23.12.10

António José Forte




Ainda não


Ainda não
não há dinheiro para partir de vez
não há espaço de mais para ficar
ainda não se pode abrir uma veia
e morrer antes de alguém chegar

ainda não há uma flor na boca
para os poetas que estão aqui de passagem
e outra escarlate na alma
para os postos à margem

ainda não há nada no pulmão direito
ainda não se respira como devia ser
ainda não é por isso que choramos às vezes
e que outras somos heróis a valer

ainda não é a pátria que é uma maçada
nem estar deste lado que custa a cabeça
ainda não há uma escada e outra escada depois
para descer à frente de quem quer que desça

ainda não há camas só para pesadelos
ainda não se ama só no chão
ainda não há uma granada
ainda não há um coração

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Poema


Alguma coisa onde tu parada
fosses depois das lágrimas uma ilha,
e eu chegasse para dizer-te adeus
de repente na curva duma estrada

alguma coisa onde a tua mão
escrevesse cartas para chover
e eu partisse a fumar
e o fumo fosse para se ler

alguma coisa onde tu ao norte
beijasses nos olhos os navios
e eu rasgasse o teu retrato
para vê-lo passar na direcção dos rios

alguma coisa onde tu corresses
numa rua com portas para o mar
e eu morresse
para ouvir-te sonhar

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20.12.10

Kafka





Não é necessário sair de casa.
Permaneça em sua mesa e ouça.
Não apenas ouça, espere.
Não apenas espere, fique sozinho em silêncio.
Então o mundo se apresentará desmascarado.
Em êxtase, se dobrará a seus pés.



Kafka

4.12.10

Rodrigo de Souza Leão




me sinto uma chupeta
de baleia

que a cada fim do verso
se tateia

pra ver se ainda há vida
na veia

há poema enquanto houver
centeia

e esta fagulha vivificando
é a máquina pedindo
me leia

-

1.12.10

Adília Lopes



PRÉMIO


Em 72 recebi
o prémio literário
dos pensos rápidos Band-Aid
o prémio foi uma bicicleta
às vezes penso
que me deram uma bicicleta
para eu cair
e ter de comprar pensos
rápidos
Band-Aid
é o que penso dos prémios literários
em geral

-

22.11.10

Oscar Wilde



As mulheres americanas são brilhantes, inteligentes, assombrosamente cosmopolitas. Seu patriotismo se resume em admirar o Niágara e ter saudade do trem elevado. E diferentemente dos homens, não nos oferecem a lata com Bunkershill.

Adquirem seus vestidos em Paris e suas maneiras em Picadilly, e exibem uns e outros de modo encantador. Possuem um singular atrevimento, uma presunção deliciosa e uma independência espontânea.

Fazem questão de ser elogiadas e conseguiram quase tornar eloquente o inglês. Sentem fervorosa admiração pela nossa aristocracia, adoram os títulos e são uma contradição perpétua aos princípios republicanos.

São hábeis na arte de divertir os homens. São-no por natureza e educação. Sabem realmente contar uma história sem esquecer o traço mordaz, perfeição extraordinariamente rara nas mulheres de outras nações.

É verdade que carecem de tranquilidade e que o tom de suas vozes é algo brusco e estridente, quando desembarcam em Liverpool; mas com o tempo chega a gente a gostar desses lindos ciclones de saias, que passam tão estouvadas pela sociedade e que causam tanta agitação às duquesas com suas filhas.

Há algo de fascinante em seus gestos graciosos, exagerados, em sua maneira petulante de inclinar a cabeça. Seus olhos nada têm de mágico ou misterioso, mas nos desafiam à luta e, quando nos lançamos a ela, saímos sempre maltratados. Seus lábios parecem feitos para rir e, não obstante, não gesticulam nunca.[...]

Apesar de semelhante família, a moça americana é sempre bem acolhida. Anima nossos lúgubres jantares e faz com que a vida transcorra gratamente durante a temporada.

Na carreira aos títulos de nobreza, ganha com frequência o prêmio; mas uma vez alcançada a vitória, é generosa e perdoa tudo às suas rivais inglesas, até mesmo sua beleza.

O exemplo de sua mãe adverte-a de que as mulheres americanas não têm graça no envelhecer. E esforça-se em não envelhecer absolutamente e, quase sempre, o consegue.

Seus pés e suas mãos são delicados; anda sempre bem calçada e com lindas luvas; sabe falar com brilho sobre qualquer assunto, mesmo não entendendo uma palavra dele.

Seu senso de humor preserva-a da tragédia de uma "grande paixão"; e como não há em seu amor nem novelismo nem humildade, torna-se uma excelente esposa.



Oscar Wilde, em "A Invasão Americana", Court and Society Review, 23.03.1887.


19.11.10

Alphonsus de Guimaraens




A CABEÇA DE CORVO


Na mesa, quando em meio à noite lenta

Escrevo antes que o sono me adormeça,

Tenho o negro tinteiro que a cabeça

De um corvo representa.



A contemplá-lo mudamente fico

E numa dor atroz mais me concentro:

E entreabrindo-lhe o grande e fino bico,

Meto-lhe a pena pela goela a dentro.



E solitariamente, pouco a pouco,

Do bojo tiro a pena, rasa em tinta...

E a minha mão, que treme toda, pinta

Versos próprios de um louco.



E o aberto olhar vidrado da funesta

Ave que representa o meu tinteiro,

Vai-me seguindo a mão, que corre lesta.

Toda a tremer pelo papel inteiro.



Dizem-me todos que atirar eu devo

Trevas em fora este agoirento corvo,

Pois dele sangra o desespero torvo

Destes versos que escrevo.


