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21.11.09

Paulo Leminski - "A literatura é a classe dominante dos signos"





Tem dois tipos de poesia. A que contraria expectativas. E a que satisfaz uma demanda. Exemplo da primeira: poesia concreta. Exemplo da segunda: Thiago de Melo, Ferreira Gullar, Carlos Nejar etc.

Quero deixar claro que desejo o mesmo tipo de sociedade que Thiago de Melo deseja. Pelo menos na organização econômica. No terreno estético, porém, a esquerda brasileira, os artistas engajados e alinhados com a transformação da sociedade são o fim da picada.

Jdanovistas, naturalistas (e não realistas, como pensam ser), sectários, populistas, correspondem àquilo que, na URSS, chamou-se proletcult. Em contraposição ao grupo LEF, liderado por Maiakovski, e que defendia a vanguarda como nova arte do proletariado triunfante, a proletcult defendia uma literatura velha, só que com temas operários e populares. Essa literatura velha era o bom romance burguês do século 19, suas formas e técnicas. O poemão e a versalhada.

O problema dos proletcultistas brasileiros (nacional-populistas) é que eles não chegam ao povo, no duro. Como? O povo é analfabeto ou vê TV. Então eles fantasiam tudo na cabeça deles. A presença do povo, a atuação do escritor. Até a revolução. Mas é tudo imaginário. No duro, o que eles querem é vender livros, aparecer, trabalhar na rede Globo e -- last but not the Franz Liszt! -- GANHAR PODER. A arte que eles fazem fica dentro da intelectualidade pequeno-burguesa mesmo, em noites de autógrafos.

Versinhos participantes ingênuos são hoje a classe dominante da poesia brasileira. Com esse país que taí, realmente a raiva é tanta que tudo que a gente puder jogar contra esse sistema a gente joga: até sonetos! A merda é que esses versinhos participantes, como linguagem, já foram feitos, estão consagrados e fazem parte do Panteão burguês: é o Drummond da Rosa do Povo de 1940. Agradam, não agridem. Aquela poesia do Drummond só era nova para os padrões brasileiros. Na realidade, no mundo inteiro, estavam fazendo aquele tipo de poesia: Neruda, Éluard etc. Aliás, até o nome do livro "Rosa do Povo" vem de fora. Bem antes, Éluard publicara um livro de poemas: "La Rose Publique".

Essa poesia participante de hoje é a diluição intensiva da poesia antifascista da época da Segunda Guerra e da Resistência. Quer dizer, os "revolucionários" estão com o relógio poético atrasado quase cinquenta anos!

Eu não acredito nos revolucionarismos de contistas realistas. Os homens de letras engajados que se vê por aí são oportunistas. Eles jogam numa dupla: se a revolução ocorrer, eles estarão muito bem, nos empregos e nos compêndios. Se ela demorar, sempre tem uma vaga de roteirista na TV Globo ou uma cadeira dando sopa na Academia Brasileira de Letras.

A revolução que esses caras querem é bem pequenininha.

Eu quero uma grande. A grande. A total.

O Satori Coletivo.

O homem de Guevara, além de todas as alienações.

Das literárias, inclusive.

Tudo pode ser recuperado via moda. Revival. Nostalgia. Nosso tempo é o tempo da recuperação da informação. A multiplicação das técnicas de reprodução e o progresso das técnicas de registro tornam todas as épocas contemporâneas, no terreno intelectual, cultural e artístico. A crise da poesia é o momento em que a poesia é atingida pelo impacto dos outros códigos (visuais, musicais, gestuais etc.). E seu campo de possibilidades se multiplica pelo número de códigos com os quais pode cruzar. A rua manda na página. A rua com seus poderes múltiplos. A maré das ruas bate na porta das casas, cerca a página. Na página, o passado se defende. A página é a casa. A memória. O sentido. Os significados. Na rua, nascem sempre os novos significados.

