30.8.03

O mundo tá cheio de livros, pra quê mais um?


-- Décio Pignatari

Alguma entrevista: Paulo Leminski


E o boom literário, o que há de bom no boom?

PL: O boom literário brasileiro é um fenômeno, até agora, quantitativo. Há milhares de brasileiros escrevendo contos e poemas, editando revistas regionais, suplementos literários e até mesmo livros.
Mas nada de novo. Todos estão indo no caminho da velha literatura.
O boom é um subproduto da elevação dos índices de alfabetização e universitarização que o Brasil vem conhecendo. É natural que gente que aprende a escrever comece a escrever. E entre pela porta da subliteratura. O boom tinha que ser de pensamento. O brasileiro tinha que começar a aprender a pensar. Em vez disso, ele se põe a escrever. Uma salva de palmas para a literatura.

-- íntegra publicada no jornal "GAM", Rio, 1976.



um dia a gente ia ser homero
a obra nada menos do que uma ilíada
depois
a barra pesando
dava pra ser aí um rimbaud
um ungaretti um fernando pessoa qualquer
um lorca um éluard um ginsberg
por fim
acabamos o pequeno poeta de província
que sempre fomos
por trás de tantas máscaras
que o tempo tratou como a flores


-- Paulo Leminski

29.8.03

Era um quarto realmente agradável. Daqueles em que se contam muitas histórias. Arejado, limpo, espaçoso -- como parte do mundo que era, escolhi-o entre tantos outros que havia no hospital. ( Tive muita sorte em poder escolher.) Pensei que, ao se aposentar, bastariam a qualquer um este quarto e um piano, a felicidade poderia ficar para depois. Para mim a felicidade morava sempre na sala, eu poderia dar nela a qualquer momento. Mas ali, eu só contava com um quarto, a cordialidade de uns poucos amigos e umas idéias que me faziam lembrar de mamãe. Ao pensar nela, associei a papai, como dois pratinhos sujos aguardando na pia enquanto me ocupo em lavar os copos. Emagreço um pouco a cada dia, mas sinto-me forte ainda, o que significa um belo final de manhã. Ouço dizer que estou doente, embora não exatamente. E assim a doença permanece ininteligível. Pouco converso com as enfermeiras, sinto-me aliviada quando esquecem do meu nome ao trocarem os lençóis de tempos em tempos. De qualquer maneira, o esquecimento é uma virtude em ambientes de hospital. O fim da vida sempre chega para o paciente do 201, não para você. O que nos dá outra oportunidade. O relógio passa a assinalar as horas provisoriamente, compondo seus dias provisórios em que eu ia morrendo com facilidade. E assim morrer me pareceu mais fácil do que mudar de opinião. Morrer é fácil, ainda que imperfeito. Viver é interessante, ainda que limitado. A diferença está na espessura da linha que une uma coisa à outra. E um pouco de imaginação e menos aritmética. Gostaria de parecer espirituosa agora, vou precisar disso, sem ironia. Sei que já não consigo mover os olhos, só o olhar. Sinto-me calma e auto-sugestiva. Não penso no passado ou no presente. Meu corpo me aborrece às vezes porque existe, mas não sinto cansaço físico. É uma obra-prima saber esperar quando o espírito passa a ter pressa. E uma pressa que desconheço pois tampouco conheço o espírito. Ouço passos no 202, mas o ruído se decompõe gradualmente. Minhas sensações se espreguiçam e começo a amolecer. Dentro de poucas horas meu organismo fará uma pausa, não tenho por que me preocupar. Estou tão bem quanto antes. As luzes parecem estar se apagando ou foi a manhã que deu por encerrado o seu ofício? Estou cada vez mais certa de que aguardo um futuro e coloco nele toda a minha impetuosidade. Não retornarei a nada que não pertença a este momento. E é sem me despedir dele que atravesso o silêncio que finalmente toma conta de tudo.


