uma dificuldade na comunicação, piorada com a tensão constante. Grande parte dos milicianos, segundo ela, apesar de falarem árabe, não são nativos (como se fossem os portugueses de Portugal, para nós) por isso muitas discussões acabam em morte. É uma fórmula trágica fácil de imaginar. Eles mantém guarda nas ruas, para evitar que algum cidadão se "indisponha" com o "novo" regime que estão implantando. Qualquer resistência termina em bate-boca e agressões que chegam à morte com facilidade num país em guerra e sem qualquer policiamento ou estrutura de segurança em funcionamento.


Ela relatou ainda que milicianos do CNT tentam identificar ex-funcionários do governo anterior para interrogatórios e execuções sumárias. Tudo isso, com o silêncio das "Nações Unidas". Aliás, com a garantia de assento no Conselho de Segurança da ONU para os assassinos!


Nesse momento a maioria da população deseja apenas que a guerra acabe logo, seja com quem for. Não aguentam mais a pressão. Querem suas vidas de volta. Ao mesmo tempo, parte da população silenciada durante o dia, impedida de hastear suas bandeiras, forma redes de denúncia na internet (a maioria em língua árabe) e grupos de resistência noturna para sabotar as milícias do CNT.


Que povo é esse que resiste há meses à tão "esperada salvação"? É impressionante o discurso construído para legitimar o genocídio das forças estrangeiras sobre a Libya! O único resultado visível da "ação humanitária" da OTAN nesse país africano, são corpos espalhados pelas ruas, hospitais em colapso e um medo incessante. Uma GUERRA incessante... como podemos acreditar numa "liberdade" há tanto tempo sonhada com as imagens espalhadas na internet de violência, desespero, tragédia, diariamente?


Há alguns anos acompanhava a guerra no Líbano pela TV, com um amigo libanês que falava da sua impotência em ver tudo de longe sem poder fazer nada. Agora entendo o que é isso.


Uma única decisão mudaria o curso dessa história: cessar o investimento na morte. Somália, Etiópia, Haiti, poderiam ser alimentados por anos com o que estão investindo para destruir a Libya! Mas esse, aqui no mundo real, não é o objetivo dos senhores da guerra.


Quando estive na Tunísia, fronteira com a Libya, falei pela última vez com Mohanned pelo skype, avisando que pretendíamos chegar logo à Tripoli e que poderíamos conversar pessoalmente. A OTAN tinha iniciado o bombardeio dos postos de fronteira, o início ao cerco, mas nós não tínhamos ainda a dimensão do que estava por vir. Quando comentei que era chato aquele "atraso" ele me respondeu com um smile ao final, "don´t worry, you will pass the border soon". Tenho certeza agora de que nós atravessamos, cada um à sua maneira, essa fronteira.



- Texto de Juliana Medeiros em seu blog Substantivo Comum, 11-10-2011.

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18.10.11

Poesia ao Vídeo Fliporto


É com este vídeo de Eliane Garcia sobre um poema meu
que estamos concorrendo ao V Prêmio Internacional de
Poesia ao Vídeo da Festa Literária de Pernambuco, a
Fliporto, a ser realizada de 11 a 15 de novembro de 2011.
Agradeço ao pessoal da Plumagenz Criação Cultural & Design,
responsável pela ideia. A votação online dos 10 finalistas
será pelo site da Fliporto, onde você poderá ver os 45
vídeos pré-selecionados.



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11.10.11




Mancha de uma colher entortada por um paranormal.

prata oxidada em lenço de algodão.

Cornelia Parker, 1999.


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8.10.11



There'll be bluebirds over
The white cliffs of Dover
Tomorrow
Just you wait and see

I'll never forget the people I met
Braving those angry skies
I remember well as the shadows fell
The light of hope in their eyes

And though I'm far away
I still can hear them say
Bombs up...
But when the dawn comes up

There'll be bluebirds over
The white cliffs of Dover
Tomorrow
Just you wait and see

There'll be love and laughter
And peace ever after
Tomorrow
When the world is free

The shepherd will tend his sheep
The valley will bloom again
And Jimmy will go to sleep
In his own little room again

There'll be bluebirds over
The white cliffs of Dover
Tomorrow
Just you wait and see


29.9.11

Wilfred Owen



Dulce et decorum est


Recurvados, como velhos mendigos sob sacos,
Cambaios, tossindo feito bruxas enrugadas, praguejamos no lodaçal,
Até que, à luz melancólica dos sinalizadores, viramos as costas
E começamos a longa caminhada rumo ao repouso distante.
Homens marchavam dormindo. Muitos haviam perdido as botas
Mas, sangrando, prosseguiam. Todos mancando; todos cegos;
Bêbados de cansaço; surdos mesmo ao som
Dos obuses sonolentos que caíam atrás de nós.

