29.3.10

A matéria básica da poesia não é a palavra, mas a letra







Lanke trr gll.
Pe pe pe pe pe
Ooka. Ooka. Ooka. Ooka.
Lanke trr gll.
Pi pi pi pi pi
Tzuuka. Tzuuka. Tzuuka. Tzuuka.


- poema silábico do pintor, escultor e poeta dadaísta alemão Kurt Schwitters.

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26.3.10

Raul Seixas




A saudade é um parafuso
Que quando a rosca cai
Só entra se for torcendo
Porque batendo não vai
Mas quando enferruja dentro
Nem distorcendo não sai



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Esta conhecida sextilha de cordel, segundo alguns estudiosos, foi erroneamente atribuída a Raul Seixas no livro O baú do Raul revirado. O autor é anônimo. 


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24.3.10




sou de uma raça de cachorro ruim
desassossegado pelo sangue que
brota das noites-incompletudes escorrendo
em angústias esquivas
sou de uma raça de cachorro mau
nauseado pela lua opiada nas
madrugadas latejantes de desejos lascivos
bebendo peçonha tumultuando
os jardins com excrementos perversos.
então escancaro uma
réstia lanosa de lágrima
quando me queimo em tua lua segredada
quando substancialmente o animal
estúpido cura sua compaixão.




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21.3.10

Almoço (7)


Dia: Domingo. Nuvens carregadas, baixas e frias.

Local: Algum lugar a leste da Inglaterra no trem das 11:45 para Norwich. Escrevo isto no bar. A caminho do almoço de domingo com mamãe.

Presentes: Eu, três soldados, uma gorda e um magricelo com cara de fuinha falando no celular.

Menu: Comecei com um Jimmyburger na estação, em seguida dois ovos à escocesa no bar. No trem tracei um saco de batatas chips e um sanduíche de ovo com agrião comprados no carrinho de bordo. No vagão-restaurante, até agora, eu tinha comido uma torta de carne de porco, um enroladinho de salsicha, um treco chamado "sanduíche de lavrador" e uma barra de chocolate. Tem uma omelete solitária de salame e champignon envolta em papel-celofane que eles esquentam no micro-ondas. Por que ainda estou com fome?

Bebidas: Dose dupla de vodca com laranja no bar da estação -- desejo vão e muito passageiro de tirar o bafo de álcool. Duas latas de gim e vermute italiano no trem antes de ir atrás de comida. Comecei com cerveja. Notei que os milicos estavam bebendo a mesma coisa e então vi que ali vendiam vinho em meia-garrafa. Comprei duas depois de pedir a omelete. O rótulo diz "Vinho Tinto". Sem país de origem. Ácido, rascante, cru. Receio ficar com os lábios manchados. Mamãe, como de hábito, vai servir Moselle dizendo que é vinho branco do Reno.

Conta: Recuso-me a gastar mais de 20 libras.

Extras: Muita fumaça de cigarro, todo mundo está fumando, inclusive o cabineiro, escondido atrás do bar. A fumaça lhe escapa por entre os dedos do punho frouxamente fechado e vai parar em suas nádegas. A gorda fuma. O homem com o celular fuma enquanto murmura dentro da pequena caixa de plástico. Eu sinto um súbito gosto metálico na boca e sou subitamente atormentado por uma imagem de Diane S. -- nua, rindo.

Comentários: Os campos ingleses nunca pareceram tão vazios e mortos sob esse opressivo céu cor de chumbo. O barman acena... Minha omelete de salame e champignon está pronta, um misto de tons de amarelo com áreas em marrom fumegando de maneira duvidosa. Um cheiro curioso, repelente mas inegavelmente de comida, parece de repente invadir todo o vagão, superpondo-se a qualquer outro odor. Todo mundo fica me olhando. Desenrosco a tampa do "Vinho Tinto" e encho o copo enquanto seguimos sacolejando por Norfolk. Haja suco gástrico. Estou morrendo de fome, como é possível uma coisa dessas? Mamãe a essa altura estará preparando para mim o arquétipo de um tradicional almoço inglês de domingo: assado, batatas cozidas e dois ou três legumes, um balde de molho, queijo e biscoitos, seu pavê especial. Olho pela janela os quilômetros de verde lúgubre. A chuva cospe no vidro e os soldados começaram a cantar. É hora da minha omelete. Sei o que estou fazendo, mas isto é mau sinal, o começo do fim. Estou me propondo deliberadamente a arruinar (porque, verdade seja dita, ninguém pode almoçar antes de almoçar) o almoço.



