29.2.04

Blog date


27.02 Há uns meses atrás fui olimpicamente insultado por um blog. Amanhã ela vai tomar café comigo. Deve ser a tão falada crise da blogosfera.

29.02 Como escrevi na sexta-feira, fui beber café com a blogger que antes me chamou de "velho" e "alimentado a rações de nitrofuranos".
Gostei muito de a conhecer.
De notar que, antes de nos despedirmos, ela ainda disse:
"-- Mas tu és um capitalista fascista, cheio de dinheiro e amigos e coiso..."
Obviamente ficamos amigos.


No Quinto dos Impérios

arroz de tomate

nesse dia a noite viera mais cedo - na verdade, o seu particular adormecimento fizera-se pelas quatro da tarde, era dia, e com os dados assim lançados proponho um brinde à aldeia à casa amarela às ruas outonecidas que se lhe dirigem à satisfação iniciática ao pão com fiambre de vez em quando.


Homem de Cuecas


27.2.04

São os vermes que formam o húmus.
Os coqueiros só atraem relâmpagos.


As janelas do quarto estão fechadas mas eu sei que tem alguém me espionando. De dentro. Remoendo a memória. Um Cristo posando para a posteridade de gesso. Um Bel Air ano 57 sobre a mesa. A TV Emerson. A Frigidaire. Sobre os sofás pés de palito, minhas bonecas desmembradas fazem sombra. Meu pai a cabeça, minha mãe os braços, minha irmã as pernas. Eu junto toda a família e lembro de coisas que não me interessam: há dois dias, vejam só, num jantar informal na casa de L.B., a quem só conheço de mesas de bar, um sujeito com um copo de Cuttysark na mão me confidenciou seus temores. Disse que como ex-oficial da inteligência do exército brasileiro, via com preocupação a nossa "situação" em Foz do Iguaçu. Como assim?, eu perguntei, com a minha melhor expressão de espírito livre. Ele virou os olhos para um bonsai sobre a mesa e ali fixou-os por uns trinta segundos, sem me responder nada. Tive tempo de acender um cigarro, dar dois tragos e reabastecer o meu copo. Vejo com preocupação o interesse norte-americano na região de Foz do Iguaçu, ele repetiu. Essa justificativa de haver terroristas na região. Isso é preocupante. Não nos convém. Afeganistão, Iraque, agora o Haiti. Não sei não. Muito preocupante. Não foi Caetano quem disse naquela música:"o Haiti é aqui"? O Havaí, eu corrigi, começando a me coçar. Eu já conhecia essa história. Eu não queria conversar com um milico, não queria admitir a possibilidade de uma invasão. Me lembrei do pau-de-arara e molhei as calças. Deixei o cara falando sozinho e fui pro banheiro. Os tempos mudam mas minha memória é uma esponja. Não sei quando vou superar. Abro as janelas e o lado de dentro não sai.

Chegou tarde, já passava da meia-noite, deixou o fuzil 762 em cima da mesa, tirou a .40 e colocou na gaveta do armário, foi para o banheiro e lavou o rosto, o plantão fora exaustivo, enfiar cocaína na boca do viciado, comandar os PMs para bater corretamente em marido valente, forçar suspeito a assinar o boletim de ocorrência, tudo isso cansava demais, prometia toda noite não se envolver pessoalmente, mas gostava, era assim que Mendonça sempre foi considerado, um delegado que fazia o que gostava, tirou a camisa, foi até o quarto de Carol, viu que estava dormindo, as crianças também deveriam estar, achou bom, foi à geladeira, pegou uma cerveja, desceu para o porão, ligou o computador, acessou a internet e entrou no mundo que mais gostava, a braguilha foi aberta, olhava para o monitor fixamente, as calças desceram para os joelhos, estava quase gozando quando ouviu um barulho, olhou pelas escadas, não devia ser nada, abriu os botões da camisa, continuou vendo as fotos de pedofilia e finalmente gozou, abriu a gaveta da escrivaninha, tirou uma toalha, passou pela barriga e pelas pernas, cheirou a toalha e decidiu deixá-la no cesto para Carol lavar.