27.8.03

Nancy Morejón


la cena


ha llegado el tío Juan con su sombrero opaco
sentándose y contando los golpes
que el mar y los pesados sacos han propagado
por su cuerpo robusto

yo entro de nuevo a la familia
dando las buenas tardes
y claveteando sobre cualquier objeto viejo

sigo sin mirar fijamente
tomando el animal entre mis manos
distraída
pidiendo con urgencia los ojos de mi madre
como el agua de todos los días

papá llega más tarde
con sus brazos oscuros y sus manos callosas
enjuagando el sudor en la camisa simple
que amenaza dulzona con destrozar mis hombros
ahí está el padre
acurrucado casi
para que yo encontrara vida
y pudiera existir allí donde no estuvo
me detengo ante la gran puerta
y pienso
en la guerra que podría estallar súbitamente
pero veo a un hombre que construye
otro que pasa cuaderno bajo el brazo

y nadie
y nadie podrá con todo esto

ahora
vamos todos temblorosos y amables
a la mesa
nos miramos más tarde
permanecemos en silencio
reconocemos que un intrépido astro
desprende
de las servilletas las tazas de los cucharones
del olor a cebolla
de todo ese mirar atento y triste de mi madre
que rompe el pan inaugurando la noche



-- Em " Richard trajo su flauta y otros argumentos".

...Então me pus a pensar nos seus escritos, nas suas reflexões relevantes e translações diárias em torno de seu próprio eixo. Cheguei à conclusão de que é este o tipo de coisa que distingue o gênio do simples transeunte popular: a capacidade de usar o maior número de símbolos possível sem que qualquer coerência seja respeitada e tornando (brilhantemente) a comunicação em todas as frases do texto algo equivalente a 0 (zero).

Você é bom nisso. Logo, devia entrar pro Sindicato dos Notáveis e dedicar o resto da sua vida sendo um ermitão. Pois saiba que eu sempre quis ser uma ermitã, sempre, mas nunca contei pra ninguém. Passar os dias fazendo rabiscos antiquíssimos na parede, pregando aos pássaros e aos peixes, morando em cima de uma coluna e mudando de década em década apenas para viver em outra mais alta. E trocar meu nome por uma série de símbolos gregos, para que ninguém mais possa me encontrar na Lista Telefônica (eles ligam. Eles sempre ligam. É terrível). Como você pode ver, a proposição "virar ermitã" (com H seria melhor) não consta na lista de impedimentos acima enumerados e ainda está em pauta. Contanto que eu tenha um microondas e meias de lã, claro.

Mas vou embora, no momento, pois você tem que se acostumar a se virar sozinho. Tem salsicha e frango cozido no congelador, não se esqueça de colocar as crianças pra dormir antes das 5. Estou deixando uma porção de parênteses na cômoda ))))))))))))))), para que você não tenha que se preocupar em fechá-los quando escreve. Os parentes (os seus) estão no armário. Descongele antes de fritar.


-- Damnzine


25.8.03

GIRASSÓIS

A realidade é que, ao contrário
do que dizem os poetas,
os girassóis viram costas ao sol
e nas planícies de Castela
organizam-se em batalhões,
clones de aspecto triste,
vencidos sob a luz implacável;
aos girassóis agrada a sombra,
protegem as sementes estéreis,
alheias a palavras e poemas.


-- A Oeste

Haikai amétrico


Conheço um japonês
grande inimigo
dos versos que escrevo
porque tem cada estrofe mais de três


-- Joan Alcover

22.8.03

Há mil definições de poesia. E algumas dezenas de teorias. Todas igualmente chatas, enfadonhas de criatividade lógica. Entre os poetas, Maiakovski quis que a poesia arrancasse os caixões das trevas para que caminhassem quadrúpedes de cedro. Emily Dickinson escreveu que a poesia era o mar que nunca viu. Manuel Bandeira queria libertar a palavra de suas mortalhas. Para Eliot o verso nunca é livre. Valéry achava que a poesia dança na mesma pista em que a prosa anda. E como ousar não falar de Pound? O garçom que enche meu copo agora pensa que poeta é o Zeca Pagodinho. Até os psicanalistas sabem definir poesia: uma bela réplica de um self grandioso-exibicionista. Eu fico quieta no meu canto e me lembro da melhor definição que ouvi de alguém que não tinha nada a ver com isso: a poesia deve ser sempre uma embarcação que naufraga ao entrar no porto.

