31.1.04

sou apenas um homem
um homem pequenino à beira de um rio
vejo as águas que passam
e não as compreendo
sou apenas o sorriso
na face de um homem calado


Carlos Drummond de Andrade

30.1.04

Há algo de podre no reino de Itabira?: leia "O genro torto de Drummond", de Geraldo Mayrink. Aqui. É de arrepiar.

28.1.04



Eu me lembro bem de quando morei na Lagoa em 1937 e não havia nada, só os cavalos passavam carregando uns e outros ou parando para pastar. Eu me lembro que ficava numa varanda em 1937 olhando o sol se pôr e umas poucas luzes se acendiam ao longe. Tão longe que eu não poderia tocá-las, mas daí fazia frio e eu ia para dentro e começava a escrever que eu me lembro bem de quando morei no Rio Grande em 1885 e não havia nada e os cavalos ficavam parados pastando porque não havia ninguém para carregar. Eu me lembro que ficava sentada num tronco em 1885 olhando o sol se pôr e umas poucas velas se acendiam ao longe. Tão longe que eu não poderia tocá-las, mas daí fazia frio e eu ia para dentro e começava a escrever que eu me lembro bem de quando morei em Lucca em 1773 e não havia nada e nem cavalos porque não havia pasto para pastar. Eu me lembro que ficava sentada no chão em 1773 olhando o sol se pôr e escurecendo tudo ao longe. Tão longe que eu poderia tocá-lo, mas eu não sentia frio e ficava ali fora, pensando.

Pedro Oom


Actuação Escrita



Pode-se escrever
Pode-se escrever sem ortografia
Pode-se escrever sem sintaxe
Pode-se escrever sem português
Pode-se escrever numa língua sem saber essa língua
Pode-se escrever sem saber escrever
Pode-se pegar na caneta sem haver escrita
Pode-se pegar na escrita sem haver caneta
Pode-se pegar na caneta sem haver caneta
Pode-se escrever sem caneta
Pode-se sem caneta escrever caneta
Pode-se sem escrever escrever plume
Pode-se escrever sem escrever
Pode-se escrever sem sabermos nada
Pode-se escrever nada sem sabermos
Pode-se escrever sabermos sem nada
Pode-se escrever nada
Pode-se escrever com nada
Pode-se escrever sem nada

Pode-se não escrever

26.1.04




Tínhamos discussões intermináveis. Eu lhe mostrava meus textos e ele dizia: tu não tens fôlego, meu chapa, tudo acaba muito depressa, tu não desenvolve o personagem, o personagem fica por aí vagando, não tem espessura, não é real. Mas é só isso que eu quero dizer, não quero contornos, não quero espessura, quero o cara leve, conciso, apressado de si mesmo, livre de dados pessoais, o cara flutua, sim, mas é vivo, mais vivo do que se ficasse preso por palavras, por atos, ele flutua livre, entende? Não. E ajeitava os óculos, não e não. Achei conveniente não lhe mostrar mais os textos. Ele me encontrava e insistia: hof hof hof, fôlego, meu chapa, fôlego, espanta as nuvenzinhas flutuantes, dá corpo às tuas carcaças, afunda os pés no chão. Eu implorava: pára com isso, pára, um dia quem sabe tu entendes. Não entendeu. Na frente de amigos, de minha mulher, de meus filhos ele começava: hof hof hof, fôlego, meu chapa. Um dia fomos à praia. Entre uma caipirinha e outra propus-lhe nadar até a ilha. Disse um sim chocho, mas topou. No meio da travessia, enquanto ele se afogava, eu aperfeiçoava a minha butterfly, e meu ritmo era rápido, harmonioso, cheio de vigor. Gritei-lhe antes de vê-lo desaparecer: fôlego é isso, negão. Estou em paz. E dedico-lhe este meu breve texto, leve, conciso, apressado de si mesmo, livre de dados pessoais, muito mais vivo do que ele morto.

Hilda Hilst, em Cartas de um Sedutor, 1991.

24.1.04

1 conto




Quase 11 horas: Acordo com uma puta dor de cabeça, torcicolo e a unha encravada latejando. O corpo encharcado de suor. Perdi a conta de quantos mosquitos me morderam essa noite. Se eu não bebesse tanto, poderia até me lembrar do nome do corno que me indicou esta pensão. Hospedagem Haway. Que merda de lugar, que merda de cidade. Uma escada de 39 degraus para quem sobe e desce. Um corredor coberto de pó e pontas de cigarro. Paredes verdes pra qualquer lado que se olhe. No final do corredor o quarto da senhoria é uma TV que grita e canta esganiçada. Respiro fundo e todo o cheiro de sebo derretido do planeta se mistura com o de gordura queimada. Acho que vou almoçar. 