Ferréz, em Manual Prático do Ódio, 2003.


Rodrigo Gurgel, editor da Novae, abandonou a canoa furada do blogger.sem.br, onde publicava o seu indispensável Crônica Literária, e partiu para outra. Confira.

26.2.04

Norma Jean Baker



I stood beneath your limbs
and you flowered and finally clung to me
and when the wind struck with... the earth
and sand -- you clung to me.


-- versão na íntegra do poema "To the Weeping Willow" de autoria de Marilyn.
A foto é de André deDiennes, dos tempos pré-fama.

Era Bush: A Paixão de Cristo segundo Mel Gibson, um servo da "Sagrada Família" que fatura a Violência Sagrada. Leia mais no excelente Rua da Judiaria.

25.2.04

Aceitar é gostar


Já escrevi um pequeno poema que lerei hoje durante o jantar na casa da minha prima.
Na verdade, dizer que escrevi não é exato. Copiei, isso sim, uns versos do italiano Diogo Balzirossi, em tradução livre do chef Santo Alípio (que não transpôs as rimas mas abrilhantou a essência).
Minha prima nem vai notar a traquinagem. Não é mulher dada a leituras. Nem eu sou homem dado a poesias. Mas, se ela gosta de ouvir, o que me custa copiar, e ler?

Alcachofras (gotas)
lençóis (refogados)
de pepitas (folhadas)

Alkaseltzer (não remove)
alfaces (verdelíneos)
nabos (yellow-blue)


Diogo Balzirossi é imbatível. Faz poesia gastronômica com a mesma destreza com que minha prima esparrama suas receitas pela cozinha. Uma cozinha florida, enjoada, apinhada de potes com ervas de provence de validade vencida, que ela nem usa, mas enfeitam que é uma beleza.
Hoje à noite, ela me avisou: teremos ensopados encorpados e temperos ligeiros. Da última vez, serviu berinjela meia-tigela. Modesta, ignora se tal pitéu me apetecéu. Mas sabe muito bem distinguir os falsos dos verdadeiros apreciadores da arte. Principalmente depois de ter experimentado a obstinada rejeição da própria filha, que dispensou seu leite, e sua forquilha.
Para minha prima, aceitar é sinônimo de gostar. E ainda rima.
Sou calvo e obeso, mas não sou bobo. Uso roupas incomuns, é bem verdade, camisas listradas de cores mortas, calças largas e sapatos rotos.
Mas sei agradar quando vale a pena.
A caminho da casa da minha prima passo por uma plácida praça. Há um garoto maroto que, sobremaneira, saboreia um honestíssimo pirulito de morango.
Revolve-se-me o estômago, o trato gastro colapsa. A psicorresultante produz impasse.
Pois bem, admito: além de plagiador de poesias gastronômicas, sou ladrão de pirulito.


Arnaldo Bloch, na antologia de contos Geração 90: os transgressores, organização de Nelson de Oliveira, 2003.


22.2.04



A partir dos anos 2030 o processo de metamorphosing expande-se drasticamente. De uma primitiva técnica de animação que transformava passo a passo uma imagem em outra, o metamorphosing, apropriando-se de fundamentos da teoria dos fractais, passa a transformar progressivamente um indivíduo em outro. A princípio, esse fenômeno de "transmigração" ocorria somente on-line, em ambiente virtual. Bastava um clique do mouse para um indivíduo de carne e osso, utilizando um programa de vida artificial, transformar-se de espectador no agente à sua escolha, entre os milhões disponíveis na rede. Porém, com a explosão da inteligência coletiva e das populações imaginárias devido às sucessivas transmigrações interativas dos já agora bilhões de usuários, a indústria do metamorphosing, apostando no sucesso, partiu para a criação dos morphings off-line. Bilhões de seres humanos de carne e osso agora podem se transformar em outros seres humanos da vida real, à sua escolha. Para maiores detalhes leia o capítulo "Personalidades Compartilhadas e o Fim da Individuação" na página 325 ou visite nosso site.