Gás! Gás! Rápido, rapazes! – O êxtase de procurar e
De ajeitar, bem a tempo, as máscaras malfeitas;
Mas alguém ainda gritava e tropeçava
Debatendo-se como um homem em chamas ou coberto de cal viva...
Opaco, através das lentes embaçadas e da espessa luz verde,
Como sob um verde mar, eu o vi se afogar.

Em todos os meus sonhos, diante de meus olhos inúteis,
Ele se lança sobre mim, sufocando, engasgando, afogando.

Se em algum sonho sufocante você também pudesse passar
Atrás do vagão onde o atiramos,
E ver os olhos brancos contorcendo-se em seu rosto,
Naquele rosto sem vida, qual um demônio cansado de pecar;
Se você pudesse ouvir, a cada solavanco, o sangue
Brotar gargarejando dos pulmões cheios de espuma,
Obsceno como o câncer, amargo como o vômito
De feridas vis e incuráveis em línguas inocentes,
Meu amigo, você não diria com tanto brio
Às crianças ansiosas por uma glória desesperada
A velha Mentira: Dulce et decorum est
Pro patria mori.

Wilfred Owen, 1917.-

27.9.11

Da urina faça-se luz




Protocolo do experimento:


Pegue uma Quantidade de Urina (para o Experimento, não menos do que 50 ou 60 Baldes cheios); deixe-a descansar em uma ou mais banheiras, ou em um Barril de Madeira de carvalho, até que ela apodreça e produza vermes, o que ocorrerá em 14 ou 15 dias. Depois, numa chaleira grande, coloque um pouco da urina para ferver em fogo alto e verta mais à medida que ela se consome e evapora e assim até que, ao final, toda a Quantidade seja reduzida a uma Pasta, ou um Carvão duro, ou uma Crosta, que é o que vai parecer; e isto pode ser feito em dois ou três Dias, se o Fogo for bem mantido, caso contrário pode levar Quinze dias ou mais. Então pegue a mencionada Pasta, ou Carvão; moa-o até virar pó e acrescente Água, até uns 15 Dedos de altura, ou quatro Vezes mais do que a quantidade de Pó; e ferva-os juntos por ¼ de Hora. Em seguida coe o Líquido num pano de lã; a sobra pode ser descartada, e o Licor coado deve ser fervido até formar um Sal, o que levará algumas Horas.

Após isso acrescente um pouco de Caput Mortuum (ou "cabeça da morte", encontrada em qualquer boticário) ao sal e adicione álcool à mistura resultante para que se transforme numa espécie de Papa.

Em seguida evapore tudo em Areia morna e restará um Sal vermelho ou avermelhado. Pegue este Sal, coloque-o numa retorta e, na primeira hora, comece com um Fogo brando; aumente-o na segunda, mais forte na 3ª e mais ainda na 4ª; depois prossiga, com o fogo mais alto que puder, por 24 Horas. Às vezes, pela Força do Fogo, 12 Horas são suficientes; porque quando vir o Recipiente branco brilhando com o Fogo e não houver mais Lampejos, ou como se fossem Rajadas de Vento que de vez em quando saíssem da retorta, o trabalho estará terminado. E pode-se, com Plumas, juntar o Fogo, ou raspá-lo com uma Faca, quando ele grudar.

O Fogo fica mais bem preservado num Recipiente de Chumbo, lacrado para não entrar Ar. Mas para vê-lo, também pode ser colocado num Vidro, em Água, onde ele brilhará no escuro...



Robert Hooke, membro da Royal Society, em anotações raras publicadas em 1726. Os alquimistas pesquisavam a pedra filosofal e acabaram descobrindo o phosphorus mirabilis, o maravilhoso portador da luz. Em William Derham, Philosophical Experiments and Observations of the Late Eminent Dr Robert Hooke FRS...and Other Eminent Virtuoso's of his Time, Londres, 1726.


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16.9.11




-- Todo mundo se pergunta o que Ted Hughes vai fazer quando esgotar os animais.

-- Poetas não esgotam seus temas como acontece com os romancistas. Eles não dependem tanto do conteúdo.



(Julian Barnes, "Sense of An Ending". Na foto Hughes, talvez compondo "View of a Pig"?)

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13.9.11






um bom lugar para se trabalhar


todo mundo tem seu assassino no quarto dos fundos,
diz Tia Thally recheando um cream cracker
com miolos do Petiso Orejudo da esquerda
para a direita na mecânica das cartas líricas

pêssegos & penumbras
nosso apartamento sofre a influência
de todos os apartamentos em volta
naqueles poucos segundos de costas


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9.9.11

Colecionando caras nas redes sociais.
Colecionando moedas sérvias.
Colecionando amigos mortos caixinhas de fósforo.
Colecionando poemas na gaveta do meio.
Colecionando CDs DVDs poeira.
Colecionando bolas de tênis com e sem pelo.
Colecionando eu-te-amo-mas-não-vai-dar.
Colecionando livros, ah sim os livros.
Colecionando celulares velhos.
Pilhas baterias e fichinhas de ônibus.
Colecionando plantas pimentas o antúrio da mãe morta.
Colecionando agendas de amigos que não telefonam.
Colecionando bibliotecas no Facebook.
Colecionando velas e lanternas, cantos escuros e Lúcio Cardoso.
Colecionando fotos amarelas praias distantes sorrisos posados.
Colecionando cigarros fumados copos bebidos camisetas puídas.
Colecionando palavras gentis em e-mails e mensagens eletrônicas.
Colecionando mentiras.

