22.12.08



O nosso mundo é aquele pequenininho ali, meu bem.
Por que brigarmos?
A vida é curta, muito curta,
e já vivemos boa parte dela.
Morrer é tão simples,
diferente do que se lê nos livros.
Brindemos a 2009.
Ou você tem outra sugestão?

21.12.08



O André gosta d'eu.
Eu também gosto d'el.
Pô, Dré, não precisa elogiar,
eu ainda sou uma
completa idiota em formação.
bj

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Ernst Meister




Na beira do mar


Na beira do mar
os risos: pescaram
um peixe que fala.
Mas ele diz
o que todo mundo já sabe.




Ernst Meister, trad. MP.

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16.12.08


Querida mãe

Como chove. Espero a chuva passar para lhe comprar meus presentinhos de Natal. Não esquecerei das suas vacas, mamãe. Elas também são filhas do Altíssimo. Mas como o dinheiro está curto, meus regalos a todas não passarão de 2,99. Não esqueci da sua roçadeira, mas por enquanto acho que só poderei lhe dar um ancinho. Não vejo a hora de poder abraçá-la neste Natal. Ainda não entendo por que a senhora precisa morar tão longe dos seus filhos e netos. Nessa casa tão fria e solitária. A vovó, que Deus a tenha, deve achar que não cuidamos da senhora. Pena que não possa morar conosco, a senhora sabe que aqui é tão pequeno. Falando nisso, o Aliomar manda beijos, os meninos também. Na verdade o Norinho está febril há dias e acho que não passaremos o Natal com a senhora. É tão triste isso, nossa família desunida nesta data tão bonita. Eu mesma não me sinto muito bem. Afora isso, temos muita saudade e lhe desejamos um Feliz Natal. Da sua filha que te ama

Odete




Laura, minha filha, a roçadeira eu já comprei. Deixe o espírito da sua vó em paz que onde ela está já não acha mais nada. E não se preocupe comigo: eu odeio Natal. As vacas estão bem e desejam a todos um Feliz Natal.

Com amor da sua mãe


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13.12.08



Zélia, 1989-2008

Nunca aborreci ninguém nestes seis anos de Prosa Caótica postando coisas sobre meus bichos. Mas, pombas, este blog é meu e hoje foi o dia em que Zélia, a minha gata, escolheu para morrer. Morreu de velha, dormindo em sua caminha quietinha, apagando como uma vela, devagarzinho, em silêncio, na posição dos gatos. Enterrei-a no jardim de casa. Ela agora é meu amuleto da sorte, espírito de guarda da casa. A gata mais safada deste mundo, para quem a conhecia bem, como eu. Menina de rua, preto-e-branca como um filme antigo, nascida nos jardins do Passeio Público e resgatada no meio-fio por uma boba semi-embriagada que se encantou com seu cheirinho de patchuli quase vinte anos atrás. Como uma gata vagabunda com esta pinta abusada no nariz pode cheirar a patchuli? Mas essa era a Zélia, sempre cheirosa, que recebeu este nome por conta da Zélia Cardoso de Mello, não porque sua dona admirasse a ministra, longe disso, mas porque era o nome da hora, e cairia bem num gato, nos fazia rir. E todos riam. Zélia, que me salvava de baratas, camundongos e tantos bichos escrotos. Que pulava três metros para caçar uma lagartixa na parede, num loop inacreditável. Que pela manhã me avisava que era hora de trabalhar, e à noitinha, que era hora de parar de trabalhar. Que jogava futebol comigo com bolinhas de papel. Que esquentava minha barriga, amassando cacau, em meus dias de cólicas de mulher. Que tomava café-da-manhã comigo sentada na cadeira ao lado, esperando uns fatacos de bolacha. Que não gostava de leite, porque só gato de cinema perde tempo com leite. Que riscava fósforo para seu próprio reflexo no espelho. Que subia nas cortinas e ficava lá agarrada, se balançando feito uma macaca e olhando lá do alto para ver se tinha platéia. Que, sem a menor vergonha na cara, corria de rabo torto quando sabia que tinha feito merda. Que enfiava comigo a cara na geladeira para procurarmos algo de bom lá dentro. Que gostava das visitas, principalmente das que não gostavam de gatos. Que se escondia no alto da caixa d'água para fugir dos dias de vacina. Que apartava brigas de outros gatos brabos partindo pra cima deles e botando ordem na casa, que era dela. Que me farejava de longe, quando eu ainda estava botando a chave na fechadura da portaria do prédio das Laranjeiras. Que me acompanhou por todas as inúmeras casas em que morei depois disso. Que gostava de rock pesado, de fumaça de cigarro, de dormir nos meus livros e papéis. Que me devotava um amor incondicional mesmo que eu impusesse condições para amá-la. Essa era a Zélia, a que escapou da morte várias vezes, mas agora não deu. Gatos não são Nosferatus. Durma em paz, minha menina.

