29.1.09

Bocage

Epigrama setecentista



Se me lembro, Élia, tiveste
De belos dentes a posse:
Numa tosse dois se foram,
Foram-se dois noutra tosse.

Segura noites, e dias
Podes tossir a fartar;
Podes, que tosse terceira
Já não tem que te levar
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22.1.09

Blaise Cendrars



SÃO PAULO


Adoro esta cidade
São Paulo está de acordo com meu coração
Nenhuma tradição
Nenhum preconceito
Nem antigo nem moderno
Só conta este apetite furioso esta confiança absoluta este
otimismo esta audácia de trabalho este labor esta
especulação que fazem construir dez casas por hora de
todos os estilos ridículos grotescos belos grandes
pequenos norte sul egípcio ianque cubista
Com a única preocupação de acompanhar as estatísticas
prever o futuro o conforto a utilidade mais valiosa e de
atrair maior imigração
Todos os países
Todos os povos
Gosto disso
As duas ou três velhas casas portuguesas que sobraram são
faianças azuis



Blaise Cendrars

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17.1.09



eu não escrevo versinhos para o papai
embora ele tenha me ensinado que a
boa poesia deve ser como as azeitonas de Taggia,
não pode ter caroço,
e que todo poeta só é bom se ficar assando

devo confessar que nisso eu concordo com papai
a poesia sempre teve um pé na cozinha
uma cadeira que range
uma couve-flor que se rompe
a xícara lascada de uma avó morta

o que papai não sabe ou nunca reparou
é que foi com mamãe que aprendi a cozinhar
no caminho entre a pia e a beira do fogão
eu aprendi tudo da vida
enquanto ele olhava melancólico para a janela
e a faca sobre a mesa
em vez de ajudar com as panelas

eu não escrevo versinhos para o papai
porque hoje sei o que devo queimar
o que devo congelar
o que devo servir frio


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11.1.09

Meu sangue é um fio de azeite que
alimenta a lâmpada da liberdade




Carteira de identidade

Registra-me
sou árabe
o número de minha identidade é cinqüenta mil
tenho oito filhos
e o nono… virá logo depois do verão
vais te irritar por acaso?

registra-me
sou árabe
trabalho com meus companheiros de luta
em uma pedreira
tenho oito filhos
arranco das pedras
o pão, as roupas, os cadernos
e não venho mendigar em tua porta
e não me dobro
diante das lajes de teu umbral
vais te irritar por acaso?

registra-me
sou árabe
meu nome é muito comum
e sou paciente
em um país que ferve de cólera
minhas raízes…
fixadas antes do nascimento dos tempos
antes da eclosão dos séculos
antes dos ciprestes e oliveiras
antes do crescimento vegetal
meu pai… da família do arado
e não dos senhores do Nujub
meu avô era camponês
sem árvore genealógica
minha casa
uma cabana de guarda
de canas e ramagens
satisfeito com minha condição
meu nome é muito comum
registra-me
sou árabe
sou árabe
cabelos… negros
olhos… castanhos
sinais particulares
um kuffiah e uma faixa na cabeça
as palmas ásperas como rochas
arranharam as mãos que estreitam
e amo acima de tudo
o azeite de oliva e o tomilho
meu endereço
sou de um povoado perdido… esquecido
de ruas sem nome
e todos os seus homens… no campo e na pedreira
amam o comunismo
vais te irritar por acaso?

registra-me
sou árabe
tu me despojaste dos vinhedos de meus antepassados
e da terra que cultivava
com meus filhos
e não nos deixaste
nem a nossos descendentes
mais que estes seixos
que nosso governo tomará também
como se diz

vamos!
Escreve
bem no alto da primeira página
que eu não odeio os homens
que eu não agrido ninguém
mas… se me esfomeiam
como a carne de quem me despoja
e cuidado… cuida-te
de minha fome
e minha fúria

Mahmoud Darwish



A vida junto da morte

A vida junto da morte
na carcaça de um carro à beira da estrada
você ouve as gotas de chuva na lata enferrujada
antes de senti-las cair na pele do rosto.
Cai a chuva, salvação depois da morte.
Ferrugem mais eterna do que sangue,
mais bonita do que cor de labaredas.
O vento que é tempo, alterna
com o vento que é lugar.
E Deus
permanece na terra como um homem que sabe
que esqueceu alguma coisa
e fica
até lembrar.
E à noite você pode ouvir
como Maravilhosa melodia,
o homem e a máquina,
no seu lento caminho, do fogo rubro
para a paz negra
e daí para a história
e daí para a arqueologia,
e daí para um belo estrato de geologia.
Isso também é eternidade

como o sacrifício humano que virou
sacrifício animal e depois oração em voz alta
e depois oração dentro do peito
e afinal nem oração.


Yehuda Amichai

9.1.09

Apollinaire




Estás no jardim de um albergue perto de Praga
Te sentes felicíssimo há uma rosa sobre a mesa
E observas em vez de escrever teu conto em prosa
O inseto que dorme no coração da rosa
Espantado de ver-te desenhado nas ágatas de são Vito
Estavas triste de morte no dia em que lá te viste
Te pareces com Lázaro atordoado pela luz do dia
Os ponteiros do relógio do bairro judeu andam para trás
E também tu recuas na vida lentamente
Ao subir o Hradchin e à noite ao escutar
Nas tabernas cantarem canções tchecas

Eis-te em Marselha no meio das melancias

Eis-te em Coblenz no Hotel do Gigante

Eis-te em Roma sentado à sombra de uma nespereira do Japão

Eis-te em Amsterdam com uma jovem que achas bela e que é feia
E que se vai casar com um estudante de Leyden
Ali se alugam quartos em latim Cubicula locanda
Não me esqueci passei três dias lá e outros tantos em Gouda

Estás em Paris no juiz de instrução
Detém-te como se fosses criminoso
Fizeste viagens dolorosas e alegres
Antes de te dares conta da mentira e da idade
Sofreste a dor do amor aos vinte e aos trinta
Vivi como um louco perdi meu tempo
Não ousas mais olhar as mãos e a cada momento gostaria de soluçar
Sobre ti sobre aquela que amo sobre tudo o que te espantou

Olhas com olhos cheios de lágrimas esses pobres emigrantes
Acreditam em Deus e rezam as mulheres amamentam as crianças
Enchem com seu cheiro o hall da estação de Saint-Lazare
Têm fé em sua estrela como os reis magos
Esperam ganhar dinheiro na Argentina
E voltar para sua terra após terem feito fortuna
Uma família carrega uma colcha vermelha como a gente carrega o coração



Apollinaire, em fragmento do poema "Zona", já considerado no Brasil um dos cem melhores do século 20. A tradução é de Mário Faustino.
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