30.12.09

Ester




Exatamente às seis e treze da manhã vi os enormes olhos azuis de Ester sendo vendidos em um anúncio de jornal que acabara de comprar. Eles falavam comigo. Águas amargas. Pálidos. Afásicos. Testes de minha instabilidade emocional. Ela não tardou em vendê-los a qualquer um sem me consultar. E logo eu, que os escolhi para ela. Minha herança genética. Agulha rangendo na memória.

Como nascem os bebês, papai?

O bico da cegonha é o pênis. A chaminé por onde ela desce, a vagina. E o lago de onde viestes são as águas do ventre materno.

Ester piscou os olhos azuis e nunca mais os abriu, com medo de que a cegonha os bicasse e levasse de volta ao fundo do lago. Juntando um ano ao outro e cansada de viver de olhos fechados, ela arrancou-os com a pinça das sobrancelhas de Occam e deixou-os expostos num cesto de junco sobre a mesa de mármore Travertino Romano de nossa sala.

O primeiro interessado apareceu às nove horas, conforme o anúncio. A velha queria olhos jovens. Cristalinos. Queixou-se de que pareciam mortos. E barganhou.

Eles não estão mortos, disse Ester. Eles dormem.

Ester despachou-a. E a um segundo, terceiro e quarto. Passai bem.

Na undécima hora, um rapaz de passos acidentais veio do fim da rua e bateu à nossa porta. Ester ergueu o rosto. Obscuro por obscuro. Farejou-o, sorriu como se não sorrisse e entregou-lhe seus olhos azuis numa caixinha dourada. O rapaz guardou-os no bolso do paletó, separando-se de nós e do resto da história.

Ester suspirou, veio a mim e deitou em minhas mãos o pagamento. Dois feijões brancos de olhos pretos.

Pega e coloca em ti, anda, ela disse.

Eu te daria duzentas cabras, vinte bodes, duzentas ovelhas, vinte carneiros, trinta camelos, quarenta vacas, dez touros, vinte jumentos e dez mulas. Por que fizeste isso?

Ester retirou os óculos escuros e pela primeira vez deixou-me ver suas órbitas vazadas.

Porque tudo merece um novo olhar, meu pai.

(Maira Parula)


13.12.09

Adília Lopes



As portas


I

Se não fecho
algumas portas
há correntes de ar
a mais

Se fecho
todas as portas
não posso sair
mais

Se não abro
algumas portas
não fecho
algumas portas

Se abro
todas as portas
desintegro-me


II


Atrás da porta
para sempre fechada
está o nada

Houve um momento
em que deixei de gostar
da minha mãe

Houve um momento
em que deixei de gostar
do meu pai

Houve um momento
em que deixei de gostar
de mim

Houve um momento
em que deixei de gostar
de ti

Houve um momento
em que parti

Houve um momento
em que voltei

Houve um momento
em que voltei a gostar
de todos

E todos estão
aqui

Mortos
e ausentes


29.11.09

Poemas comunes




I

Sospecho que el viento fuerte podría derribar
aquel arbolito recién plantado por la municipalidad
no es que se valla a romper en mil partes por la caída
pero a ninguna forma amable le sienta bien un golpe.


II

La suerte renuncia al señor un día cualquiera
alguien lo atropella con un auto le pasa por arriba
queda tirado en la calle y le roban sus pertenencias
más tarde una ambulancia lo recoge y es llevado
a una cama brillante que hay en el hospital de la zona.
Las sábanas limpias acarician una pila de huesos rotos.


III

El agua de lluvia empalma las veredas
el charco cubre la extensión de la calle
para cruzar la gente arremanga sus pantalones
o camina una cuadra hasta llegar
al puente gris recientemente inaugurado.


IV

Hace varios días murió un perro en la autopista
fue aplastado por un camión que hizo una mala maniobra
los pelos y los huesos siguen pegados en el asfalto
parecen una alfombra marrón que la mujer estándar
compraría para decorar algún rincón del living-comedor.


V

Adentro de la habitación había una sombra
sin embargo me deshice de la imagen tan pronto como pude
la dejé moverse como un fantasma delante del cuerpo
la abandoné como un verso que renuncia la cadencia
o como se abandonan las mascotas en verano
con ese dolor que pronto es compensado
por el mar y la brisa de la playa.


VI

Transito por la calle escuchando la radio
en el camino voy dejando algunos paquetes
hasta los objetos más preciados pueden abandonarse
con un gesto torpe en un tiempo muerto.


Mariana Suozzo

-

21.11.09

Paulo Leminski - "A literatura é a classe dominante dos signos"





Tem dois tipos de poesia. A que contraria expectativas. E a que satisfaz uma demanda. Exemplo da primeira: poesia concreta. Exemplo da segunda: Thiago de Melo, Ferreira Gullar, Carlos Nejar etc.

Quero deixar claro que desejo o mesmo tipo de sociedade que Thiago de Melo deseja. Pelo menos na organização econômica. No terreno estético, porém, a esquerda brasileira, os artistas engajados e alinhados com a transformação da sociedade são o fim da picada.

Jdanovistas, naturalistas (e não realistas, como pensam ser), sectários, populistas, correspondem àquilo que, na URSS, chamou-se proletcult. Em contraposição ao grupo LEF, liderado por Maiakovski, e que defendia a vanguarda como nova arte do proletariado triunfante, a proletcult defendia uma literatura velha, só que com temas operários e populares. Essa literatura velha era o bom romance burguês do século 19, suas formas e técnicas. O poemão e a versalhada.

O problema dos proletcultistas brasileiros (nacional-populistas) é que eles não chegam ao povo, no duro. Como? O povo é analfabeto ou vê TV. Então eles fantasiam tudo na cabeça deles. A presença do povo, a atuação do escritor. Até a revolução. Mas é tudo imaginário. No duro, o que eles querem é vender livros, aparecer, trabalhar na rede Globo e -- last but not the Franz Liszt! -- GANHAR PODER. A arte que eles fazem fica dentro da intelectualidade pequeno-burguesa mesmo, em noites de autógrafos.

Versinhos participantes ingênuos são hoje a classe dominante da poesia brasileira. Com esse país que taí, realmente a raiva é tanta que tudo que a gente puder jogar contra esse sistema a gente joga: até sonetos! A merda é que esses versinhos participantes, como linguagem, já foram feitos, estão consagrados e fazem parte do Panteão burguês: é o Drummond da Rosa do Povo de 1940. Agradam, não agridem. Aquela poesia do Drummond só era nova para os padrões brasileiros. Na realidade, no mundo inteiro, estavam fazendo aquele tipo de poesia: Neruda, Éluard etc. Aliás, até o nome do livro "Rosa do Povo" vem de fora. Bem antes, Éluard publicara um livro de poemas: "La Rose Publique".

Essa poesia participante de hoje é a diluição intensiva da poesia antifascista da época da Segunda Guerra e da Resistência. Quer dizer, os "revolucionários" estão com o relógio poético atrasado quase cinquenta anos!

