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6.9.12



A sra. Escovedo não acha mais papel carbono 
nas duas papelarias de sua cidade. 
Ela só precisa das papelarias e da cidade 
porque precisa do papel carbono. 
A sra. Escovedo é Rosita. 
Ninguém chama de Rosita a bisneta 
do ex-governador geral sem pagar nada. 
A sra. Escovedo também não saía de graça. 
Tinha medo dos objetos. 
Toda segunda-feira o senhor cura abençoava portas, 
fechaduras, baús, roupa de cama, panelas, xícaras de chá. 
E o missal, intocado. 
Além dos doze poodles, 
únicos seres vivos de quem dependia e 
com quem conversava por temê-los. 
A sra. Escovedo gostava de ler mas não gostava de livros. 
Nos livros nunca sabia onde entrava a mentira 
e por onde saía a verdade. 
Por isso, quando queria ler, ela mesma escrevia e se lia. 
Sem costuras, de alto a baixo. 
Nos livros havia gente demais. 
Quando ela mesma escrevia, aquela gente toda ia embora. 
E ficava o silêncio. Como uma graça alcançada. 
Tanto odiava livros que sua memória não os retinha. 
O que lia por sua própria caligrafia não esquecia. 
Desenhava as letras com esmero. 
O carbono entre as duas folhas. 
Uma para ela, outra para Rosita. 
A sra. Escovedo tinha preferência por letras com pernas. 
Falava de jejuns e vigílias. 
Dos fantasmas que amedrontam crianças que choram. 
De joelhos dobrados e mãos postas. 
Do martírio. 
Tudo verdade sem vírgulas. 
Rosita preferia os poemas. 
Que falassem da Lua Nova, do mar e suas vontades. 
Muito mais do que das flores, que falassem de bananas fritas. 
A sra. Escovedo se ria de Rosita, sua cabra-cega. 
A hóstia presa na âmbula. 
De olhos vendados e poesia, 
Rosita jamais conseguiria pegá-la. 
Assentavam bem melhor nela do que em mim.


27.12.11




Eu quero o pano de chão que estava aqui. Onde está o pano de chão que deixei aqui? Eu comprei dois e um estava bem aqui. É este um que eu quero. Você não precisa refletir muito para compreender que eu quero o pano de chão que deixei aqui. Se deixei aqui, ele devia estar aqui. Constantemente presente. Com sua razão de ser. Eu não quero o pano. Eu não quero o chão. Quero o pano de chão. Uma síntese indissolúvel. Não são palavras criadas por mim. São um objeto. Que está faltando. Isso significa uma espera. Eu espero o pano de chão que estava aqui num outro momento e neste exato não está mais. E quanto mais espero mais a minha mão pesa na caneta. A ausência é sentida e pesada. O mundo dos meus objetos não é mais o mesmo. Falta um ponto no mapa. Ou um traço. Falta um lago, uma ruazinha, uma cidade. E se falta, há um buraco. Alguém pode cair nele. Eu poderia dar pela falta de uma árvore, um poste. Um cacho de uva. Uma emoção antiga dita de uma maneira nova. Mas é do pano de chão o rosto na gravura. No primeiro momento de descuido esse rosto disfarçará a voz e não parecerá mais o que é. Isso é o mais longe que ele poderá ir. Quanto mais dou por sua falta, mais jogo o resto que me cerca fora. E por jogar o resto fora, ele se agiganta. Calcule por hectare. E ele só começou com uma frase. Eu quero o pano de chão que estava aqui foi onde tudo começou e agora não consigo alcançá-lo. A distância só faz aumentar, o que é um perigo. Se é um perigo, posso querer negar. Não, o pano de chão não estava aqui. Você tem certeza de que estava aqui? Tem certeza de que você tinha um pano de chão? Quem se importa com o teu pano de chão? De que serve? Mas eu não preciso me explicar com uma palavra, muito menos com três. Muito menos negar. Negar é fugir. Agora eu posso entender o que é uma emoção. Eu quero verdadeiramente o pano de chão que estava aqui. Arrumo minhas urgências na ordem que eu quero. Dentro do sol quente da manhã.