11.11.10

Martín Adán



Poemas underwood

Prosa dura y magnífica de las calles de la ciudad sin inquietudes estéticas.
Por ellas se va con la policía a la felicidad.
La poesía gafa de las ventanas es un secreto de costureras.
No hay más alegría que la de ser un hombre bien vestido.
Tu corazón es una bocina prohibida por las ordenanzas de tráfico.
Las casas rumian sus paces de buey.
Si dejaras saber que eres un poeta, irías a la comisaría.
Límpiate de entusiasmos los ojos.
Los automóviles te soban las caderas, volviendo la cabeza. Cree tú que son mujeres viciosas. Así tendrás tu aventura y tu sonrisa para después de la cena.
Los hombres que tropiezas tienen la carne encallecida de oficina.
El amor está en cualquier parte, pero en ninguna está de otro modo.
Pasan obreros con los ojos resentidos con la tarde, con la ciudad y con los hombres.
¿Por qué había de fusilarte la Checa? Tú no has acaparado sino tu alma.
La ciudad lame la noche como una gata famélica.
Y tú eres un hombre feliz, quizá el único hombre feliz.
Tienes camisa y no tienes grandes pensamientos de ninguna clase.
Ahora siento cólera contra los acusadores y los consoladores.
Spengler es un tío asmático, y Pirandello es un viejo estúpido, casi un personaje suyo.
Pero no he de enfurecerme por pequeñeces.
Mil cosas han hecho los hombres peores que sus culturas: Las novelas de Víctor Hugo, la democracia, la instrucción primaria, etcétera, etcétera, etcétera, etcétera.
Pero los hombres se empeñan en amarse los unos a los otros.
Y, como no lo consiguen, acaban por odiarse.
Porque no quieren creer que todo es irremediable.
La polis griega sospecho que fue un lupanar al que había que ir con revólver.
Y los griegos, a pesar de su cultura, fueron hombres felices.
Yo no he pecado mucho, pero ya sé de estas cosas.
Bertoldo diría estas cosas mejor, pero Bertoldo no las diría nunca. El no se mete en honduras -y está viejo, quiere paz y hasta apoya a los moderados.
El mundo no está precisamente loco, pero sí demasiado decente. No hay manera de hacerle hablar cuando está borracho. Cuando no lo está abomina de la borrachera o ama a su prójimo.
Pero yo no sé sinceramente qué es el mundo ni qué son los hombres.
Sólo sé que debo ser justo y honrado y amar a mi prójimo.
Y amo a los mil hombres que hay en mí, que nacen y mueren a cada instante y no viven nada.
He aquí mis prójimos.
La justicia es unas estatuas feas en las plazas de las ciudades.
Ninguna de ellas me gusta ni poco ni mucho -no son diosas ni mujeres.
Yo amo la justicia de las mujeres sin túnica y sin divinidad.
En punto a honradez, no soy de los peores.
Como mi pan a solas, sin dar envidia a mi prójimo.
Nací en una ciudad, y no sé ver el campo.
Me he ahorrado el pecado de desear que fuera mío.
En cambio deseo el cielo.
Casi soy un hombre virtuoso, casi un místico.
Me gustan los colores del cielo porque es seguro que no son tintes alemanes.
Me gusta andar por las calles algo perro, algo máquina, casi nada hombre.
No estoy muy convencido de mi humanidad; no quiero ser como los otros. No quiero ser feliz con permiso de la policía.
Ahora en las calles hay un poco de sol.
No sé quién se lo ha llevado, qué mal hombre, dejando manchas en el suelo como un animal degollado.
Pasa un perrito cojo -he aquí la única compasión, la única caridad, el único amor de que soy capaz.
Los perros no tienen Lenin, y esto les garantiza una vida humana pero verdadera.
Andar por las calles como los hombres de Pío Baroja -(todos un poco perros)-.
Mascar huesos como los poetas de Murger, pero con serenidad.
Pero los hombres tienen posvida.
Por eso dedican su vida al amor del prójimo.
El dinero lo hacen para matar el tiempo inútil, el tiempo vacío...
Diógenes es un mito -la humanización del perro.
El anhelo que tienen los grandes hombres de ser completamente perros. Los pequeños hombres quieren ser completamente grandes hombres, millonarios, a veces dioses.
Pero estas cosas deben decirse en voz baja -siento miedo de oírme a mí mismo.
Yo no soy un gran hombre -yo soy un hombre cualquiera que ensaya las grandes felicidades.
Pero la felicidad no basta a ser feliz.
El mundo está demasiado feo, y no hay manera de embellecerlo.
Sólo puedo imaginarlo como una ciudad de burdeles y fábricas bajo un aletazo de banderas rojas.
Yo me siento las manos delicadas.
¿Qué soy, qué quiero? Soy un hombre y no quiero nada.
O, tal vez, ser un hombre como los toros o como los otros.
Tú no tienes las orejas demasiadas grandes.
Yo quiero ser feliz de una manera pequeña. Con dulzura, con esperanza, con insatisfacción, con limitación, con tiempo, con perfección.
Ahora puedo embarcarme en un trasatlántico. E ir pescando durante la travesía aventuras como peces.
Pero ¿a donde iría yo?.
El mundo me es insuficiente.
Es demasiado grande, y no pudo desmenuzarlo en pequeñas satisfacciones como yo quiero.
La muerte es sólo un pensamiento, nada más, nada más...
Y yo quiero que sea un largo deleite con su fin, con su calidad.
El puerto, lleno de niebla, está demasiado romántico.
Citeres es un balneario norteamericano.
Las yanquis tienen la carne demasiado fresca, casi fría, casi muerta.
El panorama cambia como una película desde todas las esquinas.
El beso final ya suena en la sombra de la sala llena de candelas de cigarrillos. Pero está no es la escena final. Pero ello es por lo que el beso suena.
Nada me basta, ni siquiera la muerte; quiero medida, perfección, satisfacción, deleite.
¿Cómo he venido a parar en este cinema perdido y humoso?.
La tarde ya se habrá acabado en la ciudad. Y yo todavía me siento la tarde.
Ahora recuerdo perfectamente mis años inocentes. Y todos los malos pensamientos se me borran del alma. Me siento un hombre que no ha pecado nunca.
Estoy sin pasado, con un futuro excesivo.
A casa...

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9.11.10

Virginia Woolf, simpatizante da eugenia







9 de janeiro de 1915

Encontramo-nos no caminho do canal & tivemos de passar por uma fila enorme de imbecis. O primeiro era um rapaz muito alto, esquisito demais para merecer uma segunda olhada, mas só; o segundo arrastava os pés & olhava de lado; & então percebemos que todos naquela fila eram criaturas idiotas, miseráveis, incapazes e capengas, sem testa nem queixo & com um sorriso imbecil, ou um olhar furioso de desconfiança. Era absolutamente horrível. Eles certamente deviam ser mortos.


Virginia Woolf, em The Diary of Virginia Woolf, vol. I, 1915-1919, Londres, 1979. A autora menciona um encontro na rua com o amigo e economista John Maynard Keynes, onde ambos puderam ver de perto as mazelas da miséria, muitas vezes confundida com deficiência mental e física. Woolf, Keynes, George Bernard Shaw e Winston Churchill chegaram a ser simpatizantes da eugenia, movimento de higiene racial com força social e intelectual no início do século 20. Ninguém é perfeito.

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4.11.10



The unending gift


Um pintor prometeu-nos um quadro.
Agora, em New England, sei que morreu. Senti, como outras
vezes, a tristeza de compreender que somos como um
sonho. Pensei no homem e no quadro perdidos.
(Só os deuses podem prometer, porque são imortais.)
Pensei em um lugar prefixado que a tela não ocupará.
Pensei depois: se estivesse aí, seria com o tempo uma coisa
mais, uma coisa, uma das vaidades ou hábitos da casa;
agora é ilimitada, incessante, capaz de qualquer forma
e qualquer cor e a ninguém vinculada.
Existe de algum modo. Viverá e crescerá como uma música e
estará comigo até o fim. Obrigado, Jorge Larco.
(Também os homens podem prometer, porque na promessa há
algo imortal.)


Jorge Luis Borges, em Elogio da sombra, 1969.
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28.10.10




Onde-Ninguém-Fala

País localizado dentro do som de nossa voz, ao lado do país Onde-Se-Fala. As ruas e calçadas, tetos de casas e para-brisas de automóveis são recobertos por uma neve espessa e invisível que a tudo sufoca. Os habitantes são mudos, mas isso não significa que não entendam a fala. Ao contrário, comunicam-se melhor do que com palavras e frases. Eles são como formigas que percorrem carreiras: encontram-se constantemente e se dizem coisas sem jamais serem ouvidas.

Nunca faz frio em Onde-Ninguém-Fala. Tudo é ameno e tranquilo. Para chegar lá o viajante deve simplesmente atravessar Onde-Se-Fala. Ele se verá cercado por sons reverberantes que doem aos ouvidos: carros, rádios, moinhos de palavras. Contudo, aos poucos, os sons começam a lutar uns com os outros e finalmente se anulam.


Jean-Marie-Gustave Le Clézio, Voyages de l'autre côté, 1975.

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19.10.10

prop



Porque o inesperado sempre acontece,
Insurance Company of North America, 1948


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7.10.10

Marta Chaves




Exerço muitas vezes o ofício de estrangeira
com pouca fé de que na impossibilidade da língua
se entenda a natureza dos meus gestos.
ou mais adiante
Escrevo-te cartas que difundem o meu silêncio.
ou ainda
Fico só
entre mim e o nome que dou às coisas.



27.9.10

Bernart de Ventadorn




Quando vejo a cotovia mover
de alegria as asas contra o raio
que se esquece e se deixa cair
com a doçura que no coração lhe vai
ai! tão grande inveja me vem
daqueles que vejo andar contentes!
E maravilho-me eu como de repente
de desejo o meu coração não se funde.

Ai eu! tanto cuidava saber
de amor e tão pouco sei!
Pois eu de amar não me posso conter
aquela cujo favor nunca terei;
tem o meu coração e tem-me todo a mim,
tem-se a si própria e ao mundo inteiro!
E quando me tomou nada mais me deixou
senão desejo e coração voraz.