Dicionário do Diabo


H


Habeas corpus -- ação judicial mediante a qual pode-se retirar da cadeia um homem preso pelo crime errado.

Hábito -- grilhões do homem livre.

Herói -- indivíduo que, diferente do resto, não pode sair correndo.

Hipócrita -- pessoa que professa virtudes que não acata com a vantagem de parecer ser o que despreza.

História -- relato quase sempre falso de acontecimentos quase sempre sem importância realizados por políticos quase sempre desonestos e soldados quase sempre idiotas.

Historiador -- fofoqueiro de amplo espectro.

Homem -- ser do sexo masculino que durante os primeiros nove meses de sua vida deseja ansiosamente sair do útero para passar o resto da vida querendo entrar nele de volta.

Homeopatia -- escola da medicina situada entre a alopatia e a ciência cristã. Em relação a essas duas últimas todas as outras escolas são nitidamente inferiores, uma vez que a ciência cristã pelo menos cura doenças imaginárias.

Honesto -- desajustado social.

Hospitalidade -- virtude que nos induz a alojar e alimentar determinadas pessoas que não precisam disso.

Humanidade -- a raça humana como um todo, com exceção dos poetas antropóides.

Humildade -- paciência inusitada para planejar uma vingança que valha a pena.


-- Ambrose Bierce

Eu vou fazer o que eu gosto
Atrás da curva do perigo existe
Alguma coisa bem mais nova e menos triste


-- Raul Seixas

21.8.03

Que brasileiro não tem uma vizinha gorda e cheia de varizes como uma viúva machadiana? Dirá alguém que a vizinhança forma um elenco abundante e diversificado. Não é bem assim. A vizinha autêntica e universal há de ser obesa. E mais: - é preciso que, na estação cálida, use um colar de brotoejas.
Eis o que eu queria dizer: - uma dessas minhas vizinhas patuscas é uma maníaca de velório. Todo o santo dia, lá vai ela para a capelinha de Real Grandeza, Catumbi ou São Francisco Xavier. E, como a capela possibilita a simultaneidade de velórios, ela passa de um para outro e pranteia os vários defuntos. Ao vê-la assoar-se no lencinho, perguntam: "A senhora é parente?" Não é nada. Não conhece o morto nem de vista, nem de nome, nem de cumprimento.
( E a santa senhora chora, de preferência, o desconhecido absoluto. Tem um inconfesso e irritado preconceito contra o cadáver de suas relações.) Um dia, cruzo com a vizinha machadiana. Dou-lhe um "bom-dia" e ia passar adiante. Ela, porém, crispa no meu braço a sua mão pequena e voraz de gorda. Diga-se de passagem que é a única senhora de minhas relações que preserva o uso inatual e nostálgico do leque.
Era um dia irrespirável. A canícula lavrava por toda a cidade. Ao mesmo tempo que falava comigo ela abanava, sim, refrescava as brotoejas do pescoço. Simplesmente, a vizinha queria dizer-me, com uma convicção forte: - "Não há mais enterros como o do barão do Rio Branco." Ela, que não saía dos cemitérios, falava de cadeira. Eu, grave, concordei. Ficamos um momento, em pé, na calçada. E a vizinha e eu parecíamos achar que, entre outras coisas, um grande enterro é quase uma atração turística, assim como o Pão de Açúcar ou Paquetá.


-- Nelson Rodrigues, em "A Feia Solidão", 1968.

20.8.03

Minima Moralia



já fiz de tudo com as palavras

agora eu quero fazer de nada


-- Haroldo de Campos, em "A Educação dos Cinco Sentidos".

18.8.03

Alejandra Pizarnik

No quiero ir más que hasta el fondo


Alguien entra en el silencio y me abandona
Ahora la soledad no está sola.
Tu hablas como la noche
Te anuncias como la sed.

