25.10.07

a torquato



Assim
Era um rapaz de 25 anos.
Arranjou um jeitinho pra ser escritor
e logo depois deu certo e, logo depois,
deu certo.

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15.10.07



Há pessoas diante das quais você não pode mostrar que está feliz, elas vão achar sempre que você está bêbada. O que no meu caso é invariavelmente verdade, pois ser feliz na presença delas exige de mim manutenção alcoólica contínua. Hilda é uma dessas pessoas. Hilda Feliz, como eu chamo. Não somos amigas, nem parentes, mas uma circunstância da vida permitiu que fôssemos próximas. Diferente de mim, Hilda não aprendeu a tirar prazer de uma palestra sobre o icosaedro. Decepcionada com o mundo corporativo, Hilda largou tudo e foi viver de jogar tarô para pessoas que necessitam dos arcanos para saber se devem pegar a rua B ou C. Eu não acredito em tarô, acredito em tarólogos convincentes. Hilda baixou para mim suas cartinhas ilustradas umas duas vezes. Na primeira disse que um projeto meu do qual nem lembro seria um sucesso. Na segunda, afirmou categoricamente, após várias confirmações, que eu estava encolhendo. Mentalmente?, ora, não é novidade. Não. Encolhendo fi-si-ca-men-te. Encolhendo no sentido leste-oeste?, eu perguntei dessa vez animada. Não, você está encolhendo no norte-sul. Está perdendo altura, ficando mais baixa. Mais baixa? Bom, com a idade perdemos alguns centímetros, a coluna verga, é isso? Ela não soube ou não quis explicar. Já se passaram alguns anos, estou do mesmo tamanho e Hilda sumiu. Acho que Hilda é assim mesmo, é daquelas pessoas para quem a felicidade não pode ter uma cara. Nyuk-nyuk-nyuk! Ela não sabe que a felicidade tem cara de bola de tênis suja.


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7.10.07




ela era uma poeta numa encruzilhada tentando
recitar para uma multidão que arrancava sua roupa.

arthur miller






3.10.07



De: mpa@hotmail.com
Para: armandojarbuch@hotmail.com
Assunto: e-therapy



Querido doutor

Adorei a sua idéia de dar continuidade ao meu tratamento por e-mail. Não faz sentido mesmo interrompermos as sessões só porque me mudei para Manaus. Confesso que a princípio cheguei a procurar alguns terapeutas locais que me foram indicados. Tive entrevistas com quatro. Dois não aceitaram meu caso, por motivos que não explicaram bem, ou eu não entendi direito, e alegando agenda cheia. O terceiro não teve pudores para me dizer que não trabalhava com "estados limites" e o quarto, bem, o quarto tinha mau hálito e seu consultório, além de todo decorado segundo os cânones do feng-shui, exalava um odor nauseabundo de incenso de jasmim. O senhor sabe bem como abomino essas coisas, esses "territórios marcados". Então, como vê, foram tentativas vãs. E também, cá entre nós, só de pensar em um recomeço, ter de contar toda a história da minha infância de novo, é um atropelo. Depois de cinco anos me tratando com o senhor, quem mais teria um know-how tão perfeito das combinações de meus pensamentos?

Falando em pensar, estou aqui teclando e imaginando o que o senhor deve estar achando das coisas que digo, imagino o seu rosto, os olhos apertados, o cavanhaque bem-aparado onde o senhor apóia o polegar e o indicador enquanto me escuta. Imagino que um dia possa vir a se arrepender de fazer essa análise eletrônica. Que dessa forma eu posso ludibriá-lo mais do que já o fiz de corpo presente. Que posso fazer literatura dos meus fenômenos psíquicos e no fim das contas nada lhe servirá como material empírico. Que minha degeneração intelectual, moral e afetiva corre o risco de se revelar mais obscura ainda, nos distanciando do processo de "cura". Que, por fim, minha "tendência à distração" seja contagiosa e o senhor acabe caindo na superficialidade dos laços que a virtualidade desse suporte infalivelmente impõe. Penso essas coisas enquanto lhe escrevo e ao mesmo tempo tento me convencer de que não devemos temer a incursão em domínios estranhos, eu mesma uma prova viva da estranheza.

Tenho custado a dormir, doutor, fico rolando na cama e fazendo associações de palavras sem sentido que depois não consigo memorizar nem para compor um poema. E quando consigo escrever algo, é um entusiasmo que logo se apaga. Não dá mais para convencer ninguém de que meu desencadeamento de conteúdos é uma forma de estilo. Mas não consigo evitar. Parece que, como eu, tudo o que escrevo tem de seguir o caminho do isolamento associativo. Não é novidade para o senhor, que me conhece sem eu precisar falar, pois tudo está escrito nos compêndios de psiquiatria. O senhor só precisa achar a página certa.

Bom, essa terapia eletrônica de hoje já está se alongando e devo me despedir pois não quero tomar muito o seu tempo. Me permita um último comentário: enquanto lhe escrevia este e-mail, me peguei várias vezes olhando fixamente para o cinzeiro em minha mesa. Suponho que o cinzeiro seja meu, mas não me lembro de como veio parar aqui, se ganhei de presente, se comprei num belchior, não importa. É um cinzeiro assinado, pertenceu a Afranio de Mello Franco, pois este nome está gravado na porcelana logo abaixo de uma citação de Kant e é ali que eu deposito minhas cinzas. Sim, apago o cigarro nas letras de Kant, que, à medida que fumo, vão sumindo na porcelana. Depois de apagar um único cigarro no cinzeiro limpo, por exemplo, posso ler assim:

"Duas coisas preenchem o ânimo co adm ção e respeito sempr novos e crescente quanto ais frequente e duradour or o tempo que pens ento dispensa com elas. O céu estrela sobre e a lei moral d tro de m."

O senhor conhece esta citação? Eu conheço, pois sou eu que limpo o cinzeiro. Podemos discutir o significado dessa passagem do cinzeiro mais detalhadamente num próximo e-mail. Sem cinzas.

um grande abraço
M.

P.S. Envie-me por favor as receitas para a Caixa Postal 313112 - Manaus - AM


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