Perdi já eu sobre mim o poder
e deixei de ser meu desde o instante
em que me deixou nos seus olhos ver,
num espelho que me agrada tanto.
Espelho, pois me mirei em ti,
mataram-me os suspiros mais profundos,
que assim me perdi, como se perdeu
o belo Narciso na fonte.

Das donas me desespero,
não mais nelas me fiarei!
Que assim como as usava defender
assim as desabonarei;
pois vejo que nenhuma me auxilia
junto daquela que me destrói sem razão,
de todas duvido, de todas desconfio,
pois sei bem que todas iguais são.

Nisso faz bem o papel de mulher
a minha dona, que condeno assaz:
pois não quer o que se deve querer
e o que lhe é vedado faz.
Caído sou em sua impiedade
e agi pois como o louco na ponte!
E não sei porque me vou curvado
se não por querer subir alto monte.

Piedade está perdida a valer,
e eu não o soube jamais,
pois aquela que mais a deveria ter
não a tem; e onde a irei buscar?
Ah! como pouco parece, a quem a vê,
que este cativo amador,
que já sem ela não encontrará bem,
deixe morrer, sem socorro lhe dar!

Pois com minha dama não me podem valer
preces, nem piedade, nem meu bom direito,
nem a ela não lhe causa prazer
que eu a ame, jamais lho direi.
E assim dela me afasto e me rendo!
Pois me matou, como morto lhe respondo,
e vou-me daqui, pois ela não me retém,
cativo, em exílio, não sei onde.

Tristão, nada mais tereis de mim,
pois me vou, cativo, não sei onde;
ao cantar volto costas e me rendo assim,
e da alegria e do amor me escondo.


Bernart de Ventadorn, 1150-80.
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23.9.10



11:06 preparando originais de conversations with myself, de mandela. conversas, pensamentos, devaneios, diários de prisão, material autobiográfico inédito. lançamento previsto no brazil: novembro. caráter urgente. sem tempo pra nada. melhor lição: multirracialismo não. fim da distinção de raças, sim. melhor frase do livro: "fofocar sobre a vida alheia é um vício. sobre si mesmo, uma virtude." escrita em 17 janeiro 1977 num calendário de mesa na cadeia. fosse hoje, tuitaria. madrugadas de vento. até os galos demoram a cantar. mantra para insônias: sem pressa sem pressa sem pressa. d. liga perguntando de escargots. antes de desligar diz, "que dentadura é aquela do miklos? parece maior do que a cabeça! o que é aquilo?" capitalismo selvagem.


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15.9.10




Degollado de Guadalajara


Segunda
terça
quarta
quinta
sexta
plácido
domingo


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7.9.10

EL POEMA QUE NO ESCRIBÍ Y QUIERO ESCRIBIR

Un poema como una espada láser. Un poema como un ojo de Nick Cave. Un poema como una estrella de sheriff. Un poema como una canción pop. Un poema como una vespa pasando por una Roma vacía. Un poema como irse de España. Un poema como decir: “Delicioso” mientras bebes vino blanco con una mujer que vas a perder la misma noche que vas a encontrar. Un poema así. Un poema con Cadillacs al borde de piscinas tan azules que está claro que son dibujadas. Un poema que parezca California en un póster adolescente. Un poema tan feliz que es para no creérselo. Un poema de aquí a Nueva York. Un poema así. Un poema que dan ganas de partirse en pedazos. De la risa. Un poema a lo Dean Martin. ¿No sabes lo que es un poema a lo Dean Martin? Es un nuevo estilo de poesía. No es un poema conceptual. No poesía social, no. Un poema a lo Dean Martin. Un poema “That´s amore”. Un poema donde las chicas van en bicicleta y los chicos saben los nombres de todas las drogas y de todas las estrellas del mundo. Y todo eso les dibuja una amplia sonrisa en la cara. Un poema con “Dealers” de confianza. Un poema que diga que nací en 1977 y por eso es un año grande. Que nací yo y murió Elvis. Un poema que diga que ese no fue un gran cambio para el mundo. Un poema con zapatos bonitos y vestidos de marca. Un poema con chicas guapas bailando en los tejados. Un poema con chicas feas bailando en las azoteas. Un poema con un poco de todo lo divertido. Un poema con Gin Tonics y lametones. Un poema con gritos y lluvia y “joie de vivre”. Un poema como la voz de alguien que yo me sé. Un poema que vaya de Picadilly Circus a la Quinta Avenida. Un poema así. Un poema donde la vida esté detenida, no como la detiene un maldito mimo, no como la detiene el “Pause” del mando a distancia. Detenida como la detiene una canción de esas que detienen la vida. De esas. Un poema con bañistas. Un poema con Sinatra, y Anita Ekberg, y Jarvis Cocker repartiendo gafas de pasta a todo el que pasa por allí, ja. Un poema que sea todo un festival. Como el Benicasim. Con el cansancio y las noches sin dormir y la música incesante. Un poema. Un poema como bragas en la cama de un hotel de carretera. Un poema como pelear con Tyson. Un poema así. De disparos en la lejanía. Un poema Jim Jarmusch. Un poema Leos Carax. Un poema así. Un poema de pistolas nacaradas. De duelos en el O.K Corral. Un poema donde aparezca el chico de la moto y la chica de los chapines colorados y un coro de gargantas profundas. Un poema vivo. Un poema en el agua. Un poema dibujado con letras de cocaína. Un poema formado por cuerpos tumbados en las arena. Un poema visto desde el cielo. Un poema que se reproduzca como un Gremlin. Un poema que diga: “Nostalgia de Atari”. Un poema que valga por cien bailarines en la calle. Un poema superdotado. Retrasado. Un poema como una mujer de Robert Crumb. Un poema que silbe, que sorba, que salpique. Un poema que no haga sufrir a nadie. Un poema de Serge Gainsbourg y de David Hockney. Un poema para quedarse a vivir una temporada indefinida. Donde esconder la cabeza y donde sacar los pies. Un poema que nunca escribiré y que no existe. Y que es como un cielo limpio y azul, pero construido con papel de colores comprado en la papelería del barrio. Un poema así. Así es el poema que nunca escribí, que nunca escribiré. Así, y también como un helado de tres sabores y como la cabeza abierta de Kennedy. Un poema con cien jigas y un corazón palpitante en el centro que parece una maldita bomba atómica. Así.






Diario de Dillinger


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26.8.10

Fal Azevedo


O meu amor por você permanece. A cada sim. A cada não. Principalmente a cada não. Quando eu me lembro do formato do seu nariz. Das suas mãos. Do cheiro do seu suor. Da sua imensa gargalhada. Da sua voz feita para cantar as tolices da tevê. O meu amor permanece, intacto, cuidado como se fosse uma coisinha de cristal. Ele está nas fotos do menino que você foi. No carinho com que você fala do meu pai. Nas sua capacidade de se reinventar que eu sempre adorei, apesar de me irritar, acho que porque sou incapaz de nascer uma nova criatura, e arrasto a velha eu desde que o samba é samba. Ele, o meu amor por você, está onde sempre esteve, “como Minas, como Minas”, diria você, rindo, rindo. Meu amor por você permanece. Ele está no mesmo lugar – por favor, me ouça – no mesmo lugar em que esteve, a vida toda, a vida toda. Ele nunca saiu dali. Não houve tufão, nem revolução, nem vereda equivocada (e meu Deus, querido, foram tantas, sou o resultado de todas as minhas escolhas ruins, das minhas muitas escolhas ruins) que movesse um milímetro o meu amor por você. O mesmo prumo, o mesmo eixo. Meu amor por você grita quando tomo coca-cola. Quando, sentada no capô do meu carro, fumo aquele cigarro da madrugada, antes de ir para a cama. Meu amor por você fala mil idiomas, mas não tem com quem praticar. Meu amor por você come danoninho com o dedo, e dói quando meu tornozelo dói. Meu amor por você permanece, intacto, limpo, puro, como naquela primeira manhã. Ele não foi tocado, nem pela luz, ele não foi remexido e revirado com as gavetas do meu coração, ele não pegou chuva na corridinha entre o ponto do ônibus e a entrada do metrô. O meu amor por você segue, quase o mesmo, quase bem, quase sempre. Meu amor por você está estampado na camiseta de cada um que passou pela minha vida, nos pudins da Marli, nas galochas vermelhas que eu usava para pescar com meu pai, na gravação na qual a Mercedes Sosa diz que se tudo muda, que eu mude não é estranho. Mas ele, ah, ele não muda. Meu amor por você está congelado no tempo, como as fotos das nossas tias-avós, como meu nariz quando ando o cachorro de madrugada, como se não houvesse amanhã. Meu amor por você sabe que não haverá.
Fal Azevedo