- - - - - - - - - - - - - - - - -

de musica la lluvia
de silencio los años
que pasam una noche
mi cuerpo nunca más
podrá recordarse

- - - - - - - - - - - - - -

Anoche tomé agua hasta las tres de la madrugada. Estaba un poco ebria y lloraba. Me pedía agua a mí como si yo fuera mi madre. Yo me daba de beber con asco.

- - - - - - - - - - - - - -

Esta voz aferrada a las consonantes. Este cuidar de que ninguna letra quede sin enunciar. Hablas literalmente. No obstante, se te comprende mal. Es como si la perfecta precisión de tu lenguaje revelara en cada palabra un caos que se vuelve más evidente en la medida en que te esfuerzas por ser comprendida.

- - - - - - - - - - - - - - -

No eres tú la culpable de que tu poema hable de lo que no eres.


(fragmentos da poesia e dos diários de Alejandra Pizarnik. A frase-título estava em meio aos seus papéis ao ser encontrada morta após uma overdose de seconal.)


Isto não é bonito

Isto não é legível

Isto não é para
crianças

Isto não é linguagem
cifrada

Isto não dignifica o
povo

Isto é o lado de
dentro

da tua porta de fora,
isto

deves conhecer: a
tua mão

colada ao trinco...


-- Gerrit Kouwewaar, no Borras de Café.

Eu abro mão dos rompantes
pela inspiração constante
Não falo em hora marcada
Tão pouco em rima cronometrada
Só não quero longos dias inférteis
Cólicas de um estado quase-poético
Se esvaindo inacabado
Como placas de um endométrio

-- Eu e o Poeta

17.8.03

O sol bate na nuca de minha mãe e seus olhos me queimam de dentro do mar. Meu pai, com a cabeça deitada no barco, parece passar uma fita métrica no céu enquanto se pergunta aonde deixou as chaves do apartamento. Ao lado do baldinho, o vento sacode minha blusa e uma onda inesperada os desmancha na areia.

15.8.03

Joan Brossa


EL RECITAL

El poeta fa un recital acompanyat per un bateria.
En començar hi ha vint espectadors.
Després, deu.
Després, cinc.
Després, tres.
Després, un, que s'aixeca i diu:
-Vol fer el favor de callar, que no
em deixa sentir la música!

-

Poema do cristão

Porque o sangue de Cristo
jorrou sobre os meus olhos,
a minha visão é universal
e tem dimensões que ninguém sabe.
Os milênios passados e futuros
não me aturdem, porque nasço e nascerei,
porque sou uno com todas as criaturas,
com todos os seres, com todas as coisas
que eu decomponho e absorvo com os sentidos
e compreendo com a inteligência
transfigurada em Cristo.
Tenho os movimentos alargados.
Sou ubíquo: estou em Deus e na matéria;
sou velhíssimo e apenas nasci ontem,
estou molhado dos limos primitivos,
e ao mesmo tempo ressôo as trombetas finais,
compreendo todas as línguas, todos os gestos, todos os signos,
tenho glóbulos de sangue das raças mais opostas.
Posso enxugar com um simples aceno
o choro de todos os irmãos mais distantes.
Posso estender sobre todas as cabeças um céu unânime e estrelado.
Chamo todos os mendigos para comer comigo
e ando sobre as águas como os profetas bíblicos.
Não há escuridão mais para mim.
Opero transfusões de luz nos seres opacos,
posso mutilar-me e reproduzir meus membros, como as estrelas do mar,
porque creio na ressurreição da carne e creio em Cristo,
e creio na vida eterna, amém!
E, tendo a vida eterna, posso transgredir leis naturais:
a minha passagem é esperada nas estradas;
venho e irei como uma profecia,
sou espontâneo como a intuição e a Fé.
Sou rápido como a resposta do Mestre,
sou inconsútil como a Sua túnica,
sou numeroso como a sua Igreja,
tenho os braços abertos como a sua Cruz despedaçada e refeita
todas as horas, em todas as direções, nos quatro pontos cardeais;
e sobre os ombros A conduzo
através de toda a escuridão do mundo, porque tenho a luz eterna nos olhos.
E, tendo a luz eterna nos olhos, sou o maior mágico:
ressuscito na boca dos tigres, sou palhaço, sou alfa e ômega, peixe, cordeiro, comedor de gafanhotos, sou ridículo, sou tentado e perdoado, sou derrubado no chão e glorificado, tenho mantos de púrpura e de estamenha, sou burríssimo como São Cristóvão e sapientíssimo como Santo Tomás. E sou louco, louco, inteiramente louco, para sempre, para todos os séculos, louco de Deus, amém!
E, sendo a loucura de Deus, sou a razão das coisas, a ordem e a medida;
sou a balança, a criação, a obediência;
sou o arrependimento, sou a humildade;
sou o autor da paixão e morte de Jesus;
sou a culpa de tudo.
Nada sou.
Miserere mei, Deus, secundum magnam misericordiam tuam!