Eu não acredito nos revolucionarismos de contistas realistas. Os homens de letras engajados que se vê por aí são oportunistas. Eles jogam numa dupla: se a revolução ocorrer, eles estarão muito bem, nos empregos e nos compêndios. Se ela demorar, sempre tem uma vaga de roteirista na TV Globo ou uma cadeira dando sopa na Academia Brasileira de Letras.

A revolução que esses caras querem é bem pequenininha.

Eu quero uma grande. A grande. A total.

O Satori Coletivo.

O homem de Guevara, além de todas as alienações.

Das literárias, inclusive.

Tudo pode ser recuperado via moda. Revival. Nostalgia. Nosso tempo é o tempo da recuperação da informação. A multiplicação das técnicas de reprodução e o progresso das técnicas de registro tornam todas as épocas contemporâneas, no terreno intelectual, cultural e artístico. A crise da poesia é o momento em que a poesia é atingida pelo impacto dos outros códigos (visuais, musicais, gestuais etc.). E seu campo de possibilidades se multiplica pelo número de códigos com os quais pode cruzar. A rua manda na página. A rua com seus poderes múltiplos. A maré das ruas bate na porta das casas, cerca a página. Na página, o passado se defende. A página é a casa. A memória. O sentido. Os significados. Na rua, nascem sempre os novos significados.

Dever do poeta é manter acesa a chama e a ideia de poesia. A noção de uma atividade radical, crítica e utópica. Na linguagem. Não apenas conteúdos edificantes e pios temas veiculados através de um discurso convencional e recebido passivamente. Um poeta deve, sobretudo, agenciar os meios para poder continuar sendo poeta. Até os 21 anos, todo mundo é poeta. O foda é depois. Daí você tem de provar. Poucos resistem. Noventa e nove por cento dos que fazem poesia hoje, dentro de dez anos estarão fazendo outra coisa. Poesia não é brincadeira. É loucura mesmo. É nadar contra a corrente. Produzir o antidiscurso. E, principalmente, evitar coisas como o sucesso e a consagração. Aquilo que o sistema canoniza como boa poesia é apenas a poesia que ele consegue vender. Edições bem-sucedidas não fazem a boa poesia. Tem que segurar a barra sem parar. Senão acaba desfrutável como Drummond. Ou acadêmico como João Cabral.

Toda poesia que é poesia mesmo é experimental. Poesia de invenção. Todo poeta tem estes momentos. Você os encontra em Bandeira. Em Drummond. Nos músicos poetas, Gil, Caetano, Chico. São eles, esses momentos, que valem. O resto é moldura. O recheio de prosa sem o que não se vive.

Os poetas das mais novas gerações são às vezes naturalmente "experimentais". Experimental é a atitude que contesta e questiona as formas do passado, a poesia desautomatizada, a que pratica a subversão de nos despertar da hipnose das formas tradicionais, que a burguesia mima, promove em suas universidades, premia em seus Concursos porque FORMAS TRADICIONAIS VENDEM. A ordem literária exprime a mesma ordem que reprime e explora o operário. E os versinhos que se dizem a favor dos operários vendem que nem pão: um fenômeno mercantil, como qualquer outro. O poemão e a versalhada trazem na pele a marca de suas origens burguesas. E até latifundiárias... Com temas populistas, são caridade cristã. Alívio da consciência pesada do intelectual da classe média.

Não há dúvida: quanto mais poético, mais político. E o experimental é a poesia mais antiprosa. Experimental é o risco. Não concebo poesia sem risco.

O maior inimigo da poesia é a literatura. A literatura é a legalidade poética. Ora, a poesia -- se tem um sentido -- é ser uma atividade ilegal, marginal, criminosa, em termos de linguagem. Então, viva a poesia! Abaixo a literatura!

A poesia se manifesta em experiências falhas. Discutíveis. Inclassificáveis. O discurso automatizado que se pratica por aí, com o nome pomposo de P-p-p-oesia, só é bom para as editoras e academias, o aparato repressivo do texto.

Poesia é lógica e linguagem insurretas.

Poesia é extremismo.

Poesia média é prosa. Empilhada em versinhos. Ou acondicionada em estrofes. O sistema insiste em dizer que sabe o que é poesia.

Mentira.

Pergunte aos poetas.

Ninguém sabe o que é poesia.

Ainda bem.



(Paulo Leminski, em artigo escrito para a revista Gandaia, n.6, abril de 1980.)




31.10.09

Bibliocleptomania





nome: Eliza Humphries
idade: 10 anos
profissão: bordadeira
crime: roubar um livro
sentença: 2 semanas de trabalhos forçados
e 3 anos de reformatório
época: final do século 19, Inglaterra.

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27.10.09



nem feliz
nem infeliz: à espera
de tudo
e de nada





versos de Pedro da Silveira

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20.10.09



Conheci Leila Maria quando ela ainda era professora de inglês, telefonista internacional e "brincava" de cantar na noite, deixando de boca aberta quem tinha o prazer de ouvi-la. Amigas para sempre, ainda guardo seu primeiro vinil, batalhado com muito esforço. Depois disso ela ganhou o mundo, cantou com Paulinho Moura e Ed Motta, que a considera a cantora mais viva do Brasil. Seus cds estão pela Biscoito Fino. Misturando jazz, bossa nova e MPB com a mesma desenvoltura e timbre único, sua voz para mim é incomparável. Quem não a conhece, aproveite a chance.

29 de outubro - quinta-feira
19h PROJETO VOZES DA DIVERSIDADE LGBT
Espetáculo II - Show de Leila Maria em "Música por Amor"
Local: Sala Baden Powell (Av. Nossa Senhora de Copacabana, 360 - Copacabana - Rio)
Inf.: 2548-0421 / 2222-7286 / 2215-0844


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13.10.09


Nunca le tomes
la palabra
a la noche.
Es palabra de agua
y tú conoces las mareas






POÉTICA


Escucho los ladridos, distintamente,
pero nada sé de ese perro que arde
ni del dibujo de su huella por la tierra abrasada.


Reconozco a los que lo han mirado
frente a frente. Escucho sus historias.
He pasado varias veces la mano
ante sus ojos blancos desde entonces
y he sentido uma llama calentarme los dedos.


Pero yo sólo escucho los ladridos.
Incluso cuando salen de mi boca.
Nada sé de poesia.



Vanesa Pérez-Sauquillo

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4.9.09



A vida é uma parede.
A morte são quatro.
Je ne sais jamais l'heure.
Use Requinte Superlavável, de Sherwin-Williams.
Sem Cheiro.


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26.8.09



Carne humana queimada cheira a mel,
piche e batata assada.
A morte tem cheiro de abacaxi.
Um caminhão de abacaxi.

Use Polo Explorer, da Ralph Lauren --
Vaporisateur.



