27.10.15

Mario Montalbetti


OBJETO Y FIN DEL POEMA
Es de noche y tiene que aterrizar
antes de que se acabe el combustible.
Así terminan todos sus poemas,
tratando de expresar con un lenguaje
público un sentimiento privado.
Su ambición es el lenguaje del piloto
hablándole a los pasajeros
en medio de una situación desesperada:
parte engaño, parte esperanza, parte verdad.
Todos los poemas terminan igual.
Hechos pedazos contra un cerro obscuro
que no estaba en las cartas.
Luego hayan los restos: el fuselaje,
la cola como siempre, intacta,
el olor a cosa quemada consumida por el fuego.
Pero ninguna palabra sobrevive.

10.10.15

6 poemas de Simone de Andrade Neves






Batismo

Manhã de junho
Eu, criança-objeto,
dou as mãos ao
menino boina-bombachinha
e seguimos nós,
eu e o menino,
a caminhar por uma rua disforme
paralelepípedos angulares,
solares fios dos cabelos infantis,
sem trocar palavras
seguíamos no percurso atemporal
e apertávamos as nossas mãos
nas leves descidas.
Sorrisos entreabertos nos tropecinhos.
A rua terminou no azul
E nós, eu e o menino,
mergulhamos no mais
silencioso e nevrálgico
dos países: o dos Andrade.


Formatação


Caibo dentro de
uma lata de sardinha.
Ao olhar de fora
verás o conteúdo: verde.
Como Cabo Verde. 


Dentro do sonho
ouço o trotar de um cavalo
e oco de rosetas.
É ele!
paramento e montaria,
no amparo de um arreio de prata
passando a vila em revista

absorto em ofício sacerdotal,
na vigília,
ignora
a disritmia do meu coração.


Timidez

Move, contida, as ancas
ri em parcelas
na horizontal, carnaval.


O tempo abranda as coisas

O Sol
fez branco
o terço rosa
deixado
sobre o túmulo.


Retoques


O fotógrafo 
do outro lado da rua
porta e meia
embaixo do casarão
revela lápis de pontas muito finas.
E os seus dedos, finos quais,
deslizam no contorno dos olhos vesgos,
na precisão de fazer 
todos iguais.