-- Jorge de Lima

14.8.03

Isaac Bábel

Infância. Em casa de vovó


Estude e você conseguirá tudo: riqueza e glória.
Tem que saber tudo.
Todos vão cair e rebaixar-se diante de você.
Todos devem invejar você.
Não acredite nas pessoas.
Não tenha amigos.
Não lhes dê dinheiro.
Não lhes entregue o coração.

-

13.8.03

Marquês de Sade


Meu amigo, a religião só impera no espírito dos que nada podem explicar sem ela: é o nec plus ultra da ignorância. Mas a nossos olhos de filósofos, a religião não passa de uma absurda fábula feita unicamente para o nosso desprezo. E que noções, efetivamente, fornece-nos essa religião sublime? Gostaria muito que mo explicassem... Quanto mais a examinamos, mais percebemos que suas quimeras teológicas só são apropriadas a nos embrulhar as idéias: metamorfoseando tudo em mistério, essa religião fantástica nos dá como causa do que não compreendemos alguma coisa que compreendemos menos ainda. Será explicar a natureza atribuir a causa dos fenômenos a agentes desconhecidos, a potências invisíveis, a causas imateriais? Pode o espírito humano se satisfazer quando se lhe diz para tomar como razão do que não entende a idéia mais incompreensível ainda de um Deus que jamais existiu? Pode a natureza divina, da qual nada concebemos, que repugna o bom senso e a razão, fazer conceber a natureza do homem que já achamos tão difícil de se explicar? Indagai a um cristão, quer dizer, a um imbecil, já que só um deles pode ser cristão, qual a origem do mundo: ele responderá que foi Deus quem criou o universo. Perguntai-lhe então o que é Deus: ele não sabe nada a respeito. O que é criar: ele não tem a menor idéia. Qual a causa das pestes, das fomes, das guerras, das secas, das inundações, dos terremotos: dirá que é por causa da cólera de Deus. Indagai-lhe como remediar tantos males: com preces, sacrifícios, procissões, oferendas e cerimônias, responderá. Mas por que o céu está em cólera? É que os homens são maus. Porque sua natureza é corrompida. Qual a causa dessa corrupção? O primeiro homem, seduzido pela primeira mulher, comeu uma maçã que seu Deus lhe proibira de tocar. Quem mandou essa mulher fazer tamanha asneira? O diabo. Mas quem criou o diabo? Foi Deus. Por que Deus criou o diabo, destinado a perverter o gênero humano? Ignora-se... é um mistério escondido no seio da Divindade, ela mesma um mistério. Quereis prosseguir? Perguntai a esse animal qual o princípio escondido das ações e dos movimentos do coração humano? A alma, responderá. E o que é alma? Um espírito. O que é espírito? Uma substância que não tem forma, cor, extensão ou parte. Como uma tal substância pode ser concebida? Como pode movimentar um corpo? Não se sabe, é mistério. Os animais possuem alma? Não. E por que os vemos agir, sentir, pensar absolutamente como os homens? Aí se cala, não sabe o que dizer; a razão disso é simples: se empresta uma alma aos homens, é pelo interesse de fazer disso o que quiser, mediante o poder que se atribui sobre ela; ao passo que não tem o mesmo interesse em relação à dos animais, e que um doutor em teologia seria bastante humilhado pela necessidade que teríamos de comparar sua alma à de um porco. Eis as soluções pueris que somos obrigados a conceber para explicar os problemas do mundo físico e moral! ... Jamais se deve arrancar a venda dos olhos do povo. É necessário que ele se estagne em seus preconceitos, isso é essencial. Onde estariam as vítimas de nossa perversidade se todos os homens fossem criminosos! ... Jamais deixemos de manter o povo sob o jugo do engano e da mentira; apoiemo-nos sem cessar no cetro dos tiranos; protejamos seus tronos: eles por sua vez protegerão a Igreja e o despotismo, fruto dessa união, e manteremos nossos direitos no mundo.

