30.8.02

Houve um tempo em que eu misturava sexo com manga rosa e gozava só de acender. Houve um tempo em que eu me apaixonava bastava um gesto e a moto fazia 120 por hora. Houve um tempo em que eu lia Shakespeare, ouvia Kid Abelha com Black Sabbath e ninguém tinha nada com isso. Houve um tempo em que eu tive medo das drogas porque me disseram que Hendrix e Joplin morreram disso. Houve um tempo em que eu tentei mudar a sociedade com uma metralhadora mas queria chegar em casa cedo. Houve um tempo em que eu percebi que podia trocar a arma pela palavra mas a luta já havia acabado. Houve um tempo em que eu colocava no piloto automático Guevara, Pessoa, Drummond, Baudelaire, Artaud, Glauber, Torquato, Oswald, Nietzsche, Foucault, Maiakovski, Kerouac, Lautréamont, Camus, Poe, Lawrence, Virginia Woolf, Borges, Ionesco, Bukowski, os amigos mais loucos e os cortes de cabelo mais estranhos. Houve um tempo em que eu só era fotografada com um copo na mão e o mundo girava na minha cabeça sem claustrofobia. Houve um tempo em que eu descobri que as mulheres num canto de boate são mais do que amigas. Houve um tempo em que eu trabalhava porque precisava, depois porque gostava, depois porque não sabia fazer outra coisa. Houve um tempo em que o pôr-do-sol começou a ser chamado de Arpoador e a partir daí tudo ficou normal.

-

Beckett

"Eu sorrio ainda não vale mais a pena há muito tempo não vale mais a pena a língua ecoa vai na lama continuo assim mais sede a língua entra na boca se fecha ela deve fazer uma linha reta no momento está feita eu fiz a imagem."

--- "A Imagem".

Nelson Rodrigues

"O brasileiro não sabe ser inteligente com naturalidade. Vejam o francês. Jean-Paul Sartre, por exemplo. É um homem que inspira, aqui, admirações abjetas. Dizem: "A maior cabeça do mundo." Pois Sartre é inteligente com relativo tédio. E, por vezes, ele tem o que eu chamaria de "a nostalgia da burrice". Nessas ocasiões, diz as bobagens mais hediondas. Do mesmo modo o inglês, que também é inteligente sem espanto, sem angústia, sem deslumbramento. E não há mistério. O inglês, ou francês, encontra a língua feita e repito: um idioma que pensa por ele. Uma lavadeira parisiense é uma estilista, um cocheiro fala como um grã-fino de Racine. Ao passo que nós temos de recriar, dia após dia, a nossa língua e pensar em péssimo estilo."

--- Em crônica de "O Óbvio Ululante".

28.8.02

Sonhei que eu entrava no Ovo do Dia e pedia um bate-entope. Sentava numa mesa vazia e uma mula-sem-cabeça me servia um sanduíche de bife à milanesa. Enquanto eu mordia o pão senti meus pés nus afofando a serragem espalhada pelo chão. A mula, que não tinha cabeça mas falava, puxou assunto: "Sou do tempo em que mulher tomava Regulador Xavier, homem usava Brylcrem e os dois limpavam a bunda com Tico-Tico." Tu é véia, mula? A mula virou assim meio de lado, esticou os beiços vermelhos e muxoxou "Néris, assim assim. Sou a mula-sem-cabeça de James Dean". Não diz -- eu fiquei extasiada. Eu daria tudo para ser a mula-sem-cabeça de James Dean. Ela percebeu o brilho em meus olhos e ciscou o chão com a pata dianteira: "E não é?" Com o rabo do olho reparei que ela usava galochas. Vai chover, mula? "Só se São Pedro quiser", ela respondeu dando de ombros. Tentei voltar ao assunto de James Dean mas ela cortou logo pra dizer que se chamava Desdêmona e que à noite trabalhava no circo mas tinha medo de carnaval porque não gostava de gente mascarada. Eu sorri porque me lembrei de uma música que não valia a pena cantar. Lá de dentro da cozinha do bar vinha um forte cheiro de cebolas fritas e ouvi minha mãe apertando o pescoço de uma galinha. A mula fez que não viu minha perturbação e começou a cantarolar uns versos enquanto se afastava. "Leões cheios de sombra e de melancolia." Eu forcei a memória para lembrar do poeta mas o sonho já estava desbotando. Mula? Eu quis chamá-la para dizer que não tinha mais medo do escuro porque agora tomava comprimidos para dormir. Mula? Eu queria dizer que você já não me mete medo porque depois da televisão nada mais me assusta. Mas a mula já estava no ponto de ônibus e pegou o Barão de Drummond antes que eu pudesse alcançá-la, antes que eu adormecesse de novo.
-

27.8.02

Elizabeth Bishop

ONE ART


The art of losing isn't hard to master;
so many things seem filled with the intent
to be lost that their loss is no disaster.