11:10: Caralho, cadê o outro pé da porra da sandália? Vou precisar delas pra tomar banho. O chão do box é preto, ladrilhos cheios de meleca. O chuveiro elétrico vaza água por cima. Adeus banho quente. Hoje é o meu primeiro dia de trabalho nas Tintas Marajá e não posso dar pinta de quem veio de uma charneca no cu do meio do mato que é de onde eu vim. Um buraco. Onde não aprendi a ser rei do futebol, rei da coca, rei do samba, rei de nada. O emprego é de auxiliar de balcão, mas só o que faço é carregar tranqueira. O dono é mais sujo do que eu, talvez eu não devesse me preocupar tanto com as aparências. Tintas Marajá, rua Frei Caneca. Rio de Janeiro. Esta cidade é uma bosta, mas na banca da esquina os cartões-postais mostram fotos pra provar que todos estão mentindo quando dizem a verdade. O centro da cidade é sujo, o chão gruda no sapato, o ar fede a fumaça, todo mundo buzina, todo mundo grita, o calor é infernal, os botecos têm cheiro de fritura, cu e cerveja choca, o que você pode chamar de mijo. Mas mesmo assim ontem eu vi um bando de turistas burros fotografando os prédios decrépitos do Rio antigo, todos encardidos e pixados e os gringos clicando: Belíssimo. Vão tomar no cu. 

11:34: Feijão, uma caralhada de arroz e 2 almôndegas frias, preço: 8 reais. O dono das Tintas Marajá disse pra eu chegar depois de meio-dia que estaria bom. Ele é que manda. O garfo entorta na hora de cravar a almôndega. Pra arrematar, peço um cafezinho e água da bica. Acho que me contrataram pra eu ficar carregando lata de tinta, da caminhonete para o depósito, do depósito para a caminhonete. Salário mínimo + uns trocados de um bico noturno num posto Petrobras, dá pra levar. Talvez por estar escolada de tanto levar cano de vagabundo, a dona da pensão me perguntou do meu trabalho. Eu disse que trabalhava na Petrobras. Se acreditou ou não, sua expressão azeda não me disse, mas ela me deu o quarto menos sujo da Hospedagem Haway, de frente para uma oficina de lanternagem. Trabalhar na Petrobras é o sonho de todo mundo. Pra mim, me pagando em dia já é lucro, a marca do patrão que se foda. Duas putas entram e pedem uma cerveja no balcão. A mulata reclama que está quente e coça a bunda. A meia da perna esquerda tem um fio puxado bem em cima de uma variz que vai do alto da coxa até o tornozelo. Mas ninguém repara. Eu cato umas moedas no bolso da calça e despejo sobre a mesa. A loura falsa me vê passar sem interesse e as duas soltam uma gargalhada nas minhas costas. Minha camiseta suada gruda no peito e sinto uma ligeira tontura quando acelero os passos pela rua. Atravessado na calçada, um mendigo bêbado com um curativo purulento na perna dorme de boca aberta. A fumaça do ônibus cai sobre nós dois e se dispersa na cidade. Talvez cicatrize. 

Meio-dia em ponto chego no trabalho e um tipinho asqueroso que eu não conhecia se apresenta como gerente da loja. Nunca vi o sujeito antes, eu havia tratado tudo com o dono, que conheci no banheiro de um bilhar da Mem de Sá, todo vomitado e dormindo na boca da privada. Eu ajudei o velho a se limpar e ele me agradeceu com o emprego na sua "firma" umas dez cachaças mais tarde. O gerente então pergunta qual o meu nível escolar. Primeiro grau completo, Supletivo Dallas, Baixada Fluminense. Pela resposta ele viu que eu não era o retardado que esperava que fosse. Caixas e mais caixas de latas de tinta. A caminhonete dispara abarrotada depois que eu carrego tudo. São duas para a loja toda. Uma delas toda comida de ferrugem por dentro. A camiseta branca que comprei num saldão da Riachuelo fica marrom. Antes de eu ir embora, o gerente me diz que meio-expediente é meio-salário. Puta que pariu. Serviço de jumento e pagando uma miséria. Dois pastéis de carne e um caldo de cana depois, me apresso até o posto de gasolina para mais uma noitada calibrando pneus e espumando para-brisa. E o pior é que nem posso ficar reclamando de dinheiro com os caras do posto porque senão o frentista-chefe do meu turno vem com aquela conversa pra me convencer a vender um rim. Diz que arranjaria tudo pra mim com direito a dez por cento do que eu recebesse pela transação. Eu teria que viajar e depois da cirurgia ficaria "afastado" um tempo do Rio. Aquilo não me cheirava bem e eu comecei a evitar o cara. Ele percebeu e agora só me oferece drogas e viagras. Pensa que sou brocha. Chego no posto e uma fila de carros me espera: calibrar e lavar. Os filhos da puta querem o carro limpinho pro feriadão. 

