31.7.06

Baudelaire: de fato e ficção



Nas "Litanias de Satã" em As flores do mal:


Tem piedade, ó Satã, de minha atroz miséria!Ó Príncipe do exílio, a quem fizeram mal
E que, vencido, sempre te ergues mais triunfal,

Tem piedade, ó Satã, de minha atroz miséria!Tu que vês tudo, ó rei das trevas soberanas,
Charlatão familiar das angústias humanas,

Tem piedade, ó Satã, de minha atroz miséria!...

E por aí vai a oração baudelaireana. Mas na intimidade do poeta, a regra era outra, já que ansiava "dirigir todas as manhãs minha oração a Deus, reservatório de toda força e toda justiça, a meu pai, a Mariette [a "ama bondosa" que o criou, celebrada nas Flores do Mal] e a Poe, como intercessores". A contradição é apontada por André Breton no Segundo Manifesto do Surrealismo em 1930, como exemplo de atitude que desonra o pensamento. Entre outras revelações, Breton entrega o dramaturgo Antonin Artaud, ex-membro da panelinha surrealista, a quem chama de informante da polícia [por estar sempre cercado de policiais na porta do Teatro Alfred Jarry] e ator exclusivamente voltado para o lucro e a fama [por encenar peças de autores que desprezava mas que obtinham patrocínio]. Muito divertidas as revelações desse Manifesto, onde se vê que o coquetismo literário e a briga de egos não são privilégio dos nossos tempos.



30.7.06

Blogueiro: a grande imprensa vai invadir tua praia!


Ora, foi com satisfação sem dúvida que topei com os blogs na matéria de capa da revista Época desta semana. E de ver lá mencionados 3 dos meus blogs favoritos:
Pensar Enlouquece, Catarro Verde e Cocadaboa. Faltou muita gente, ponto pacífico, blogs mais recentes e tal, mas para compilar os mais representativos seria preciso um livro, portanto deu pro gasto. Talvez agora um público maior veja, como diz Inagaki em seu blog, que Internet não é só intercâmbio de piadas velhas por e-mail. E talvez os blogs e o seu "neo-anarquismo digital" -- o quinto poder? --possam nos dar a ler um pouco mais do que dizem as revistas de papel que me distraem na privada. Lendo o resto da revista fui agraciada com a informação de que o bem mais precioso de Claude Troigos é a família dele. Que tubarões mutantes e assassinos são menos perigosos que Suzane Richthofen, que a evangélica campeã de tae kwon do se sente perto de Deus quando dá porrada em suas adversárias, e que se desejo uma saúde aiurvédica perfeita, um corpo purificado, vou ter de vomitar muito, induzir diarréia, fazer constantes lavagens intestinais, cafungar pó de ervas e fazer sangrias regulares com seringas ou ventosas. É, os blogs podem fazer melhor do que isso. Acho até que o Mothern poderá ensinar à nouvelle mamman de 52 anos a ser uma mãe moderninha e preparar o corpitcho para usar a meia-calça de bichinhos da filha em 2020. Quem quase derruba presidentes pode tentar de tudo. Esse é o tesão da blogosfera. Bom domingo, bloggers!

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28.7.06




Os sinos das igrejas de Minas ainda batem uma vez a cada meia hora, seis vezes às seis horas, onze vezes às onze. E ao meio-dia ou meia-noite batem doze vezes. Todo dia. Toda madrugada. Não é para os nervos de qualquer um. Nas grandes cidades, todos os barulhos formam um só. Um imenso rugido ao fundo, indetectável, que dia após dia não damos atenção. Não ouvimos mais. Em Minas cada ruído é um só. Inacrescentável. Solitário. Metrificável ao ouvido. A folha que cai no quintal primeiro cai de pé, bandeia pro lado e por fim deita inteira. Essa queda final dura um segundo, mas você é capaz de ouvir cada movimento e, se for esperto, saberá até de que árvore partiu. Um boi mugindo, o tintim do padeiro que passa na rua, o cricri metálico das corujas acasalando no campanário, o cântico da missa, as quatro ferraduras do cavalo, o lamento sertanejo nos botequins, o último suspiro dos agonizantes -- Minas morre muito. Cada ruído é um só. O sino bate dez vezes com um intervalo de 8 segundos entre um dobre e outro. São dez horas. Meu coração ajusta seus batimentos ao tempo das badaladas. Não há pressa. Em Minas todo coração bate demorado.