-- Marquês de Sade, séc. 18.

12.8.03

Dicionário do Diabo


G


Genealogia -- importância que um descendente dá ao seu ancestral que, por sua vez, nunca se preocupou muito com isso.

Gentileza -- breve prefácio a dez volumes de cobranças.

Gíria -- discurso do indivíduo dotado de memória auditiva que grunhe com a língua o que ele pensa com os ouvidos; em geral ele muito se orgulha como criador ao conseguir realizar o feito de um papagaio.

Glutão -- pessoa que previne os males da moderação com a prática da dispepsia.

Gnósticos -- seita de filósofos que tentou articular uma aliança entre os primeiros cristãos e os platônicos. A aliança fracassou por falta de representantes cristãos na bancada.

Gota -- nome que os médicos dão ao reumatismo de seus pacientes ricos.

Governo -- organização que sempre leva a culpa de tudo e cujos integrantes são os únicos trabalhadores com direito a decidir sobre o próprio salário.

Gravitação -- força de atração que todos os corpos exercem uns sobre os outros determinada pela quantidade de matéria que contêm; esta quantidade de matéria é determinada pela força da atração mútua exercida. Ilustração louvável e edificante de como a ciência usa A para provar B, e B para provar A.

Guilhotina -- instrumento responsável pelo curioso hábito de dar de ombros dos franceses. Não há registros desse hábito comum antes da Revolução Francesa.

-- Ambrose Bierce, 1911.

11.8.03

Kafka em "Cartas a Milena"



-- Esta manhã tornei a sonhar contigo. Estávamos sentados, juntos, e tu me afastavas, não com maus modos, porém amavelmente. Eu me sentia muito infeliz. Não porque me afastasses, porém por minha culpa, porque te tratava como a uma silenciosa qualquer, e não percebia a voz que falava em ti, que justamente me falava, a mim. Ou talvez não fosse que não a percebesse, porém que não pudesse responder. Mais desconsolado ainda do que no outro sonho, eu me ia.

Ocorre-me à memória algo que uma vez li em alguma parte, mais ou menos assim: "Minha amada é uma coluna de fogo que traslada pela terra. Agora me tem preso. Mas não conduz aqueles que prendeu, porém aos que a vêem."

Teu.

(Agora perco também o nome; cada vez se torna mais breve e chegou a ser somente: Teu.)


9.8.03

Copacabana


Onde nunca me foi tão desnecessariamente necessário
o anjo torto de Carlos
a sopa de água dos poetas
as cartas parabólicas
e o sol a queimar

Pedi tão pouco à vida e esse mesmo pouco a vida me negou. Uma réstia de parte do sol, um campo, um bocado de sossego com um bocado de pão, não me pesar muito o conhecer que existo, e não exigir nada dos outros nem exigirem eles nada de mim. Isto mesmo me foi negado, como quem nega a esmola não por falta de boa alma, mas para não ter que desabotoar o casaco.

-- Bernardo Soares, em "Livro do Desassossego". Retirado do Silêncio.

8.8.03

Arte de desamar


Meu amor é disponível,
A qualquer hora ele fecha;
A crise de convicção
É mesmo muito grande.

As pernas do meu amor
Distraem da metafísica,
O corpo do meu amor
Tem a vantagem sublime
De disfarçar o horizonte.

Eu não amo meu amor,
Para que tapeação.
Não amo ninguém no mundo,
Nem eu mesmo, nem me odeio.