Sento numa mesa no fundo do bilhar 75 com uma garrafa de cerveja e fico filmando os tacos em movimento. Talvez faça uma fezinha mas não conheço nenhum dos caras e ouvi o garçom dizer que o lugar estava cheio de canas. Estou estourado, só consegui sair do posto à uma hora da manhã quando o movimento caiu. Anoto essas coisas num caderno que trago comigo porque tenho essa mania, vontade de rabiscar pra passar o tempo, ficar sujando as folhas em branco. Conversando sozinho com a caneta, faço desenhos, contas, invento nomes e telefones de ninguém, uma lista de lugares onde já trabalhei, onde morei, nomes das garotas que comi, que não comi, dos filhos da puta que me sacanearam, conversas que já ouvi e não conto pra ninguém, pesadelos. Anoto tudo. O pessoal lá de casa me achava maluco e me olhava enviezado. Família. Uma traveca pisca pra mim do balcão e um minuto depois está puxando uma cadeira do meu lado. Ela já está trincada e o silicone das bochechas treme. Os tacos param. Começo a suar. A traveca finge interesse no que escrevo e se estica pra perto de mim enquanto me passa uma bolsinha por baixo da mesa. Pede pra eu guardar que depois pega comigo. Ela implora e se afasta. Os tacos voltam a se mexer. Eu esvazio o copo de cerveja e me fixo no reflexo das bolas sobre a mesa de bilhar. Lá pelas três da manhã o jogo dos canas acaba e eles se mandam. Eu vomito tudo no banheiro, lavo o rosto e vejo pelo espelho sujo que a traveca está atrás de mim, sorrindo. Lembro da bolsinha. Ela agradece e me alisa o pau por cima da calça. Eu desço o ziper e começo a mijar. Ela quer mais e eu deixo. Me convida pra aparecer no ensaio da Unidos do Cabuçu amanhã e vai embora. O garçom guarda a minha gorjeta magra e me passa um folheto de uma assembleia de Deus. Eu dou as costas e na rua dois camburões passam voando na contramão. Fuzis para o alto. Saio da gafieira quando o dia quer amanhecer e sob os arcos da Lapa uma pivete me negocia o rabo por 50 reais. Vai a merda. Quero me jogar na cama mas a Haway ainda está longe. Vou a pé. Meu caderno dentro da calça arranha minha pele. Na porta da pensão uma mulher me pede 30 paus em troca de um boquete. Não tem cara de puta. Ela está nervosa e não quer subir. Vamos para trás de uma banca de jornal e ela se ajoelha. Eu viro o rosto pra cima e uma nesga de sol me bate no olho. Ela perde a paciência comigo, fecha minha calça e eu lhe dou 10 paus. Um caveirão estaciona na esquina em frente. Subo correndo os 39 degraus e jogo meu caderno no latão de lixo do corredor. Minha barriga sangra. Não me custa nada fechar a porta do quarto.



20.1.04

Prezado editor


Queridíssimo, nem sei como desculpar-me com você depois de séculos sem lhe dar notícias minhas. Derramar-me em mil perdões seria pouco. Estou atrasadíssima, tudo isto eu sei. Imagino que foi há três meses a última vez que lhe prometi a entrega dos originais do meu A Abóbora-Moranga, não é? Não fique acabrunhado comigo, logo você, que me cobre de tantas delicadezas. Você, mais do que qualquer um, sabe como somos, nós os escritores. Além da nonchalance habitual, há sempre aquela correção de última hora, um acréscimo aqui, um corte ali, some-se a tudo a eterna dúvida de estar fazendo a coisa certa. Houve certos dias em que, transtornada por minhas notórias enxaquecas, tive vontade de atear fogo às laudas, como Kafka. Mas depois me lembrava que teria de datilografar tudo novamente (não me fale de computadores) e a vontade passava. Ah, nessas horas gostaria eu de ser poeta, pois todo poeta, disse sabiamente Cocteau, é um escritor que não escreve. Mas, meu querido, alegre-se: dei um fechamento ao livro afinal e só me resta escolher um autor para o "prefácio interessantíssimo". Preciso de tua opinião, não sei se procuro um amigo jornalista ou um amigo acadêmico. O que acha? Meu amigo jornalista goza de notoriedade, sem dúvida sua participação dará maior visibilidade ao meu romance, porém um acadêmico é sempre um acadêmico, e credibilidade não se discute. Como são difíceis as coisas neste país, não é mesmo? Ser escritor no Brasil é sujeitar-se a cada uma... mas não me queixo, os afrescos de Michelangelo foram pintados com cerdas de porco e muita cal e mesmo assim deu no que deu. Amanhã mesmo minha filha Isabel passará aí para entregar-lhe o livro pronto (não confio no correio). E por favor, fique de olho na produção. Qual o problema dos teus revisores? Eles ganham por vírgula?

Com muita estima e lembranças minhas à Lucinha
de sua amiga
N. B.

P.S. Como vão as negociações para a edição do meu primeiro romance em braille? Escreva-me dizendo. E pensando bem agora, acho que vou preferir o jornalista. Ele pode ser meio burrinho, mas é muito lido e simpático. Não quero que você se queixe das vendas, meu caro. Não se esqueça de me agendar Leda Nagle e Jô Soares, e outros de que não me lembro no momento. Uma menção na novela "Celebridade" seria recomendável. Tem sempre um personagem segurando um livro por lá. Deixe que eu fale pessoalmente com B. Ele gosta de mimos. Beijinhos.