21.2.04



campainha sem fio do Fluminense

Ao acionar o transmissor, o mesmo irá fazer com que
o time do Fluminense jogue por 90 minutos.
Não necessita de fiação.
Fácil instalação.

Cacaso




Trago comigo um retrato
que me carrega com ele bem antes
de o possuir bem depois de o ter perdido.

Toda felicidade é memória e projeto.

20.2.04

um recado transatlântico necessário


Aviz, não sei o que dizer nessas horas, muito menos o que escrever. Só sei que não tenho medo de agradecer: obrigada, Aviz, pela força que deu a este blog, uma força sem politicagem ou escambos que, coincidentemente, chegou na hora certa. Por isso, o texto aí debaixo, apenas uma lembrança de infância, é dedicado a você. Um grande abraço.


Rua Barão de Ipanema

Estou vendo 24 vultos da minha janela. "No campo de concentração de Majdanek, Kobyla chutava mulheres e crianças com uma bota cheia de ferragens." Meu tio chega da rua e põe Maysa na vitrola. Ele entra no banheiro e vai fazer a barba. Deixa a porta aberta. Eu fecho a revista dos anos 60 e o sigo pelo corredor do apartamento. O que é que foi, Fu Manchu?, ele me pergunta, porque tenho os olhos rasgados. O papa é judeu?, eu pergunto na ponta dos pés para vê-lo no reflexo do espelho. Não, que ideia. O papa é católico, como nós. Os judeus têm um papa?, eu insisto. Não, quer dizer, sei lá. Por que essa preocupação agora? É que se os judeus tivessem um papa nada disso teria acontecido, não é? Nada disso, o quê?, ele quer saber. O genocídio. Ah. Onde aprendeu esta palavra? Na revista. Uma gota de sangue escorre do rosto dele e se mistura com a espuma do creme de barba. Você foi à praia hoje?, ele muda de assunto. Não, não fez sol, eu digo, sentando na tampa da privada. Teu pai chega quando de viagem? Não sei, a mãe deve saber. Onde ela foi? Saiu. Foi na Colombo comprar um remédio. Vovô era italiano? Hum, hum. Ué, mas ele não nasceu na Argentina? Foi, mas era imigrante. Ele veio da Itália com os pais e nasceu no navio que parou na Argentina, entendeu? Então ele conhecia o papa? Chega dessa conversa de papa, o que deu em você? Olha, o disco acabou. Vai lá na sala e bota o outro lado pra mim, tá bom? Tá bom. Em vez de virar o disco, eu o guardo na capa e pego outro. Dolores Duran. Meu tio entra na sala e eu me agarro no seu pescoço com cheiro de loção pós-barba da Atkinsons. Ele me ergue do chão e do seu colo olhamos para o mar. Na beira da praia uma mulher corre ao lado de dois cachorros. Sozinha. Quer dar uma volta na praia? Mas está chovendo, eu digo, virando meus olhos rasgados para ele. E o carro velho do seu tio serve pra quê? Nós dois rimos e a mulher na praia some entre os prédios.



Meus olhos cansados de tudo
Não cansam de te procurar
Meus olhos procuram teus olhos
No espelho da água do mar


Tom Jobim

19.2.04




É preciso fazer um poema sobre a Bahia
Mas eu nunca fui lá


Drummond

18.2.04

García Lorca




Lua e Panorama dos Insetos
(O poeta pede ajuda à Virgem)


Rogo à divina Mãe de Deus,
rainha celeste de todas as coisas criadas,
que me dê a pura luz dos animaizinhos
que têm uma só letra em seu vocabulário,
animais sem alma, simples formas,
longe da desprezível sabedoria do gato,
longe da profundeza fictícia dos mochos,
longe da escultórica sapiência do cavalo,
criaturas que amam sem olhos,
com um só sentido de infinito ondulado
e que se agrupam em imensos montões
para ser comidos pelos pássaros.
Rogo a única dimensão
que têm os pequenos animais planos,
para desviar-se de coisas cobertas de terra
sob a dura inocência do sapato;
não há quem chore porque compreenda
o milhão de mortezinhas que o mercado tem,
essa multidão chinesa das cebolas decapitadas
esse grande sol amarelo de velhos peixes esmagados
Tu, Mãe sempre temível. Baleia de todos os céus.
Tu, Mãe sempre jovial. Vizinha da salsa pesteada.
Sabes que eu abranjo a carne mínima do mundo.

aonde está você?