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O conto "Lunch", que este blog acabou de publicar em 7 suaves prestações, faz parte da coletânea Fascination, de William Boyd, publicada em 2004 e com lançamento previsto no Brasil para este ano. O autor, de origem escocesa e nascido em Gana, é considerado por muitos um mestre na arte da concisão e precisão, com técnicas narrativas as mais variadas, capaz de criar um personagem numa única frase e de montar uma trama com um único parágrafo. A presença de Boyd é aguardada na FLIP de 2010.
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20.3.10

Almoço (6)


Dia: Sábado.

Local: Minha cozinha, Rostrevor Road, Fulham.

Presentes: Eu e (de vez em quando) Birgitte, a empregada.

Menu: Raspa de geladeira -- queijo cottage e pão integral, sobras do bolo de carne com batatas de quinta-feira, um restinho do iogurte de Toby, triângulos de queijo. Birgitte saiu para pegar uma pizza mas eu não aguentei esperar.

Bebidas: "Três doses de gim, uma fatia de limão e 300ml de água tônica..." Quem disse isso? Depois dois copos de Pinot Grigio antes de eu descer ao porão e desencavar o Ducru-Beaucaillou. Foda-se. Dei um pouco para Birgitte, que virou a cara. Preferia sua própria cerveja. Ela me deu uma latinha quando meu Beaucaillou acabou. Coisa forte. Dormi o resto da tarde.

Conta: A Condição Humana.

Extras: Sinto falta de Toby e Jennifer. Sinto falta do nosso almocinho de sábado. O melhor almoço da semana.

Comentários: Música -- primeiro o Trio para Trompa de Brahms, mas me deu vontade chorar. Birgitte pôs uma coisa mais rítmica, étnica. Ela me deu uma fita de ondas do mar quebrando na praia. "Para relaxar", disse ela. Que garota de bom coração! Por que alguém comeria queijo cottage? O que, falando em termos de gosto e textura, pode recomendar isso? Jennifer e seus regimes idiotas e eternos. Perfeitamente magra, perfeitamente... Os triângulos de queijo eram incrivelmente deliciosos, comi a caixa inteirinha com o Beaucaillou.


(parte final amanhã)


William Boyd

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19.3.10

Almoço (5)


Dia: Sexta-feira.

Local: Montrose Dining Club, Lincoln's Inn. Subsolo, salão superiluminado, mesa comprida central. Equipe de funcionários composta por ex-porteiros de faculdade muito velhos e garotas monoglotas muito jovens que parecem vindas do Leste Europeu.

Presentes: Eu e Alisdair Lockhart.

Menu: Camarões em conserva com torradas, pato à l'orange, torta de melaço (!).

Bebidas: Gim-tônica, clarete, conhaque.

Conta: 28 libras. (Eu paguei. Preço absurdo. Alisdair disse que podia pôr na conta dele mas eu insisti.)

Extras: Umas 5 mil libras, se eu bem conheço Alisdair.

Comentários: Viagem no tempo. Uma volta à escola. Essa era a culinária inglesa até bem pouco tempo, esquecemos que era isso que costumávamos comer. Camarões em conserva parecendo manteiga gelada, torradas murchas. Pato cozido à extinção, molho doce enjoativo. Pedi torta de melaço em nome da nostalgia. (Alisdair tem uma caspa assustadora para um homem relativamente jovem.) Eu disse que as coisas com Jennifer estavam ficando cada vez mais difíceis. Ele não se mostrou otimista. Perguntou se isso já tinha acontecido antes e então contei do ultimato de Jennifer. Ele mencionou rapidamente a questão da custódia de Toby. Precisou ir embora cedo pois tinha que estar no tribunal. Deprimente. Tomou uísque num pub irlandês.



(cont.)

William Boyd

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18.3.10

Almoço (4)


Dia: Quinta-feira.

Local: La Casa del' Luigi, Fulham Road.

Presentes: Eu, Diane, Jennifer (mais tarde).

Menu: Minestrone, espaguete à bolonhesa, tiramisu.

Bebidas: Gim-tônica, Valpolicella, substituído por um Chianti Classico depois de derramado. Muita grappa após a chegada e partida de Jennifer.

Conta: 73 libras, arredondadas para 90. Sem agradecimentos.

Extras: Um maço de Silk Cut. Três copos, dois pratos. Serviço de lavanderia incluído.

Comentários: O minestrone era de lata, juro. O espaguete à bolonhesa do Alfredo incrivelmente autêntico como sempre (por que nunca se consegue fazer um assim em casa?). Ele se recusa a divulgar o segredo, mas tenho certeza de que leva fígado de galinha no ragu. Que precisa cozinhar em fogo brando por dias, também. Tiramisu sem graça, velho. Um grande erro vir comer tão perto de casa. Um erro MONUMENTAL. Jennifer ia passar direto. Quem foi o garçom filho-da-puta que avisou a ela que estávamos aqui?