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8.8.09



Sou Patricia Highsmith, o gato de Doris Lessing. Aos sete anos eu já sabia ler, escrever e contar. Aprendi por imitação. Depois da disciplina e das regras de decoro e civilidade cristã. Retrair a urina dentro d’água, por exemplo. Tudo se aprende e decora, inclusive o pensamento. Hoje sei pensar. Por imitação. Minha vida não daria oito páginas escritas à mão e trocadas por rum numa prisão de paroxítonas. Tenho um temperamento burlesco allegro e sei fazer leitura labial dos afetos humanos em seu teatro mecânico. Desde que soube que os adventistas do sétimo dia vivem nove anos mais do que os comuns, vivo em estado quase vegetativo, pois o segredo da juventude é desacelerar as mitocôndrias. Doris, ao contrário, faz longas caminhadas e toma doses diárias de resveratrol em taças transbordantes de vinho tinto. Eu não contei a ela que isto não vai adiantar, saúde não é questão de faxina do LDL. Mas também não contei muitas outras coisas, não seria natural. Ela nem imagina que, além de ler, escrever e contar, eu sei controlar meu estresse oxidativo. Uma nonagenária com inervação excitatória e a bolsa sempre repleta de comprimidos de ginkgo biloba não aceita certas coisas com facilidade. Prefiro que pense que divirto seus convidados ilustres e me contento com meus êxodos gástricos enquanto lambo minhas patas de almofada. Na verdade poucas coisas na vida me aborrecem, entre elas uma certa sensação cansativa de me ver usado como uma espécie de guia do leitor. Sempre que me deito sobre uma pilha de livros e meus olhos se perdem ao sabor do tédio nos rodapés interrompidos da sala, alguém aparece para puxar o primeiro livro da pilha e começar a ler. Não sei interpretar essa reação humana. Talvez gostem de livros mornos, receiem que eu vá babá-los ou atribuam à minha escolha casual de um livro para me recostar um oracular critério de escolha que lhes falta. É duro ser gato de escritores. Ser interpretado a cada movimento, a cada olhar. Sentada à escrivaninha, Doris olha nos meus olhos e escreve, escreve, escreve. Inspira-se na minha sonolência. Chego a pensar que é por este motivo que tanta gente hoje perdeu o gosto pela literatura. Ela faz dormir. Decerto foi por isso que criaram a expressão livro de cabeceira. Ninguém deveria confiar em escritor que tem gato. Eu não confio há um bom tempo, desde que Doris recebeu o Nobel e nem mencionou a minha participação em sua prolífica obra. Após essa decepção, em que nem vi a cor dos milhões de coroas suecas, comecei a evitar todo tipo de contato visual entre nós. Quando ela se acomoda na cadeira todas as manhãs para escrever, eu já estou de costas, fingindo interesse nas borboletas idiotas da paisagem ou roncando com meus botões. Ela então me acaricia com ternura, como se eu não soubesse de sua real intenção, remexe nos objetos sobre a mesa, tosse três vezes e demora, demora séculos para escrever uma primeira frase. E não escreve. Olha fixamente para o rabo recolhido do seu agente sentimental e ele não lhe inspira uma lembrança, uma imagem, uma associação, nem mesmo uma confissão. Nada. Um rabo sem logos. Ela suspira. Vai ser um longo dia, Doris. Douce est la vengeance.


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6.8.09



Tem de se respeitar esse bicho aí. Pedra da Gávea. Quase 850 metros Rio acima. Qualquer escorregão pode ser fatal. Tempos atrás me aventurei. Sem cordas, sem equipamento, nada. Só com algum alimento e água. E um bando de dez malucos orientando o caminho. Quase voltei no meio, mas como voltar sozinha? Trilhas e mais trilhas que se bifurcam. E um paredão de 30 metros assustador: a Carrasqueira. Mãos e pés se apoiando em fendas. O plano era subir pela manhã de um sábado bem cedo e passar uma noite. Dormir na caverna, um dos olhos da cabeça do Imperador. Ver o Rio de cima à noite naquela altura é de uma beleza impossível de ser imaginada. Corcovado e Pão de Açúcar não chegam nem perto. E ainda o mar. Azul a perder de vista. E eu me perdi. Na volta, a descida do dia seguinte. Os malucos, experientes, desceram mais rápido e eu fiquei para trás. Eu e um amigo que queria fotografar tudo e por isso nos atrasamos. Pegamos a trilha errada, demos num lugar de difícil acesso que os bombeiros levaram horas para achar. O resgate levou uma madrugada inteira. Mas eram outros tempos. Não havia celular. Não havia GPS. Nosso drama ganhou uma notinha no jornal: Perdidos na Floresta. Voltei toda esfolada, mãos arranhadas que não seguravam mais nada. Dormi uma semana. Não me arrependo. Hoje, da Pedra da Gávea só quero as fotos. Admiro quem se aventura e não sei por que vim aqui para dizer essas coisas só por dizer. Acho que foi pelo Gabriel. Que os deuses africanos o guardem.

--

1.8.09


Susana Marli mora no 807 da Senador Vergueiro, fundos, e tem todos os vinis da Sylvinha Telles. Seu apartamento tem uma sala que não vamos conhecer e um quarto em que não vamos entrar porque se entrássemos veríamos que além de ter todos os discos da Sylvinha, ela também é a cara da Sylvinha. Uma cara que você não iria entender assim como Susana Marli não entende por que o samba-canção foi parar na bossa nova. Susana Marli entende por que ela foi parar no 807 da Senador Vergueiro, fundos. Ninguém precisou lhe explicar. Mas com a bossa nova é diferente. A primeira vez foi quando ela viu Sylvinha jogada na calçada sobre o plástico do camelô. O rosto encardido na capa. E julgou estar vendo a própria imagem no espelho. Amor em Hi-Fi. O seu reflexo se multiplicando, acompanhando as pedras do chão. Amor de Gente Moça. Carícia. Quem é essa mulher nesses discos velhos? Por que tem a minha cara? Por que se faz de mim? Eu não posso ficar nesse chão imundo onde todo mundo escarra. Com olhos de meio-fio. E assim começou a coleção de discos de Susana Marli no 807 da Senador Vergueiro, fundos. Andando por todas as ruas do centro da cidade e depois da zona sul a norte leste e oeste, ela não deixou um rosto de Sylvinha Telles pegando pó de asfalto em barracas, caixotes de supermercado, lonas de plástico sebentas. Tudo que tinham para vender ela comprava. Depois de meses de procura, convencida de que não havia mais um único vinil de Sylvinha sendo vendido nas ruas do Rio de Janeiro, Susana Marli sossegou nos fundos do 807 da Senador Vergueiro e começou a ouvir boleros, sambas-canção e bossa nova. Umas músicas estranhas que a arranhavam entre dois mundos, porque não era isso que toda gente costumava cantar ou que ouvia na televisão. Ela mesma não se importava com música, coisa boba que passa. Trocava de canal sempre que a cantoria começava. Mas com Sylvinha foi diferente. Foi a noite. Foi o mar. Sylvinha parecia tanto com ela que Susana Marli começou a se vestir como Sylvinha. Se pentear como Sylvinha. Deixar crescer as sobrancelhas de Sylvinha. E no final de todas as faixas já estava cantando como Sylvinha. Ninguém ergueu os olhos quando Susana Marli entrou na Biblioteca Nacional e pediu para ler os jornais cariocas dos anos 50 e 60. Ali estava ela, nas fotos dos jornais. Fui eu, eu sei. A normalista, a assistente de palhaço, o amendoim torradinho. Sylvinha Telles sou eu. Eu fiz mal em fugir. Eu fiz mal em sair. Do que eu tinha em você. Hoje eu volto vencida. A pedir pra ficar. Meu lugar é aqui. Faz de conta que eu nunca saí.


