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14.8.07

Rainer Maria Rilke




Cristo, no gesto da Crucificação, seus braços estendidos parecendo uma placa de sinalização na encruzilhada de toda a dor, morre sob o peso do seu destino que, como uma pedra (a Cruz pesada e petrificada), eleva-se sobre ele. E ela, que uma vez veio para ungir seus pés incansáveis, aproxima-se, agora que o sacrifício está completo, para envolver aquele corpo abandonado e inanimado com o carinho tardio e sem sentido do seu próprio corpo. Em um paroxismo de desespero, ela se joga aos pés dele. Com o braço esquerdo, apóia aquela cabeça maltratada, cuja expressão já não consegue suportar. E o rosto dele deixa-se levar por seu braço trêmulo, como um objeto flutuante, enquanto ela, curvada para a direita, como uma chama atormentada pelo vento, tenta enterrar e esconder o sofrimento inefável daquele corpo tão amado no seu próprio amor destruído. Ela o envolve com um movimento desconsolado e suplicante e, com um gesto de desamparo, solta os cabelos para mergulhar neles o coração atormentado de Cristo.


Rainer Maria Rilke, em monografia sobre a escultura Cristo e Madalena, de Rodin, 1902.


12.5.03

Oh noite sem objetos. Oh janela baça pelo lado de fora, oh portas cuidadosamente cerradas; antigos hábitos transmitidos, confirmados, nunca bem entendidos. Oh silêncio no vão da escada, silêncio nos quartos vizinhos, silêncio no alto, junto ao teto. Oh mãe: oh tu, única, que te puseste diante desse silêncio outrora na infância. Que o assumias, dizendo: não te assustes, sou eu. Que tinhas a coragem de ser, na noite, inteiramente esse silêncio para aquele que teme, que se consome de temor. Acendes uma luz, e já esse ruído és tu. E a seguras à tua frente e dizes: sou eu, não te assustes. E a depositas lentamente e não há dúvida: és tu, tu és a luz em torno dos objetos amavelmente familiares, que aparecem sem ambiguidade alguma, bons, simples, unívocos. E quando algo se inquieta em algum lugar da parede ou dá um passo no assoalho: então apenas sorris, sorris, sorris translúcida diante do fundo claro, para o rosto amedrontado que te perscruta como se fosses cúmplice desse segredo em meio-tom, em combinação com ele, de acordo com ele. Existirá algum poder semelhante ao teu na terra? Vê, reis jazem de olhar fixo, e o contador de histórias não consegue distraí-los. Entre os belos seios de sua mais querida amante, eles são tomados pelo terror que os deixa trêmulos e frios. Mas tu vens, detendo o monstruoso atrás de ti, inteiramente postada à sua frente; não como um cortinado que se pudesse erguer aqui ou ali. Não, é como se o tivesses superado diante do apelo de quem te necessita. Como se te houvesses adiantado muito ao que pudesse vir, e houvesse atrás de ti apenas o teu chegar, teu eterno caminho, o vôo do teu amor.

-- Rainer Maria Rilke, em "Os Cadernos de Malte Laurids Brigge".