18.1.04

espelho, sim
entre outras coisas



a cidade amanheceu cinza. Agora chove.
Eu sento aqui, operando por instrumentos.

Se estiver beijando alguém,
pensa em mim esta noite.


erotismo&poesia: O Lado B

livro-espelho



O "mirror-book", de John Christie e Ron King, foi originalmente criado numa "edição" de 30 páginas para ser exibido na exposição The Open and Closed Book realizada em 1979 pelo Victoria&Albert Museum em Londres. Posteriormente, em 1985, seria publicada uma edição limitada de 35 exemplares. Que tal ser um leitor-texto?

17.1.04

blogs&literatura


O André Leones tem 23 anos e um blog, o Canis Sapiens. Ele também corre atrás de editoras pois tem um livro de poemas engavetado de onde saem coisas assim:

INEPTISSIMA VANITAS

Eis que passo a noite tresloucado,
alto e baixo,
pá virada,
memória rouca a oprimir no riso
minha tristeza mais autêntica.
E tive febre, como de praxe.
O senhor entende, pai, o senhor sabe,
ando num esforço crescente pelo mínimo,
um mundo de pequenas boas coisas
que não me deixaram engolir.
Hoje não há hoje:
eis-me num auto-reverse inexorável,
dois olhos na nuca e nenhum na cara,
nenhum mesmo.
Deixo meio mundo aí plantado
no aguardo de notícias.
Eu os convido a me ignorar.
Amontoando versos e noites insones. Tudo é volta ao pó.
Pode ficar quieto que te alcançam.


COMO PERDER-SE DO PRÓPRIO NOME

Um sopro.
Não sou nenhum taumaturgo aferrado
à minha sombra, desinência do possível.
Minhas unhas estão grandes,
você diz do seu nicho, degrau do meio da escada.
O gelo acabou, bebemos vinho quente;
minha embriaguez salta aos olhos,
aos pés, inconsciente. Ali, bem aqui.
Você se dobra e é de fato uma mulher.
Sou do tempo em que um gemido seu
era poesia. Um seio à mostra, à mão, já transcendia tudo.
O que busco de beber que não encontro aqui?

16.1.04

António Botto

Canções

Pedir
amparo a alguém é uma loucura.
Pedir amor,
Também nada resolve – e para quê?

O amor corre – e em seus próprios movimentos
Isola-se, e de tudo parece que descrê;
E quando vem dizer-nos que é verdade,
Vê-se a mentira
Em que ele a rir afirma o que não vê.


Inédito

Nunca te foram ao cu
Nem nas perninhas, aposto!
Mas um homem como tu,
Lavadinho , todo nu, gosto!

Sem ter pentelho nenhum
com certeza, não desgosto,
Até gosto!
Mas... gosto mais de fedelhos.

Vou-lhes ao cu
Dou-lhes conselhos,
Enfim... gosto!


15.1.04

Não deixe que a verdade estrague uma boa história





E o excelente Trabalho Sujo ainda nos traz, entre mil outras coisas legais, o lúcido artigo de Hermano Vianna, "O Direito de Querer Menos", já publicado na imprensa oficial. Confira.