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10.12.08




Exercício para o novo ano


1) Tive uma ideia, foi um enjoo.

2) Matem a jiboia, mas o Méier fica.

3) Eu te perdoo, Bocaiuva.

4) O paranoico semirrígido tomava um extrasseco.

5) Biorritmo: Pode pôr, meu bem, e não para.

6) Recuso-me a fazer esta ultrassonografia antissemita.

7) O meu autorretrato já vem com antirrugas.

8) Ele apoia infraestruturas intraoculares neo-ortodoxas.

9) Caiu de paraquedas na antessala do micro-ondas.

10) Na Coreia, jogávamos os alcaloides pela claraboia.

11) Na plateia todos comemoravam o quinquênio da linguiça.

12) Estreia hoje "A Baiuca Subumana".



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6.12.08




Those were just to say


Não eram amoras, Bill
Me perdoe



(a William Carlos Williams)

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22.11.08



não é por ser meu filho, não
mas Aderaldo é burro
acho que emburreceu
no dia em que aceitei
ser madrinha de um elefante
- mãe minha não batiza elefante
fez uns olhinhos de
queijinhos chorosos
e desdaí só abre a boca
para traçar nacos de
minhas goiabadas Thereza Quintella
hoje pede carinho aos cães
eu não me meto porque
não se deve acender fósforos em Cabul
e porque obras de gênio demoram
mas também apodrecem
o pai dele diz que a culpa é minha
por ser vegetariana
e o vegetarianismo
como toda gente sabe
encolhe o cérebro
acho que o pai dele
também é burro
bem faz o Rubens
que não tem TV em casa
tá bom o chá, minha filha?

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15.11.08

Fiama Hasse Pais Brandão





Pedra em expansão


Diz não são os anos que passam
é a pedra

Não o tempo
o que por mim passa
mas ela
que somente acompanha

Diz não passam anos
para a minha idade
só uma pedra está


Fiama Hasse Pais Brandão

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12.11.08

andei somatizando uns salgadinhos em três botequins diferentes
até aí nada de mais se tua indiferença não me marcasse somati-
zando aguda dor de estômago e certa insônia e boca amarga
minha grande insegurança é que tua atenção ao cachorro parece
mais convincente
aliás o tempo de convivência faz a gente se acostumar com um
carinho certo que às vezes entorta quando alguém vira tua som-
bra e não tem nem tanta luz pra isso
tenho notado que escrever à mão dói mais que escrever à
máquina
será assim que os patrões escolhem a máquina e mandam a mão
à puta que lha pariu





texto: Charles, Coração de cavalo, 1979.
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7.11.08

Cacaso



Os vermes devoram a galinha. O rio
devora os vermes e se devora.

É logo ali Pirapora.



Cacaso, "Município", 1975.
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30.10.08


Sua mãe foi embora em um mês de junho. Disse que não tinha mais nada pra ela nessa cidade. Viúva, o filho morto. Me olhei no espelho e vi que ela tinha razão. Dei uma mão na hora de fazer as malas. Ela me beijou de leve na boca e me chamou de lindinho. A gente trepou uma última vez, a melhor de todas, e ela me deu um conselho de mãe: Tenta não se matar, garoto. Eu olhei pra ela como se prometesse alguma coisa. Nesse momento, ela fechou os olhos. E pareceu que não ia abrir nunca mais.