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16.7.06




Amar é sofrer, eu vou te dizer. "Não se esqueça de trazer uma lagosta pra mim", disse ela bem assim na beira do cais antes de eu partir para um mergulho de onde não sabia se voltaria. Agora aqui, a 45 metros de profundidade, e descendo cada vez mais, fico me perguntando por que não a mandei à merda, sem endereço. Desde criança que tenho dois sonhos: resgatar do fundo do mar a cruz do bispo Sardinha e me apaixonar por uma samurai que pisasse minha garganta até que me faltasse o oxigênio pra eu gozar. Se isso é pecado, me puna. A cruz do bispo eu ainda não achei, mas continuo mergulhando, e fundo, muito fundo. Tão fundo que acabei descobrindo Isabel dentro de uma ostra, escondidinha. Hoje vivemos juntas, só eu pago o aluguel enquanto ela arde na Fogueira Santa de Israel. Amar é sofrer, não preciso dizer mais do que as canções banais: é só uma gota de sangue verbal, apaixonei-me por uma obreira pentecostal.



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15.7.06




Algumas perguntas que este livro pode responder:


O que você faria se, no meio de uma festa, um escritor surtasse e começasse a matar todo mundo, inclusive a história?

Você já pensou em trocar de alma? Escolheria a de quem?

Quer ler algumas cartas ao editor de autores famosos?

Que livros os editores lêem? Você já entrou na casa de um?

Por que motivo você mataria alguém?

Por que motivo você se mataria?

Você odeia o seu corpo? Quer modificá-lo?

Por que carregar um peso morto se você pode cortá-lo em pedacinhos?

Você está preparando o jantar e se corta na cozinha, o telefone toca e sua casa pega fogo. Vai fazer o quê?

Por que você não pára de sangrar?

Quer saber mesmo o que é viver no interior?

O que é o Rio de Janeiro?

Tom Jobim era um clone de Cole Porter?

Qual seria a sensação de se jogar do alto de um prédio?

Você está preso num caixão. Vai apelar pra quem?

O que sente um doente terminal? Por que os amigos somem enquanto você definha?

O que querem saber os mortos do mundo que deixaram para trás?

O mundo está todo roído pelas formigas. Você ainda não viu como?

Você já teve vontade de matar seus pais?

Por que as crianças querem morrer?

A criança em você ainda vive?

Por que os filhos envelhecem mais rápido do que os pais?

Já tomou um chá das cinco com Jesus? Ele se pareceria com quem hoje? Você o confundiria com um camelô se o visse na rua?

Quem é o Darth Vader de Deus?

Quer acertar suas contas com Deus?

Quantas mulheres há dentro de uma mulher?

Por que as mulheres não falam que peidam?

Por que os amantes nunca dizem o real motivo por que dão o pé na bunda de alguém?

Quer saber por que um poeta é um escritor que não escreve?

Rimbaud ainda dá samba?

E você? Quer ser escritor pra quê?

Quais as obsessões de um escritor?

Por que os escritores no fundo odeiam outros escritores? Por que todo escritor quer ser um James Joyce sem nunca ter lido James Joyce?

O que são as oficinas literárias?

Na sua noite de autógrafos você descobre que seus leitores vieram para o seu enterro?

Qual o mais belo tom de azul?

Por que essa sensação de que sempre tem alguém nos espionando, nos vampirizando?

O que sonham os delirantes? Por que todos acham que são artistas?

Já se imaginou preso num manicômio?

Quer conhecer os piores pesadelos?

O que fazem os bêbados de pijama?

Por que a raça humana é porca?

Quer entrar na pele de um suicida?

E, afinal, quem é a mula-sem-cabeça de James Dean?


Todas estas perguntas podem ter uma resposta se você comprar o livro. Lançado pouco antes da Copa do Mundo e, apesar dela, os exemplares já estão se esgotando, e sua autora também. Segundo o escritor e crítico José Castello, que leu, fez questão de fazer a orelha e citá-lo num longo artigo no jornal Valor Econômico, o Não feche seus olhos esta noite é "um livro enigmático e imprudente que revolve o mal-estar contemporâneo. Um livro que não vê saída para a literatura quando a própria palavra está condenada. Um livro em chamas de uma autora que escreve com os nervos". Deu pra entender? Não sei se ele quis me chamar de histérica, ou se a própria literatura foi quem surtou. A bem, você ainda não leu por quê? Pra mim é um guia para suicidas, mal-amados e escritores fracassados com muito sexo, drogas e rock'n'roll embalados num lirismo desesperado. Vai perder essa? Compre aqui, ou nos melhores sites de vendas ou livrarias do ramo. Se você já leu, obrigada, mas tem certeza de que entendeu a página 69? Tente outra vez. Última chamada.

8.7.06

Baú do Raul



Hoje

Tensão total

Angústia

Apatia

Ansiedade

Dor de cabeça

Depressivo

Triste

Desanimado

Culpado

Desolado

Irritado

Mentalmente fraco

Existencialmente pesado

Falta de vontade

Labilidade


Presa fácil da minha cerebrotânica labilidade
à terrível lucidez do medíocre.
Negar que é pestilento, jamais.
O mais e o menos são valoráveis.
Porém de nada se extrai
Da média-ocridade
Idade da pedra.
Me incomodar
A dúvida que, mascarada em cão,
Ladra e morde enfermamente.
Não quero interferências banais
Interferindo no meu espírito.
Não.