(cont.)


William Boyd

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17.3.10

Almoço (3)


Dia: Quarta-feira.

Local: "Suíte" de refeições do presidente, sexto andar. Ambiente em madeira de carvalho clara. Prataria. Belos quadros - um pequeno Sutherland, perfeito, um Alan Reynolds, dois Craxtons.

Presentes: Eu, sir Torquil, Gerald Vere, Barry Freeman, Blake Ginsberg (o novo médico), algum alto executivo da área financeira (apresentado apenas com um "você conhece o Lucy") - não deve ser o primeiro nome dele, certo? Pinta de estrangeiro).

Menu: Terrine de legumes, costeleta de cordeiro com batatas, framboesas com crème fraiche. Stilton.

Bebidas: Meu frasco de uísque no banheiro de baixo, depois Vodkatini (podia estar mais gelado), um Chablis bastante correto, seguido de um Domaine de Chevalier safra de 1978 (sensacional). Vinho do Porto (Taylor's, sem data).

Conta: Um preço alto demais a pagar.

Extras: Ao menos pude ver o Sutherland.

Comentários: Com exceção da terrine de legumes (sempre uma absoluta perda de tempo), bufê de alto nível para um ambiente de trabalho. Apreciável. O cordeiro no ponto certo. Vinho soberbo. Tiveram a elegância de esperar pelo queijo. O homem condenado teve uma farta refeição. Porcos desalmados filhos-da-puta.


(cont.)

William Boyd

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16.3.10

Almoço (2)



Dia: Terça-feira.

Local: Eurotel Palace, Aeroporto de Heathrow.

Presentes: Eu e Diane S.

Menu: Insalata Tricolore, linguado a Dover, tarte aux pommes.

Bebidas: Gim-tônica no bar, Merry Dale Chardonnay, champanhe da casa acompanhando sobremesa.

Conta: 96 libras (serviço incl.).

Extras: Irish coffee servido no nosso quarto: 5,50 libras cada. Um maço de Silk Cut.

Comentários: Música clássica de fundo quase inaudível. Mussarela borrachuda. Quando é que os ingleses vão parar de servir "Uma seleção de legumes"? Cenouras sem gosto nenhum, brócolis aguados, parecendo nabo. A tarte aux pommes é uma simples torta de maçã, não favorecida pela tradução. Champanhe da casa surpreendentemente bom - borbulhas pequenas, encorpado, leve toque de maçã. Irish coffee intragável - dinheiro jogado fora.



(continua)

William Boyd

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15.3.10

William Boyd



Almoço



Dia: Segunda-feira.

Local: Le Truc Interessant, Lexington Street, Soho.

Presentes: Eu, Gerald Vere, Melanie Swartz, Peter (qualquer coisa) do Banco Svenska, Barry Freeman, Diane Skinner (diretora financeira da S.L.L.& L.), Eddie Kroll (saiu antes da sobremesa).

Menu: Tabouleh chinois, roulade de foie de veau farcie, millefeuille de fruits d'hiver.

Bebidas: Dois Moet & Chandon non-vintage, dois Sancerre, um Pichon Longueville safra 1983, um tinto provençal chamado Mas Jullien. Vinho do Porto, brandy (eau de vie de prune para Diane S.).

Conta: 878 libras, serviço não incluído.

Extras: Romeo y Julietas para Vere e Freeman, camiseta e jogo de temperos para Melanie. Um maço de Silk Cut para Diane S.

Comentários: Sem música ambiente. Tabouleh chinois - um tabule comum com pedaços de lichia. Diferente. Roulade de foie primoroso, servido sobre purê de aipo. Diane S. mal tocou na comida, "guardando-se para a sobremesa". Millefeuille - nota 8, numa escala de 0 a 10, para a massa folheada. Frutas insípidas. Diane S. bancou a conta. E também meu táxi na volta. Obrigado Swabold, Lang, Laing e Longmuir. Muitíssimo obrigado a todos.



(continua)

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11.3.10




Óculos-periscópio, para ler na horizontal. Nationaal Archief, Holanda.


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2.3.10

Fabrício Marques




Mini litania da política editorial


Me suplica que eu te publico
Me resenha que eu te critico
Me ensaia que eu te edito
Me critica que eu te suplico
Me edita que eu te cito
Me analisa que eu te critico
Me cita que eu te publico
Me publica




Êxodos


vá para o ardor que te adense
vá para o salto que te sacuda
vá para o passado que te pertence
vá para o ruído que te restaure
vá para o frêmito que te festeje
vá para o vértice que te vasculhe
vá para o crepúsculo que te carregue

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