Colecionando sem comentários.
Colecionando aparelhos de TV relógios termômetros cartões-postais.
Colecionando sacolas beijos promessas juras internas cheiros.
Colecionando lençóis coloridos sobretudo brancos e fronhas.
Colecionando pesadelos ansiolíticos vitaminas cabelos brancos.
Colecionando gibis revistas literárias dicionários de fobias e filosofia.
Colecionando isqueiros.
Pedras e pedrinhas. Gozo dolorido.
O ódio alheio invejas aquele latifúndio.
Colecionando óculos lentes binóculos passarinhos à distância.
Colecionando cachorros gatos gambás coelhos galos e galinhas.
Noites sem dormir. Estações de rádio nos rádios.
Colecionando pensamentos positivos e epitáfios.
Colecionando canetas réguas borrachas papel cadernos vazios.
Rabiscos alfaces tomates dias de chuva.
O fogo aceso lenha queimando.
Colecionando braçadas na piscina.
Os minutos sem respirar.
Colecionando você indo embora e voltando.
Calendários ímãs bicicletas de duendes.
Colecionando acima de tudo facas.
Exames de sangue urina fezes.
Colecionando a sua paciência numa raquete.
Colecionando chocolates, claro, chocolates.
Talões de cheque. Qual o seu preço?
Colecionando pegadas na areia quente.
Vertigens dor de estômago pomadas sombras azuis.
Gente atrás da porta. Já-te-esqueci. Pneu furado. Vidro, muito vidro.
Colecionando milhagens e um adesivo na traseira:
Life is Good.


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5.9.11

A prateleira de cima


Ninguém sabia melhor do que ela
que ele não devia fumar.
E pegou o revólver.

A calma do jeito que resolveu ter.
Com duas mudas de fronhas.


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3.9.11

Arear as panelas de alumínio.
Arear bem as panelas de alumínio.
E descansar na pedra quente do sol.

Descansar bem.


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18.5.11

A poesia em pânico*


ágios agua dos mares alimenta alma amar comigo amei amiga angustia anjos aponto atridas atriz bela Berenice braços branca cabeleira cabeleira de Berenice cançado candelabros cerebro céu e a terra circula comunidade consciencia constelações coração corpo creação Cristina demonio desdobrando Deus A Materia diante Doce mistério doce o pensamento duplo e o desespero Eros Cristus esfinge espera espirito esposo estandartes estrela Venus eternidade existe faço esmola fascina febre filhos fisico força do amor fórma germina gosto gramofone grito homem homens inferno instante irmãos Kyrie levem-me mãi maquilhagem morrer mulher mulher-cometa mundo musica nascer naturesa novos amores olfato olhar olhos ouvidos palavra de consolo pecado pedra pensamento da morte poema poesia poetas preciso principio propria prostituta quero te abraçar quisera Regina responsavel rublo sangue Satan sentidos sete pecados sinão sinfonia sofro tambem tenho pena ternura terrivel transhumana tunica URSS vejo vestidos violoncelos Vitoria vivo volupia vós tres



C
* como o google.books resume o livro de Murilo Mendes.




Para onde vão os trens meu pai?
Para Mahal, Tamí, para Camirí, espaços
no mapa, e depois o pai ria: também
pra lugar algum meu filho, tu podes
ir e ainda que se mova o trem
tu não te moves de ti.


Hilda Hilst
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8.5.11

HQ

Photobucket


Monte Hale, "No território dos índios", história originariamente publicada
em janeiro de 1967 e republicada em junho de 1987 pela EBAL.
(Foto de arquivo pessoal.)


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6.5.11




Moving from left to left, the light
is heavy on the Dome, and coarse.
One small lunette turns it aside
and blankly stares off to the side
like a big white old wall-eyed horse.

On the east steps the Air Force Band
in uniforms of Air Force blue
is playing hard and loud, but--queer--
the music doesn't quite come through.

It comes in snatches, dim then keen,
then mute, and yet there is no breeze.
The giant trees stand in between.
I think the trees must intervene,

catching the music in their leaves
like gold-dust, till each big leaf sags.
Unceasingly the little flags
feed their limp stripes into the air,
and the band's efforts vanish there.

Great shades, edge over,
give the music room.
The gathered brasses want to go
boom-boom.


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Elizabeth Bishop, "View of the Capitol from the Library of Congress". Poema de subtexto antibélico escrito em novembro de 1950 e enviado a amigos por correspondência com a intenção de ser um mero cartão-postal. Só seria publicado cinco anos depois, quando Bishop, talvez ingenuamente, notou pela primeira vez seu "cunho subversivo".