Eis um trecho do segundo livro do escritor e amigo André de Leones, Paz na terra entre os monstros, que acaba de ser lançado pela ed. Record. Não perca, nas melhores livrarias do ramo. E quem for de Goiânia, aproveite para dar uma passadinha na noite de autógrafos, hoje às 19h, na livraria Saraiva do Shopping Flamboyant. Eu já li e recomendo, cá esperando pelo lançamento no Rio.


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29.10.08

Casas de pó




Alguém já disse que os artistas precisam criar na mesma proporção da capacidade que a sociedade tem de destruir. É no que parece acreditar a artista colombiana radicada em Miami, Maria Adelaida Lopez, com suas "Casas de Pó". Enquanto a civilização limpa o seu pó e dá as costas, ela confecciona sua obra com casas de boneca e o pó dos aspiradores, formando paisagens da vida doméstica, da vida de dentro e de fora.









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28.10.08

Dicas para quem quer comprar ou alugar uma casa: saiba interpretar os anúncios



Você se pergunta o que isso tem a ver com literatura? Tudo, posso dizer sem medo de errar. Ora, se sabemos que a literatura se distingue das demais formas de conhecimento da realidade pelo fato de exprimir-se por meio de palavras polivalentes - palavras que contêm vários significados -, o que seria mais polivalente do que um anúncio dos classificados? Como a literatura, a propaganda também mente, engana, finge uma realidade que não é a que se conhece. Como a literatura, a propaganda é uma mera representação, uma realidade paralela. Portanto, classificar algo como "propaganda enganosa" é incorrer em redundância. Toda propaganda é forçosamente enganosa, ou não seria propaganda. Posto isto, vejamos alguns poucos exemplos de signos polivalentes em anúncios de casas. Quando você ler que uma casa

- é de "fácil acesso", isto pode significar que a casa fica em beira de rua, perto de um ponto de ônibus, ao lado de um supermercado, de uma casa de funk, de uma igreja evangélica, enfim, sem a menor privacidade e provavelmente barulhenta;

- é "rústica", significa que é tosca, detonada ou sem acabamento, provavelmente feita de material reaproveitado, sobras, o que eles chamam de "reciclado";

- é "charmosa", sem dúvida a casa deve ser torta, de arquitetura impossível, toda fora de esquadro, quando o próprio dono fez o projeto e chamou uns dois ou três pedreiros para levantar o trambolho;

- é "aconchegante", pode esperar que os cômodos são mínimos, impossível de abrir os braços no banheiro;

- é "ensolarada", é porque ela é tórrida, um Afeganistão, sem um pé de árvore para lhe consolar;

- é "sombreada", neste caso ela pode ser escura, úmida, cheia de mofo, quase sinistra; você vai começar a ter problemas respiratórios e achar que é asmático, vai ter dores nas articulações e achar que é reumatismo;

- tem "cisterna", prepare-se que a água é pouca, eventualmente você precisará de um caminhão-pipa para encher a cisterna;

- fica em "local tranqüilo", isto significa que ela pode ficar num fim de mundo, longe de tudo que se conhece por civilização, você vai levar horas para chegar em casa;

- fica em terreno com "ligeiro declive" ou "suave aclive", não pense duas vezes, a casa fica numa pirambeira;

E boa sorte.

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27.10.08

Wesley Peres



Do corpo de uma mulher, algo é voz
Há uma química de mãos em seus olhos,
eles arestam meu corpo
e povoam de relâmpagos
cada um dos meus lábios
estes, que se freqüentam de silêncios
em dilatação no espaço escandido
por um tempo, ao mesmo tempo,
contínuo e descontínuo.
Morri três vezes neste dia
de lábios que se calam
por sonorização de cômodos
do corpo que por comodidade
chamo de vísceras
— chego a pensar que é mesmo
entre elas que, de seus olhos,
vêm os relâmpagos de calar
lábios e produzir,
no corpo,
arestas sutis
como o instantezerodeumundo
.



Wesley Peres, em poema-resposta ao nosso post "Procura-se um poema erótico...". Nossos agradecimentos ao autor.