15.2.04

chove lá fora...



Nota autobiográfica de Fernando Pessoa (1935)



Nome completo: Fernando António Nogueira Pessoa.

Idade e naturalidade: Nasceu em Lisboa, freguesia dos Mártires, no prédio n.º 4 do Largo de S. Carlos (hoje do Directório) em 13 de Junho de 1888.

Filiação: Filho legítimo de Joaquim de Seabra Pessoa e de D. Maria Madalena Pinheiro Nogueira. Neto paterno do general Joaquim António de Araújo Pessoa, combatente das campanhas liberais, e de D. Dionísia Seabra; neto materno do conselheiro Luís António Nogueira, jurisconsulto e que foi Diretor-Geral do Ministério do Reino, e de D. Madalena Xavier Pinheiro. Ascendência geral: misto de fidalgos e judeus.

Estado: Solteiro.

Profissão: A designação mais própria será «tradutor», a mais exata a de «correspondente estrangeiro em casas comerciais». O ser poeta e escritor não constitui profissão, mas vocação.

Morada: Rua Coelho da Rocha, 16, 1º. Dto. Lisboa. (Endereço postal - Caixa Postal 147, Lisboa ).

Funções sociais que tem desempenhado: Se por isso se entende cargos públicos, ou funções de destaque, nenhumas.

Obras que tem publicado: A obra está essencialmente dispersa, por enquanto, por várias revistas e publicações ocasionais. O que, de livros ou folhetos, considera como válido, é o seguinte: «35 Sonnets» (em inglês), 1918; «English Poems I-II» e «English Poems III» (em inglês também), 1922, e o livro «Mensagem», 1934, premiado pelo Secretariado de Propaganda Nacional, na categoria «Poema». O folheto «O Interregno», publicado em 1928, e constituído por uma defesa da Ditadura Militar em Portugal, deve ser considerado como não existente. Há que rever tudo isso e talvez que repudiar muito.

Educação: Em virtude de, falecido seu pai em 1893, sua mãe ter casado, em 1895, em segundas núpcias, com o Comandante João Miguel Rosa, Cônsul de Portugal em Durban, Natal, foi ali educado. Ganhou o prêmio Rainha Vitória de estilo inglês na Universidade do Cabo da Boa Esperança em 1903, no exame de admissão, aos 15 anos.

Ideologia Política: Considera que o sistema monárquico seria o mais próprio para uma nação organicamente imperial como é Portugal. Considera, ao mesmo tempo, a Monarquia completamente inviável em Portugal. Por isso, a haver um plebiscito entre regimes, votaria, embora com pena, pela República. Conservador do estilo inglês, isto é, liberdade dentro do conservantismo, e absolutamente anti-reacionário.

Posição religiosa: Cristão gnóstico e portanto inteiramente oposto a todas as Igrejas organizadas, e sobretudo à Igreja de Roma. Fiel, por motivos que mais adiante estão implícitos, à Tradição Secreta do Cristianismo, que tem íntimas relações com a Tradição Secreta em Israel (a Santa Kabbalah) e com a essência oculta da Maçonaria.

Posição iniciática: Iniciado, por comunicação direta de Mestre a Discípulo, nos três graus menores da (aparentemente extinta) Ordem Templária de Portugal.

Posição patriótica: Partidário de um nacionalismo místico, de onde seja abolida toda a infiltração católico-romana, criando-se, se possível for, um sebastianismo novo, que a substitua espiritualmente, se é que no catolicismo português houve alguma vez espiritualidade. Nacionalista que se guia por este lema: «Tudo pela Humanidade; nada contra a Nação».

Posição social: Anticomunista e anti-socialista. O mais deduz-se do que vai dito acima.

Resumo de estas últimas considerações: Ter sempre na memória o mártir Jacques de Molay, Grão-Mestre dos Templários, e combater, sempre e em toda a parte, os seus três assassinos - a Ignorância, o Fanatismo e a Tirania.


