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17.4.09

O bibliófilo aprendiz

"...em 1902, a Livraria Garnier resolveu publicar uma segunda edição das Poesias completas de Machado de Assis. Nessa época, quase todos os livros dessa editora eram impressos na França e, apesar do cuidado com que era feita a revisão, escapavam erros. Mas nenhum tão grave quanto o que apareceu nesse livro. No prefácio (p. VI), Machado escreveu "...cegara o juízo...". O tipógrafo francês trocou o e por um a! Imagine-se a cara que deve ter feito o pudibundo autor vendo esse erro borrando sua obra! O pior é que só se percebeu o engano quando já estavam vendidos alguns exemplares. No meio da consternação geral, Everardo Lemos, empregado da livraria, propôs raspar com todo o cuidado a fatídica letra a, escrevendo no lugarzinho a letra e com nanquim. Assim foi feito para sossego de todos. Mais tarde, Garnier mandou reimprimir a folha contendo o fatal engano e substituí-la em todos os exemplares.


Existem, portanto, três estados dessa edição das Poesias completas de Machado de Assis. O primeiro com a 'palavra feia', o segundo com a correção feita à mão e o terceiro sem 'palavra feia'. Inútil dizer que os exemplares mais raros e procurados são os que trazem a palavra muito feia."


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Rubens Borba de Moraes, em O bibliófilo aprendiz, 1965, Companhia Editora Nacional, São Paulo. Louvável a reedição deste livro em 2005 pela Casa da Palavra e Briquet de Lemos Livros, apesar da revisão descuidada e do não registro da informação de que o livro teve sua primeira edição em 1965.

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28.4.06

Machado de Assis e a poesia





Sei de uma criatura antiga e formidável,
que a si mesma devora os membros e as
entranhas com a sofreguidão da fome insaciável.

Habita juntamente os vales e as montanhas,
E no mar que se rasga à maneira de abismo,
Espreguiça-se toda em convulsões estranhas.

Traz impresso na fronte o obscuro despotismo
Cada olhar que despede, acerbo e mavioso,
Parece uma expansão de amor e de egoísmo.

Friamente contempla o desespero e o gozo,
Gosta do colibri como gosta do verme,
E cinge ao coração o belo e o monstruoso.
Para ela, o chacal é como a rola inerme,
E caminha na terra imperturbável como,
Pelo vasto areal, um vasto paquiderme.

Na árvore que rebenta o seu primeiro gomo,
Vem a folha que, lento e lento, se desdobra.
Depois a flor, depois o suspirar do pomo.

Pois essa criatura está em toda a obra,
Cresta o seio da flor e corrompe-lhe o fruto.
E é nesse destruir que as suas forças dobra.

Ama-te igual amor o poluto e o impoluto,
Começa e recomeça uma perpétua lida, e sorrindo
Obedece ao divino estatuto. Tu dirás que é a morte,
Eu direi que é a vida.



Machado de Assis, no poema "Uma Criatura", de Ocidentais, 1889. Machado, a quem muitos julgam um poeta de mão pesada, embora ficcionista genial, nasceu numa chácara no Morro do Livramento, hoje Bairro da Saúde no Rio. Na foto abaixo, vê-se o Cais de São Cristóvão, onde "Machadinho", para os íntimos, costumava pegar uma barca para se deslocar até o centro da cidade. Quando subiu na vida, graças a uma promoção no serviço público concedida pela Princesa Isabel e ao dinheiro que recebia dos direitos autorais de seus livros e de suas colaborações na imprensa, Machado mudou-se para o Catete, bairro luxuoso na época. O autor terminaria seus dias polindo o tapete da ABL, sua Casa, e morando solitário no Cosme Velho, um bairro da alta aristocracia.




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20.12.04

Machado de Assis





COGNAC


VEM, MEU COGNAC, meu licor d'amores!...
É longo o sono teu dentro do frasco;
Do teu ardor a inspiração brotando
O cérebro incendeia!...

Da vida a insipidez gostoso adoças;
Mais val um trago teu que mil grandezas;
Suave distração - da vida esmalte,
Quem há que te não ame?

Tomado com o café em fresca tarde
Derramas tanto ardor pelas entranhas,
Que o já provecto renascer-lhe sente
Da mocidade o fogo!
Cognac! - inspirador de ledos sonhos,
Excitante licor - de amor ardente!
Uma tua garrafa e o Dom Quixote,
É passatempo amável!

Que poeta que sou com teu auxílio!
Somente um trago teu m'inspira um verso;
O copo cheio o mais sonoro canto;
Todo o frasco um poema!


Machado de Assis, 1856.