MP

9.12.11



Double Stops

Inácia é braçuda. Abre mensagens uma atrás da outra,
o cigarro aceso estrangulado entre os dedos, sujeitos que falam.
Apoiando o celular no ombro, aquele bração é um sofá extradiscursivo.
Como era seu costume, Carlota 
pensa nos sistemas de exclusão do século 19 em sábados chuvosos.
As duas estão muito actantes hoje mas não se mexem para me ajudar.
Sigo direto para o meu quarto e faço as malas. Elas ficam sozinhas na sala, palatalizando.
A casa é espaçosa para quem gosta e diz que não gosta.
A biblioteca é cheia para quem não lê e diz que lê.
Inácia e Carlota gostam de poetas parnasianos contemporâneos e me viram a cara
quando chamo seus fluxos de consciência de torrentes de cabriolés.
Eu não me importo, nunca espero elogios de quem me entende.
Etiqueta para ignorantes é distribuir elogios.
O mais difícil é sair de dentro de si sem precisar de focinheira.
Eu gostaria de ver o que elas guardam no sótão para ter em que pensar no trem.
Logo que cheguei me alojaram nos fundos, um aposento úmido com luz de lampião.
Conversávamos no escuro e ao dormir eu sempre caía no sonho errado.
Tive de trabalhar muito com minhas fantasias.
Na cozinha cheirando a refeitório de colégio interno,
o braço enorme me oferece um chá com Mussolini antes de eu partir.
Uma indireta.
Não falam em almoço ou saudades transitivas.
Repasso meu itinerário encaixando algumas mentiras
enquanto bebo na xícara feita por Inácia,
segundo ela uma nova concepção de objeto ocidental.
Carlota inveja minha errância, meu negligée, meus braços fininhos,
mas ao me beijar abrindo a porta da rua, elogia a singularidade de minha “paginação”.
Sensação de ardência no estômago.
Na cabine, percebo que esqueci no criado-mudo do quarto de hóspedes
minha Plongée velha onde fiz anotações para o futuro.
Também não lembro de uma palavra que disse.
Revejo na máquina as centenas de fotos que tirei do Zoo de la Barben.
Inácia e Carlota só aparecem juntas duas vezes na frente de uma jaula.
Não dá para saber de que animal.
À noite me encontrarei com Alice no Baad Bukra.
Se ela não tingiu os cabelos de vermelho e estiver de bom humor,
talvez saiba reconhecer a jaula.
Depois de tanto tempo fora, todas se parecem umas com as outras.


MP

23.11.11

Venha morrer na minha casa




Eu só tinha um título. E a vítima. Precisava da história que inventaria para atraí-la ao meu destino. Era uma noite seca e eu ouvia atentamente o silêncio embrulhando as folhas que caíam na calçada: se estiver escuro à tua frente, nunca fica de costas para ele. Eu encarava a janela fechada fingindo esperar alguém. Do outro lado da vidraça o céu negro fingindo esperar tudo que espero de uma pessoa. Ao meu lado, a cadeira e a corda. Aqui me darás a mão. Aluguei o apartamento há dois meses, parece que moro ali há centenas. O inquilino perfeito. Sem ninguém além das paredes brancas. Quase como gelo escapado ao mar. O prédio antigo e comercial é um cubo cinza. O próximo à direita. Subo pela escada, na curva trêmula das lixeiras. Em algum andar eu preciso que acabe. Não mandei ligar a luz. Quando entro, acendo a lanterna. Minhas pupilas se dilatam em três segundos. Esqueço a mão nos cabelos. Ninguém me pagou para fazer isso. Não há contrato nem veneno de rato no armário da cozinha. Se trago um café da rua, bebo depressa. A investigação será fácil. O espaço exato das folhas dos jornais. Sem sangue nas luvas para contar-lhes o resto. Só profissionais planejam mínimos detalhes. É a minha primeira vez. O ódio tem mais tempo. Lágrimas formando espuma. Custo a dormir. Ouço risadas na água, não sei a mando de quem. O ruído dos meus lábios debaixo de mim. Fico me perguntando como uma morte a mais no mundo ajudará na formação do meu caráter. Metade do meu cérebro teme por mim. Metade ninguém metade daqui a pouco. Trago anotado o número do telefone no espelho embaçado do banheiro. Certas pessoas não deviam confiar nos amigos. São os primeiros a juntar-nos ao sal para que não fiquemos insípidos. Não me surpreenderia se cortassem metade da cena e a virassem na pia. Há uma outra. A casa sempre aberta, a mesa sempre farta. O conforto de olhos recostados, guarda-chuvas transpirando, ferramentas úteis ao trabalho, à família. O conforto do entulho. Não precisar me mexer para sair do lugar. Esta é a minha parte. Apegar-me a coisas que teria coragem de perder. A mesma noite de volta outra vez dizendo venha jantar comigo. Se ela soubesse que era mentira, não atenderia. Não dobraria o corredor. Sairia correndo da areia sem deixar nenhum rastro. Mas já era um percevejo no alfinete ao cruzar minha porta num clarão de fósforo. O que queria de mim não conseguiu. Não valia muita coisa, mas era meu. Assim seja.