-

30.7.09

Wislawa Szymborska




Alguns gostam de poesia


Alguns —
quer dizer nem todos.
Nem a maioria de todos, mas a minoria.
Excluindo escolas, onde se deve
e os próprios poetas,
serão talvez dois em mil.


Gostam —
mas também se gosta de canja de massa,
gosta-se da lisonja e da cor azul,
gosta-se de um velho cachecol,
gosta-se de levar a sua avante,
gosta-se de fazer festas a um cão.


De poesia —
mas o que é a poesia?
Algumas respostas vagas
já foram dadas,
mas eu não sei e não sei, e a isto me agarro
como a um corrimão providencial.

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28.7.09

Kaváfis




Terá, quando muito, vinte e dois anos.
E no entanto estou certo de que, há quase tantos
anos passados, esse mesmo corpo eu desfrutei.

Não é, de modo algum, uma ilusão erótica.
E somente há pouco foi que entrei no cassino,
nem tive tempo de beber demais.
O mesmo corpo eu desfrutei.
Se não me lembro onde - não quer dizer que seja
esquecimento.

Ah, agora sim, que se sentou ali, na mesa ao lado,
reconheço cada movimento seu - e, para além das roupas,
eu os revejo, nus, os membros tão amados.



Kaváfis, "A mesa ao lado". Imagem: Martin Fuchs.
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25.7.09

Blas de Otero




LO FATAL

Entre enfermedades y catástrofes
entre torres turbias y sangre entre los labios
así te veo así te encuentro
mi pequeña paloma desguarnecida
entre embarcaciones con los párpados entornados
entre nieve y relámpago
con tus brazos de muñeca y tus muslos de maleza
entre diputaciones y farmacias
irradiando besos de la frente
con tu pequeña voz envuelta en un pañuelo
con tu vientre de hostia transparente
entre esquinas y anuncios depresivos
entre obispos
con tus rodillas de amapola pálida
así te encuentro y te reconozco
entre todas las catástrofes y escuelas
asiéndome el borde del alma con tus dedos de humo
acompañando mis desastres incorruptibles
paloma desguarnecida
juventud cabalgando entre las ramas
entre embarcaciones y muelles desolados
última juventud del mundo
telegrama planchado por la aurora
por los siglos de los siglos
así te veo así te encuentro
y pierdo cada noche caída entre alambradas
irradiando aviones en el radar de tu corazón
campana azul del cielo
desolación del atardecer
así cedes el paso a las muchedumbres
única como una estrella entre cristales
entre enfermedades y catástrofes
así te encuentro en mitad de la muerte
vestida de violeta y pájaro entrevisto
con tu distraído pie
descendiendo las gradas de mis versos.

-

22.7.09



Aos vinte e dois do mês de agosto de mil setecentos e oitenta e oito pelas onze e meia do dia no Oratório da cas....(ilegível) Francisco José Teixeira aplicação da Capella de Conceição da Barra filial desta Matriz de São João de El Rey por especial portaria de S Excelência Rev....(ilegível) ...de prezente e feitas as Canônicas deligencias sem se discubrir impedimento algum como consta da Provisão do Reverendo Doutor Vigário da Vara desta Comarca José Batista da Silva, o Reverendo Doutor Antonio Caetano de Almeida Villas Boas vigário collado desta freguesia em prezença das testemunhas Reverendo Francisco da Silva ......vares, O Capitão Antonio Ferreira Carneiro Antonio Moreira ...cellos e Felix Martins Ferreira administrou o Sacramento do Matrimonio que por palavras de prezente Celebraram = MANOEL DA COSTA RIOS filho legítimo de João da Costa Rios e de Josefa Carneiro Ferreira natural e batizado na Freguesia de São Christovam de Refojos Comarca de ........... Bispado do Porto e viúvo de sua primeira mulher Ana Rodrigues de Oliveira = ANA ESMÉRIA DE SOIZA filha legitima do dito Francisco José Teixeira e de Dona Ana Josefa de Soiza natural e batizada nesta Freguesia de São João de El Rey e logo lhes deu as bênçãos na forma do Ritual Romano.

O Coadjor. Joaquim Pinto da Silveira
Livro de casamentos da Matriz do Pilar e Capelas Filiadas


Sobre os noivos

Ana Esméria, primogênita de Francisco José Teixeira e Ana Josefa de Souza Monteiro, nasceu em 1775 em Conceição da Barra. Casou aos treze anos na Capela de Nossa Senhora da Conceição da Barra aos 22-8-1788 com Manoel da Costa Rios, viúvo de Ana Rodrigues de Oliveira, nascido em 31-03-1758, no lugar de Ventorella, freguesia de São Cristóvão de Refojos, Concelho de Santo Tirso, Distrito do Porto, filho legítimo de João da Costa Rios e Josefa Ferreira Carneiro.

Manoel faleceu em 25-12-1812. Deixou seis filhos legítimos com idades entre 12 e 18 anos e uma filha natural, Maria Tereza Rios, havida enquanto solteiro, que alcançou sentença de paternidade e consequentemente figurou no rol de herdeiros. Era casada com João Pereira de Araújo e em 1841 estava viúva. Ana Esméria faleceu na sua fazenda Bom Jardim no Curato de Nossa Senhora da Conceição da Barra em 6-5-1842.

Ana Esméria e Manoel tiveram:

1- Mariana Osória Teixeira de Souza
2- Antonio Teixeira da Costa Rios
3- Maria Esméria Teixeira de Souza
4- João Evangelista de Souza
5- Ana Josefa de Souza
6- Delfina Matildes de Souza