Dever do poeta é manter acesa a chama e a ideia de poesia. A noção de uma atividade radical, crítica e utópica. Na linguagem. Não apenas conteúdos edificantes e pios temas veiculados através de um discurso convencional e recebido passivamente. Um poeta deve, sobretudo, agenciar os meios para poder continuar sendo poeta. Até os 21 anos, todo mundo é poeta. O foda é depois. Daí você tem de provar. Poucos resistem. Noventa e nove por cento dos que fazem poesia hoje, dentro de dez anos estarão fazendo outra coisa. Poesia não é brincadeira. É loucura mesmo. É nadar contra a corrente. Produzir o antidiscurso. E, principalmente, evitar coisas como o sucesso e a consagração. Aquilo que o sistema canoniza como boa poesia é apenas a poesia que ele consegue vender. Edições bem-sucedidas não fazem a boa poesia. Tem que segurar a barra sem parar. Senão acaba desfrutável como Drummond. Ou acadêmico como João Cabral.

Toda poesia que é poesia mesmo é experimental. Poesia de invenção. Todo poeta tem estes momentos. Você os encontra em Bandeira. Em Drummond. Nos músicos poetas, Gil, Caetano, Chico. São eles, esses momentos, que valem. O resto é moldura. O recheio de prosa sem o que não se vive.

Os poetas das mais novas gerações são às vezes naturalmente "experimentais". Experimental é a atitude que contesta e questiona as formas do passado, a poesia desautomatizada, a que pratica a subversão de nos despertar da hipnose das formas tradicionais, que a burguesia mima, promove em suas universidades, premia em seus Concursos porque FORMAS TRADICIONAIS VENDEM. A ordem literária exprime a mesma ordem que reprime e explora o operário. E os versinhos que se dizem a favor dos operários vendem que nem pão: um fenômeno mercantil, como qualquer outro. O poemão e a versalhada trazem na pele a marca de suas origens burguesas. E até latifundiárias... Com temas populistas, são caridade cristã. Alívio da consciência pesada do intelectual da classe média.

Não há dúvida: quanto mais poético, mais político. E o experimental é a poesia mais antiprosa. Experimental é o risco. Não concebo poesia sem risco.

O maior inimigo da poesia é a literatura. A literatura é a legalidade poética. Ora, a poesia -- se tem um sentido -- é ser uma atividade ilegal, marginal, criminosa, em termos de linguagem. Então, viva a poesia! Abaixo a literatura!

A poesia se manifesta em experiências falhas. Discutíveis. Inclassificáveis. O discurso automatizado que se pratica por aí, com o nome pomposo de P-p-p-oesia, só é bom para as editoras e academias, o aparato repressivo do texto.

Poesia é lógica e linguagem insurretas.

Poesia é extremismo.

Poesia média é prosa. Empilhada em versinhos. Ou acondicionada em estrofes. O sistema insiste em dizer que sabe o que é poesia.

Mentira.

Pergunte aos poetas.

Ninguém sabe o que é poesia.

Ainda bem.



(Paulo Leminski, em artigo escrito para a revista Gandaia, n.6, abril de 1980.)




19.3.06




isso de querer
ser exatamente aquilo
que a gente é
ainda vai
nos levar além



Paulo Leminski, "Incenso fosse música".



19.9.03



saber é pouco 

como é que a água do mar

entra no coco?





Leminski

30.8.03

Alguma entrevista: Paulo Leminski


E o boom literário, o que há de bom no boom?

PL: O boom literário brasileiro é um fenômeno, até agora, quantitativo. Há milhares de brasileiros escrevendo contos e poemas, editando revistas regionais, suplementos literários e até mesmo livros.
Mas nada de novo. Todos estão indo no caminho da velha literatura.
O boom é um subproduto da elevação dos índices de alfabetização e universitarização que o Brasil vem conhecendo. É natural que gente que aprende a escrever comece a escrever. E entre pela porta da subliteratura. O boom tinha que ser de pensamento. O brasileiro tinha que começar a aprender a pensar. Em vez disso, ele se põe a escrever. Uma salva de palmas para a literatura.