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22.10.08




Inscription for the ceiling of a bedroom


Daily dawns another day;
I must up, to make my way.
Though I dress and drink and eat,
Move my fingers and my feet,
Learn a little, here and there,
Weep and laugh and sweat and swear,
Hear a song, or watch a stage,
Leave some words upon a page,
Claim a foe, or hail a friend --
Bed awaits me at the end.

Though I go in pride and strength,
I'll come back to bed at length.
Though I walk in blinded woe,
Back to bed I'm bound to go.
High my heart, or bowed my head,
All my days but lead to bed.
Up, and out, and on; and then
Ever back to bed again,
Summer, Winter, Spring, and Fall --
I'm a fool to rise at all!

Dorothy Parker
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20.10.08

Procura-se um poema erótico que não faça sexo



Procura-se um poema erótico que não faça sexo, que não use as palavras contornos, curvas, fendas, gretas, canais, seios, gemidos, ventre, flancos, orgasmos, espasmos, espermas, gritos, gozo, bocas, dentes, desejo, língua, lábios, lóbulos, nádegas, coxas, corpos, beijos, abraços, mãos, dedos, mamilos, orelhas, cabelos, saliva, pernas, quadris, rego, abertura, carne, cama, lençóis, roupas, travesseiro, sucos, sumos, êxtase, febre, calor, suor, umidade, líquidos, pele, peso, teso, penugem, órgão, tato, encaixe, coração, paixão, prazer, ponto g, sedas, poros, incêndio, libido, dentro, fora, duro, mole, seco, molhado, hálito, adagas, facas, velas, varas, baloiço das ancas, pênis, vagina, ânus, clitóris e seus semelhantes, palavras estas que já começam a brochar e entediar os leitores. Cartas ao editor.

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13.10.08

Mário de Sá-Carneiro




Meu querido Amigo, não sei por quê eu já não venho ao Café Riche. Talvez porque na mesa do fundo, ali no canto - onde um "monsieur decoré" se embebe do TEMPS - receie encontrar o Sá-Carneiro, o Mário, de 1913, que era mais feliz, pois acreditava ainda na sua desolação... Enquanto hoje... Descia-a toda; no fundo é uma coisa peganhenta e açucarada, digna de lástima e só para os rapazes do liceu a receberem à tourada. Creia o meu Amigo que é absolutamente assim - sem literatura má, sem paulismo, afianço-lhe. / A verdade nua e crua:

- Quando eu morrer batam em latas,
Rompam aos berros e aos pinotes -
Façam estalar no ar chicotes,
Chamem palhaços e acrobatas.

Que o meu caixão vá sobre um burro
Ajaezado à andaluza:
A um morto nada se recusa,
E eu quero por força ir de burro...


Mas então para fixar o instante desta minha vinda ao Café Riche, onde agora já não entro com medo de encontrar o Mário - hoje felizmente ele não estava, estava só o monsieur do TEMPS - envio-lhe esta carta inútil e riscada que você perdoará, hem?



(Mário de Sá-Carneiro, em carta a Fernando Pessoa de 16 de fevereiro de 1916, dois meses antes de seu suicídio. O poema levou o título de "Fim".)


11.10.08

Jacques Lacan




O amor é dar o que não se tem
a alguém que não o quer.


-  Conferência de Louvain, 13 de outubro de 1972.

8.10.08



O post de hoje vem manifestar apoio irrestrito ao poeta, professor de literatura e amigo deste blog Oswaldo Martins e total repúdio à Escola Parque do Rio de Janeiro por sua atitude medieval ao demitir o professor e poeta, alegando serem incompatíveis o exercício do magistério e a prática da poesia. A escola, que se autoproclama "de vanguarda" e voltada à expansão cultural de seus alunos, demonstrou incompetência na gestão de um conflito entre pais e professores e optou pelo caminho mais fácil, afastar sumariamente o professor de seus quadros, sem discussão. Uma atitude aliás que costuma ser a regra de qualquer escola medíocre de ensino pago. Afinal, não se pode desagradar o cliente, e a educação é um produto customizado. Oswaldo é poeta e eventualmente publica em seu blog poemas eróticos, o que foi descoberto por alguns pais de alunos que pediram à diretoria a cabeça do professor. Mais um exemplo de que a dita pós-modernidade ainda não deixou os cueiros da era medieval. Lamentável. Mas, diante de coisas como essas, como diz a Fal, "Tomara que a nave-mãe venha me buscar logo".