FIM

21.7.09

Laboratório de criação literária



Nossa proposta de trabalho tem como foco principal transformações químicas da estrutura do a-Bisabolol com finalidade de potencializar e/ou expandir suas atividades biológicas e aplicações na indústria do texto literário. O α-Bisabolol também conhecido como levomenol é um óleo viscoso incolor de aroma agradável, odor floral e baixa toxicidade (LD50 em animais=13-14 g/kg). É praticamente insolúvel em água e glicerina, e solúvel em etanol. Ocorre na natureza nas formas enantioméricas (+) e (-), sendo o enantiomêro (-) o de maior abundância. (-)-a-Bisabolol é um composto natural com estrutura de um álcool sesquiterpênico monocíclico, no Brasil é extraído da madeira da candeia. O óleo de candeia tem aproximadamente 85% de α-Bisabolol, portanto uma concentração elevada para produto natural. Destilando-se o óleo de candeia obtém α-Bisabolol com pureza mínima de 95%. O interesse no α-Bisabolol se deve a suas atividades biológicas comprovadas, bem como a sua disponibilidade e facilidade de extração. Em função da sua baixa toxicidade e de suas propriedades conhecidas como anti-irritante, anti-inflamatório, protetor gástrico, analgésica, antibiótica e antimicrobiana, é muito usado em cosméticos como loção pós-barba, loções para o corpo, desodorantes, batons, protetores solares, cremes para as mãos entre outros. Recentes estudos indicam que o a-Bisabolol é um inibidor para o glioma (tumor maligno) em ratos e humanos. Estudos do (-)-a-Bisabolol como fungicida o indicaram como o fungicida do futuro. Provavelmente devido às dificuldades de trabalhar com a estrutura química deste composto, a literatura consultada é muito pobre sobre modificações do (-)-a-Bisabolol. A reação proposta deve ocorrer nas duas duplas ligações do (-)-a-Bisabolol formando assim o diclorocarbeno. A idéia de modificá-la desta forma se baseia no fato de obtermos um produto mais reativo que nosso reagente de partida. Para essa etapa do trabalho reagiu-se 4,4 mmol de Bisabolol, 0,044 mmol de N-Cetil-N,N,N-Trimetil Amônio e 27 mmol de clorofórmio, a mistura foi homogeneizada por 10 minutos sob vigorosa agitação. Então foi adicionado, gota a gota, 44,4 mmol de solução de hidróxido de sódio a 50%, concluída a adição a reação foi aquecida a 50°C, e mantida sob agitação por mais duas horas. Terminado esse tempo, a temperatura foi reduzia à temperatura ambiente e adicionou-se 50mL de solução de ácido sulfúrico a 10% a fim de tornar o meio ácido. A extração é realizada com 50mL de diclorometano. A camada orgânica foi lavada com água e seca com sulfato de sódio anidro. O solvente foi evaporado, sob vácuo, em evaporador rotativo. A reação foi monitorada por CCF utilizando cromatoplacas de sílica sobre alumínio, foi possível ver o desaparecimento do (-)-α -Bisabolol quando revelado em vapor de iodo e em solução reveladora de sulfato cério, usando diclorometano como eluente. Obteve-se rendimento bruto de aproximadamente 99%. O diclorocarbeno purificado foi caracterizado por infravermelho e ressonância magnética nuclear de próton e carbono.

15.7.09

#

chorando no prato do mar
o poeta põe a cabeça no meu ombro
e jura que nunca mais trará
seu caderninho para a praia

escrever lhe dá a ilusão
de que o mundo não existe

é duro ele me ver
fazendo torres de areia com Perrier

#

13.7.09

Conversa com os mortos


Aos doze anos de idade comecei a conversar com os mortos. Não foi tão difícil pois aos cinco eu já conversava com eles em pensamento. Nunca conversei com espíritos. Espíritos são Homero, Melanípedes, Sófocles, Policleto, Zêuxis. Talvez Napoleão. Para ser espírito precisa de tempo. Tempo e inteligência. E inteligência é coisa que demora. Saber ver longe sem depender dos olhos. Então os mortos são burros? Não, seria injustiça. Mortos não são burros. Têm outra inteligência. O morto é todo aquele que precisa aprender a morrer, o que por si só é uma grande qualidade, e um pesado fardo. Já os espíritos nascem sabendo. Todo espírito já nasce morto. E eterno. Por isso simpatizo com os mortos, enquanto a maioria das pessoas, mais pragmáticas, prefere falar com espíritos. Espíritos têm o dom da profecia e sempre tem um vivo com um pires na mão para o além, querendo fazer escambo. Diferente dos espíritos, mortos se permitem falar bobagens, nos importunam nas horas mais inconvenientes, em geral falam coisas que já sabemos ou o que não sabemos pela metade, pedem alguma coisa, se confundem com o inconsciente mas no fundo não passam de almas querendo aplacar a solidão, só isso. Não estão ali para revelar segredos, fazer previsões meteorológicas ou solucionar mistérios do passado. Não sabem a origem da vida nem vão puxá-lo pela mão e apresentá-lo a Deus, que Deus é a sala vip dos espíritos. Por vezes acho que só conversam comigo porque querem um empurrãozinho para voltar-lhes a vida. Quando minha mãe morreu, eu já conversava com os mortos há décadas sem que ela soubesse. Ela mesma nunca apareceu para conversar comigo. Suspeito de que, ao contrário do que dizem as lendas, morto não gosta de conversar com parente. Principalmente se morreu endividado. E quase todo mundo morre deixando um rabo de fora. Sinto sempre a presença deles comigo. Em meus sonhos, quando ando pelas ruas, enquanto trabalho. E se penso na minha morte, não é com os espíritos que me consolo. A eternidade é ilusão, aprendi com A. M. de Toledo, morto em 25 de outubro de 1728.


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12.7.09

Matsunaga Teitoku




hana yori mo
dango ya arite
kaeru kari


melhor do que flores
é comer bolinhos -
partem os gansos selvagens



Matsunaga Teitoku (1571-1653)-

7.7.09

Rodrigo de Souza Leão (1965-2009)




Fisicamente
a noite
é só um segundo




Eu sou um museu
Tenho uma filha com nome de furacão
Uma mulher com nome de vulcão
Uma farmácia particular
Um corpo pra me distrair
E dois copos de vidro
Um eu quebro
E brindo com o outro
Dentro do meu museu há um zoológico
Há um parque de diversão
Um cidadão jogando paciência
E um cientista se fingindo de importante
Há vários covardes como eu
Alguém bebe leite quente
Palavras se devoram dentro da boca
Há um homem vestido de burro
Um burro vestido de homem
Mandei tudo a merda
Mas um pouco de mim foi junto

*

Sou o melhor que posso
Possuo o melhor que sou

De mim sei não restará nada
Nenhum caroço, nenhuma empada

Às vezes me jogo do sexto andar
Às vezes me jogo do quinto

Mas nunca passo do chão
Do chão onde um fogo extinto

De um mendigo que me acudiu
É aceso toda noite

Toda noite um anjo cai
E um outro abismo cospe labaredas

Talvez o dragão seja hoje
O melhor amigo do fogo

Talvez seja o deus pra quem rogo
O último ateu suicida

*

Tudo ficou dourado. O céu dourado.
O Cristo dourado. A ambulância dourada.
As enfermeiras douradas tocavam-me com suas mãos douradas.
Tudo ficou azul: o bem-te-vi azul, a rosa azul, a caneta bic azul, os trogloditas dos enfermeiros. Tudo ficou amarelo. Foi quando vi Rimbaud tentando se enforcar com a gravata de Maiakovski e não deixei.
Pra que isso Rimbaud? Deixa que detestem a gente. Deixa que joguem a gente num pulgueiro. Deixa que a vida entre agora pelos poros. Não se mate irmão. Se você morrer não sei o que será de mim. Penso em você pensando em mim.
Rimbaud tudo vai ficar da cor que quiser.
Aqui não dá pra ver o mar. Mas você vai sair daqui.
Tudo ficou verde da cor dos olhos de meu irmão e da cor do mar. Do mar. Rimbaud ficou feliz e resolveu não se matar.
Tudo ficou Van Gogh. A luz das coisas foi modificada.
Enfim me deram uns óculos.
Mas com os óculos eu só via as pessoas por dentro.