-- íntegra publicada no jornal "GAM", Rio, 1976.



um dia a gente ia ser homero
a obra nada menos do que uma ilíada
depois
a barra pesando
dava pra ser aí um rimbaud
um ungaretti um fernando pessoa qualquer
um lorca um éluard um ginsberg
por fim
acabamos o pequeno poeta de província
que sempre fomos
por trás de tantas máscaras
que o tempo tratou como a flores


-- Paulo Leminski

6.4.03

um dia as fórmulas fracassam
a atração dos corpos cessou
as almas não combinam
esferas se rebelam contra a lei das superfícies
quadrados se abrem
dos eixos
sai a perfeição das coisas feitas nas coxas
abaixo o senso de proporções
pertenço ao número
dos que viveram uma época excessiva

-- Paulo Leminski, "Coroas para Torquato", 1977.

4.4.03

O conto democratizou a literatura no Brasil.
É o volkswagen dos gêneros, aquele que pôs a classe média sobre quatro rodas.
Com o triunfo do conto, todos podem pensar em ser escritores, entrar na literatura, ingressar nessa carreira com mais passado que futuro.
A poesia é muito rara, muito difícil, muito sacrificada.
O romance é muito longo, exige capacidade de orquestração, domínio do todo e das partes, fôlego de mergulhador, paciência de beneditino, coisas difíceis de encontrar por aí.
O conto é a solução.
Contar uma história é a maneira mais óbvia de estruturar um texto.
Mas há um infinito de maneiras.
Por que preferir o óbvio ao infinito?
O nascente e crescente público consumidor de textos não-práticos assim o quer.
O tempo anda tão caro e tão escasso, para que complicar a vida das pessoas?
Entendo que muitas coisas estejam se passando sob as espécies de conto: política, conquistas de linguagem, ampliação de mercado.
Mas acredito, com Décio Pignatari, que, no conto, interessa o que não é conto.
Interessa o que é outra coisa: signo, violação, flagrante delito.
A fordiana produção em série de contos obedecendo a uma mesma programação (com variantes insignificantes) que vemos hoje deverá crescer até o processo produzir, por extrema redundância, contradição interna e arrebentar em nova síntese, imediatamente canonizada como a nova ordem.
Fundamental o papel que o conto está desempenhando no sentido de firmar o nome de escritores brasileiros, movimentar o mercado editorial e livreiro.
Nesse sentido, o conto merece o que está acontecendo com ele: está em vias de se transformar em sinônimo de literatura, no Brasil.
Calculo que, para cada vinte novos contistas que surgem, surge um poeta.
Vocações para romancista também são mais raras.
Mas essa nossa emergente prosa de ficção apresenta nível de redundância e banalidade estrutural só comparável ao do soneto no passado.
O conto é o soneto de hoje.
O soneto também foi veículo cômodo e portátil para divulgar e generalizar a prática e o consumo da poesia.
Afora isso, está sendo muito pequeno o contributo do conto para o progresso do texto de imaginação entre nós.
Nossa prosa não aguenta confronto com os latino-americanos, mais atrevidos na concepção e na realização, mais surpreendentes, mais corajosos na inovação.
E a vida, que vocês tanto falam?
Quem escreve como se escrevia há vinte anos atrás sai de livros de literatura, não da vida. Inovar! Aprendam com a vida, que é a mãe inesgotável de processos, formas e estruturas.
Parte da resistência da inteligência letrada ao nosso estado de coisas está se fazendo sob a pele do conto.
Pena que essa resistência se dê, na maior parte, através de conteúdos muito previsíveis, por intermédio de recursos, soluções e efeitos herdados passivamente e não questionados.
Quase não se vê ninguém nas trincheiras da linguagem.
E a cerração da redundância torna mais escura esta noite que sabe Deus quanto tempo ainda temos que sofrer.


-- Paulo Leminski, em depoimento à revista Escrita, 1979.