Lisboa, 30 de Março de 1935


Fonte: Fernando Pessoa no seu tempo, Biblioteca Nacional (Portugal), 1988 (págs. 17-22).





-- vi lá no Pano do Pó

14.2.04

eu hoje vou saber o que aconteceu a Henri Matisse
eu hoje vou palitar os dentes
eu hoje vou levar-me a sério
eu hoje vou bater com a porta
eu hoje vou confessar tudo
eu hoje vou tomar banho
eu hoje vou arranjar um álibi
eu hoje vou ao Google procurar maçãs camoesas
eu hoje vou como hei-de ir
eu hoje vou ter de escolher se quero loira ou morena
eu hoje vou atirar-me ao rio
eu hoje vou estacionar em terceira fila
eu hoje vou comê-lo todo sozinha
eu hoje vou mas não sei para onde
eu hoje vou dizer à minha sogra o que penso dela
eu hoje vou repetir a dose
eu hoje vou à net ver aquele blog de que me falaram
eu hoje vou foder o rei
eu hoje vou arranjar outro dealer
eu hoje vou a um restaurante pedir alcatra açoriana
eu hoje vou conseguir imprimir
eu hoje vou com um casal
eu hoje vou fechar para obras
eu hoje vou e ponto final


-- Eu Hoje Vou

12.2.04

Antônio Maria


O encontro melancólico


Sentaram-se, os dois, já arrependidos de terem marcado o encontro. Esvaziaram os pulmões, num suspiro da saciedade. Aos dois, faltava coragem de perguntar: -- Por que isto? Por que não vamos embora de uma vez? Preferiram ser gentis e tentar. Ele perguntou se ela queria beber alguma coisa, ou comer alguma coisa. Ela respondeu um "nada" de quem anseia abreviar a angústia de estarem juntos. Ambos sentiram calor, ou porque a tarde estivesse fria, ambos suaram, sem calor, na testa e no pescoço. Que saudade os trouxera ali? Nenhuma. Vieram, simplesmente, porque um gostaria de saber, no coração do outro, o tamanho da falta que estava fazendo. As pessoas são muito vaidosas e, quando acabam seus romances, têm a mania de pensar que, de um modo ou de outro, marcaram, para sempre, a pessoa amada. É uma pretensão tola, esta de ser inesquecível, na carne ou na alma de quem se amou. O mundo renova muito a todos nós. Ou, quando não renova, envelhece, muda-nos sempre, enchendo-nos a vida de quatro ou cinco belezas novas ou de uma nova dor, que abrange todo o ser, defendendo-o contra qualquer recaída na doença de que saímos vivos.

Sentados frente a frente, fumavam e trocavam perguntas, cujas respostas eram dispensáveis: "Como vai sua irmã?" "Sua tia viajou, afinal?" "Como estão as aulas de taquigrafia?" Pediram uma cerveja, para fazer jus à mesa e à tolerância do garçom. Era uma cerveja amarga, porque o gosto das cervejas é a gente quem faz, com a doçura, o tanino ou o amargo que se traz na vida. Ela evitou que ele lhe acendesse o cigarro. Ele guardou o isqueiro, sem o menor constrangimento. Depois de tudo isso foi que se olharam bem nos olhos. Um olhar sem enlevo, sem mensagem, sem mágoa. Um olhar corajoso, só isso. Como era estranho, depois de tanto amor, depois de tantas vezes terem chegado ao trágico, verem-se agora como se fossem dois parentes. Nem ao menos se odiavam. Como a vida é sábia em suas acomodações! Riram-se, cada um de si mesmo e os dois da vida. Não havia nada a dizer, porque sabiam de tudo, sem linguagem. A palavra complica muito. Levantaram-se. Deram-se as mãos nas pontas dos dedos, foram caminhando e largando-se aos poucos, até que passou um táxi e ele correu para alcançá-lo. Ao entrar no carro, ainda olhou para trás e gritou-lhe um "adeus" qualquer. Que ela não ouviu, porque entrara numa loja de bombons. E dali por diante, nada os uniu ou mesmo separou, no ar, nas pedras e na música da cidade.