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28.4.11

Dream fitness






São dez horas da manhã de uma noite maldormida quando decido testar os novos pneus Protek Max da bicicleta. Eu vou precisar deles para cumprir a missão que me foi destinada. Chove e a rua de terra batida está escorregadia, o que não me impede de rodar maciamente até a pista de asfalto e dali descer a Estrada do Sumidouro na direção da Varick Street, onde ouvi dizer que há inúmeras tipografias antigas ainda em funcionamento. Sinto nas curvas o cheiro de chumbo das Mergenthalers, seu ruído ensurdecedor, e meus pelos arrepiam de prazer como na primeira vez. Mas não freio e logo à frente viro à esquerda, costurando entre carros apressados até o início da Pont du Gard tão ensolarada que depois de tudo não vou querer pensar em sol por um mês, colocando tudo no papel. Os pneus novos resistem bem às trilhas de lama antes de cruzarem a Smolenskaia os músculos de minhas pernas começam a pedir arrego. Na Bab Agnaou diminuo a velocidade, seco o rosto e desligo o iPod. Faltam ainda quarenta minutos para eu chegar ao meu limite, o alvo preciso. Ouvir Impromptus não ajuda muito. Não retornarei pela Diego de Ordás pois minha cabeça já está formigando e em algum lugar deve haver um atalho da Calle Lima à Tamarineira. Quanto mais pedalo menor é a vontade de me mudar para cá. Pelo que passo todas as pessoas parecem querer ir para algum lugar, dar em alguma coisa. E somem no vapor. Aponto para Quakers Hill e estou subindo novamente enquanto a paisagem. Tomo meu primeiro gole de gatorade na Via Amalfi, de frente para o mar de limoncello. Penso em parar no Duomo di Lucca para visitar o retrato do meu avô materno na carteira, mas a mãe do meu pai, com ciúme prussiano, lembra que a sua Pommern foi engolfada pelo Báltico da segunda guerra e eu não conseguiria mais passar por ali, nem que fosse um Spitz sem plumas. Até agora não consegui fugir da civilização para usá-la como estante de livros. Só os nomes vão mudando. Um Toyota FJ Cruiser passa raspando por mim e sou obrigada a avançar por um matagal, trombando numa árvore. A joelheira direita se foi. Estou perdendo a concentração. O oxigênio. Mão direita ou mão esquerda enrijecem no guidom. Estou perto agora de Matamoros. Consulto o monitor cardíaco. Buracos e pedras. Ele é tão simpático comigo. Mas a verdade é que me sinto febril quando saio da Avenida Amazonas, entro na BR-040 e me restam cinco minutos para o fim. É muito difícil ser uma pessoa com quem não consigo falar. Evitar correntes secas quando uma gota por elo basta. Obrigar-me fisicamente a lançar mão da chave multiusos para o desânimo num trecho comprido de águas rasas. Na porta de casa vejo que os pneus se regeneraram sozinhos. Perco toda a noção de tempo e distância quando finalmente tiro a venda dos olhos e guardo a ergométrica na garagem antes que me chamem para o almoço.