*

QUÍMICA CEREBRAL

Bom dia Lexotan
Bom dia Prozac
Bom dia Diazepan
Bom dia coquetel
Bom dia amplictil
Bom dia fenergan
Bom dia sossega-leão
Bom dia eletrochoque
Bom dia Piportil
Bom dia Lorax
Bom dia Litium
Bom dia Haldol

Boa noite Rodrigo


*

O poeta é um ladrão
Rouba tão descaradamente
Que chega a dizer que é seu
O poema de outro indigente


*

O meu poema burilado
É como um pum molhado


Ele não fede nem cheira
Gosto de Manuel Bandeira


*

LOBOTOMIA

Na
Caixa
Craniana
Não há nada

Só o nada como artefato

Nada
Um peixe
E suas barbatanas

Homens dão viradas olímpicas
Nadam
E o nada continua ali

Vazio
Entre duas mãos
E o bisturi

*

INTERNO RETORNO

Eu ando em círculos e paro:
às vezes na metade do círculo.

O círculo é só um movimento
e o movimento é uma onda.

O círculo. O movimento. A onda.
São todos tão redondos assim

como quase um ovo que nunca
consegui colombar em pé.

Colombo é um nome cheio e redondo.
Desses que circula em círculos.

Desses que o mar traz para descobrir:
o movimento o Círculo a onda.

Tudo que faço é mesmo circular:
um ponto qualquer no infinito.

Um ponto também é um círculo.
Tudo é círculo, onda e mar.

Apenas alguma sarda que tinha
não era totalmente redonda.

Por que um círculo precisa
de um compasso? A Terra

nua no espaço é onda é mar
é círculo: sou eu no meu cubículo.

*

Todo mundo caga
regras também

*


Às vezes eu penso, mas só às vezes.
Quando alguém morre, eu fico triste porque não sei pra onde esta pessoa, objeto ou coisa vai.
O fato de não ter certeza é que me incomoda.
Quando eu morrer, não fique triste só porque não sabe para onde eu vou.
Fique triste porque gosta de mim e sentirá minha falta. Mesmo sendo você alta voltagem. Sentirei sua falta também. Estarei no cemitério do Caju e lá sediado esperarei as flores que sempre quis lhe dar.

*


. o lince corre das listras vestindo meias coloridas.

--
Os textos de Rodrigo foram retirados do seu Lowcura, um blog para se ler de janeiro a dezembro. Poeta, músico e jornalista, Rodrigo e eu ainda tateávamos uma amizade à distância começada neste ano. Sua poesia espontânea, angustiada e ao mesmo tempo lúdica se espalha pela rede, por seus livros, onde ele permanecerá vivo para sempre.

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6.7.09

A lição do amigo



S. Paulo 19-VII-28
Carlos Drummond

Pegue na pena e me mande num papel qualquer, imediatamente, a direção exata da sua casa. É pra mandar e não se perder um trabalho de tricô que mandei fazer prá filhinha de você, pela famosa Dona Ana Francisca, da qual você ouvirá falar no Macunaíma. Você não entende dessas coisas porque jamais não se preocupou com artes aplicadas, mas se convença sob minha palavra-de-honra, que a lã trabalhada por Dona Ana Francisca fica uma obra-prima de boniteza e bom-gosto.

Quanto ao caso do Diário da Noite daqui, não sei o que aconselhar você. Aceitar como experiência me parece incontestável que você deve. O jornal é mais ou menos neutro e já pertence ao Chatô. Nessa neutralidade um pouco dúbia talvez seja possível pra você não fazer muitos sacrifícios. Por outro lado quem sabe se o contato com uma cidade de trabalho, no meio nosso dum trabalho cotidianizado e corajoso, você tem coragem pra uma organização e abandona essa solução a que Macunaíma chegou só depois de muito gesto heróico e muita façanha: a de viver o brilho inútil das estrelas do céu. Você caiu num estado de religiosidade extática lamentável. Você está vivendo depressa por demais, Carlos Drummond de Andrade, e assim não serve. Você já chegou na decrepitude final sem ter vivido. A história de você é chocha. Uma precariedade lamentável de gestos esboçados, de vontades incondensadas. A isso no geral os abúlicos inteligentes chamam de "vida interior". Desculpe, mas botei nessa frase uma ironia feroz. Vida interior todos têm. Não é a inação exterior que dá vida interior mais intensa, não.

Pois venha tentar S. Paulo, meu Carlos. Não garanto nada. Não aconselho nada. Venha por você, se tiver coragem. Reflita que você tem uma imundície de responsabilidades que vai assumindo sem organização pra dar conta delas. Tirou uma mulher da casa dos pais, está com uma filha em casa, estudou. São três responsabilidades bem claras e só falo nelas porque não posso me alongar mais. Tome um dia e faça retiro espiritual. Repare que o que você está fazendo, um homem que deseja ter caráter não faz. Venha pois tentar dois meses sozinho. Talvez que uma intimidade mais objetiva com minha felicidade possa organizar você. Hei de achar jeito pra conversarmos bastante. Você aqui não está sozinho. Você entra e sai na minha casa a hora que quer. Se eu estiver trabalhando não deixo o trabalho por causa de você. Você fica mexendo no que quiser. Se quiser dormir durma. Se quiser ir à merda, eu não deixo. Se vier com desconfiança e cerimônias, te dou um bruto dum soco e dois insultos de inhapa. E tenho um coração de ouro, com muita paciência e todos os perdões pra você.

Abraço os três.

Mário


3.7.09




Olhe nos meus olhos e repita comigo:

Seus sintomas vão desaparecer, você vai comer com apetite
e dormir tranquilamente a noite inteira.

Seus sintomas vão desaparecer, você vai comer com apetite
e dormir tranquilamente a noite inteira.

Seus sintomas vão desaparecer, você vai comer com apetite
e dormir tranquilamente a noite inteira.

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21.6.09

Cesare Pavese




Como um leve jantar posto à clara janela.
Já está escuro no quarto e se vê pelo céu.
As estradas tranquilas lá fora conduzem,
em um breve percurso, aos campos abertos.
Como e olho pro céu -- quiçá quantas mulheres
fazem o mesmo a esta hora -- e o meu corpo está calmo;
o trabalho atordoa o meu corpo e as mulheres.

Terminado o jantar, as estrelas virão passear
sobre a vasta planície da terra. As estrelas têm vida,
mas não valem sequer as cerejas que como sozinho.
Vejo o céu, mas sabendo que em meio aos telhados
umas luzes já brilham e, por baixo, começam ruídos.
Com um trago o meu corpo degusta esta vida
das florestas e rios e se sente isolado de tudo.
Basta um curto silêncio e as coisas se assentam
em seu lócus real, como assenta o meu corpo.

Meus sentidos isolam as coisas que tocam
e as aceitam impassíveis: rumor de silêncio.
Sou capaz de entender cada coisa no escuro,
como sei que o meu sangue percorre estas veias.
A planície é um grande regato entre a relva,
um repasto de todas as coisas. Imóveis as plantas
e os minérios existem. Escuto o alimento nutrir
minhas veias de tudo o que vive no vale.

Não importa essa noite. O quadrante do céu
me sussurra uma cópia de sons, e uma estrela miúda
se debate no vácuo distante dos pastos
e das casas, discorde. Não basta a si mesma
e precisa de muitas parceiras. No escuro, sozinho,
o meu corpo está calmo e se sente supremo.