Me dê um momento para não escrever,
para não ficar na necessidade de preencher coisas


me peguei com 36 de idade, fumando
e no espelho grande vi muita vontade
imediatamente saí e comprei outro igual.


Hoje é aniversário do meu pé
ele é poucos meses mais velho do que eu
foi por causa do parto de minha mãe
diz ela que, na hora que eu estava pra ser parido,
meu pé pintou primeiro e ficou dois meses de fora.
Só depois desses dois meses que o resto de mim saiu inteiro.
E como eu, paranóico, desconfio
que ele se gaba de ter dois meses de vida em minha frente
no seu aniversário eu o castigo
não colocando polvilho Granado no seu pé-de-atleta.


Amanheci determinado a mudar
agora vou ser punk até apodrecer


Pássaro negro
Corvo, por certo,
Solitário
Me olha de soslaio
Do muro do cemitério
Aí, eu olho pra ele
Fixo
Ele voa embora,
Mas volta.




Raul Seixas, do seu Baú, revirado.
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5.7.06




sinto dores no reto enquanto durmo. eu não vou me levantar pra cagar. vai que me sai um caroço de tucumã e a noite arrebente lá dentro. não gosto de namoro grudado quando só eu existo no mundo. se toco outro corpo, é como se tocasse o meu. a pele do mar. abraço as pernas duras de drummond e um verso gelado e morto percorre minha espinha. a vida passada a bronze. o poeta vive jogado na praia. os amigos o abandonaram lá com as moscas da areia. você respira no meu ouvido, esperando que meu amor saia por ali. olhos de anzol, descarrega o mundo no meio da sala e me abraça às cegas. resmunga e me pede que eu não escreva isso. que não escreva nunca mais porque me arranha o trato intestinal. despede-se num balão de quadrinhos antes de partir pra Tremembé. patina nos meus pensamentos por uma estrada que já saiu de moda. bombons velozes, trocamos de pose. nossas mãos juntinhas suando no copo de gim.

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1.7.06

Breizh-izel, meu Breizh-izel brasileiro





Breizh-izel, meu Breizh-izel brasileiro


Breizh-izel é o nome bretão da Bretanha francesa e, segundo estudiosos, Breizh é uma palavra de origem céltica que significa "vermelho", da "cor do fogo", de onde surgiria depois o termo bois brésil (madeira vermelha) em textos do século 12, inclusive em romances do ciclo arturiano. O que prova que os bretões, grandes navegadores que eram, conheceram, antes das descobertas dos séculos 15 e 16, muitas terras do Atlântico Sul, inclusive o nosso país aqui, descrito a princípio como "ilha", um conceito da navegação bretã na Idade Média. Pois bem, bois brésil depois seria traduzido como "pau-brasil" e daria origem ao nome de nossa terrinha, como todos sabem, um nome que os portugueses demoraram em oficializar, porque queriam salvaguardar seus direitos de conquista. Mas já se sabe que, muito antes de Cabral aportar por cá, bretões e normandos já comerciavam com os índios o pau-brasil nas cabeceiras do rio São Francisco, assim como os vikings já conheciam a América muito antes de Colombo. Há evidências, inclusive, de que navegadores fenícios é que descobriram mesmo o Brasil em 1100 a. C., donde se conclui que teria havido uma civilização pré-histórica no Brasil. Bom, voltando à cabeceira do São Francisco, até onde se sabe foi ali que teve início o fervilhante comércio do nosso pau-brasil, ou ibirapitã, orabutã, brasileto, ibirapitanga, pau-rosado, essa árvore tão preciosa, de seiva avermelhada, que emprestaria seu nome ao país e atrairia a cobiça estrangeira. Sim, porque o pau-brasil, além de nomear o nosso berço esplêndido e sendo fértil como é, deu origem também a manifestos literários, institutos, hotéis, associações ecológicas, grupos de música folclórica/regionalista, colares, facas, violinos, camas e a toda uma série infindável de artefatos tipo exportação. Aonde quero chegar com essa conversinha? Hoje o Brasil vai enfrentar mais uma vez os seus legítimos descobridores numa Copa do Mundo, n'est pas? Um curioso confronto. Uma batalha campal com os nossos ancestrais, sim, porque ainda não há provas suficientes de que somos descendentes dos fenícios. Mesmo que houvesse, para o futebol e para nós hoje não significaria muita coisa pois não existe uma seleção fenícia, não é mesmo. E você? Vai torcer por quem? Pelo Brasil ou pelo Breizh-izel?