14.1.04

"A mulher tem uma natureza lunar, fluida. Em oposição ao homem, que é solar, concreto." Dizia minha vó, enquanto lia um exemplar da Seleções e eu, adolescente, mergulhava meu cabelo na água oxigenada para que ficassem louros. Eu queria ser surfista. "Ser mulher, no meu tempo, era ser fraca, viver nervosa, com a cabeça na lua, precisando de fortificantes." Eu penteava meu cabelo fio por fio, bebia litros de suco de laranja com cenoura para dourar a pele e aumentava o som da tv para encobrir aquela conversa toda outra vez. Minha avó fora sufragista, ou pelo menos era isso que vivia dizendo que foi nos seus tempos de solteira. Eu conhecia de cor aquelas velhas histórias de romper com o monopólio masculino, das lutas feministas, da coragem, moral e disciplina que eram necessárias para desbancar o patriarcado. Quando jovem, o sonho dela, nunca realizado, foi partir para a frente de batalha, como as russas fizeram. Mas como as feministas brasileiras sempre foram mais acanhadas e legalistas, minha vó não viu chance de romper barreiras maiores com o seu idealismo. As discussões nos almoços de domingo da família freqüentemente eram pontuadas por minha vó rebatendo a falsa idéia de que o cérebro mais leve e com menos circunvoluções da mulher gerava a suposta fragilidade feminina. Ela adorava lançar contra-argumentos científicos. Eu não entendia nada na época e saía direto da mesa para o sofá porque a conversa me dava sono. "Toda a mulher é uma degenerada por natureza, mamãe." Era o meu tio, leitor contumaz de Nelson Rodrigues, de quem se orgulhava de ser vizinho no Leme além de personagem de uma das crônicas do famoso autor. "Essa degenerescência é responsável por sua total incapacidade de se adaptar ao meio, seja qual for. A degeneração física, uma construção defeituosa, é provocada pelo óvulo." Continuava ele, citando um famoso psiquiatra naturalista que na época já era ultrapassado. Minha avó, que nunca foi de resistir a provocações, batia com o garfo no prato e faíscas voavam: "Quer dizer que, para você, toda mulher na menopausa é perfeita! Vira homem!" Meu tio gargalhava e se retirava da mesa para a varanda, onde terminava de rir baixinho. "E você, Letícia", ela se virava contra minha mãe quando a força de seus argumentos não era levada a sério, "cuide direito da educação desta menina. Ela não sai da praia. Do colégio para a praia, da praia para o colégio. Onde já se viu?" A menina era eu, no sofá dormindo. Há duas semanas que chovia e eu já estava perdendo o bronzeado. "Na minha época eu lia revistas francesas, toda a literatura francesa. Essa garota só lê gibis e quer ser surfista!" Ela estava exagerando, eu era a primeira aluna da classe, sem fazer esforço, é claro. Nisso tinha razão. Minha mãe balançava a cabeça e retirava os pratos, servil. Meu pai já tinha fugido para a sala de tv. Comerciante de calçados, nunca se interessava por esses debates familiares: "Um dia ainda embolacho essa velha", ele resmungava arrastando os chinelos. Nem preciso dizer que o domingo acabava com todos assistindo ao "Fantástico". O patriarcalismo, o matriarcalismo e o servilismo se aconchegavam bem na frente da tv onde eu ouvia, feliz, a previsão do tempo para amanhã. Sol claro.

"Era um douto, ao dar-me disse dou-to."


-- inscrição anônima no reservado feminino da Academia Brasileira de Letras, anos 90.

13.1.04



Meu filme é um far-west sobre o Terceiro Mundo. Isto é, fusão e mixagem de vários gêneros pois para mim não existe separação de gênero. Então fiz um filme-soma; um far-west mas também musical, documentário, policial, comédia ou chanchada (não sei exatamente) e ficção científica. (...) Fiz um filme voluntariamente panfletário, poético, sensacionalista, selvagem, mal comportado, cinematográfico, sanguinário, pretensioso e revolucionário. Os personagens desse filme mágico e cafajeste são sublimes e boçais. Acima de tudo, a estupidez e a boçalidade são dados políticos, revelando as leis secretas da alma e do corpo explorado, desesperado, servil, colonial e subdesenvolvido. Meus personagens são, todos eles, inutilmente boçais, aliás como 80% do cinema brasileiro; desde a estupidez trágica do Corisco à cretinice do "Boca de Ouro", passando por Zé do Caixão e pelos atrasados pescadores de Barravento. Assim, o Bandido da Luz Vermelha é um personagem político na medida em que é um boçal ineficaz, um rebelde importante, um recalcado infeliz que não consegue canalizar suas energias vitais.

Rogério Sganzerla, em manifesto de 1968 sobre seu filme O Bandido da Luz Vermelha.

Hoje vou tomar um uísque com o Fausto Wolff enquanto ele aproveita para lançar o livro dele e receber os amigos. Ele me convidou também. Ouvi isso no rádio. O título do livro eu não lembro, mas parece que é de poesias. A livraria, acho que fica no Leblon. Sempre que posso compareço a esses eventos. Melhor do que ficar vendo tv em casa ou em chat de internet. Já fui a milhares deles, gosto de dar uma forcinha e contribuir para a literatura nacional e a caixa baixa do autor brasileiro. Claro que na minha casa não cabem todos os exemplares que já comprei nessas ocasiões, dou todos para a biblioteca carente mais próxima antes mesmo de ler. E eu tenho tempo?

12.1.04

e. e. cummings


eu
estou
te pedindo
querida é pra
que mais poderia um
não mas não é o que
claro mas você não parece
entender que eu não posso ser
mais claro a guerra não é o que
imaginamos mas por favor pelo amor de Oh
que diabo sim é verdade que fui
eu mas esse eu não sou eu
você não vê que agora não nem
sequer cristo mas você
precisa compreender
como porque
eu estou
morto





10.1.04



E enterrado na areia aquele dia
eu e minha mãe descobriríamos
o velho no retrato de Dorian Gray


-- imagem: Copacabana, 1908, in Andre Decourt.

"É um bom exercício mental fazer uma crítica demolidora quando se está de acordo", disse o Joaquim Godinho, amigo do Vamos Lixar Tudo.