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3.10.08



Suas velhas palavras me ferem de um jeito novo.
Estoicamente, ofereço a outra face.
Deixar você me magoar é um jeito lícito de tê-la.
Dói, mas foda-se.

Fal Azevedo há muito tempo alimenta um blog, como todos nós. Um blog de opiniões pessoais lançadas com muito humor e melancolia. Um blog que congrega pessoas das mais diversas tendências políticas e existenciais. Um blog que não é de direita, não é de esquerda, não quer convencer ninguém, é o blog da Fal, a palavra certa, na hora certa. Simplesmente isso. Você vai lá e se diverte com ela, conversa com ela, sofre com ela. Mas você sabe que Fal escreve outras coisas além dos posts. Fal enveredou pela literatura e já está no seu terceiro livro: Minúsculos assassinatos e alguns copos de leite. E neste livro você vai encontrar “carne crua” e “doce de leite”, que é a melhor definição de Fal Azevedo. Não procure em Fal Danieis Galeras, Ruffatos, Mirisolas, Calcanhottos em surtos poético-psicóticos, ou Jabutis. Procure em Fal as palavras de quem chora na cama, de quem usou o primeiro sutiã Du Loren, de quem não esquece os bolos da avó, do tempo e dos amores perdidos, das noites sem respirar, dos e-mails desesperados, do cheiro de maçã verde. E é por essas e mais tantas, que estarei no lançamento deste livro da Fal pela editora Rocco, dia 9, na livraria Prefácio, Rio de Janeiro. Aproveitando aqui para convidar todos vocês.

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29.9.08

Luis de Góngora



Sou touqueira e vendo toucas,
meu cofre é como o das outras
pequeno, bem encourado,
e se abre com qualquer chave
conquanto primeiro pague
quem for abrir o toucado
pois eu não vendo fiado
como outras touqueiras loucas.
..............................



Luis de Góngora, em letrilha do séc. 17
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25.9.08



Por que matei Roberto Carlos


Nem tudo que acontece na cadeia são mortes, rebeliões e colchões queimados. Bom, nem quase tudo. Para evitar a surpresa de ser um número a mais nas estatísticas, prefiro dormir de olhos bem abertos e barriga para cima, só assim poderei ver o focinho do meu provável assassino. Um assassino não muito diferente de mim, que peguei uma pena de 29 anos por matar Roberto Carlos. Estou trancafiada neste lixo com a escória da humanidade já há nove anos e nem sei como tudo começou e onde vai parar. Não adiantaria me arrepender agora, remorsos não aceleram o tempo para me tirar daqui, nem trazem os mortos de volta, o que seria a última coisa que eu desejaria na minha vida, principalmente o morto que em boa hora decidi matar. Há nove anos que acendo o meu primeiro cigarro da manhã pensando em por que tive de matá-lo. E no que errei para ser presa horas depois e me ver numa situação dessas. Que importância tinha para mim vê-lo morto? É certo que hoje vivo em paz por saber que ele apodrece cada dia um pouco mais debaixo da terra. Mas também qual a importância de me ver aqui dentro viva e apodrecendo da mesma forma? Quando o cigarro acaba, estas perguntas saem com a fumaça pela janela. Talvez nada tenha importância na verdade e o que vale mesmo é estar ainda com o que me resta dos pulmões para acender mais cigarros e pensar no crime que cometi naquela noite de sexta-feira de 1999.