Meu amor é uma rede
Onde descanso da vadiação.
Os olhos do meu amor
São bastante distraídos,
Não vêem meu desamor.

Com o porta-seios moderno
Os seios do meu amor
Aparados à la garçonne
Ocupam lugar pequeno
No espaço do seu corpo.

Se meu amor qualquer dia
Me abandonar, ai de mim!
Eu não me suicidarei...
Escreverei mais poemas.


-- Murilo Mendes, em "O Visionário", 1930-1933.

5.8.03

Patrícia Galvão

instrução publica


Escola Normal do Braz. Reduto pedagogico da pequena burguezia. O estudo não é muito caro. Os paes querem que as filhas sejam professoras, mesmo que isso custe comer feijão, banana e brôa todo dia.

O predio grande, amarelo e sujo. O jardim de formigas do jardineiro José. Eternas serventes. O porteiro bonito que estuda Direito. O secretario anão e poeta. As professoras envelhecendo, secando. Os lentes sem finalidade. O sorveteiro. O amendoim torrado. As meninas entrando, saindo. Bem vestidas. Mal vestidas. As bem vestidas são as filhas dos medicos do Braz e a Matilde, a filha daquela girl do Arruda. Todas acham ela bonita. Tem o sorriso triste. Os olhos muito verdes. As coxas aparecendo sob o jersey curtissimo. Paga sorvete pra todas. Cada lanche! Como corista ganha! Mas ela não conta pra ninguem que já trabalhou na Fabrica.

Linguas maliciosas escorregam nos sorvetes compridos. Peitos propositaes acendem os bicos sexualisados no "sweater" de listas, roçando.
O caixeirinho de calçados morde de longe.
Clelia, a portuguezinha chic, lisa como uma tabôa, sorri na boca enorme para um estudante rico.
-- Fedorzinho! Não se enxerga.
-- Deixa de historia. É o José Mojica em pessôa. Principalmente com a camisa alta.
-- Outro dia encontrei ele em Santana com a Dirce.
-- Ah! Você sabe que o pae encontrou ela numa casa de tolerancia na rua Aurora? Com um homem casado...
-- Quem é que não sabe. Por isso que ela não tem vindo. Diz que ele vae botar ela no Bom Pastor.
-- Por isso é que as normalistas têm fama. Desmoralizam a gente.
-- Ora, vae saindo! Ela foi examinada e é virgem. Ela não faz mais do que você no Recreio Santana e do que eu em Santo Amaro.
-- Mas eu nunca entrei num quarto...
-- Olha lá o decote da Edith. Ela vem assim só pra mostrar os peitos na aula de desenho.
Os bigodinhos estacionam nas esquinas. O diretor não quer estragar o nome da Escola com o escandalo diario dos pares amorosos. Nenhum homem póde parar perto do portão. Mas as saias azues se enroscam nas esquinas.

Eleonora da Normal beija a Matilde que entrou de novo. Como um homem.
O sino pesado chama na mão do porteiro.
-- Bom dia, seu Carlos!
-- Bom dia, Branquinha!
Não trata ninguem de dona. O bando azul e branco caminha pelo roseiral maltratado até a escada grande. As mãos custam a se despregar nos corredores.
-- Entrem... Entrem...
-- Só mais um sorvete, seu Carlos!
Sobem aos grupos, abraçadas.
-- Se você visse que suco o vesperal do Tennis!
-- Eu não tinha vestido, sinão ia ao Teyçandaba.
-- Eu fui ao Politeama.
-- Vá saindo. Com aquela cafagestada!
-- Você viu a Cinearte de hoje? Fala do cinema russo...
-- Escuta! Você sabe o que é o comunismo?
-- Não sei nem quero saber.


-- Em "Parque Industrial", 1933. Reproduzido de edição fac-similar.