Lose something every day. Accept the fluster
of lost door keys, the hour badly spent.
The art of losing isn't hard to master.

Then practice losing farther, losing faster:
places, and names, and where it was you meant
to travel. None of these will bring disaster.

I lost my mother's watch. And look! my last, or
next-to-last, of three loved houses went.
The art of losing isn't hard to master.

I lost two cities, lovely ones. And, vaster,
some realms I owned, two rivers, a continent.
I miss them, but it wasn't a disaster.

-- Even losing you (the joking voice, a gesture
I love) I shan't have lied. It's evident
the art of losing's not too hard to master
though it may look like (Write it!) like disaster.
-


Teoria geral dos chatos

Jaguar em seu livro "Confesso que bebi" descreve a teoria geral dos chatos de Tom Jobim e por que este frequentava a churrascaria Plataforma, no Rio. Dizia Tom: "Grandes ambientes confundem o chato, ele se desconcentra. Ai de ti quando o chato consegue te encurralar num canto de bar, sem óculos escuros. Bloqueia a passagem, olho no olho, te toca, te enche de perdigotos. Aí não tem escapatória... Óculos escuros é fundamental. O chato exige atenção pupilar. Sem saber para onde você está olhando, ele perde o moral, aí você aproveita o momento de fraqueza e escapa."
-

25.8.02

Hilda Hilst

"Eu tenho oito anos. Eu vou contar tudo do jeito que eu sei porque mamãe e papai me falaram para eu contar do jeito que eu sei. E depois eu falo do começo da história. Agora eu quero falar do moço que veio aqui e que mami me disse agora que não é tão moço, e então eu me deitei na minha caminha que é muito bonita, toda cor-de-rosa. E mami só pôde comprar essa caminha depois que eu comecei a fazer isso que eu vou contar. Eu deitei com a minha boneca e o homem que não é tão moço pediu para eu tirar a calcinha. Eu tirei. Aí ele pediu para eu abrir as perninhas e ficar deitada e eu fiquei. Então ele começou a passar a mão na minha coxa que é muito fofinha e gorda, e pediu que eu abrisse as minhas perninhas. Eu gosto muito quando passam a mão na minha coxinha. Daí o homem disse pra eu ficar bem quietinha, que ele ia dar um beijo na minha coisinha. Ele começou a me lamber como o meu gato se lambe, bem devagarinho, e apertava gostoso o meu bumbum. Eu fiquei bem quietinha porque é uma delícia e eu queria que ele ficasse lambendo o tempo inteiro, mas ele tirou aquela coisona dele, o piupiu, e o piupiu era um piupiu bem grande, do tamanho de uma espiga de milho, mais ou menos. Mami falou que não podia ser assim tão grande, mas ela não viu, e quem sabe o piupiu do papi seja mais pequeno, do tamanho de uma espiga mais pequena, de milho verdinho. Também não sei, porque nunca vi direito o piupiu do papi. O moço pediu pra eu dar um beijinho naquela coisa dele tão dura. Eu comecei a rir um pouquinho só, ele disse que não era pra rir nem um só pouquinho, que atrapalhava ele se eu risse, que era pra eu ficar quietinha e lamber o piupiu dele como a gente lambe um sorvete de chocolate ou creme, de casquinha, quando o sorvete está no comecinho. Então eu lambi. Aí ele disse pra esperar, e foi até aquela mesinha do meu quarto perto do espelho. É um espelho bem comprido, em volta tem pintura cor-de-rosa, ele pediu para eu ficar deitadinha nas almofadas do chão na frente do espelho com as pernas bem abertas. Eu fiquei. Aí ele tirou da malinha dele uma pasta que parecia pasta de dente grande e apertou a pasta e deu pra eu experimentar e tinha gosto de creme de chocolate. Ele passou o chocolate no piupiu dele, aí eu fui lambendo e era demais gostoso, e o moço falava: ai que gostoso, sua putinha. Eu também achava uma delícia mas não falei nada porque se eu falasse tinha de parar de lamber."

--- Hilda Hilst, no polêmico livro "O Caderno Rosa de Lori Lamby", 1990, Massao Ohno, SP.