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22.4.11

Trotskistas do Kentucky




Administrar uma fazenda coletiva não era tarefa das mais fáceis, porém Joe Dorothy e Daniel Dimitri acreditavam nos princípios da revolução permanente. Dorothy, membro da oitava geração de uma família de pioneiros da Pensilvânia, repudiava a ordem constituída e, como qualquer criador de gado leiteiro, achava que a justiça também era algo a ser feito com as próprias mãos. Dimitri, homem mais cultivado, ex-funcionário da Western Union e especialista na extensão transcontinental do telégrafo, era mais afeito à evolução moral e gradual da civilidade. Sem nunca terem ouvido falar de uma revolução russa, os dois se conheceram em uma reserva indígena no México, para onde Dorothy se dirigira na esperança de contratar mão de obra barata para tocar sua fazenda que passava por sérias dificuldades. À noite, na cerimônia ritual em volta da fogueira, após um interminável chorus line de virgens das tribos de Yucatán, Dorothy notou a presença dos campesinos locais de sempre e de outros dois homens brancos que nunca vira por ali. Daniel Dimitri e um estranho sem nome que os selvagens chamavam de Leão da Terra Negra. O estrangeiro parecia ser uma lenda entre os indígenas. Entronado ao lado do chefe, era adorado e bajulado como uma espécie de totem. Daniel Dimitri, tomando chá de peiote ao lado de Dorothy, após as devidas apresentações fez as vezes de intérprete e Dorothy ouviu pela primeira vez as palavras do Leão da Terra Negra que iriam mudar sua vida para sempre. Nos olhos de cada índio vislumbrou um brilho nunca antes percebido. E entendeu. Eles não eram mais escravos do homem branco. A tribo enriquecera desde a última vez em que ele ali estivera com o mesmo propósito e saíra com seis índios indolentes que acabaram morrendo de alcoolismo e tifo em sua fazenda meses depois. Não. De ociosos caçadores-coletores, haviam se transformado em prósperos agricultores. Produziam trigo, cevada, centeio, batata inglesa e açúcar. Reparou que possuíam até implementos agrícolas importados dos vizinhos ricos do outro lado da fronteira. E já haviam começado a exportar uma pequena produção de tabaco que ele nunca conseguira cultivar. Dimitri confidenciou-lhe que o velho forasteiro era o responsável por aquele assombroso progresso, por isso a tribo o reverenciava. Dorothy sentiu uma pontada de inveja ao ver que os índios eram mais ricos do que ele, com suas vaquinhas murchas. Foi nessa hora que entendeu as sábias palavras do seu pai ditas há muito tempo: “Se a ocasião é calva, mas tem na testa um fio de cabelo que seja, convém agarrar-se a ele.” Tentou contratar o Leão como seu administrador, mas o velho e cansado homem sorriu para ele com amargura nos olhos frios. Era um não. Sem se deixar abater, contratou Dimitri antes mesmo do amanhecer. Ainda grogue, o desempregado aceitou o seu destino com resignação e os dois voltaram para o Kentucky no pôr do sol seguinte. Dimitri acabaria se transformando no irmão mais velho, honesto e generoso de que o caráter fraco e temperamental de Dorothy precisava para controlar vinte famílias de protestantes famintos e arredios. Mesmo assim, em poucos anos a fazenda coletiva prosperou, sendo conhecida agora nas redondezas como a D & D, e os dois amigos e sócios, já não tão jovens e vendo a idade avançar, arrumaram esposas por correspondência. Até que em uma fria manhã de agosto, Dorothy e Dimitri ficaram sabendo pelos jornais que o Leão da Terra Negra fora assassinado em Coyoacán com um certeiro golpe de picareta. “É tão fácil assim matar um homem?”, lamentou Dimitri. “Não foi o que estivemos fazendo desde o primeiro versículo do Gênesis? É o sangue que sempre semeia a terra”, disse Dorothy, lavando as mãos sujas de frango frito nas águas do Ohio antes de segurar no colo o bebê que acabara de nascer.


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21.3.11

Tesouros da Jumentude

Você é um sujeito que gosta de ler mas tem, digamos assim, certas limitações. Seus axônios, dendritos e sinapses não dão conta de frases que você julga rebuscadas e raciocínios que você acha rococós. Seu vocabulário esquálido o impede de ler Li-te-ra-tu-ra sem o auxílio para você inescapável de um dicionário, e você ODEEEEEEIAAAAA abrir dicionário, o que significa que você não consegue deixar de ser burro. Mas seu problema não é exatamente este, uma vez que é perfeitamente possível viver toda uma vida sem saber que os acantoquitoninos representam uma subordem de moluscos anfineuros, o que você também não tem a menor ideia do que significa e devo dizer que nem eu.

Seu problema é que você tem amigos que amam os clássicos, só leem os clássicos, só falam dos clássicos, em outras palavras, você é uma anta metida a culta que prefere ficar ali, meio com cara de pinhóim, soltando um "HAHAHA" ocasional e sonoro, um "Você tem razão" aqui, outro "Eu não tinha pensado nisso" ali, acolá um "Não é incrível?", numa tentativa ridícula de ocultar sua ignorância em vez de procurar sua verdadeira turma, digamos, num baile funk, no facebook, ou em centenas de milhares de blogs que se pandemizam pela rede, ou entre os leitores das dezenas de romances nacionais publicados atualmente às fornadas no Brasil (embora eu me pergunte se, apesar de todo o auê da imprensa especializada, tais romances têm mesmo leitores). Você gostaria de participar da conversa de seus amigos, mas como? Se ao menos você conhecesse a história de cada livro (sim, pois para você literatura é só entretenimento e o que interessa é a historinha), até poderia arrotar uma certa intimidade com as letras e dizer, "Mas o Bentinho não é assim meio viado?"

Pois agora, meu caro jumento, você vai poder arrotar à vontade.

Foi para você, que quer cagar erudição mas tem o vocabulário de um Paulo Coelho e a capacidade de raciocínio de uma Bruna Surfistinha, que criei a sensacional coleção TESOUROS DA JUMENTUDE. São vinte volumes em papel cuchê, ricamente encadernados em couro e filigranados em ouro (sim, porque burro gosta de livro aparatoso, cheio dos luxos, pra fazer vista na estante e as visita achá chique, sacumé), trazendo os maiores clássicos da língua portuguesa, todos em edição bilíngue (alfabeta/analfabeta), como, por exemplo, o badaladíssimo Machado de Assis e seu pra lá de batido Dom Casmurro:

PÁGINA ALFABETA

Há dessas reminiscências que não descansam antes que a pena ou a língua as publique. Um antigo dizia arrenegar de conviva que tem boa memória. A vida é cheia de tais convivas, e eu sou acaso um deles, conquanto a prova de ter a memória fraca seja exatamente não me acudir agora o nome de tal antigo; mas era um antigo, e basta.