Cesare Pavese, "Mania de Solidão".


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16.6.09

Prosa Caótica comemora o Bloomsday

ouça alguns trechos de Ulisses na voz
pungente de Angela Wiedl


29.5.09

Afrânio Coutinho - A comédia da vida literária




A vida literária é, no Brasil, muito mais importante do que a própria literatura. É este um dos fatores de pobreza de nossas letras, do escasso número de obras de importância e de figuras literárias de primeira plana. A superficialidade é a regra em nossos livros e em nossos homens de letras. Raros os que alcançam um nível de profundidade e de essencialidade. Isso porque nos gastamos, desperdiçamos nossas energias em preocupações bem diversas da produção de verdadeira literatura.

Uma dessas preocupações é a da glória em vida. Já se disse de alguém que teve tanta glória em vida que a esgotou nada lhe sobrando para depois de morto. São os vários processos e táticas de administração da glória que constituem um dos muitos meios de esgotamento dos escritores entre nós. O fenômeno é por demais conhecido: escritores que, em vida, desfrutaram de rumorosa nomeada e domínio sobre a opinião do público e dos confrades e que deles hoje ninguém quase desconfia da existência. Gastaram-se na vida literária, atiraram fora nas disputas de rodinhas e nas lutas pelo domínio da opinião tudo o que poderia ter sido empregado na construção de obras sérias. Pela notoriedade efêmera queimaram toda a lenha que trouxeram. Mas a notoriedade é feminina: com frequência varia de ânimo e de senhor.

Nada mais divertido do que observar a comédia da vida literária no Brasil. A felicidade é que o público não toma conhecimento dela, senão a literatura já estaria há muito desmoralizada, pois dificilmente saberia ele distinguir literatura de vida literária e verificar que esta não passa de exploração daquela em proveito de meia dúzia de sabidos. Aliás, já é de se atribuir muito do desprestígio de que a literatura é vítima nos últimos tempos nos leitores ao fato de que afinal se vai tomando conhecimento fora dos meios literários, dos processos e artimanhas dos aproveitadores da literatura.

Nesse particular, como em muitos outros para o bem e para o mal, devemos enormemente à França. Não há número de periódico francês, à imagem dos quais são feitos os nossos em sua maioria, que não estampe uma reportagem ou uma entrevista a propósito desse ou daquele aspecto da vida particular ou das intimidades de determinado escritor. A preocupação com a obra é de somenos e decresce dia a dia. Em vez da obra a vida dos autores. Em vez da literatura, o extraliterário. Em lugar da literatura, a história literária. E foi isso que Renan quis dizer quando afirmou que cada vez mais a história da literatura iria substituindo a leitura das obras. E a crítica foi-se aos poucos transformando em biografia ou interpretação do homem e da época, deixando de lado aquilo que deve ser sua primordial finalidade - a obra, sua análise, interpretação, julgamento.

Que interesse tem para a literatura que o poeta fulano haja completado anos ou tenha ido veranear em Petrópolis e o romancista sicrano em Caxambu? Apenas para ele, para o bom funcionamento de seu fígado, é que o fato tem importância. E para a alegria de seus amigos. A não ser que daí resulte uma obra fundamental que venha enriquecer nosso patrimônio literário. De outro modo, isso tem tanta importância quanto a ida para uma estação de repouso de um fiscal de consumo ou um amanuense, e, no entanto, ninguém disso toma conhecimento nem se anunciam esses acontecimentos. Mas de certos literatos qualquer que seja o seu movimento, lá vem a notícia que os amigos dos suplementos e dos jornais literários não esquecem. Há nomes que aparecem inexoravelmente todos os domingos nos órgãos literários. E às vezes com os retratos. É uma estratégia cansativa de meter pelos olhos a glória de um personagem. É um processo que está intimamente ligado à estrutura da vida literária em que dominam as igrejinhas, as cadeias de felicidade e os fogos cruzados de elogios. Sobretudo, muitas igrejinhas vivem à sombra de alguma árvore frondosa. Quais cogumelos, seus membros necessitam de sua proteção. Por isso, dão-lhes em troca o coro de louvores e de propaganda. Produtos típicos e exclusivos da vida literária são as famas rápidas e descabidas. As igrejinhas transformam, da noite para o dia, sem que nada justifique, improvisados comentaristas em críticos famosos, e meros revisores de provas em "mestres" filólogos, só porque os primeiros "promovem" os livros e os últimos colocam certo os acentos e os pronomes nos trabalhos dos membros do grupo.


Afrânio Coutinho, 1953.

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25.5.09

Apesar da diferença de altura

Em um hotel de Chicago, no outono cheyenne, um rico criador de gado chamado Waco se embriaga, perde no pôquer e se associa a Maddox, ex-pistoleiro de olhos de mingau que deseja esquecer seu passado de fora-da-lei. Antes de a noite acabar, eles decidem partir para comprar uma boiada no México. Durante o acidentado percurso, a notável diferença de altura dos dois, em vez de plantar discórdia, os aproxima fazendo nascer uma amizade de fortes. Após cruzarem um deserto de sal, eles se perdem e vão parar em Wichita Sky, uma cidade-fantasma cercada de rochas esculpidas pela erosão e assombrada por espectros de índios sioux em sanguinária batalha contra espectros de ianques renegados. Sem saber se haviam chegado na porta do inferno ou do Texas, os dois amigos se mostram determinados a expulsar da cidade o que julgam ser uma manifestação do demônio. No entanto, pela primeira vez eles divergem dos métodos. Waco, que apostava no futuro nas alturas e acreditava que o céu sempre manda alguém, achava que deviam construir uma igreja evangélica, pois entre o bem e o mal não há acordo. Maddox, acossado pela memória e preferindo jogar todas as fichas na pacificação do passado, tentou convencer o amigo com palavras duras: "Hijo de cuatro puercos, odiar o diabo é o mesmo que odiar o deserto por não ter água. Temos de proteger os túmulos, não construir igrejas." Não houve regateio. Em meio a visões fantasmagóricas de tiroteios, lutas de machadinha, flechas de fogo, carnificinas, escalpos e árvores de enforcados, Waco construía a sua igreja com as tábuas do saloon, enquanto Maddox negociava a paz sepulcral com as almas penadas dos sioux para que retornassem a sua reserva e com as almas ianques para que voltassem à Inglaterra, terra ancestral de onde nunca deveriam ter saído. A salvação de Waco foi garantida tábua por tábua até que a madeira durasse. Em uma mesa branca no cemitério, Maddox garantiu a paz fumando em um rifle de 15 tiros com os líderes sioux e ianque. Na véspera do dia de Ação de Graças, Wichita Sky amanhece afinal livre das assombrações e as primeiras diligências e carroças voltam a circular. Waco acredita que foi a igreja que os salvou. Maddox silencia e não o desmente, pois a vida lhe ensinou o valor de uma amizade sincera e verdadeira, apesar da diferença de altura. Os dois desistem da boiada mexicana e compram um rancho bucólico no Oregon, onde fabricam uísque até o fim dos seus dias, embalados por sinfonias pastorais de caubóis-cantores entre um crepúsculo e outro. 