O 17 de dezembro de 1999 foi um dia útil da semana como outro qualquer e, como todo dia útil, pouco importa se chove ou faz sol. Eu estava desempregada e acordaria de ressaca do mesmo jeito naquele muquifo em que morava de favor na rua Conde de Lages. Eu nem precisava temer oficiais de justiça ou senhorios furiosos chutando a minha porta, pois o conjugado era de um coronel de minha única irmã e eles costumavam usá-lo para se encontrar toda quarta-feira. Eu só tinha de liberar o lugar nesse dia, no resto da semana podia me encostar por lá sem precisar me preocupar com fila de banco todo dia 5 e ordens de despejo. Enquanto minha irmã estivesse nas graças do sujeito, eu podia relaxar, o que fazia sem constrangimento pois esse patrocínio já durava alguns anos. Minha irmã sabia conquistar um homem, isso a filha-da-puta sabia. Quando estava de bom humor e duas doses acima, me confidenciava sua principal técnica: poucas perguntas e um ippon de buça, eles não resistiam. Nós gargalhávamos e no silêncio que se seguia eu ficava pensando que ela não precisava usar de tanta modéstia comigo, porque eu sabia que era bem mais do que isso. Inteligente, apesar de formada em educação física e com um emprego de gerente numa próspera academia do Leblon, era bonita e atraente o bastante para ter um marido pra chamar de seu, só que ela preferia chamar o das outras. Provavelmente era entre uma esteira e outra que fisgava os trouxas que acabariam se apaixonando por ela. Eu não podia condená-los, era impossível ser indiferente àqueles olhos tristes e negros de Elisa, a amante de Roberto Carlos.

Elisa é mais velha do que eu uns dez anos ou mais, não me lembro bem, pois desde que fui presa não penso em aniversários, feriados, efemérides. Mas o que quero dizer é que, por ser mais velha, ela traz consigo uma memória residual daquilo que se convencionou chamar de Jovem Guarda. E quando o sujeito se inscreveu na academia dizendo chamar-se Roberto Carlos e dias depois sussurrou para ela uns versinhos do “Broto do Jacaré” enquanto trabalhava os glúteos, sua associação afetiva foi instantânea. Ela caiu de amores pelo seu Rei da Juventude, um empresário rico e setentão, alto e barrigudo, com a cara do Erasmo.

Lembro até hoje do dia em que ela me contou, pois rimos de engasgar com o café que estávamos tomando na cafeteria da academia. Como eu babava para saber detalhes do Rei, Elisa abriu a carteira e mostrou-me uma foto dele com a família, o que achei meio humilhante, embora ela não se importasse. Talvez sentisse um prazer íntimo com aquela disputa. Nunca o conheci pessoalmente, mas conhecia o cheiro que ele deixava no apartamento e nos lençóis em que eu dormia ao chegar trôpega tarde da noite toda quarta-feira. “Mas ele é a cara do Erasmo”, eu disse e minha irmã rebateu, fechando o sorriso. “Nem toque nesse assunto, ele odeia quando dizem isso.” Eu fiquei intrigada e ela não deu explicações. Meses depois eu fiquei desempregada, fui despejada e ela disse que eu poderia ficar na “garçonnière” deles enquanto não arrumasse outro lugar. No momento em que ouvi esta palavra, percebi em minha irmã os primeiros sintomas da nostalgia psíquica que começava a dominá-la. Como se de um dia para o outro, ela passou a usar palavras e expressões antigas, como “nota preta”, “boa-pinta”, “podes crer”, “pra frente”, “eutôquetô”, “bafafá”, “manda brasa”, “champanhota” e outras estranhices que eu precisaria de intérprete. Fez uma revolução em seu guarda-roupa e começou a usar tubinhos variados com botas de cano longo brancas, cílios postiços, laquê no cabelo armado, coroando tudo com fartas doses de Chanel n.5. Comecei a temer de que um dia ela perdesse o emprego. Mas os clientes da academia não se importaram com a extravagância, pelo contrário, diziam que ela era uma festa temática ambulante e tudo acabava em risos, bem tolerados por Elisa. Nunca toquei no assunto dos motivos de sua repentina mudança, Elisa se distanciara de mim e não trocávamos mais confidências, nem quando bebíamos. Até o dia em que, morando fazia algum tempo naquela garçonnière da Lapa, encontrei na gaveta do criado-mudo um Taurus, calibre 32. Sem saber o que pensar, na mesma hora telefonei para Elisa e interpelei-a, as mãos tremendo e suando agarradas ao fone. “Por que você guarda a porra de um revólver neste apartamento?” Ela então baixou o tom de voz e pude ver seus olhos assustados perscrutando ouvidos a sua volta. “Não é meu. É do Roberto.” E com um discurso entrecortado pelos bons-dias e como-vais que distribuía aos clientes do outro lado da linha, teceu uma fileira de justificativas à minha pergunta. Que a nossa vizinhança era barra-pesada, que Roberto temia que aqueles favelados os assaltassem e invadissem o apartamento, que a portaria do prédio virou uma “chacrinha” de pederastas, que ele estava pensando em vender aquele apartamento até porque não suportava mais encontrar-se com ela num lugar sujo e sebento que eu não me dava o trabalho de limpar para recebê-los, afinal de contas ele tivera a condescendência de me deixar morar lá de graça sem mesmo me conhecer, era uma boa alma enquanto eu, sem a menor preocupação de dar um jeito na minha vida, só pensava em provocá-lo com aqueles discos do Erasmo espalhados pela cama toda vez que chegavam lá, as fotos de Erasmo que colei na porta do banheiro, eu era uma mal-agradecida, uma debochada, e ele pensava em ter uma séria conversa comigo hoje mesmo. Elisa não viu as minhas lágrimas enquanto se despejava pelo fio do telefone. Eu desliguei sem uma despedida e recoloquei o Taurus na gaveta. Minha irmã estava dominada. Minha única irmã. Pensei em nossa mãe morta e entristecida com suas filhas tão desunidas. Elisa, que trançava meus cabelos e me protegia do bicho-papão nas noites em que nossa mãe se ausentava. Que cantava baixinho no escuro, afastando os espíritos que falavam pelas paredes de nosso quarto para que eu pudesse dormir. E agora minha irmã era a presa de um obsessor. Um Roberto encarnado em Erasmo. Minha irmã no centro deste império dividido. Sem coroa de rainha. Sem súditos. Sem herdeiros. Minha carne e meu sangue. Baixei a agulha da vitrola e me deitei em seu leito macio. Toda pedra no caminho, você deve retirar, numa flor que tem espinhos, você pode se arranhar. Se o bem e o mal existem, você pode escolher. É preciso saber viver.


