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26.1.05
La dernière translation
Quando morre um velho tradutor
Sua alma, anima, soul,
Já livre do cansativo ofício de verter
Vai direta pro céu, in cielo, to the heaven,
au ciel, in caelum, zum himmel,
Ou pro inferno, Holle, dos grandes traditori?
Ou um tradutor será considerado
In the minute hierarquia do divino (himm'lisch)
Nem peixe nem água, ni poisson ni l'eau,
Neither water nor fish, nichts, assolutamente niente?
Que irá descobrir de essencial
Esse mero intermediário da semântica
Corretor da Babel universal?
A comunicação definitiva, sem palavras?
Outra vez o verbo inicial?
Saberá, enfim!, se Ele fala hebraico
Ou latim?
Ou ficará infinitamente no infinito
Até ouvir a Voz, Voix, Voce, Voice, Stimme, Vox,
Do Supremo Mistério partindo do Além
Voando como um pássarobirduccelopájarovogel
Se dirigindo a ele em...
E lhe dando, afinal,
A tradução para o Amén?
Millôr Fernandes
29.6.03
A floresta da linguagem
Um terror me sacode; estou perdido na terrível floresta da linguagem. Ignorando a estrada sintática vou tropeçando em anglicismos, latinismos, barbarismos e idiotismos de linguagem, quando ouço o silvar de vocábulos paragógicos. Caio no areal dos solecismos e sou mordido por vários anacolutos. A custo, afastando duas redundâncias e esmagando um horrendo pleonasmo, escorregando em sinistras hipérboles, agarro-me a um verbo auxiliar e a um complemento não-essencial. Porém hibridismos me barram o caminho. Ensurdecido por rotacismos e lambdacismos, arranhado por orações anfibológicas, recuo para não cair no terrível cipoal da regência, de onde raros escapam com vida. Galhos de corruptelas me cortam o rosto enquanto sufoco com o cheiro de defectivos. Ponho o pé num nome próprio, mas logo seis substantivos deverbais saltam sobre mim. Não tendo fuga, me protejo com uma próclise, evitando duas espantosas mesóclises, e aproveito um advérbio de negação para atrair três pronomes relativos colocados em posições ameaçadoras. Felizmente surge a clareira de um parágrafo. Avanço, abrindo parêntesis, onde enfio arcaísmos, anacronismos, expressões chulas e ambivalentes. Uma silepse espera-me mais à frente. Desvio-me com uma vírgula, engano uma prosopopéia, sou envolvido por diversos parequemas, a que logo se juntam odiosas ressonâncias verbais. Descanso sobre reticências, quando ouço o tantã de interjeições pejorativas emitidas por sujeitos ocultos por elipse. Apócopes! Escapo pela picada do eufemismo e paro para respirar no fim de um período simples. Avanço pela pedreira dos metaplasmos, luto com apofonias, salto o pantanal dos cacófatos, esbarro em cacografias, empurro cacologias, me arrasto pela cacoépia. Morto de exaustão, cercado por centenas de substantivos promíscuos, já desespero, quando percebo que cheguei a um lugar-comum.
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