-- crônica de 29.08.1959, publicada no jornal Última Hora, RJ.

11.2.04

Emulator

3


15 de março. anoto na agenda entre minhas merdinhas um retorno à terapia. o médico, le petit guignol, vai ter de me explicar por que esta pontada intra-encefálica todos os dias pela manhã. ele não vai me cozinhar mais. doze trocas de medicação em menos de oito meses de terapia, não é pra desconfiar não? não sou do tipo de paciente que se fulano diz, é porque é. vou enfim pensando essas coisas antes que o verão acabe esta noite. mal consigo enxergar aqui, o globo espelhado gira e seus reflexos iluminam minha mesa vazia em intervalos regulares, na batida. meus amigos estão todos na pista e posso desfrutar uma solidão dupla, com gelo e limão. qual o teu telefone? está na lista, respondo. a piada é datada mas ainda funciona. o bofe, meio bolado, se manda. olha só a bunda do cara, penso alto, quando ele dá as costas. me aparece cada uma. hoje estou sem paciência para éticas, bons modos e consensos. não devia ter saído de casa. as folhas da agenda estão despencando e ainda estamos em fevereiro. meu drinque parece um caldeirão celta. "não sei o que digo, não sei o que sei, não digo mais o que quero". olho para a pista e vejo meus amigos suando, frenéticos. fecho os olhos e imagino danças camponesas, coros de caçadores, cantos folclóricos. gosto destes efeitos sem causa, o que pra mim é a definição perfeita de toda a arte contemporânea: feita para não durar. amanhã a gente esquece tudo. livros, telas, filmes, músicas, peças, fotos. tudo que vejo parece oco, silêncio sem enigmas, tragédia sem mito. mas kulo tresno é eu te amo em javanês, sabia?

10.2.04

diálogo de longa distância


-- HRU
-- OK (SETE)
-- H8 LDR
-- CMON
-- ILU
-- ILU2
-- 911 2NITE
-- Y
-- MU
-- lyN
-- YKWIM
-- po$bl
-- PCM
-- SC
-- Dur?
-- DK
-- F? (FC)
-- BFz4evr
-- ZZZZ
-- UI! 8-)
-- JK
-- KIT
-- OK, H&K
-- B4N
-- ^5

ARMA ESCONDIDA NO MIOLO DO ARBUSTO/ TANTA PROCURA PARECEU UM CLISTER


...
QUERIA TER UM TESTAMENTO DE GALINHA,
PODERIA CERTAMENTE COMPARÁ-LO AO DA MINHA VIZINHA.
A RETÓRICA DANÇA EM TORNO DA VERDADE HISTÓRICA
E É ASSIM QUE A PUTA DA VERDADE HISTÓRICA SE ABRE À RETÓRICA.


Às vezes a Loucura é uma reles expressão
Sou a casta mais pura da minha Religião.
Desgasto-me quotidianamente em explicações
que degeneram sempre em complicações.
Por mim correrei mundo a vida inteira
até que pare o tempo e a maneira.
Aí envolver-me-ei provavelmente no escuro
mas desde já aviso que ao mesmo tempo
estarei provavelmente a construir um novo muro.


Let the Fly Fly

8.2.04

Sair, é?

Show?

Róqui?

Pessoas?

Hum.

Tô evitando.



Mon Coeur Vomit

Plínio Marcos




Pálido de espanto, constato que o medo é tanto e mora dentro de tantos, que até os amesquinhados por mil e uma fomes berradoras, em fúria, trucidam o que não se conteve, o que quis quebrar os vidros. E matam e trucidam na vã esperança de acabar com a violência que os aperta num terrível sufoco. Matam e trucidam o que não se conteve e quebrou o vidro que separava sua fome do pão, para mostrarem que não acreditam na polícia, mas que anseiam por justiça e ordem que não têm. Justiça e ordem das quais são desvalidos os famintos... E assim vai morrendo um povo que era generoso. Vai morrendo no desespero de se ver morrer.