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19.8.10

16.8.10

Convite especialíssimo





Marlene de Castro Correia, professora emérita da Faculdade de Letras da UFRJ, considerada uma das maiores especialistas, se não a maior, na obra e vida de Carlos Drummond de Andrade, lançará nesta sexta-feira, dia 20, às 19 horas, na livraria Argumento do Leblon (rua Dias Ferreira 417), o seu livro Poesia de Dois Andrades (e outros temas), composto de ensaios sobre a poética de Drummond e Mário de Andrade, além de estudos sobre a literatura de cordel e o teatro de Gonçalves Dias.



Marlene foi minha professora de literatura brasileira na UFRJ e toda a minha paixão pelos três Andrades, Drummond, Mário e Oswald, devo a ela. Se não aprendi mais, certamente a culpa foi minha. É isso. O convite está feito. Apareçam.

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29.7.10

A Oxum



e seus pés de renda





Fotos de Cris Carriconde, Rio, 2009. Clique para ampliar.

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28.7.10



Como desaparecer completamente é o título do livro que André de Leones vai lançar hoje à noite no Rio, na Travessa do Leblon. Eu, por exemplo, gostaria de desaparecer completamente na Islândia, a Gelolândia. Lá tem vulcão, hadoque, salmão e gelo no copo à vontade, pouca gente, desta menos ainda em erupção, praias desertas e uma língua incompreensível. O ideal para quem quer sossego e 13 graus de temperatura no máximo. Já o inverno no Leblon é quase glacial não passa de uma rima. Antigamente eu gostava do Leblon, suas ruas largas, limpas e tranquilas sempre davam num canto de praia sujinho mas aprazível. Diferente de Ipanema, que virara um anexo de Copacabana, ainda era possível andar no Leblon com calma impassível. Hoje há um papparazzo atrás de cada poste e o bairro virou conjunto habitacional de celebridades da Globo, a Hollywood vira-lata. Sim, eu gostaria de desaparecer completamente na Islândia, com a Islândia. Com seus poetas do tempo e da água, como Steinn Steinarr:


Time and the Water

Time is like the water,
and the water is cold and deep
like my own consciousness.
And time is like a picture,
which is painted of water,
half of it by me.
And time and the water
flow trackless to extinction
into my own consciousness.


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23.7.10

Um convite muito especial





André de Leones, amigo e parceiro de fé, mudou de casa e está lançando seu terceiro romance agora pela editora Rocco, Como desaparecer completamente, para o qual tive a honra de ser convidada pelo autor a redigir seus pavilhões auriculares. André de Leones estreou em 2006 com o premiado Hoje está um dia morto e em 2008 publicou Paz na terra entre os monstros, ambos pela editora Record. O rapaz sabe o que faz. Apareça e leia. Ah, e clique na imagem para ampliar.


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22.7.10

D'Amici. Rua Antônio Vieira. Quarta-feira, 14:45. O almoço está na mesa. Perdiz ao molho de vinho branco e ervas. Tem quem escute crianças brincando na rua. A mulher esquecida do mundo fica olhando a perdiz torcendo para ela gostar do seu estômago. Que seja inteligente e boa, deixe-se levar. Mesmo assim engole em seco, garfo no ar. A perdiz não desabafa mais seus sofrimentos. O público não deve de saber certas coisas íntimas. Sobremesa: petit gâteau de goiaba com sorvete de queijo. Enfibraturas do Ipiranga.


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21.7.10





Bar do Tom. Rua Adalberto Ferreira. Sábado, 21:33. Barbudo maltrapilho com sotaque francês fala com gerente. Diz chamar-se Alfred e quer vender um desenho que ele mesmo fez. Um autorretrato seu com George Sand. Gerente olha desconfiado, não compra e oferece um chope pipoca como compensação. O francês bebe de um gole só e antes de sair agradece: "Mon verre n'est pas grand, mais je bois dans mon verre."

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20.7.10

Pizzaria Rosca Soberba, Estrada União Indústria, domingo, 18:30. Mesa 7. Homem branco, caucasiano, sub-20, magro, cabelo máquina 5, preto tingido, tatuagem indefinida no pescoço. Estado de ânimo: angustiado. Celular Motorola: " -- Dani, eu não tenho twitter, mas ainda sou gente, tá?" Pedidos: 1 Calzone napolitana, 2 chopes. Tempo de espera: 12 min. Tempo de consumo: 6 min. Conta: 18,90. Gorjeta: 0. Garçom Geraldo, voz interior: Maldito debiloide mão-de-vaca.


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15.7.10

Diadorim.
Diabo de dorzim. Das Dor.
Diadorim.
Nome de estrela do céu mais baixo.
De joaninha.
De comprimido. Dia do rim.
A gente lê Sêo Rosa e fica assim.
Falando línguas.
Se tem certa velhice, fica lembrando,
coisas, tudo tintimportintim.
Se não tem coisas, o sonho traz, inventa.
Fato por fato. Começo, meio, meio do meio,
fim do começo, começo do fim, e o do
fim exatamente. Que fim não tem meio.
Depois acorda e esquece do lembrado.
Vive a vida corrica. Uma só.
Que é vária e não se vê.
Diabo de dorzim. Diá de Sê o Rosa.
Diadorim é mulher só no final. Morta.
Sêo Rosa desvestiu.
A veredas só tem mulher diadorim.
Mulher feitio de homem. É ninguém.
Deve de lê Veredas com óculos de proteção, advirto,
que o dito respinga na gente e a memória
do coração minha mistura na dele, faz um caldo
grosso que não tem ralo que passe.
Ferve. Encolhe a carne da palavra que
eu tenho, fica um tantinho só. Dá vergonha.
De jumento espiando cavalo de raça. Não tem parelha.
Veredas é papel de ler em árvore da sombra do céu,
que não tem mais no de-Janeiro. Virar páginas
respirando curtinho. Contando nos dedos.
Não em poltrona de trem-bala, a vida passando
borrada. De onde se apeia quando a estação quer.
Ler até arder a porta do olho, a do fundo doer.
Jagunçada é pra encher linguiça.
Afazeres de livro gordo. Bote aí mil-e-quinhentos bois,
dezessete e setecentos cavalos entre burricos,
duas das mil carabinas e winchester, o mesmo número
de cabras tocando tudo, uma vingança por dia em vinte anos,
os gerais inteiro e soma a epopeia. O quebrado da conta é
o falar de amor. Amor encoberto. Dos pior.
E outras metafísicas estufadas.
Tesconjuro diminuir a história assim. Tirar água da carne.
Vá ler outra vez, vai. Dia dorzim.


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12.7.10

Djuna Barnes







Love Song


I am the woman -- it is I --
Through all my pain I suffer peace,
Through all my peace I suffer pain,
This insufficient agony --
This stress of woe I cannot feel --
These knees that cannot bend to kneel --
A corpse that flames and cannot die --
A candle with the wick torn through --
These are the things from which I grew
Into the woman whom you hate --
She whom you loved before you knew --
Loved, loved so much before you knew.