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23.9.08




Agradeço muito à professora e crítica literária Beatriz Resende por lembrar do meu trabalho e apostar em mim em seu livro Contemporâneos -- Expressões da Literatura Brasileira no Século XXI (Casa da Palavra Editora), que está sendo lançado hoje no Rio de Janeiro, no Cinemathèque JamClub, na Voluntários da Pátria, 53, 19h. Ver resenha do Estadão aqui.

Falando nisso, ele também gostou. Ver post "Samba Transexual", de 6/09, onde o moço faz um breve comentário ao meu "Da ensinança de bem escrever", um texto em que me aventuro a brincar com o português medieval. É isso. Fim do marketing.

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19.9.08



Vou dar de beber à dor


Foi no Domingo passado que passei
À casa onde vivia a Mariquinhas,
Mas está tudo tão mudado
Que não vi em nenhum lado
As tais janelas que tinham tabuinhas.
Do rés-do-chão ao telhado
Não vi nada, nada, nada
Que pudesse recordar-me a Mariquinhas,
E há um vidro pregado e azulado
Onde havia as tabuinhas.

Entrei e onde era a sala agora está
À secretária um sujeito que é lingrinhas,
Mas não vi colchas com barra
Nem viola, nem guitarra,
Nem espreitadelas furtivas das vizinhas.
O tempo cravou a garra
Na alma daquela casa
Onde às vezes petiscávamos sardinhas
Quando em noites de guitarra e de farra
Estava alegre a Mariquinhas.

As janelas tão garridas que ficavam
Com cortinados de chita às pintinhas
Perderam de todo a graça
Porque é hoje uma vidraça
Com cercadura de lata às voltinhas.
E lá p'ra dentro quem passa
Hoje é p'ra ir aos penhores
Entregar ao usurário umas coisinhas,
Pois chega a esta desgraça toda a graça
Da casa da Mariquinhas.

P'ra terem feito da casa o que fizeram
Melhor fora que a mandassem p'ras alminhas,
Pois ser casa de penhores
O que foi viveiro d'amores
É ideia que não cabe cá nas minhas.
Recordações do calor
E das saudades. O gosto
Que eu vou procurar esquecer
Numas ginginhas,
Pois dar de beber à dor é o melhor,
Já dizia a Mariquinhas.



