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1.1.12

Jules Laforgue


Caso redibitório (matrimônio) 

 Minh’alma tem sete dons raros 
e, em número maior que as obras- 
primas, micróbios, aos milhares, 
tornam-me campo de manobras. 

Ora, o sufrágio universal! 
Que chicaneia e clama insultos, 
Cada instante, ao menor sinal, 
Entre meus mil órgãos ocultos!... 

Quisera viver com sucesso, 
segundo um clássico programa, 
associando-me, em congresso, 
a alguma clássica madama. 

Pode-se cogitar, na pauta, 
em tirar exemplares, para 
si, de si mesmo, quando falta, 
porém, uma ideia, mais clara?... 

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Canção do pequeno cardíaco


Foi de uma doença do coração 
Que mamãe morreu, disse o doutor,
E que eu hei de ir lá onde ela está
Para dormir junto dela.
Escuto meu coração batendo,
E mamãe que me chama!

Todos riem de mim nas ruas,
Dos meus jeitos desengonçados;
Pareço um menino bêbado,
Meu Deus! É que o ar me falta,
Tenho medo de cair.
Escuto meu coração batendo,
E mamãe que me chama!

Às vezes vou pelos campos
Na hora do fim do dia
E choro, choro,
E o sol, não sei porque,
Me parece um coração aceso.
Escuto meu coração batendo,
E mamãe que me chama!

Ah, a vizinha Genoveva
Quisesse o meu coração...
Ah, se ela quisesse!
Sou amarelo, tão triste,
Ela é côr de rosa, alegre, bonita.
Escuto meu coração batendo,
É mamãe que me chama!

Sim, todo mundo é mau,
Menos o sol no poente
E mamãe.
E eu quero ir lá onde ela está
Dormir junto dela.
Meu coração bate, bate...

Mamãe, és tu que estás me chamando?


Jules Laforgue