All I cannot weep -- in tears,
All I cannot pray -- in prayers,
For it is so the wild world moves,
And it is so that Tame Man loves.
It is for this books fall to ruin,
For this great houses mold and fall,
For this the infant gown, the pall,
For this the veil that eyes weep through,
For this the birds go stumbling down
Into the cycled ages where
Their squandered plumage rends the air.
For this each living thing that dies
Shakes loose a soul that will arise
Like ivory against black space --
A quiet thing, but with a face
Wherein a weeping mouth is built --
A little wound where grief is spilt.

I am the woman -- even so --
Through the years I have not swerved,
Through the years I've altered not.
What changes have I yet to know?
Through what gardens must I crawl?
How many roses yet must fall?
How many flowers yet must blow?
How many blossoms yet must rot?

How many thorns must I yet bear
Within the clenched fists of despair?
To be again she whom you loved --
Loved you so much, so much did care --
Loved, loved so much, so much did care!


Djuna Barnes, 1916.




26.6.10

Lúcio Cardoso



Jamais seria como os outros, jamais viveria das suas vidas simples, dos seus inocentes folguedos. Jamais teria inocência suficiente para viver entre eles como um irmão; sempre que procurasse se imiscuir, como o lobo da história, sentiria pesar a desproporção da sua origem, o sinal que o distinguia, o mistério da sua natureza solitária.

Fora assim que aceitara viver em silêncio, de cabeça baixa, sem ousar pedir coisa alguma. Vegetara nos empregos mais humildes, conhecera destinos diferentes, criaturas transfiguradas pelas dores mais fundas, pelas mais permanentes necessidades -- e conhecera também aqueles que a vida cumula de todos os seus favores, que elege como filhos diletos. E não sentira nenhum desprezo pelos primeiros e nem rancor pelos segundos. Transitara livremente entre eles, como se fosse outra a raça a que pertencesse, mais amarga e mais pura. Um dia, porém, alguém lhe fizera ver que mesmo assim a sua presença pesava como uma acusação. Os homens queriam representar livremente os seus papéis e se sentiam perturbados com aquela silenciosa presença, que parecia prestes a desencadear sobre eles uma força inesperada e poderosa. O seu silêncio, a sua tácita renúncia eram, ainda assim, um dom que lhe recusavam. Partira. No trem enfumaçado, embalado pelos solavancos do carro, cerrava os olhos, um jornal inútil nas mãos. Como era difícil viver!



(Em O desconhecido, 1940.)



18.6.10

José Saramago




Na ilha por vezes habitada
Na ilha por vezes habitada do que somos, há noites,
manhãs e madrugadas em que não precisamos de
morrer.
Então sabemos tudo do que foi e será.
O mundo aparece explicado definitivamente e entra
em nós uma grande serenidade, e dizem-se as
palavras que a significam.
Levantamos um punhado de terra e apertamo-la nas
mãos.
Com doçura.
Aí se contém toda a verdade suportável: o contorno, a
vontade e os limites.
Podemos então dizer que somos livres, com a paz e o
sorriso de quem se reconhece e viajou à roda do
mundo infatigável, porque mordeu a alma até aos
ossos dela.
Libertemos devagar a terra onde acontecem milagres
como a água, a pedra e a raiz.
Cada um de nós é por enquanto a vida.
Isso nos baste.


Poema à boca fechada

Não direi:
Que o silêncio me sufoca e amordaça.
Calado estou, calado ficarei,
Pois que a língua que falo é de outra raça.

Palavras consumidas se acumulam,
Se represam, cisterna de águas mortas,
Ácidas mágoas em limos transformadas,
Vaza de fundo em que há raízes tortas.

Não direi:
Que nem sequer o esforço de as dizer merecem,
Palavras que não digam quanto sei
Neste retiro em que me não conhecem.

Nem só lodos se arrastam, nem só lamas,
Nem só animais bóiam, mortos, medos,
Túrgidos frutos em cachos se entrelaçam
No negro poço de onde sobem dedos.

Só direi,
Crispadamente recolhido e mudo,
Que quem se cala quando me calei
Não poderá morrer sem dizer tudo.



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José Saramago, insuspeito poeta,
de quem, como um ancião bíblico,
parece não existir uma foto do
Jovem Saramago.


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16.6.10

Sebastião Alba


Sou quem os que amo (ou detesto) pensam de mim. Pouco mais.







Há poetas com musa

Há poetas com musa. Muitos.
Eu, neste jardim do Éden,
a cargo do município,
onde um velho destece a sua vida
e, baixando o olhar,
ainda lhe afaga a trama,
quando a poesia se afoita,
amuo
na agrura de, ao acordar,
tê-la sonhado.


Num álbum

Estar só
é meditar numa ausência
erguer os olhos do que, escrevendo, o constata
por uma ordem emanada já se sabe donde

ir só reivindica
sonega a caneta
dobra os papéis escritos
e conduz docemente
a uma longa suspeição de música.



Gosto dos amigos
Gosto dos amigos
Que modelam a vida
Sem interferir muito;
Os que apenas circulam
No hálito da fala
E apõem, de leve,
Um desenho às coisas.
Mas, porque há espaços desiguais
Entre quem são
E quem eles me parecem,
O meu agrado inclina-se
Para o mais reconciliado,
Ao acordar,
Com a sua última fraqueza;
O que menos se preside à vida
E, à nossa, preside
Deixando que o consuma
O núcleo incandescente
Dum silêncio votivo
De que um fumo de incenso
Nos liberta.


Faço hoje 55 anos. Quem disse que o tesouro dos poetas são "montes de
papéis desarrumados / e barras de oiro quando o sol se põe"?
Eu não aspiro a tanto, mas tenho alguns bens: sapatos novos, calças de
ganga, uma camisa de flanela e um relógio de pulso.
Depois de 50 anos de chatice, que tal?

A Poesia foi, para mim, corso: de quando em vez, fazia abordagens. Claro
que trago comigo, como qualquer pirata que se preza, o mapa desse tesouro,
onde ninguém o encontrará: na pala do olho direito — com o esquerdo, não
sei por quê, vi sempre melhor.


--

9.6.10




d'O Livro dos Três Caminhos e dos Sete Sinais do Amor Embebedado

Ho primeiro signall he muyto ouvyr & pouco fallar se nom he de cousa amada E falar minguado.

Ho segundo he secura de membros Polla ardente apricaçom aa cousa que ama.

Ho terçeiro sinall he os olhos encovados scilicet o Intindimento & a afeiçom profundos no coraçom & em deus Ca todo o que amã he dentro segundo de çima he dito.

Ho quarto sinall he mimgua de lagrimas se nom veem da cousa amada.

Ho quimto he pulsso desordenado scilicet das afeiçõoes que som ou muito triguosas ou muito tardinheiras assy como he dito.

Ho seisto he profundo cuidado & adormiçimento tornado adentro Assy que taes namorados nom entendem senom pouco ou nada das cousas de fora senom de seus amores

Ho seitemo he alteraçom que vem quando homem vee alghua cousa que pareçe o que ama

Per estes sete signaaes conheçe homem ho amor enbevedado (...)


--
Em Castelo Perigoso, epístola medieval escrita por Frère Robert, monge cartuxo, a sua prima freira, Soeur Rose.

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14.5.10




Vírgula


Eu menino às onze horas e trinta minutos
a procurar o dia em que não te fale
feito de resistências e ameaças — Este mundo
compreende tanto no meio em que vive
tanto no que devemos pensar.

A experiência o contrário da raiz originária aliás
demasiado formal para que se possa acreditar
no mais rigoroso sentido da palavra.

Tanta metafísica eu e tu
que já não acreditamos como antes
diferentes daquilo que entendem os filósofos
— constitui uma realidade
que não consegue dominar (nem ele próprio)
as forças primitivas
quando já se tem pretendido ordens à vida humana
em conflito com outras surge agora
a necessidade dos Oásis Perdidos.

