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14.8.06

A filha de Maiakovski

Uma flauta-vértebra?







Alguém saberia dizer quem é esta simpática senhora da foto? Pois ela é nada mais nada menos do que a filha americana do poeta Maiakovski. A única filha. Seu nome é Helen Patricia Jones Thompson, filha do poeta russo com a emigrada russa Ellie Jones. Maiakovski conheceu Ellie por ocasião de uma palestra que proferiu em Nova York em 1925. Apresentados por David Birliuk, famoso pintor cubista amigo de Maiakovski e da família de Ellie, os dois tiveram um romance-relâmpago e a filha nasceria um ano depois, quando o poeta já havia retornado para a Rússia e para os braços de Lília Brik, sua eterna paixão. Ellie Jones depois se casou e a filha foi criada pelo padrasto, daí o sobrenome Thompson. Durante décadas a existência dessa filha foi mantida em segredo pela mãe e o próprio Maiacovski, que temia uma aproximação de Lília Brik, sua amante, editora e suposta agente da NKVD (futura KGB). Patricia cresceu sabendo que era filha do poeta mas não podia comentar com ninguém, tornou-se professora de filosofia numa universidade nova-iorquina, publicou vários livros e só em 1991, poucos anos após a morte da mãe e do padrasto, foi à Rússia revelar a sua identidade. Lília Brik, apesar de tudo, sabia da existência da menina mas fez o possível para apagar as evidências disso: após o suicídio do poeta em 1930, jogou fora a única foto que ele tinha da filha, aos 3 anos, e que mantinha em sua escrivaninha. Lília Brik foi a única herdeira do legado de Maiakovski, tomou posse dos direitos autorais e dos quadros de pintores famosos que o poeta ganhara de presente durante a vida, seus únicos bens, pois Maiakovski sempre viveu na penúria. A mãe e as irmãs do poeta ficaram a ver navios. Patricia Thompson, que tem um filho chamado Rodger, não reivindica o legado de Maiakovski e não acredita que o pai tenha se suicidado. A morte do poeta na verdade se deu em circunstâncias ainda abertas a muita especulação. Hoje Patricia Thompson também se chama Yelena Vladimirovna Maiakovskaia. Embora haja evidências da filiação de Patricia, creio que somente um exame de DNA poria um ponto final a dúvidas. Quem a conheceu disse que a semelhança é impressionante. Compare as fotos para ter uma idéia. Leia aqui uma entrevista exclusiva de Patricia falando a respeito de Maiakovski e do imbróglio com mais detalhes.





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23.4.03

Nosso trabalho vocabular


Os antigos dividiam a literatura em poesia e prosa.
Uma e outra tinham seus cânones lingüísticos.
A poesia -- seus metros açucarados (jambos e troqueus ou o vinagrete do "verso livre"), um vocabulário "poético" peculiar (corcel e não cavalo, infante e não moleque, e demais "flores-amores", "rosas-formosas") e seus temazinhos "poéticos" (antes: noite, amor; hoje: chamas, ferreiros).
A prosa -- heróis peculiarmente postiços (ele + ela + o amante -- romancistas psicológicos; o intelectual + a jovem + o guarda-civil -- romancistas de costumes; alguém de cinza + a dama desconhecida + Cristo -- simbolistas) e seu estilo literário-artístico peculiar (1. "o sol se punha atrás do morro" + amaram ou mataram = "os choupos farfalham lá fora"; 2. "vou dizer isto a você, Vaniazinho" + "o juiz da vara dos órfãos tomava da branquinha" = ainda veremos o céu coberto de diamantes; 3. "como é estranho, Adelaida Ivanovna" + ampliava-se o mistério assustador = coroado de rosas brancas).

A poesia e a prosa dos antigos estavam igualmente afastadas da fala prática, do jargão das ruas, da linguagem exata da ciência.
Nós dissipamos a velha poeira vocabular, aproveitando apenas a tralha de ferro das velharias.
Não queremos saber de nenhuma diferença entre a poesia, a prosa e a linguagem prática.
Nós conhecemos um único material da palavra e aplicamos a ele a elaboração de hoje em dia.
Trabalhamos com a organização dos sons da língua, a polifonia do ritmo, a simplificação das construções vocabulares, a precisão da expressividade linguística, a elaboração de novos processos temáticos.
Todo este trabalho não é para nós um fim em si mesmo estético, mas um laboratório para a melhor expressão dos fatos da atualidade.

-- Maiakovski,  1923.

13.11.02

Maiakovski

Da paixão de um cocheiro e de uma lavadeira
Tagarela, nasceu um rebento raquítico.
Filho não é bagulho, não se atira na lixeira.
A mãe chorou e o batizou: crítico.

O pai, recordando sua progenitura,
Vivia a contestar os maternais direitos.
Com tais boas maneiras e tal compostura
Defendia o menino do pendor à sarjeta.

Assim como o vigia cantava a cozinheira,
A mãe cantava, a lavar calça e calção.
Dela o garoto herdou o cheiro de sujeira
E a arte de penetrar fácil e sem sabão.

Quando cresceu, do tamanho de um bastão,
Sardas na cara como um prato de cogumelos,
Lançaram-no, com um leve golpe de joelho,
À rua, para tornar-se um cidadão.

Será preciso muito para ele sair da fralda?
Um pedaço de pano, calças e um embornal.
Com o nariz grácil como um vintém por lauda
Ele cheirou o céu afável do jornal.

E em certa propriedade um certo magnata
Ouviu uma batida suavíssima na aldrava,
E logo o crítico, da teta das palavras
Ordenhou as calças, o pão e uma gravata.

Já vestido e calçado, é fácil fazer pouco
Dos jogos rebuscados dos jovens que pesquisam,
E pensar: quanto a estes, ao menos, é preciso
Mordiscar-lhes de leve os tornozelos loucos.

Mas se se infiltra na rede jornalística
Algo sobre a grandeza de Puchkin ou Dante,
Parece que apodrece ante a nossa vista
Um enorme lacaio, balofo e bajulante.

Quando, por fim, no jubileu do centenário,
Acordares em meio ao fumo funerário,
Verás brilhar na cigarreira-souvenir o
Seu nome em caixa alta, mais alvo do que um lírio.

Escritores, há muitos. Juntem um milhar.
E ergamos em Nice um asilo para os críticos.
Vocês pensam que é mole viver a enxaguar
A nossa roupa branca nos artigos?


---  "Hino ao Crítico", 1915.