6.2.04

Emulator

2


Aprendi com meu pai que não se deve confiar em cavalo paraguaio, mas como eu estava dando um tempo do monitor para esticar as pernas, fiquei dando ouvidos ao trololó do cara. Eu já estava há mais de 4 horas naquela lan house lá Onde-judas-perdeu-as-botas da Serra só porque foi a mais barata que pude encontrar. 20%. Fiz baldeação -- metrô, ônibus, meia hora a pé -- e ainda não calculei se valeu a pena, não tive tempo. No botequim ao lado eu bebia uma cerveja e o cara, que tinha um olhar de chope aguado, matraqueava no meu ouvido. 40%. É como eu te disse, cara, o fim de um acontecimento sempre desencadeia um segundo acontecimento. Tudo tem uma lógica. A mente que se abre a uma nova idéia jamais voltará ao tamanho original. Meu deus, eu queria dar um Del no sujeito. Imaginei o cérebro dele inchando inchando de novas idéias e explodindo, vazando a tela, borrando o teclado. 60%. Ele ia falando e eu ia dando a descarga. Descobri outro dia num site aí que eu nasci no dia de Santa Cacilda de Toledo. Ah, é? E que dia é esse? Nove de abril. Tu nasceu que dia? Eu disse. Ah, então é dia de Santo Ildefonso. Eu decorei a porra toda. Pode me perguntar. Não precisa, eu acredito. Não sou chegado em santos. 70%. Tu se liga em blog? Já tive um, não tenho mais saco. Ah, mas tem uns bem maneiros, de gente que escreve legal, como um cara que eu li uma vez que dizia "todos nós estamos na sarjeta, mas alguns de nós olham para o céu". Para as estrelas, eu corrigi. É, é isso aí. Bom o cara, não é? Isso é Oscar Wilde. Bom, não me lembro o nome do blogueiro, deve ser esse mesmo aí. Pedi outra cerveja porque a minha combustão espontânea parecia iminente. 90%. O sujeito pediu um Redbull. Não tinha. Boteco de quinta, hum?, ele chiou. Do outro lado do balcão, o dono do bar olhou feio pela janela. A paciência requer muita prática. Download concluído.

5.2.04

Hilda Hilst


Carrega-me contigo, Pássaro-Poesia
Quando cruzares o Amanhã, a luz, o impossível
Porque de barro e palha tem sido esta viagem
Que faço a sós comigo. Isenta de traçado
Ou de complicada geografia, sem nenhuma bagagem
Hei de levar apenas a vertigem e a fé:
Para teu corpo de luz, dois fardos breves.
Deixarei palavras e cantigas. E movediças
Embaçadas vias de Ilusão.
Não cantei cotidianos. Só te cantei a ti
Pássaro-Poesia
E a paisagem limite: o fosso, o extremo
A convulsão do Homem.

Carrega-me contigo.
No Amanhã.





nota: Hilda Hilst, num passado recente, havia resistido a três isquemias cerebrais e por conta disso tinha a saúde bastante fragilizada. Internada no Hospital da Unicamp devido a uma segunda fratura no fêmur (a primeira no ano passado), faleceu por haver contraído uma infecção hospitalar. O que alguns jornais não mencionaram. Ponto.

4.2.04




"Agora que estou sem Deus, posso me coçar com mais tranqüilidade."