E vistas assim as coisas fragmentariamente é certo
e a custo na imensidão da desordem
a que terão de ser constantemente arrancadas
— são da máxima importância as Velhas Concepções
pois
a cada momento corremos grandes riscos
desconcertantes e de sinistra estranheza.

Resulta isto dum olhar rápido sobre a cidade desconhecida. Mais
E abstraindo dos versos que neste poema se referem ao mundo humano
vemos que ninguém até hoje se apossou do homem
como frágil véu que nos separa vedados e proibidos.



António Maria Lisboa

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2.5.10

Nuno Milagre




um plástico a voar
um saco de plástico no ar
saco preto que range baixinho
plástico fininho
desses que dão para quase tudo
um saco vazio a voar
inspiro, subo mais alto
plástico à vela
à altura de um nono andar, ou mais

um desses sacos esgaçados
que nada pesam
e dão para quase tudo, até voar
somos plásticos no ar
roçando prédios e árvores
plásticos quase brilhantes
pretos meio transparentes
opacos brilhando do alto
vendo as terras do espaço
ou presos a arame farpado

um plástico a voar no dia feriado
ainda não é tarde, são catorze e trinta



Nuno Milagre, via Poesia distribuída na rua.
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27.4.10

Ana Merino




Vida de lagartija


Yo quise ser animal casero
con vistas a la playa
pero soy lagartija y habito entre las grietas
de una roca volcánica en medio del desierto.

A veces alguien corta el final de mi cola
y allí quedan mis sueños moviéndose nerviosos
creyendo que están vivos.

Yo soy como las horas que pierden los domingos
acaricio el descanso metido entre las sábanas
y espero a que amanezcan los días de diario.

La vida es un enigma del que sólo descrifro
un trozo de esperanza
lo miro de reojo y nunca me detengo
porque temo al acecho de los tirachinas
o la sombra de un gato.



15.4.10





Constance,


Deitada nos arrozais de Pendotiba
sonhei que colocavas toda
a tua língua em minha boca
até o fundo da primavera

ninguém acharia os nossos corpos ali.


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13.4.10

Paul Bowles



Todos os dias eu sentava à minha mesa no balcão e escrevia várias páginas de uma obra que intitulara "Without Stopping". O importante era aumentar a pilha de páginas. Decidi escrever o que me viesse à cabeça e trabalhar o texto depois. Temia que, se parasse para pensar, eu iria ver a obra com olhos críticos, e isso deteria o fluxo. E era o fluxo o que mais me preocupava, pois escrever "Without Stopping" constituía uma terapia. Ver o número de páginas crescer me dava a ilusão de estar criando alguma coisa. Eu tinha perfeita consciência de que vender livros impunha uma situação de inatividade.



Paul Bowles, em Without Stopping, 1972. No Brasil, esta autobiografia só seria publicada em 1994, com o título Tantos caminhos.

9.4.10





Dois homens parados na rua.
Seguem em direções opostas.
Estou dentro do carro.
Não chove porque já choveu
tudo que havia para chover.
Os homens tiram a capa.
O para-brisa marca os segundos.
Os homens não param.
Saem pelos cantos do retrovisor.
Viro à esquerda.
Dou a volta no quarteirão.
Lá está outro, parado.
Vem na minha direção.
Não preciso do retrovisor para ver
que leva a mão ao bolso da calça
e puxa um estilete/carteira/revólver?
Estou dirigindo sem óculos.
Uma imprudência.
Os vidros elétricos sobem.
Abro o porta-luvas e destravo minha Ratzinger.
O homem olha fixamente para mim.
Não me reconhece.
Passa direto e atravessa a rua.
Do outro lado a mulher espera.
Abraços e vão beber sozinhos.
Enfio o pé no acelerador
e eles ficam para trás.
Parados para sempre.
Digo a mim mesmo que estou ficando senil.
E concordo.


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29.3.10

A matéria básica da poesia não é a palavra, mas a letra







Lanke trr gll.
Pe pe pe pe pe
Ooka. Ooka. Ooka. Ooka.
Lanke trr gll.
Pi pi pi pi pi
Tzuuka. Tzuuka. Tzuuka. Tzuuka.


- poema silábico do pintor, escultor e poeta dadaísta alemão Kurt Schwitters.

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26.3.10

Raul Seixas




A saudade é um parafuso
Que quando a rosca cai
Só entra se for torcendo
Porque batendo não vai
Mas quando enferruja dentro
Nem distorcendo não sai



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Esta conhecida sextilha de cordel, segundo alguns estudiosos, foi erroneamente atribuída a Raul Seixas no livro O baú do Raul revirado. O autor é anônimo. 


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24.3.10




sou de uma raça de cachorro ruim
desassossegado pelo sangue que
brota das noites-incompletudes escorrendo
em angústias esquivas
sou de uma raça de cachorro mau
nauseado pela lua opiada nas
madrugadas latejantes de desejos lascivos
bebendo peçonha tumultuando
os jardins com excrementos perversos.
então escancaro uma
réstia lanosa de lágrima
quando me queimo em tua lua segredada
quando substancialmente o animal
estúpido cura sua compaixão.




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21.3.10

Almoço (7)


Dia: Domingo. Nuvens carregadas, baixas e frias.

Local: Algum lugar a leste da Inglaterra no trem das 11:45 para Norwich. Escrevo isto no bar. A caminho do almoço de domingo com mamãe.

Presentes: Eu, três soldados, uma gorda e um magricelo com cara de fuinha falando no celular.

Menu: Comecei com um Jimmyburger na estação, em seguida dois ovos à escocesa no bar. No trem tracei um saco de batatas chips e um sanduíche de ovo com agrião comprados no carrinho de bordo. No vagão-restaurante, até agora, eu tinha comido uma torta de carne de porco, um enroladinho de salsicha, um treco chamado "sanduíche de lavrador" e uma barra de chocolate. Tem uma omelete solitária de salame e champignon envolta em papel-celofane que eles esquentam no micro-ondas. Por que ainda estou com fome?

Bebidas: Dose dupla de vodca com laranja no bar da estação -- desejo vão e muito passageiro de tirar o bafo de álcool. Duas latas de gim e vermute italiano no trem antes de ir atrás de comida. Comecei com cerveja. Notei que os milicos estavam bebendo a mesma coisa e então vi que ali vendiam vinho em meia-garrafa. Comprei duas depois de pedir a omelete. O rótulo diz "Vinho Tinto". Sem país de origem. Ácido, rascante, cru. Receio ficar com os lábios manchados. Mamãe, como de hábito, vai servir Moselle dizendo que é vinho branco do Reno.

Conta: Recuso-me a gastar mais de 20 libras.

Extras: Muita fumaça de cigarro, todo mundo está fumando, inclusive o cabineiro, escondido atrás do bar. A fumaça lhe escapa por entre os dedos do punho frouxamente fechado e vai parar em suas nádegas. A gorda fuma. O homem com o celular fuma enquanto murmura dentro da pequena caixa de plástico. Eu sinto um súbito gosto metálico na boca e sou subitamente atormentado por uma imagem de Diane S. -- nua, rindo.

Comentários: Os campos ingleses nunca pareceram tão vazios e mortos sob esse opressivo céu cor de chumbo. O barman acena... Minha omelete de salame e champignon está pronta, um misto de tons de amarelo com áreas em marrom fumegando de maneira duvidosa. Um cheiro curioso, repelente mas inegavelmente de comida, parece de repente invadir todo o vagão, superpondo-se a qualquer outro odor. Todo mundo fica me olhando. Desenrosco a tampa do "Vinho Tinto" e encho o copo enquanto seguimos sacolejando por Norfolk. Haja suco gástrico. Estou morrendo de fome, como é possível uma coisa dessas? Mamãe a essa altura estará preparando para mim o arquétipo de um tradicional almoço inglês de domingo: assado, batatas cozidas e dois ou três legumes, um balde de molho, queijo e biscoitos, seu pavê especial. Olho pela janela os quilômetros de verde lúgubre. A chuva cospe no vidro e os soldados começaram a cantar. É hora da minha omelete. Sei o que estou fazendo, mas isto é mau sinal, o começo do fim. Estou me propondo deliberadamente a arruinar (porque, verdade seja dita, ninguém pode almoçar antes de almoçar) o almoço.