PÁGINA ANALFABETA

Tem umas lembranças que só param de encher o saco quando alguém escreve ou fala delas. Um velho aí dizia que ficava puto com convidado que lembra de tudo. A vida tá cheia dessa gente, e por acaso eu também sou assim, apesar de poder provar que sou gagá porque não me lembro agora do nome do velho aí que eu falei; ele era velho e pronto.


PÁGINA ALFABETA

Depois que sacudi fora a tranca dos ideais ingênuos, sentia-me vazio de ânimo; nunca percebi tanto a espiritualidade imponderável da alma: o vácuo habitava-me por dentro. Premia-me a força das coisas: senti-me acovardado.

PÁGINA ANALFABETA

Depois que deixei de ser um mongo lesado, fiquei desanimado; pela primeira vez entendi que a alma não pode ser medida nem pesada: fiquei oco. As coisas ficaram com um peso danado: amarelei legal.

Mais um aperitivo, afinal este post deverá durar uma semana inteira para vocês, pois não, meus eus burrinhos? Vamos então a Eça de Queiroz e seu suculento Fradique, dando uma pinta das boas:

PÁGINA ALFABETA

Era um moço com cabelos ralos e cor de manteiga, sardento, apagado de idéias e de modos -- mas que despertava e se iluminava todo quando lograva "a chance de roçar por um homem célebre, ou de arranchar numa coisa original".

PÁGINA ANALFABETA

Ele era um cara meio careca e amarelinho, todo pintado, burro e sem-jeito -- mas que ficava um Amaury Júnior de tão assanhado quando conseguia "se esfregar num sujeito famoso ou se juntar com uma novidade".

Alguns de meus eus me indagam por que a maravilhosa e esclarecedora coleção TESOUROS DA JUMENTUDE não traz traduções de obras estrangeiras. O motivo é muito simples e perfeitamente compreensível (façam um esforço que vocês conseguem, meus eus). Uma palavra não é apenas um som, um bololô de fonemas; ela é também, em alguns casos principalmente, uma imagem evocativa. Sempre que leio "dizziness", por exemplo, sou tomada duma tontura psíquica que a palavra tonteira jamais conseguirá provocar. Certamente os franceses encontram um significado muito maior em "pomme de terre" do que nós em nossa prosaica "batata". Os alemães devem levar uma tijolada mental ao lerem "Gedankenübertragung", o que indica que a telepatia germânica sem dúvida é muito mais poderosa do que a nossa. Conclui-se daí que uma tradução já é, em si, uma paulocoelhização do texto. Seria uma redundância paulocoelhizar o que já está paulocoelhizado.

Mas a poesia, essa coisa sintética, um tanto hermética e, por que não dizer, caquética (sim, pois que existe desde que os gregos aprenderam a dizer alfa-beta-gama-delta, merda de blogger que não tem alfabeto grego, e -- meus eus hão de concordar comigo -- qualquer coisa, depois de tantos séculos de existência, não pode manter um frescor assim tão juvenil, que o digam a Hebe Camargo, o Paul McCartney e o meu pinico de ágata), também a poesia terá um volume todo seu (seu mesmo, dileto e iletrado leitor), por exemplo Gregório de Matos:

PÁGINA ALFABETA

Tempo, que tudo trasfegas
fazendo aos peludos calvos
e pêlos tornar mais alvos
até os bigodes esfregas:
todas as caras congregas,
e a cada uma pões mudas,
tudo acaba, nada ajudas,
ao rico pões na pobreza,
ao pobre dás a riqueza,
só para mim te não mudas.


PÁGINA ANALFABETA

Tempo, metido descarado
que põe careca o cabeludo
e cabelo branco em tudo
nem o bigode é poupado;
os mané é tudo ajuntado,
tudo de boca fechada,
arrasa tudo, não ajuda nada,
o rico cai na pobreza,
o pobre ganha a riqueza,
e eu na mesma parada.


Os demais volumes trazem José de Alencar, Manuel Antônio de Almeida, Aluísio Azevedo, Graciliano Ramos, Lima Barreto, Bernardo Guimarães, Rachel de Queiroz, José Lins do Rego, Érico Veríssimo, Pe. Antônio Vieira, Afonso Arinos, Josué Montello, Franklin Távora, Joaquim Manuel de Macedo, Campos de Carvalho e Hilda Hilst (os dois últimos merecem figurar entre os clássicos e são terrivelmente incompreendidos).

E aí, alguém vai querer?


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Extraído do extinto blog Um por Semana.


17.3.11

Miren Agur Meabe

Diagnóstico


Esta enfermedad es degenerativa.

Consiste en destruir los tejidos comunicativos:

en contraer la piel

(se pierde la sensibilidad a las caricias),

en reducir el foco visual

(se limita al espacio del libro que leemos).

Nos fatiga incluso hablar.