9.1.04

Prezado editor


Estou chegando do trabalho agora e ainda sob o forte impacto de suas observações críticas ao meu novo romance. Confesso que assim, pelo telefone, foi duro ouvir suas palavras que, embora sinceras, me pegaram de surpresa. Eu achava que não teríamos tanto o que discutir pois acordamos todo o projeto antes mesmo de eu começar a escrever. E agora essa. Não sei se poderei reduzir um livro de 602 páginas a quase a metade sem prejuízo do eixo central. Você achou o estilo "morno", mas na minha opinião é o livro mais bem escrito que já fiz. É um estilo "escrito", não falado. Talvez por isso tenha estranhado, hoje tudo que se lê pode ser conversado numa mesa de bar. Fico aqui pensando em como alterar os elementos sem precisar mudar a fórmula. Não há tempo para reescrever tudo, não te parece? Se eu perder esta Bienal, estou lascado. Toda a divulgação depende disto, eu sei. Vai me dar uma trabalheira dos diabos mas creio que chegaremos a um consenso. Vou cortar alguns personagens, como você sugeriu, eliminar redundâncias (longas descrições físicas, associações de imagens e idéias, reflexões, enfim, tudo que "pese" na narrativa, vou desliteraturizá-la) e relatos extensos de fatos não associados, talvez até desloque o foco da trama do nordeste para o sudeste, o que acha? Eu sei que é um romance histórico, mas o narrador poderia relatar tudo de longe, sem precisar estar em campo. Daí poderíamos até descartar o material iconográfico, o que enxugaria o livro, eliminando despesas. Acho que no prazo de um mês eu concluiria tudo, dando o livro por acabado. Aguardo sua resposta e as sugestões oportunas de sempre. Não sei o que seria de mim sem o seu raciocínio sintético esfriando minhas verborragias e sentenciosidades.

Grande abraço do seu

P. N.

O bisturi é a tinta que se solta quando torço a minha alma.

8.1.04

Não revolvas pedras miúdas




mais do que o leite, cândida
mais do que a água, branda
mais do que liras, harmônica
mais do que um cavalo, impetuosa
mais do que a rosa, frágil
mais do que um manto leve, imponderável
mais do que o ouro, áurea

agora estes versos vou cantar, lindamente,
para encantar as amigas

em Creta, era assim que as mulheres dançavam
ao som de músicas, cercando o divino altar,
pés delicados sobre as flores tenras da relva

a Lua já se pôs, as Plêiades também; é meia-
noite; a hora passa e eu,
deitada estou, sozinha

as ervilhas, áureas, despontavam nas margens

Afrodite em trono de cores e brilhos,
imortal filha de Zeus, urdidora de tramas!
eu te imploro: a dores e mágoas não dobres,
Soberana, meu coração

os que me condenam,
que o vento e suas aflições os carreguem


Safo (c. 625-580 a.C.). Seleção aleatória de fragmentos da lírica. Obra de referência Safo de Lesbos, Poemas e Fragmentos, trad. de Joaquim Brasil Fontes, 2003. Imagem: Charles-August Mengin, 1877.

7.1.04

Mário Faustino: o crítico


O fenômeno mais interessante da "jovem poesia brasileira" é que a qualquer momento podemos deparar com um rapaz de seus vinte anos, que nunca publicou um livro, apresentando-nos um poema bem melhor, como poesia, que uma alta porcentagem do que tem publicado muita gente grande das gerações anteriores. É verdade, por outro lado, que há em minha geração muitos falsos talentos, muitas máscaras, muita mistificação, muita desonestidade: mas a mesma coisa, e de modo talvez mais disfarçado e antipático, sucedeu com todas as outras gerações. (...) Quanto aos problemas, devem ser os mesmos das outras gerações: dificuldades econômicas (ter de trabalhar, fora da literatura bem mais do que dentro, para ganhar o panem nostrum); falta de uma vida genuinamente artística, falta de emulação, falta de debates (no Brasil quase todos os escritores, quando reunidos, ou não tocam em problemas literários ou então, se falam de literatura, é da maneira mais vaga e leviana: discussão de personalidades, troca de elogios, gratuitas afirmações de valor ou de intenção, frases feitas, detestáveis mots d'esprit...); falta de verdadeiras bibliotecas, universidades, museus, falta de revistas de cultura, falta de tradição filosófica, poética e crítica na língua, falta de um público inteligente, concorrência desleal (talvez não haja país no mundo com tanta gente errada em lugares errados) etc. Um jovem poeta brasileiro, como eu, queixa-se, entre outras coisas, do nível infraginasiano, para não dizer primário, da maioria do que é publicado aqui em livros, jornais e revistas; das tolices que é forçado a ler e a ouvir a respeito de sua poesia (elogios ou não), a respeito da arte e dos poetas que admira; da falta de amor à poesia, do egoísmo e da vaidade que registra em muitos de seus colegas mais velhos, entre os quais raríssimo é aquele que forma escola, que realmente se interessa pelo progresso da língua e da arte: vivem a pensar em self-promotion...; da falta de profissionalismo econômico e ético; da péssima qualidade de quase toda a nossa crítica literária (sobretudo quando se metem a falar de poesia) de todos os tempos; queixa-se, para resumir, de muita coisa.


