29.5.07





Clarice Lispector,
a senhora não devia
ter-se esquecido
de dar de comer aos peixes
andar entretida
a escrever um texto
não é desculpa
entre um peixe vivo
e um texto
escolhe-se sempre o peixe
vão-se os textos
fiquem os peixes
como disse Santo António
aos textos.


adília lopes
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25.5.07



Eu não poderia lavar alface nessa pia. Moro num 3x2, pia e privada incluídas. E uma janela-basculante sobre a Guanabara. Quando se mora há muito tempo num 3x2, não dá para lavar alface na única pia do lugar. E eu moro há mais de vinte anos ao lado dessa pia de frente pro mar. Ela é o meu mundo. Toda a água de que preciso nesta vida eu sei que sairá por ali. A pia é o meu atlântico, minha lagoa, minha piscina. Aqui lavo o rosto, as mãos, os dentes, o cabelo, o corpo por inteiro. Por isso botei minha cama ao lado da pia. A pia é o meu relógio. Quando quero saber o tempo que passa, basta abrir um pouco a torneira e contar os pingos. Aprendi que o justo controle da pressão da água me daria também tudo de que eu precisava para ser feliz. Pingos diferentes são música. Pulsos lentos, pulsos rápidos, meus tímpanos vibrando na freqüência dos pingos, formando compassos. Eu divido o fluxo da água para obter o som que bem quero, mas às vezes a torneira me surpreende com uma batida diferente. São momentos mágicos, posso dizer assim. Como as horas em que dou toda pressão e uma cachoeira entra no meu quarto. Tudo é questão de fechar o ralo certo. Na medida certa. Para pessoas comuns um ralo é um ralo. Bocal de canalização de esgotos, como nos dicionários. Pessoas comuns e dicionários têm idéias menos imaginativas a respeito dos ralos. Para mim são a porta de saída da minha vida. Como a torneira é a porta de entrada. O que eu preciso é controlar ralo e torneira. Mantê-los em sincronia. Onde um cede o outro resiste. Os dois não podem ceder e resistir ao mesmo tempo. E assim vou aprendendo com a minha pia o que é o mundo das possibilidades. A pia é o único professor que eu tenho à mão. E eu nunca sei qual será a próxima aula.

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10.5.07

Ana Paula Tavares

Desossaste-me
cuidadosamente
inscrevendo-me
no teu universo
como uma ferida
uma prótese perfeita
conduziste todas as minhas veias
para que desaguassem
nas tuas
sem remédio
meio pulmão respira em ti
o outro, que me lembre
mal existe
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Deixa a mão pousada na duna
Enquanto dura a tempestade de areia
A sede colherá o mel do corpo
Renasceremos tranquilos
De cada morte nos corpos
Eu em ti
Tu em mim
O deserto à volta





8.5.07

O sanatório de almas




medo na biblioteca

alguém já disse que uma biblioteca é o sanatório das almas. uma boa definição. os mais melosos também chamam de o coração da humanidade. e ainda há aqueles que acham que toda biblioteca não passa de um depósito das maldades do paganismo e do ateísmo. longe de definir, eu gosto de estar dentro de uma biblioteca. de preferência antiga, muito antiga. quase medieval. encardida pelo tempo. com teto alto e corredores escuros. corredores não, ruas. avenidas, para eu me perder por elas. estantes gigantescas que não poderia alcançar sem uma escada. e a escada, sempre há poucas. o ar, o ar precisa ser irrespirável. as lombadas, empoeiradas. para se descobrir os títulos aos pouquinhos. letra por letra. é preciso ter medo na biblioteca. medo do corredor ao lado. medo do escuro. das vozes baixas, dos passos lentos que se aproximam e se afastam. medo dos livros que podem despencar sobre mim e me sufocar. dos livros que não devo ler se quero sair da biblioteca viva. medo dos insetos por trás, por dentro de um livro. roendo papel. medo de ser roída também se fizer da palavra escrita uma forma de vida. medo de passar um dia eu mesma a roer livros. como uma traça. há que se temer bibliotecas. e acorrentar livros. como nesta biblioteca que conheci na filadélfia. isso faz muito tempo.

2.5.07

bed & book








Residue é o título deste livro em forma de caminha que ganhou o Florida Book Prize de 2003. O projeto é da artista plástica Rosemarie Chiarlone e da poeta Susan Weiner, que publicou no livro um poema bordado nos lençóis de algodão. Para ler o poema é preciso desfazer a cama. São 12 folhas soltas e com direito a travesseirinhos e tudo. Só houve 3 edições (1 exemplar de cada), em inglês, francês e espanhol. Viraram peças de museu. O que dizer além de fofo?
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