MP


15.5.09


Estêvão quer ser meu amigo no Facebook. Não sei como me achou pois não perco perfil nessas coisas. Acho que Estêvão não tem mais essa carinha de Beach Boy porque vovó gostou dele. Não sei por que as pessoas mentem a idade, ela disse. Chico Anysio tem 90 anos e não os 78 que dizem os jornais. Eu acredito na vovó. Ela lê enciclopédias e sabe da vida de reis e rainhas. Foi o que atraiu meu avô, plantador de arroz no Sul. Fico confusa na frente do monitor e vovó me passa uma bala de tamarindo com sorriso malicioso. A vida é azeda. Estêvão é um problema que não preciso resolver.


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13.5.09




Dinorá nunca saberia quem a matou. Não saberia a que horas exatamente o assassino entrou em sua casa e esperou pelo momento certo para fazê-la exalar o último suspiro. Dinorá foi comer uma fatia de bolo na cozinha e a faca que deixou sobre a mesa em meio aos farelos cortou a sua barriga de leste a oeste. O marido dormia. As crianças dormiam. As brasas na lareira já não iluminavam a sala. Mas Dinorá era gulosa. Tinha fomes noturnas. Medo do escuro. Medo de passar fome no escuro. O assassino também provou o bolo. O perito encontrou fragmentos de glúten na arcada dentária de Dinorá, pegadas enlameadas na porta da cozinha, farelos na mesa, no chão, nos dedos da mão direita de Dinorá, no corredor e na porta da frente. O marido e os filhos de Dinorá não comeram o resto do bolo. Não comeriam nunca mais bolos no que restou de suas vidas. A polícia nunca saberia quem a matou. Dinorá foi enterrada em 28 de agosto de 1909 com uma cerimônia simples na catedral de Yorkshire, o melhor bolo de sua terra.


-- maira parula

6.5.09



Days with my father, um dos mais belos sites
que vi na rede, senão o mais belo.
De Phillip Toledano.


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1.5.09

Cristina Peri Rossi



PARA QUÉ SIRVE LA LECTURA


Me llaman de una editorial
y me piden que escriba
cinco folios sobre la necesidad de la lectura

No pagan muy bien
¿quién podría pagar bien por un tema así?
pero de todos modos
necesito el dinero

así que enciendo el ordenador y me pongo a pensar.
sobre la necesidad de la lectura
pero no se me ocurre nada

es algo que seguramente sabía cuando era joven
y leía sin parar
leía en la Biblioteca Nacional
y en las bibliotecas públicas

leía en las cafeterías
y en la consulta del dentista

leía en el autobús y en el metro

siempre andaba mirando libros

y me pasaba las tardes en las librerías de usados
hasta quedarme sin un duro en el bolsillo

tenía que volver a pie a casa

por haberme comprado un Saroyan o una Virginia Woolf

Entonces los libros parecían la cosa más importante de la vida

fundamental

y no tenía zapatos nuevos
pero no me faltaba un Faulkner o un Onetti
una Katherine Mansfield o una Juana de Ibarbourou


ahora la gente joven está en las discotecas
no en las bibliotecas

yo me hice una buena colección de libros
ocupaban toda la casa

había libros en todas partes
menos en el retrete

que es el lugar donde están los libros
de la gente que no lee

a veces tenía que seguirle durante mucho tiempo
las huellas a un libro que había salido en México
o en París

una larga pesquisa hasta conseguirlo

No todos valían la pena
es verdad
pero pocas veces me equivoqué
tuve mis Pavese mis Salinger mis Sartre mis Heidegger
mis Saroyan mis Michaux mis Camus mis Baudelaire
mis Neruda mis Vallejo mis Huidobro
para no hablar de los Cortázar o de los Borges

siempre andaba con papelitos en los bolsillos
con los libros que quería leer y no encontraba

por allí andaban los Pedro Salinas y los Ambrose Bierce
la infame turba de Dante

pero ahora no sabía decir para qué maldita cosa
servía haber leído todo eso

más que para saber que la vida es triste

cosa que hubiera podido saber sin necesidad de leerlos


Cuando habían pasado cinco horas yo todavía no había escrito
una sola línea
así que me puse a escribir este poema
Llamé a los de la editorial
y les dije creo que para lo único que sirve
la lectura
es para escribir poemas

no puedo decirles más que eso

entonces me dijeron que un poema no servía,
que necesitaban otra cosa.
-

17.4.09

O bibliófilo aprendiz

"...em 1902, a Livraria Garnier resolveu publicar uma segunda edição das Poesias completas de Machado de Assis. Nessa época, quase todos os livros dessa editora eram impressos na França e, apesar do cuidado com que era feita a revisão, escapavam erros. Mas nenhum tão grave quanto o que apareceu nesse livro. No prefácio (p. VI), Machado escreveu "...cegara o juízo...". O tipógrafo francês trocou o e por um a! Imagine-se a cara que deve ter feito o pudibundo autor vendo esse erro borrando sua obra! O pior é que só se percebeu o engano quando já estavam vendidos alguns exemplares. No meio da consternação geral, Everardo Lemos, empregado da livraria, propôs raspar com todo o cuidado a fatídica letra a, escrevendo no lugarzinho a letra e com nanquim. Assim foi feito para sossego de todos. Mais tarde, Garnier mandou reimprimir a folha contendo o fatal engano e substituí-la em todos os exemplares.


Existem, portanto, três estados dessa edição das Poesias completas de Machado de Assis. O primeiro com a 'palavra feia', o segundo com a correção feita à mão e o terceiro sem 'palavra feia'. Inútil dizer que os exemplares mais raros e procurados são os que trazem a palavra muito feia."


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Rubens Borba de Moraes, em O bibliófilo aprendiz, 1965, Companhia Editora Nacional, São Paulo. Louvável a reedição deste livro em 2005 pela Casa da Palavra e Briquet de Lemos Livros, apesar da revisão descuidada e do não registro da informação de que o livro teve sua primeira edição em 1965.

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12.4.09



Hino do Fluminense

Sou tricolor de coração
Sou do clube tantas vezes campeão
Fascina pela sua disciplina
O Fluminense me domina
Eu tenho amor ao tricolor

Salve o querido pavilhão
Das três cores que traduzem tradição
A paz, a esperança e o vigor
Unido e forte pelo esporte
Eu sou é tricolor

Vence o Fluminense
Com o verde da esperança pois
Quem espera sempre alcança
Clube que orgulha o Brasil
Retumbante de glórias
E vitórias mil

Sou tricolor de coração
Sou do clube tantas vezes campeão
Fascina pela sua disciplina
O Fluminense me domina
Eu tenho amor ao tricolor

Salve o querido pavilhão
Das três cores que traduzem tradição
A paz, a esperança e o vigor
Unido e forte pelo esporte
Eu sou é tricolor

Vence o Fluminense
Com sangue de encarnado
Com amor e com vigor
Faz a torcida querida
Vibrar com a emoção
Do tricampeão

Vence o Fluminense
Usando a fidalguia
Branco é paz e harmonia
Brilha com o sol da manhã
Qual luz de um refletor
Salve o Tricolor