-- fragmento de entrevista concedida em 1956, publicada em "Mário Faustino, de Anchieta aos Concretos", org. de Maria Eugenia Boaventura, 2003.

um espreitador literário: Almocreve das Petas

6.1.04

Mário Faustino: o poeta

Balada
(em memória de um poeta suicida)


Não conseguiu firmar o nobre pacto
Entre o cosmos sangrento e a alma pura.
Porém, não se dobrou perante o facto
Da vitória do caos sobre a vontade
Augusta de ordenar a criatura
Ao menos: luz ao sul da tempestade.
Gladiador defunto mas intacto
(Tanta violência, mas tanta ternura)

Jogou-se contra um mar de sofrimentos
Não para pôr-lhes fim, Hamlet, e sim
Para afirmar-se além de seus tormentos
De monstros cegos contra um só delfim,
Frágil porém vidente, morto ao som
De vagas de verdade e de loucura.
Bateu-se delicado e fino, com
Tanta violência, mas tanta ternura!

Cruel foi teu triunfo, torpe mar.
Celebrara-te tanto, te adorava
Do fundo atroz à superfície, altar
De seus deuses solares -- tanto amava
Teu dorso cavalgado de tortura!
Com que fervor enfim te penetrou
No mergulho fatal com que mostrou
Tanta violência, mas tanta ternura!

Envoi

Senhor, que perdão tem o meu amigo
Por tão clara aventura, mas tão dura?
Não está mais comigo. Nem contigo:
Tanta violência. Mas tanta ternura.

5.1.04

prato do dia: Cabeza Marginal

a literatura, o labirinto perquiridor da linguagem escrita, o contratempo, a literatura é a irmã siamesa do indivíduo. a idade das massas, evidentemente, não comporta mais a literatura como uma coisa viva e por isso em nossos dias ela estrebucha e vai morrer. a literatura tem a ver com a moral individual e a moral individual não interessa -- não existe mais. nossa época exige a descrição de painéis e o close-up tende a não interessar nem como psicologia. não precisaremos de retornar ao teatro de máscaras porque, se queira ou não se queira, a massa onde praticamente nos perdemos já é a máscara, já nos abriga e revela, é a supra máscara. planos gerais. painéis. o homem moderno não existe como indivíduo, mas como tipo -- e esses tipos não são tantos quanto todos nós. são relativamente poucos. somente me interesso pelo tipo e cada tipo, classe, nas diversas sociedades massificadas, obedece a comportamentos mais ou menos standards. interesso-me por compreendê-los (estudá-los) e abandoná-los. meu problema, inclusive o de cama, inclusive o de mesa, inclusive o de relacionamento, é o problema do meu tipo X perdido na massa que o plano geral não estilhaça, por literário, em todos os seus (milhares, bilhares) de "exemplos": células que não têm mais vida se isoladas na psicologia do indivíduo. O cenário é agora o único personagem vivo. O cinema urbano tem que ser do-eu-meu-tal, atualizado como as atualidades, uma primeira página de jornal, painel, afresco.


Torquato Neto, em Os Últimos Dias de Paupéria, 1973.

4.1.04

Prezado editor


Estou enviando uma cópia dos originais do meu livro como combinamos na última quarta-feira por ocasião da noite de autógrafos de U. Espero que o senhor se lembre de mim, apesar de estarmos todos bêbados naquele dia. Eu sou aquela moça loura que servia vinho branco numa bandeja a todos os convidados, lembra? O senhor bebeu mais de duas garrafas do chileno e disse que minhas pernas eram tão perfeitas como um verso cabralino. Eu não entendi direito, mas respondi mesmo assim que eu também fazia versos e umas abobrinhas de ficção. O senhor riu muito. O seu apartamento é lindo, só estranhei o fato de não achar por lá um livro de poesia que fosse. Espero que goste de meus poemas e me desculpe se eles não são muito intelectuais. Eu faço versos para serem entendidos de imediato, como quem lambe um sorvete na janela. Aguardo sua resposta.

Atenciosamente

L. A.

by Roswitha Hecke


by David Hilliard


by Jeanloup Sieff


by Boris Ignatovitch


by Marc Rivière



-- Trabalhos dos fotógrafos Roswitha Hecke, David Hilliard, Jeanloup Sieff, Boris Ignatovitch e Marc Rivière. Imagens captadas do site Voyeur.

2.1.04

Escritores não são ratos


Tudo o que os escritores dizem é uma grande bobagem, me assegurou T. enquanto aguardávamos que nos trouxessem o cardápio. Tudo o que declaram, em entrevistas, em artigos na imprensa, em sites da internet, em seminários, nada presta. É tudo lixo, imundície.

Escritores deviam ficar de boca fechada, T. disse ainda, e se fosse possível (era uma pena que isso não fosse possível, ele comentou) deviam se tornar invisíveis. Se falam, é para mentir. Se aparecem em público, ainda que permaneçam calados, é para distrair a atenção dos leitores. Se põem só a ponta do nariz para fora da cortina, é para infernizar a vida dos outros.