Y cada vez que pronunciamos un sonido,

nace provisto de largos pseudópodos grises

y se queda flotando en la salita,

como si ese fuera su destino:

una extraña ameba que ignora la hora de acostarse.

Nos afecta al oído, sordos en el búnker.

Papilas y lenguas ya están paralizadas.

La nariz es antena que percibe al instante

la chamusquina de una queja o el empalago de un suspiro.

Diagnóstico:

cáncer cíclico de silencio.

Periodo de incubación:

las rachas de impaciencia.

Previsión de recaídas ( salvo que la ciencia del perdón

descubra otros remedios):

tantas como fracasos del uno junto al otro.

Tratamiento profiláctico:

una cena en un bonito restaurante de vez en cuando

y cada mañana:

un pensamiento alegre al decir "buenos días".

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13.3.11

António Botto

Pedir amparo a alguém é uma loucura.
Pedir amor,
Também nada resolve – e para quê?
O amor corre – e em seus próprios movimentos
Isola-se, e de tudo parece que descrê;
E quando vem dizer-nos que é verdade,
Vê-se a mentira
Em que ele a rir afirma o que não vê.


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8.3.11

Sylvia Plath


Poemas são um mau começo: especialmente os mais complexos: eles me paralisam depressa demais por muito pouco. Melhor poemas curtos como exercício de descrição que não exijam desenvolvimento lógico ardiloso, verdadeiras armadilhas filosóficas. Pequenos poemas sobre o patim, a vaca ao luar, à Sow. Muito concretos, no sentido de que os mundos são personificados em minhas palavras, e não declarados em abstrações, ou em denotações espirituosas em três níveis claros. Descrições curtas nas quais as palavras tenham uma aura de poder místico: nomear o nome de uma característica: delgada, picante, lustrosa, chanfrada, lívida, luminosa, bojuda. Sempre nomeá-las em voz alta. Torná-las irrefutáveis.




Sylvia Plath, 17 de julho de 1957, começando um dia de trabalho. The Journals of Sylvia Plath.


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1.3.11

Mário de Andrade


PONTEANDO SOBRE O AMIGO RÚIM

(Março de 1927)


Enfim a gente não é mais amigo um do outro não.

Você anda facil, levianinho,
No labirinto das complicações.
Que subtileza! quanta graça dançarina!...
É certo que fica sempre
Bastante pó das asas de você
Nos galhos, nos espinhos,
Até nas flores dêsse mato...
Mesmo já pus reparo várias vezes
Nas asas de você estragadas pelas beiras...
Porém o essencial, o importante
É que apesar dêsse estrago inda você pode voar.

Eu não sou assim não.
Sou pesado, bastante estabanado,
Não tenho asa nem muita educação.
Careço de caminho largo, bem direito.
Si falta espaço, quebro tudo,
Me firo, me fatigo... Afinal caio.
No meio do mato eu paro, não posso mais caminhar.
Não posso mais.

Você... É possível que ainda me chame de amigo...
Mesmo perdendo um bocadinho de asa
Pousa no meu espinheiro e inda pode voar depois.
Mas eu, eu sofro é certo,
Porém já não sou mais amigo de você.

Você é amigo do mar, você é amigo do rio...


18.2.11

Mario Benedetti

Memorándum


Uno llegar e incorporarse el día
Dos respirar para subir la cuesta
Tres no jugarse en una sola apuesta

Cuatro escapar de la melancolía
Cinco aprender la nueva geografía
Seis no quedarse nunca sin la siesta

Siete el futuro no será una fiesta
Y ocho no amilanarse todavía
Nueve vaya a saber quién es el fuerte

Diez no dejar que la paciencia ceda
Once cuidarse de la buena suerte
Doce guardar la última moneda


Trece no tutearse con la muerte
Catorce disfrutar mientras se pueda.

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16.2.11




As primas procuram sob a cama o camarim de lençóis.
Os primos pingam moedas nos cofrinhos.
Querem ver para crer e dividem uma poltrona.
Ao fundo risinhos de uma outra vida.
Uma menina traz a pipoca. Pouco falta agora.
A dois passos dali uma fila de baratas donairosas
cruza o tapete vermelho, as asas palpitando.
Os primos despem-nas com olhos arregalados.
Sedas, plumas, tiaras e pedrarias.
As meninas apagam a luz e deixam o quarto.
Os ninhos da casa suspiram.
As mulheres do seu tempo não são mais feitas de carne.


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9.2.11

Claudius Portugal




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Deus é bom
Deus é justo
Deus é correto
Há um Deus na serpente
Um Deus nas vacas
Um Deus nos insetos
Um Deus do vidro
Um Deus tecido
Um Deus no tosco
Há um Deus concreto
Deus esteja conosco
Deus nos guie
Deus nos abençoe
Deus nos proteja
Com Deus nada nos falta,
Viceja
Que Deus tenha piedade
Deus é dez
Deus é a verdade
Deus nos conduz Deus é luz
Só Deus é fiel
Eu amo meu marido



Claudius Portugal, em teu nome, P55 edições, 2010.