Alberto Janes

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imagem: Helder Olino
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16.9.08

Drummond em miguxês



nU 1/2 Du kaMinhU tinHah 1 pedRaH
tiNhah 1 PEDrah nU 1/2 dU KaMinhU
tinHah 1 PedrAH
Nu 1/2 du KaminhU tINhah 1 PeDrAH


NuncaH mE eSKecEREi dEXXi ACoNTeciMenTu
nAH VIDAh DI minHaxXx retinAxXx taUm FAtigadaxXx
NUNcAH Me esKECereI ki nU 1/2 dU KAmiNhU
TInHah 1 peDrAh
TInHaH 1 PEDraH nu 1/2 du kaMiNHU
NU 1/2 du kaMInhU TINHaH 1 PEdrah


--

14.9.08



A mulher que ficou na taça


Fugindo da nostalgia
Vou procurar alegria
Na ilusão dos cabarés
Sinto beijos no meu rosto
E bebo por meu desgosto
Relembrando o que tu és

E quando bebendo espio
Uma taça que esvazio
Vejo uma visão qualquer
Não distingo bem o vulto
Mas deve ser do meu culto
O vulto desta mulher...

Quanto mais ponho bebida
Mais a sombra colorida
Aparece em meu olhar
Aumentando o sofrimento
No cristal em que, sedento,
Quero a paixão sufocar

E no anseio da desgraça
Encho mais a minha taça
Para afogar a visão

Quanto mais bebida eu ponho
Mais cresce a mulher no sonho
Na taça e no coração.



Orestes Barbosa, em letra de composição
gravada por Francisco Alves em 1934.

--

7.9.08




se eu crescer no futuro
serei como ela
e casarei com meu pai
-- que homem extraordinário,
dizia o açougueiro da esquina,
irei para a universidade,
os modernistas paulistas
já me escorrendo da boca
com pizza e grapette,
mas não há só isto
ou onde foi isto
há sim uma geladeira
a robert frost
e as folhas de um dicionário
de latim presas por elástico,
escrevo sobre a luz,
com os corpos dos insetos
que vou matando,
de minha caça-níqueis mental
caem um livro de Jung
sobre correção ortográfica
e um pacotinho de amendoim,
a perna que faltava
do Tescatlipoca,
una-su-pierna,
uma perna nobre
e mui pia,
recolhida pela tripulação
de um barco que montei
ontem à noite depois do jantar,
em todo conto de fadas
as mulheres velhas são más,
tenho medo das veias saltadas
que seguram sacolas,
o tempo só passa
nos espelhos e nos
olhos dos outros,
é só não olhar, papai
costumava dizer
entrando pela cozinha,
me trazendo
um carneirinho bem gordo,
pero de algodão
-- que homem extraordinário
.

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4.9.08















andre jordan, que começou um blog belíssimo em 2004 por conta de uma depressão e publicou seu primeiro livro de ilustrações, If you are happy and you know it, no ano passado.

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31.8.08



Bons ventos do Distrito Federal. De 3 a 7 de setembro acontece a I Bienal Internacional de Poesia de Brasília, onde será realizada também a Mostra Revistas Brasileiras de Poesia na Biblioteca Central da UnB de 1 a 11 de setembro. A mostra, organizada pelo poeta e professor Paulo Custódio (Paco Cac), apresentará todas as revistas que se tornaram ícones da história literária brasileira. Não perca.


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26.8.08

e a noite está dentro de mim



Tudo é perigoso para quem sofre vertigens. Mas para quem não
desdenha os grandes saltos na inquietação e no obscuro,
tudo é bom para ser visto de perto.

Digo TUDO: as casas cheias de sombra e promessas aliciantes,
os grandes becos da nevrose, o tóxico, os olhos insones do
ciúme, as renúncias nas sacristias afastadas, os livros da
magia, os claros escritórios do jogo e da ambição, o inimigo
subterrâneo que nos saúda, a prostituta que nos recebe
sem suspeita, a conversa que pode decidir o futuro, TUDO.



Que melancólico crepúsculo o que se acende acima dos desejos satisfeitos.


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texto: Lúcio Cardoso, Diário completo.
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