Conheci T. por acaso, num almoço da editora. Só trocamos duas palavras no banheiro, mesmo assim porque ele me pediu para ajudá-lo com a tampa do toalheiro, que não conseguia abrir. Não gostei de sua cara. Logo depois da sobremesa, ele veio com aquela conversa. Veja você, T. me disse, aquela senhora nariguda, que escreve contos sentimentais, só publica porque os editores temem seu marido. Aquele cara de bigodes só tem seus romances publicados porque é um jornalista influente. Aquele rapaz triste, cujos livros os editores desprezam, ele continuou, só consegue publicar porque seu primeiro romance foi elogiado em Paris. Todos uns mentirosos, uns pulhas, ele disse.

Todos com exceção de T., que passa os dias em casa para não se contaminar com a vida literária, que se sente perseguido pelos críticos e acredita, sinceramente, que muitos escritores estão na literatura só como intrusos. Só escrevem por dinheiro, T. ainda comentou, nada têm a ver com a literatura, limitam-se a tirar proveito dela.

Não sei por que resolvi convidar T. para almoçar no Budapeste, se bastaria entrevistá-lo por telefone. Mas T. não gosta de entrevistas e desconfia do jornalismo literário. Achei que cara a cara, vendo que não sou um rato, ele relaxaria. Foi uma bobagem. Fiz minhas perguntas, ele respondeu, tudo muito adequado. Mas havia um zumbido, quase imperceptível, que deformava nossas palavras e transformava aquela conversa num suplício.

Você mesmo, T. me disse, não passa de um mentiroso. Como é possível fazer jornalismo literário e ser escritor? Aquilo foi agressivo, mas ele falou com o jeito neutro do médico que te comunica um diagnóstico grave. Você devia parar de escrever, T. continuou. Pois eu acho que você é um sujeito de muito talento, limitei-me a responder. Aprendi com meu pai que, às vezes, a delicadeza é a melhor forma de grosseria. Você dá ao sujeito o que ele não espera e aquilo dói mais que tudo.

Eu me esforçara para gostar do último livro de T. porque o sr. Espinheira, o grande crítico, o definiu como "desnorteante". Nem sempre concordo com as opiniões do sr. Espinheira. Aquele julgamento, contudo, me levara a ser tolerante com T. -- e agora T. vinha com aquilo.

Ergui-me, peguei o exemplar do romance que ele acabara de me autografar, abri numa página qualquer e, em alto e bom tom, comecei a ler. A primeira reação dos que almoçavam no Budapeste foi o silêncio reverente. Aos poucos, contudo, os filés foram deixados pelo meio, as contas foram pedidas com urgência e o restaurante esvaziou.

Quando percebeu o que acontecia, T. se levantou e foi embora. Ainda insisti por uns parágrafos a mais, até que uma senhora de bigodes, erguendo-se agarrada à bolsa, me disse: "O senhor me poupou de um constrangimento. Eu planejava dar esse lixo para minha filha."

Agora T. espalha por aí que sou um sujeito intratável. Talvez eu seja só um temperamental. Talvez não. Como T. mesmo disse, escritores são mentirosos e deviam permanecer calados. Ele também.

Só existe hoje um escritor realmente importante no Brasil, a mulher de T. costuma dizer, em público. Meu marido, ela enche a boca para revelar. Meu marido está revirando a literatura brasileira.

O que se pode fazer com uma tolice desse tamanho, que mais parece a publicidade de uma loja de agasalhos double-face? Provavelmente nada. Já fiz a minha parte, já expus o livro de T. à prova de seus leitores. Eu amo os livros e não aprecio que sejam odiados, mas às vezes é preciso ser forte.


José Castello, em José Castello, Melhores Crônicas, 2003.

1.1.04

2004, ano internacional de Julio Cortázar





As linhas da mão


De uma carta jogada em cima da mesa sai uma linha que corre pela tábua de pinho e desce por uma perna. Basta olhar bem para descobrir que a linha continua pelo assoalho, sobe pela parede, entra numa lâmina que reproduz um quadro de Boucher, desenha as costas de uma mulher reclinada num divã e afinal foge do quarto pelo teto e desce pelo fio do pára-raios até a rua. Ali é difícil segui-la por causa do trânsito, mas prestando atenção a veremos subir pela roda do ônibus estacionado na esquina e que vai até o porto. Lá ela desce pela meia de náilon da passageira mais loura, entra no território hostil das alfândegas, sobe e rasteja e ziguezagueia até o cais principal, e aí (mas é difícil enxergá-la, só os ratos a seguem para subir a bordo) atinge o navio de turbinas sonoras, corre pelas tábuas do convés de primeira classe, passa com dificuldade a escotilha maior, e numa cabine onde um homem triste bebe conhaque e ouve o apito da partida, sobe pela costura da calça, pelo jaleco, desliza até o cotovelo, e com um derradeiro esforço se insere na palma da mão direita, que nesse instante começa a fechar-se sobre a culatra de um revólver.


Julio Cortázar, em Histórias de cronópios e de famas, 1964.