3.8.03

A confissão de Bernardo Vasques
(retirada do Arquivo das Confissões)

Existia na Igreja de São Paulo um Arquivo das Confissões, que ardeu no grande incêndio. Nele coleccionavam em segredo os padres jesuítas, amantes de práticas psicologistas, as confissões que lhes eram feitas pelos seus paroquianos e viajantes de passagem. Contudo, os padres eram igualmente obrigados a justificar a decisão de perdoar e as penitências aplicadas. Por um acaso do destino que não devo confessar, chegaram à minha posse alguns destes documentos que hoje tenho a ousadia de começar a revelar aos meus leitores. E que começo: Bernardo Vasques foi o canalha que roubou a Camões, na Índia, o manuscrito do Parnaso, o livro autobiográfico que o grande poeta tinha praticamente terminado. Camões sofreu uma dor imensa e não se apercebeu nunca das razões que poderiam levar alguém a cometer tão crudelíssimo acto. A dor desta perda e sequente consciência da maldade dos homens havia de o acompanhar até ao leito em que exalou o último suspiro.


"Senhor… roubei… não roubei a arca do Reino, nem a bolsa a viajantes, sequer me aproveitei do amor e confiança que em mim sempre a família depositou. Senhor… roubei um desgraçado…Senhor… roubei o ‘Parnaso’ de Camões. E Senhor… que desdita: não li uma única página que não se fixasse na minha memória como o ferro em brasa do remorso. Cada linha, cada blasfémia do poema, gradualmente se inscreviam em mim e nada mos fez esquecer. Bebi em todas as tavernas até o estomâgo ser da vastidão do planeta e a mente ter a dimensão acanhada da gruta do esquecimento. Tudo em vão. Joguei em todas as bancas de todos os portos e ganhei. Pelejei cego em mil batalhas… salvou-me a audácia dos desesperados. Um anjo maldito vigiava-me os passos para não me permitir um encontro simples com a morte. Os versos de Camões ressoavam sempre, emergiam nos meus lábios, sábios e pertinentes nas respostas, incitando ao silêncio na hora ténue do recolher. O Parnaso, que eu relia sem cessar, iluminava-me o mundo mas, ao mesmo tempo, transformava-me em alguém que a muito custo reconhecia. Toldou-se-me a memória da pesca, do manejo dos navios. Unicamente me ocorriam os versos do livro maldito e da boca, entredentes, escorriam-me imparáveis as estrofes imortais. Não houve, porém, maneira de copiá-lo com a minha letra e atribuir-me autoria: a pena rasgava o papel quando eu tentava firmar a mão trémula. Foi esta a minha penúltima infâmia. Esgotei praias em passadas ébrias de firmeza. Nas falésias rasguei o peito na rugosidade da rocha, criei sulcos de sangue que hoje alguém desatento confundirá com veios de cobre. Os desertos reconhecerão os meus lamentos. Nenhum porto bárbaro me embalou, à sombra vazia e cálida das palmeiras. Num acesso de maldade imensa, queimei o livro. As páginas maltratadas ardiam-me nas pupilas. Era o entardecer numa ilha ainda não identificada pelas cartas, um desses arquipélagos onde habitam os que se ocultam dos olhos do mundo. A fogueira encheu-me de uma alegria desmedida. Dancei como um selvagem, a boca seca e a razão perdida. Merquei uma mulher. Quando acordei no dia seguinte, sob o sol tórrido, não senti nada de estranho, nada de diferente: só um remorso singular, já não de roubar mas de matar. Percebi que não podia voltar a trás: cometera um acto abominável impossível de reparar. Soube que Camões viera até Macau. Procurei-o na ânsia de me fazer seu servo, mas quando atraquei já ele tinha partido. Passei ainda pelo suplício de encontrar os seus sinais um pouco por toda a cidade. Pressenti em muitos lugares ermos a emergência dos seus versos e o eco ténue de um suspiro, uma respiração entrecortada, a dor da perda que eu lhe infligira. Semanas depois da minha chegada chegou notícia de um naufrágio na foz do rio Mekong. Camões terá afogado as chagas em água barrenta. Por mim, aqui fiquei, desterrado, neste inferno de gente imensa e de língua incompreensível. Vi chegar e partir muita mercadoria, muitas esperanças. Só o meu remorso nunca partiu. Ficou aqui comigo, a roer devagar, nesta ponta de terra abandonada, maculada pelos homens e esquecida dos deuses."


-- Macau