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O conto "Lunch", que este blog acabou de publicar em 7 suaves prestações, faz parte da coletânea Fascination, de William Boyd, publicada em 2004 e com lançamento previsto no Brasil para este ano. O autor, de origem escocesa e nascido em Gana, é considerado por muitos um mestre na arte da concisão e precisão, com técnicas narrativas as mais variadas, capaz de criar um personagem numa única frase e de montar uma trama com um único parágrafo. A presença de Boyd é aguardada na FLIP de 2010.
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20.3.10

Almoço (6)


Dia: Sábado.

Local: Minha cozinha, Rostrevor Road, Fulham.

Presentes: Eu e (de vez em quando) Birgitte, a empregada.

Menu: Raspa de geladeira -- queijo cottage e pão integral, sobras do bolo de carne com batatas de quinta-feira, um restinho do iogurte de Toby, triângulos de queijo. Birgitte saiu para pegar uma pizza mas eu não aguentei esperar.

Bebidas: "Três doses de gim, uma fatia de limão e 300ml de água tônica..." Quem disse isso? Depois dois copos de Pinot Grigio antes de eu descer ao porão e desencavar o Ducru-Beaucaillou. Foda-se. Dei um pouco para Birgitte, que virou a cara. Preferia sua própria cerveja. Ela me deu uma latinha quando meu Beaucaillou acabou. Coisa forte. Dormi o resto da tarde.

Conta: A Condição Humana.

Extras: Sinto falta de Toby e Jennifer. Sinto falta do nosso almocinho de sábado. O melhor almoço da semana.

Comentários: Música -- primeiro o Trio para Trompa de Brahms, mas me deu vontade chorar. Birgitte pôs uma coisa mais rítmica, étnica. Ela me deu uma fita de ondas do mar quebrando na praia. "Para relaxar", disse ela. Que garota de bom coração! Por que alguém comeria queijo cottage? O que, falando em termos de gosto e textura, pode recomendar isso? Jennifer e seus regimes idiotas e eternos. Perfeitamente magra, perfeitamente... Os triângulos de queijo eram incrivelmente deliciosos, comi a caixa inteirinha com o Beaucaillou.


(parte final amanhã)


William Boyd

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19.3.10

Almoço (5)


Dia: Sexta-feira.

Local: Montrose Dining Club, Lincoln's Inn. Subsolo, salão superiluminado, mesa comprida central. Equipe de funcionários composta por ex-porteiros de faculdade muito velhos e garotas monoglotas muito jovens que parecem vindas do Leste Europeu.

Presentes: Eu e Alisdair Lockhart.

Menu: Camarões em conserva com torradas, pato à l'orange, torta de melaço (!).

Bebidas: Gim-tônica, clarete, conhaque.

Conta: 28 libras. (Eu paguei. Preço absurdo. Alisdair disse que podia pôr na conta dele mas eu insisti.)

Extras: Umas 5 mil libras, se eu bem conheço Alisdair.

Comentários: Viagem no tempo. Uma volta à escola. Essa era a culinária inglesa até bem pouco tempo, esquecemos que era isso que costumávamos comer. Camarões em conserva parecendo manteiga gelada, torradas murchas. Pato cozido à extinção, molho doce enjoativo. Pedi torta de melaço em nome da nostalgia. (Alisdair tem uma caspa assustadora para um homem relativamente jovem.) Eu disse que as coisas com Jennifer estavam ficando cada vez mais difíceis. Ele não se mostrou otimista. Perguntou se isso já tinha acontecido antes e então contei do ultimato de Jennifer. Ele mencionou rapidamente a questão da custódia de Toby. Precisou ir embora cedo pois tinha que estar no tribunal. Deprimente. Tomou uísque num pub irlandês.



(cont.)

William Boyd

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18.3.10

Almoço (4)


Dia: Quinta-feira.

Local: La Casa del' Luigi, Fulham Road.

Presentes: Eu, Diane, Jennifer (mais tarde).

Menu: Minestrone, espaguete à bolonhesa, tiramisu.

Bebidas: Gim-tônica, Valpolicella, substituído por um Chianti Classico depois de derramado. Muita grappa após a chegada e partida de Jennifer.

Conta: 73 libras, arredondadas para 90. Sem agradecimentos.

Extras: Um maço de Silk Cut. Três copos, dois pratos. Serviço de lavanderia incluído.

Comentários: O minestrone era de lata, juro. O espaguete à bolonhesa do Alfredo incrivelmente autêntico como sempre (por que nunca se consegue fazer um assim em casa?). Ele se recusa a divulgar o segredo, mas tenho certeza de que leva fígado de galinha no ragu. Que precisa cozinhar em fogo brando por dias, também. Tiramisu sem graça, velho. Um grande erro vir comer tão perto de casa. Um erro MONUMENTAL. Jennifer ia passar direto. Quem foi o garçom filho-da-puta que avisou a ela que estávamos aqui?



(cont.)


William Boyd

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17.3.10

Almoço (3)


Dia: Quarta-feira.

Local: "Suíte" de refeições do presidente, sexto andar. Ambiente em madeira de carvalho clara. Prataria. Belos quadros - um pequeno Sutherland, perfeito, um Alan Reynolds, dois Craxtons.

Presentes: Eu, sir Torquil, Gerald Vere, Barry Freeman, Blake Ginsberg (o novo médico), algum alto executivo da área financeira (apresentado apenas com um "você conhece o Lucy") - não deve ser o primeiro nome dele, certo? Pinta de estrangeiro).

Menu: Terrine de legumes, costeleta de cordeiro com batatas, framboesas com crème fraiche. Stilton.

Bebidas: Meu frasco de uísque no banheiro de baixo, depois Vodkatini (podia estar mais gelado), um Chablis bastante correto, seguido de um Domaine de Chevalier safra de 1978 (sensacional). Vinho do Porto (Taylor's, sem data).

Conta: Um preço alto demais a pagar.

Extras: Ao menos pude ver o Sutherland.

Comentários: Com exceção da terrine de legumes (sempre uma absoluta perda de tempo), bufê de alto nível para um ambiente de trabalho. Apreciável. O cordeiro no ponto certo. Vinho soberbo. Tiveram a elegância de esperar pelo queijo. O homem condenado teve uma farta refeição. Porcos desalmados filhos-da-puta.


(cont.)

William Boyd

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16.3.10

Almoço (2)



Dia: Terça-feira.

Local: Eurotel Palace, Aeroporto de Heathrow.

Presentes: Eu e Diane S.

Menu: Insalata Tricolore, linguado a Dover, tarte aux pommes.

Bebidas: Gim-tônica no bar, Merry Dale Chardonnay, champanhe da casa acompanhando sobremesa.

Conta: 96 libras (serviço incl.).

Extras: Irish coffee servido no nosso quarto: 5,50 libras cada. Um maço de Silk Cut.

Comentários: Música clássica de fundo quase inaudível. Mussarela borrachuda. Quando é que os ingleses vão parar de servir "Uma seleção de legumes"? Cenouras sem gosto nenhum, brócolis aguados, parecendo nabo. A tarte aux pommes é uma simples torta de maçã, não favorecida pela tradução. Champanhe da casa surpreendentemente bom - borbulhas pequenas, encorpado, leve toque de maçã. Irish coffee intragável - dinheiro jogado fora.



(continua)

William Boyd

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15.3.10

William Boyd



Almoço



Dia: Segunda-feira.