Hilda Hilst

Prezado editor


Entendi muito bem a sua posição quando, uns dez anos atrás, o senhor me disse que sua editora não publicava ensaios acadêmicos porque não havia público leitor para isso. Na época eu me dedicava à crítica literária e só sobrevivi porque dava aulas. Tive de me voltar para a ficção e o jornalismo literário se quisesse ganhar alguma projeção nesse meio. E consegui graças a muito esforço. Por isso foi com surpresa que recebi, após os boatos de minha provável indicação para concorrer a uma vaga na Academia Brasileira de Letras, um convite seu querendo justamente que eu escrevesse um ensaio sobre "as trilhas pantanosas da nossa literatura". E foi com surpresa ainda maior que vi novamente um projeto meu ser rejeitado por sua ilustre casa editorial. Concordo que o tema "a intransitividade da literatura" é bastante espinhoso, abarcando muita filosofia no contrapé. Não é para qualquer um, muito menos leitura de cabeceira. Sei que deseja muito publicar um trabalho meu, que o meu nome enriqueceria o seu catálogo, segundo suas próprias palavras, mas, francamente, a lista que me sugeriu de assuntos "palatáveis" sobre os quais eu deveria discorrer após "abiscoitar a cadeira" é no mínimo constrangedora. Coisas como "Conversas no Chá das 5", "Seja um Acadêmico em 10 Lições", "O Mundo Encantado das Letras", "Por Trás do Fardão", "ABL para Todos" certamente fariam a alegria dos seus leitores, mas o que eu ganharia com isso além de alguns tostões, se tanto? O senhor está querendo me sabotar? Quer que eu caia no ridículo público? Contrate um escritor de aluguel para falar sobre estes seus temas tão "momentosos" e deixe-me em paz. E deixe em paz a minha mulher também, pare de assediá-la para que eu aceite escrever para o senhor. Sei muito bem que não perde a chance de importuná-la sempre que a encontra, que lhe manda flores e bombons e telefona todos os dias, certamente para usá-la de intermediária nessa negociação. Ela anda muito nervosa com esta situação, já quase nem pára em casa. Diz que não consegue resistir à sua pressão e que por isso está estressada, a pobre. Mas saiba que eu resistirei, meu caro. Eu não vou escrever para o senhor. Eu não quero saber da sua editora! Eu não quero saber do senhor! E passe bem!

R. de A.

2.2.04

Emulator

1

você não precisa de um binóculo, a janela está sempre aberta. é só olhar. eu sou uma garota normal que se recusa a fazer parte da geração Barbie. acho até que o mundo é um lugar agradável de se viver, quando se é um ser humano. o que não é o meu caso. quando não estou vegetando, gosto de uma roda pra bater um papo e de chapar o melão. à parte minhas desconcertantes certezas ilógicas, sou o meu próprio líder: ando em círculos. não há como deixar de pensar que o destino caprichou no meu sofrimento. ela disse-me assim. ou eu li naquele blog. por que eu sempre acho que já ouvi a mesma coisa mil vezes, exatamente mil vezes? mil vezes nas 923 mensagens no celular, mil vezes nos 546 telefonemas semanais. ando precisando de posts de auto-ajuda. daí eu vi que ela disse: sorria, você está na Bahia! meu look laquê mandei cachear, ficou cantando melosa enquanto puxava o meu piercing da língua & puxava & puxava e o cara dizia pra ela mainha, mainha, diga que eu sou seu painho. tenha dó. a barra de rolagem desceu mais um pouquinho e marcamos um encontro off-blog. pergunta se eu queria? fiquei ouvindo o som do ar-condicionado e concluí que essas coisas só acontecem comigo porque moro no 13° andar, porque escolho X em vez de Y, porque saio de óculos na night quando não deveria, porque no fundo gosto quando alguém chega junto e sussurra assim: você sabia que eu e você somos dois oceanos que precisam se encontrar pra arrebentar e espumar? o que posso dizer? poderia ter sido melhor. como tudo é carnaval, eu poderia dizer quem sabe: dá uma sambadinha aí preu ver se você tem samba no pé. você não precisa de um binóculo. está tudo aqui. ao alcance de um clic. ontem fui a um churrasco no Morro Azul. toda a família comemorando um batizado em cima da laje. de repente todo mundo foi pro chão porque começou uma fuzilaria e carioca que é carioca tem um jeito Matrix de se desviar de bala perdida. o fogo cruzado durou uns vinte minutos. começou a dar tédio até. de barriga pra baixo, bebi 2 latinhas de cerveja enquanto esperava a função acabar. nunca é tarde para ser hard core, eu pensava. quando a carne, o goró e as balas acabaram, todo mundo foi embora. e eu nem vi a criança. daí cheguei em casa e escrevi que não me assusta o ruído das balas porque já o li em algum lugar, coisa que eu não fiz. mas isso você já sabe.