28.10.10




Onde-Ninguém-Fala

País localizado dentro do som de nossa voz, ao lado do país Onde-Se-Fala. As ruas e calçadas, tetos de casas e para-brisas de automóveis são recobertos por uma neve espessa e invisível que a tudo sufoca. Os habitantes são mudos, mas isso não significa que não entendam a fala. Ao contrário, comunicam-se melhor do que com palavras e frases. Eles são como formigas que percorrem carreiras: encontram-se constantemente e se dizem coisas sem jamais serem ouvidas.

Nunca faz frio em Onde-Ninguém-Fala. Tudo é ameno e tranquilo. Para chegar lá o viajante deve simplesmente atravessar Onde-Se-Fala. Ele se verá cercado por sons reverberantes que doem aos ouvidos: carros, rádios, moinhos de palavras. Contudo, aos poucos, os sons começam a lutar uns com os outros e finalmente se anulam.


Jean-Marie-Gustave Le Clézio, Voyages de l'autre côté, 1975.

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19.10.10

prop



Porque o inesperado sempre acontece,
Insurance Company of North America, 1948


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7.10.10

Marta Chaves




Exerço muitas vezes o ofício de estrangeira
com pouca fé de que na impossibilidade da língua
se entenda a natureza dos meus gestos.
ou mais adiante
Escrevo-te cartas que difundem o meu silêncio.
ou ainda
Fico só
entre mim e o nome que dou às coisas.