23.8.02

Ácaro, Operação Terra. No mundo pós-holocausto nuclear, o último ser vivo a escapar da sanha assassina dos cyborgs será o Ácaro. O Ácaro não veio do espaço, não é alienígena, não tem o rosto de Marte. O Ácaro é o Darth Vader de Deus e coleciona pedaços de tecido humano. O Ácaro é uma máquina de destruição. Uma epidemia. E dele a humanidade não escapará. Ele irá ao seu encalço. No planeta dos macacos, na estação de Alphaville, no labirinto de videogames, no outro lado do inferno, numa órbita do futuro. O ser humano está com os dias contados. Inútil tentar dizimá-lo. Com sua carapaça indestrutível, o Ácaro se apossará do lixo atômico após o cataclisma final da derradeira hecatombe. E em sua espasmódica câmara dos horrores seremos todos estranhos visitantes. Porque o Ácaro está em mim e na tumba do faraó Tutancamon. Está em você e no cardápio da sua próxima refeição. Até o fim dos tempos.
-

21.8.02

"O primeiro parágrafo de tudo é como um iceberg. Quem tem medo contorna. Quem tem pressa afunda." Fiquei olhando para a cara dele sem saber se ele estava falando de literatura ou da minha vida. Se pelo menos ele tivesse agregado um navio a sua imagem de polichinelo, eu teria me situado melhor. Minha vida não era nenhum Potemkin, mas também não chegava a ser o Titanic. Ficava ali no meio, fazendo marola, como este chope choco que estamos bebendo agora. Marcos, o carinha que está aqui na minha frente contra a minha vontade, é professor de literatura e crítico de arte nas horas vagabas. Colabora com resenhas literárias para jornais que nunca leio e tem predileção por citar nomes de escritores mortos que nunca lerei, o que sempre me deixa com o pé atrás. O que eu estou fazendo aqui com ele? Pois é, eu estava sozinha em casa e de repente me vi diante de duas opções: o suicídio ou lavar um tanque cheio de roupa suja porque eu já estava ficando nua. Como possuo um temperamento naturalmente vegetativo, achei melhor sair para beber no bar de sempre. E adivinhe quem estava lá? Ele deu um tapinha calculado em minhas costas e me convidou para a mesa dele que ficava na pior localização: de frente pro banheiro. Eu não podia reclamar pois vivia dura e por isso mesmo era figurinha repetida naquele muquifo, onde minhas contas eram sempre penduradas. A situação andava tão braba que se eu quisesse me matar teria de me jogar na frente do metrô porque não tinha grana nem para comprar barbitúricos e morrer em grande estilo, além do que morava no segundo andar do prédio. Nada feito. Falta de dinheiro, roupa suja pra lavar, comida a quilo, TV aberta, filar cigarros, pendurar contas, eu já estava ficando com síndrome de abstinência de glamour. Tinha saudades da rota 66 em plena Avenida Brasil. E assim as horas foram passando, minha cabeça rodou e eu comecei a ver vários professores de literatura na minha frente, todos me falando sobre o que a literatura deve ser e o que nunca ela deve ser. Eu ouvia um coro grego: "Escrever é a arte de enganar o leitor sem passá-lo para trás." Onde é que eu tinha lido isso mesmo? Me lembrei de que eu não havia jantado, sequer almoçado. "Você está se destruindo, devia se preocupar em publicar seus textos em vez de ficar bebendo feito um gambá. Diletantismo não leva a nada." Então eu era um gambá diletante? Acho que eu estava ficando azul. As palavras dele eram bolas numa mesa de ping-pong. "Desça dessa cruz. Alguém pode estar precisando da madeira." Qual era o problema dele afinal? Um clichê aqui, uma piadinha cretina acolá, seria mais original se tivesse me oferecido um sanduíche de salaminho. "Você é neurastênica?" Não até que você me obrigue. Nessa hora formou-se uma rodinha de pagode na mesa ao lado e eu comecei a cantar junto com eles. Meu amigo fez cara de nojo e murmurou um pra mim chega só para que eu ouvisse. Deixou uma nota de 50 paus sobre a mesa e foi embora sem tchaus. Eu sorri de leve para os pagodeiros, guardei o dinheiro na bolsa e pedi ao garçom por favor uma mesa ao lado da janela. Ainda é cedo.
-

19.8.02

Raymond Chandler

"Ele caminhou em direção à porta, parou no meio do caminho olhando para o sol no carpete, olhou de novo para ela rapidamente e então saiu.
Quando a porta se fechou, ela se levantou e foi até o quarto de dormir e se deitou na cama assim mesmo como estava, de casaco. Olhou para o teto. Depois de bastante tempo, ela sorriu. No meio do sorriso, pegou no sono."

-- Raymond Chandler, dando um fecho brilhante a "Armas no Cyrano's".