MP, 2011.

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25.5.09

Apesar da diferença de altura

Em um hotel de Chicago, no outono cheyenne, um rico criador de gado chamado Waco se embriaga, perde no pôquer e se associa a Maddox, ex-pistoleiro de olhos de mingau que deseja esquecer seu passado de fora-da-lei. Antes de a noite acabar, eles decidem partir para comprar uma boiada no México. Durante o acidentado percurso, a notável diferença de altura dos dois, em vez de plantar discórdia, os aproxima fazendo nascer uma amizade de fortes. Após cruzarem um deserto de sal, eles se perdem e vão parar em Wichita Sky, uma cidade-fantasma cercada de rochas esculpidas pela erosão e assombrada por espectros de índios sioux em sanguinária batalha contra espectros de ianques renegados. Sem saber se haviam chegado na porta do inferno ou do Texas, os dois amigos se mostram determinados a expulsar da cidade o que julgam ser uma manifestação do demônio. No entanto, pela primeira vez eles divergem dos métodos. Waco, que apostava no futuro nas alturas e acreditava que o céu sempre manda alguém, achava que deviam construir uma igreja evangélica, pois entre o bem e o mal não há acordo. Maddox, acossado pela memória e preferindo jogar todas as fichas na pacificação do passado, tentou convencer o amigo com palavras duras: "Hijo de cuatro puercos, odiar o diabo é o mesmo que odiar o deserto por não ter água. Temos de proteger os túmulos, não construir igrejas." Não houve regateio. Em meio a visões fantasmagóricas de tiroteios, lutas de machadinha, flechas de fogo, carnificinas, escalpos e árvores de enforcados, Waco construía a sua igreja com as tábuas do saloon, enquanto Maddox negociava a paz sepulcral com as almas penadas dos sioux para que retornassem a sua reserva e com as almas ianques para que voltassem à Inglaterra, terra ancestral de onde nunca deveriam ter saído. A salvação de Waco foi garantida tábua por tábua até que a madeira durasse. Em uma mesa branca no cemitério, Maddox garantiu a paz fumando em um rifle de 15 tiros com os líderes sioux e ianque. Na véspera do dia de Ação de Graças, Wichita Sky amanhece afinal livre das assombrações e as primeiras diligências e carroças voltam a circular. Waco acredita que foi a igreja que os salvou. Maddox silencia e não o desmente, pois a vida lhe ensinou o valor de uma amizade sincera e verdadeira, apesar da diferença de altura. Os dois desistem da boiada mexicana e compram um rancho bucólico no Oregon, onde fabricam uísque até o fim dos seus dias, embalados por sinfonias pastorais de caubóis-cantores entre um crepúsculo e outro. 