Local: Le Truc Interessant, Lexington Street, Soho.

Presentes: Eu, Gerald Vere, Melanie Swartz, Peter (qualquer coisa) do Banco Svenska, Barry Freeman, Diane Skinner (diretora financeira da S.L.L.& L.), Eddie Kroll (saiu antes da sobremesa).

Menu: Tabouleh chinois, roulade de foie de veau farcie, millefeuille de fruits d'hiver.

Bebidas: Dois Moet & Chandon non-vintage, dois Sancerre, um Pichon Longueville safra 1983, um tinto provençal chamado Mas Jullien. Vinho do Porto, brandy (eau de vie de prune para Diane S.).

Conta: 878 libras, serviço não incluído.

Extras: Romeo y Julietas para Vere e Freeman, camiseta e jogo de temperos para Melanie. Um maço de Silk Cut para Diane S.

Comentários: Sem música ambiente. Tabouleh chinois - um tabule comum com pedaços de lichia. Diferente. Roulade de foie primoroso, servido sobre purê de aipo. Diane S. mal tocou na comida, "guardando-se para a sobremesa". Millefeuille - nota 8, numa escala de 0 a 10, para a massa folheada. Frutas insípidas. Diane S. bancou a conta. E também meu táxi na volta. Obrigado Swabold, Lang, Laing e Longmuir. Muitíssimo obrigado a todos.



(continua)

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11.3.10




Óculos-periscópio, para ler na horizontal. Nationaal Archief, Holanda.


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2.3.10

Fabrício Marques




Mini litania da política editorial


Me suplica que eu te publico
Me resenha que eu te critico
Me ensaia que eu te edito
Me critica que eu te suplico
Me edita que eu te cito
Me analisa que eu te critico
Me cita que eu te publico
Me publica




Êxodos


vá para o ardor que te adense
vá para o salto que te sacuda
vá para o passado que te pertence
vá para o ruído que te restaure
vá para o frêmito que te festeje
vá para o vértice que te vasculhe
vá para o crepúsculo que te carregue

-

27.2.10

Lêdo Ivo

Queime tudo o que puder :

as cartas de amor

as contas telefônicas

o rol de roupas sujas

as escrituras e certidões

as inconfidências dos confrades ressentidos

a confissão interrompida

o poema erótico que ratifica a impotência

e anuncia a arteriosclerose



os recortes antigos e as fotografias amareladas.

Não deixe aos herdeiros esfaimados

nenhuma herança de papel.



Seja como os lobos : more num covil

e só mostre à canalha das ruas os seus dentes afiados.

Viva e morra fechado como um caracol.

Diga sempre não à escória eletrônica.



Destrua os poemas inacabados, os rascunhos,

as variantes e os fragmentos

que provocam o orgasmo tardio dos filólogos e escoliastas.

Não deixe aos catadores do lixo literário nenhuma migalha.

Não confie a ninguém o seu segredo.

A verdade não pode ser dita.




 "A Queimada".

-

18.2.10




Credo in un Dio crudel che m'ha creato
Simile a sè, e che nell'ira io nomo.

Dalla viltà d'un germe o d'un atomo
Vile son nato.
Sono scellerato
Perchè son uomo
E sento il fango originario in me.
Si! quest'è la mia fé!
Credo con fermo cuor, siccome crede
La vedovella al tempio,
Che il mal ch'io penso e che da me procede
Per mio destino adempio.
Credo che il giusto è un istrion beffardo
E nel viso e nel cuor,
Che tutto in lui è bugiardo:
Lagrima, bacio, sguardo,
Sacrifício ed onor.
E credo l'uom gioco d'iniqua sorte

Dal germe della culla
Al verme dell'avel.
Vien dopo tanta irrision la Morte.

E poi? La morte è il Nulla.
È vecchia fola il ciel!




Creio em um Deus cruel que me criou
À sua semelhança, e que na ira eu invoco.

Da vileza de um germe ou de um átomo
Vil nasci.
Sou celerado
Porque sou homem
E sinto a lama originária em mim.
Sim! esta é a minha fé!
Creio com firme coração, como crê
A viuvinha no templo,
Que o mal que penso e que de mim procede
Eu o realizo pelo meu destino.
Creio que o justo é um histrião burlador
No rosto e no coração,
Que tudo nele é mentira:
Lágrima, beijo, olhar,
Sacrifício e honra.
E creio que o homem é um jogo da sorte iníqua

Do germe do berço
Ao verme do túmulo.
Vem, depois de tanta irrisão, a Morte.

E depois? A morte é o Nada.
O céu, uma velha fábula!



Arrigo Boito, compositor, poeta e libretista, responsável pela adaptação do Otelo shakespeariano à ópera homônima de Verdi, de 1887. O monólogo aqui publicado, Credo de Iago, é um acréscimo do poeta.
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7.2.10




O ovo e a vizinha


“Vó, a vizinha tá cheirando o seu ovo!” Elizabeth Soares, dos Almeida, nasceu no Rio de Janeiro em 1968 e morava com a avó no Leme, o apêndice de Copacabana. Morava com a avó porque dos pais pouco sabia. Eram professores e viviam viajando, comentavam baixinho. Ela nunca os viu. Nunca os veria. Como via agora a vizinha cheirando o ovo. A vizinha batera na porta há uns três cafés da manhã e pedira por obséquio um ovo. Só um. E branco. Não uma xícara de açúcar. Uma colher de sal. Um ovo. A cozinha da avó ficava de frente para a cozinha da vizinha. Entre elas um fosso de dez andares. Vinte cozinhas ao todo. De todos os cheiros, vozes e ruídos. Elizabeth viu pela janela sempre aberta a vizinha entrando na cozinha em frente e pousando o ovo sobre a mesa. Não fritou, não cozinhou. Sentou na cadeira e ficou lá a manhã inteira. Olhando o ovo. Estudando. Depois pegando, tateando, girando-o entre os dedos e, largando de novo na mesa, tentou várias vezes colocá-lo de pé. Ovo teimoso. Elizabeth sorriu, lembrando da avó. Turrona. A mulher olhava para o ovo com a devoção dos não famintos. Como um Cristo na cruz. “Vó, a vizinha é doida?” Não, é jornalista. Vive batendo à máquina, nunca ouviu? Jornalista é quem escreve em jornal, Elizabeth lembrou das palavras da avó enquanto catava conchinhas na praia. Será que ela vai escrever sobre o ovo da minha avó no jornal? Que notícias pode trazer um ovo? Dos meus pais desaparecidos? Elizabeth largou o baldinho, deu um mergulho e voltou para a sombra da barraca. A avó comprou dois picolés. Olhando um navio que passava, ela começou a fazer um buraco fundo na areia morna. Um dia ela iria para longe dali. Outro país. Não sabia como. De navio ou por aquele buraco na areia. A areia da praia costumava ser generosa. Bastava saber cavar. Um dia achou um relógio de ouro. Outra vez um livro de capa dura de um escritor chamado Oscar. O Retrato de Dorian Gray, leu sua avó. Seu pai também se chamava Oscar, ela disse, como se ele estivesse morto. Foi o primeiro livro de Elizabeth. Ela aprendeu a ler só para entender o que Oscar dizia. Mas Oscar ainda era uma boia longe e solitária no oceano. Foram necessários mais vinte anos para entendê-lo. A avó não existia mais e Elizabeth descobriu não gostar do universo literário brasileiro. O ovo era o disfarce da vizinha. Não precisou do navio ou do buraco na areia para chegar ao outro lado do Atlântico. Professora de teoria literária e literatura comparada em Oxford, Elizabeth perdeu também o sobrenome. Ganhou dois filhos, Troilus e Cressida.

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1.2.10




Quais foram as últimas palavras de Maiakóvski antes de cometer suicídio?
"Camaradas, não atirem!"


(piada que circulou entre os russos logo após a morte do poeta em 14 de abril de 1930)

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