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28.1.11




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Exemplar do último livro impresso em papel, circa 2111.
Medidas: 0,9mm x 0,9mm. Bom estado de conservação.
Capa e lombada com sinais de desgaste nas bordas.
Manchas do tempo no corte.
Assinatura do antigo dono na folha de rosto.
Miolo em bom estado.
Anotações a caneta microscópica nas margens direitas.
Esparsas manchas de acidificação.

Favor não tocar.

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24.1.11

Há um castelo em Itaipava



E ele ainda está de pé. Desde 1915, quando saiu do projeto de Lúcio Costa para a realidade concreta. Itaipava também está de pé, erguendo-se aos poucos após a tragédia. Por viver basicamente do turismo, produção artesanal e agrícola, ela precisa do apoio dos seus visitantes. Suas pousadas, bares, restaurantes e shoppings estão funcionando normalmente, a vida continua e todos precisam trabalhar para reerguer suas vidas. Se você pensa em visitar Itaipava, não deixe de vir. Precisamos de sua força para ajudar os desabrigados e evitar o desemprego. Há um castelo em Itaipava, sólido como o coração da cidade. Abraços.

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21.1.11




A mala está pronta no quarto.
O presente não conjuga mais as paredes.
Há sempre uso para o que de tempos em tempos bate asas.
É como ser criança outra vez.
Amassado entre as meias de dormir,
coloquei-o no trem que levaria ao porto.



(texto: Maira; ilustração: De Niro, Sr., o original.)

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11.1.11

Alô Bahia Brasil



Da Bahia me chega o convite do poeta e amigo de longa data, Claudius Portugal. A saber que no dia 18 de janeiro, terça-feira, das 19 às 23h, na Ciranda (Rua Fonte do Boi n°131, Rio Vermelho), a editora P55 lançará COMPARSAS, uma nova série de álbuns de gravuras em off-set, com edição limitada, numerados e assinados pelos autores, reunindo imagens de Bel Borba, Sérgio Rabinovitz, Valéria Simões e texto de Claudius Portugal.

Para esta nova série, COMPARSAS, após ter lançado a coleção Cartas Bahianas, a P55 tem como objetivo editorial reunir imagens das artes visuais ao texto literário. A P55 inaugura a série COMPARSAS com três álbuns: “Em teu nome”, desenhos de Bel Borba; “Fluxo”, pinturas de Sérgio Rabinovitz, “Só danço samba”, fotografias de Valéria Simões, todos com textos de Claudius Portugal.


AMOR, AMAR

(bilhete de namorado)

não ser projeto
bastante ser
apenas desenho
não ser desenho
bastante ser
apenas traço
não ser traço
bastante ser
apenas risco


Claudius é baiano de Salvador, poeta, jornalista e editor, tendo em seu currículo as obras Carta à família, Em mãos, Olho de gato, Notas bandalhas, WXYZ, Negro azul, Duende, Águas e Texto táctil. É autor de livros sobre artes visuais: Outras cores – 27 artistas da Bahia, reportagens plásticas; Sérgio Rabinovitz, a poesia da cor; Pinturas recentes de Sante Scaldaferri; Murilo, a cor desta cidade; Juarez Paraiso, um mestre da arte na Bahia. Em teatro teve encenado: “Quincas Berro d’Água”, “Pelo telefone,” “Cara amiga Sarah H.”, “Não vamos falar nisso agora”, “Poesia é coisa de mulher”, “Noite na taverna”. Escreveu a radionovela “O caso da menina morta”. Sua poesia passeia pela música, com letras que já serviram de roteiro de cenas para Tieta do Agreste, de Cacá Diegues.

Para adquirir os COMPARSAS e conhecer outros trabalhos da arte e literatura baiana, visite o site da editora P55. E clique no convite para ver melhor.


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6.1.11

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Tudo o que pode ser visto de cima
é o que está por cima do que está
por cima do que está por cima
do que está por cima.
Às vezes ouve-se um lamento.




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3.1.11

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Minha primeira máquina de escrever. Que não existe mais, ou então está em algum lugar que desconheço. Jogada num canto. Num lixão, talvez. Num brechó, melhor. Herança de minha irmã mais velha, depois dei para um amigo que precisava. O amigo morreu e levou a máquina para sempre. Ainda guardo alguns poemas que escrevi nela, com seus Os borrados, que eu limpava com palito de dentes. Os dias de trocar as fitas eram dias de trocar as fitas. Nada mais. Em geral eu datilografava sem a tampa interna, para ver melhor os tipos batendo no papel. Tentei recuperar este prazer e comprei há pouco tempo uma Sperry, da Remington. Não é a mesma coisa. Nunca será a mesma coisa. Aquelas letras redondinhas. A Remington está jogada num canto. Ao alcance dos meus olhos, porém. Para lembrar da outra. Hermes, my Baby.


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