MP


6.3.03

A lenda macabra de Carlos Magno













Não sei se a história que vou relatar aqui é muito antiga ou se chegou aos meus ouvidos há muito tempo. Se  uma  verdade contada por tantos acaba virando mentira, peço que me perdoem se os detalhes da narrativa acidentalmente estropiarem a natureza dos acontecimentos. Pois a outra verdade até onde sou capaz de acreditar e de me lembrar é que o imperador Carlos Magno já era muito velho quando tudo isso aconteceu. Vivendo solitário em seu palácio de Aix-la-Chapelle, o rei, já tantas vezes viúvo, não tinha muito com o que se distrair além das infinitas reflexões acerca da sua sucessão. Os barões da corte, preocupados com a saúde frágil do rei que a cada dia parecia mais deprimido, e temendo que a morte súbita de Carlos Magno fizesse subir ao trono Pepino, o Corcunda, o primogênito herdeiro que não lhes convinha, decidiram em uma assembleia de notáveis que o rei precisava de uma rainha. E uma rainha jovem. O rei concordou com a decisão é só exigiu que ele mesmo escolhesse sua futura consorte. No entanto, o alívio de todos durou pouco porque, para surpresa geral, a escolhida foi uma jovem donzela alemã, criada do palácio. As bodas foram realizadas com toda a pompa e em pouco tempo o rei deixou de lado a sua tristeza para entregar-se a uma paixão amorosa irrefreável que fazia com que se esquecesse de sua dignidade real e negligenciasse os deveres da coroa. Do nascer ao pôr do sol o casal era visto em folguedos sensuais, totalmente nus, correndo pelos jardins do palácio ou se esgueirando pelos corredores, sem se preocupar ou se intimidar com a atenção de olhos estranhos, fizesse chuva, fizesse sol. A situação passou do constrangimento abafado ao escândalo declarado. A vida íntima do rei era motivo de chacota nas tavernas mais longínquas. Quando um dia a jovem esposa do rei caiu doente, vindo a falecer subitamente não se sabe se de friagem ou envenenada, os dignitários respiraram aliviados, mas por pouco tempo, pois o amor de Carlos Magno não morreu com ela. Inconsolável, o imperador mandou embalsamar o corpo morto de sua amada e ordenou que o colocassem em seu leito nupcial, recusando-se a se separar dele. Todas as noites o rei deitava-se ao lado do corpo frio de Constança. Tal paixão macabra espalhou-se pelo vento chegando aos ouvidos sagrados do papa que, suspeitando de bruxaria, enviou um emissário para solucionar o mistério daquela obsessão necrófila. Em chegando ao palácio, o bispo exigiu uma vistoria completa do corpo insepulto da rainha, a ser realizada por ele mesmo. Vasculhando aqui e ali, erguendo pernas e braços, examinando dedos, separando fio por fio da farta cabeleira da jovem morta, o bispo nada encontrou. Seria preciso um exame das cavidades. Por onde começaria? Achou menos grotesco começar pela boca. Afastou com dificuldade os lábios rígidos e ao puxar para fora a gélida língua, seus dedos esbarraram num metal frio. Banhado em saliva, um anel encimado por uma pedra preciosa pulou na palma da mão do bispo, que guardou-o consigo para posteriores exames. E assim, um dia depois, surpreendentemente, o rei mandou sepultar o cadáver da rainha e, esquecido de tudo, passou a perseguir o bispo pelos corredores do palácio, derramando-se em gentilezas. Desdobrava-se em mimos e elogios, lançando olhares lânguidos constantes ao religioso, situação que deixou toda a corte e o próprio bispo presos de visível embaraço. O bispo, não suportando mais aquele estado de coisas e vendo-se impedido pelo rei de viajar de volta à presença do papa, desesperou-se e, numa noite fria, após muitas orações e sentindo que seu coração fosse desfalecer, correu até as cercanias do palácio, carregando o amaldiçoado anel, e lançou-o no primeiro charco que avistou. No dia seguinte e nos muitos dias que se seguiram até sua morte, Carlos Magno nunca mais foi visto em qualquer dos aposentos do palácio. Apaixonado pelo charco, ao qual chamava de Lago de Constança, o imperador nunca mais se afastaria de suas margens e era visto frequentemente aspirando com voluptuosidade todo o odor fétido de sua lama. Pepino, o Corcunda, jamais subiria ao trono do pai. Com a alma coberta de ressentimento, o que chamava de Deus, virou monge copista e posteriormente magister officiorum da Casa do Senhor, onde inventou esta história. Debruçado sobre códices e pergaminhos, seu ofício incansável  provocou-lhe a alcunha com que é conhecido até hoje.