20.11.17

E agora, o que vou temer?

Serra, o "profeta"



video é real, não é montagem, foi postado no site oficial do delirante
candidato Serra dois dias antes da eleição presidencial de 2010.
Depois foi retirado. Não tinha visto. Muita gente não viu.




14.11.17

Rui Pires Cabral

http://mykristeva.tumblr.com/post/167483539240/poesia-colagem-dispersos-saudações-para-o

The Journey to Kafiristan (2001)




In 1939, the author Annemarie Schwarzenbach and the ethnologist Ella Maillart travel together by car to Kabul, but each is in pursuit of her own project. Their mutual journey through the outside world, which runs from Geneva via the Balkans and Turkey to Persia, is compounded by the inner world of emotions with a tender love story. True story.


12.11.17

Pasolini

http://mykristeva.tumblr.com/post/167415717955/amospoe-the-revolution-is-now-just-a

A má reputação do plágio




O termo plagium era usado na antiga Roma e significava o furto de pessoas livres, que eram vendidas ou simplesmente utilizadas como escravas. Alguém que roubava um escravo era conhecido como plagiarius. Segundo o historiador inglês Peter Burke, o poeta Marcial aplicou o termo aos escritores que imitavam seu trabalho. Hoje plágio significa apropriação, total ou parcial, de obras alheias. Quando se fala em plágio, vem logo à mente a apropriação indébita de ideias e textos literários. É o furto literário. Mas o termo abrange todas as áreas da criatividade: música, teatro, literatura, ciências, cinema...

Na Antiguidade, antes da invenção da imprensa, o conhecimento era repassado pela tradição oral, de sorte que a propriedade das ideias era coletiva. Com a imprensa gutenberguiana passou-se a reproduzir centenas ou milhares de cópias idênticas de um texto e houve uma valorização do trabalho intelectual individual. Já na época de Gutenberg, alguns livros eram impressos com a imagem do autor para reforçar a autoria da obra.

Mas a preocupação com a propriedade das ideias só aparece com a criação da Lei dos Direitos Autorais, em 1710, na Inglaterra. Normatizar esta matéria faz parte da preocupação de todos os países civilizados do mundo contemporâneo. É uma proteção à criação artística, literária, científica, tecnológica etc. para evitar a pirataria e a violentação dos direitos autorais. Curiosamente, no mundo da informática, particularmente na internet, começa a ser restaurada uma espécie de propriedade coletiva das ideias. É o desafio do legislador contemporâneo. Na opinião de Burke, os computadores tornam o furto intelectual mais fácil do que antes, pois basta copiar alguma coisa e "colá-la" ao seu próprio texto.

Às vezes, o desempenho do plagiário é melhor que o do plagiado. É uma espécie de plágio necessário. Para Nodier "o plágio de um bom escritor em detrimento de um mau escritor é uma espécie de crime que as leis da república literária autorizam, porque essa sociedade dele tira a vantagem de gozar algumas belezas que permaneceriam enterradas em um autor desconhecido, se um grande homem não tivesse se dignado a vesti-las".

Michel Schneider, no livro Ladrões de palavras (Editora da Unicamp, 1990), cita o crítico inglês Malone, apelidado Minutius, que contou minuciosamente os plágios de Shakespeare. Em 6.043 versos, 1.771 foram escritos por algum autor anterior, 2.373 foram refeitos e, do resto, 1.899 pertencem a Shakespeare. Figuram, entre os plagiados, autores como Robert Greene, Marlowe e Lodge, Peele. Mesmo a peça Hamlet teria sido inspirada em uma obra menor de autor desconhecido. A capacidade de plagiário valeu a Shakespeare o apelido de John Factótum.

Não se deve esquecer o fenômeno da criptomnésia – o esquecimento inconsciente ou a influência involuntária das fontes. No plágio incivilizado, o caráter do empréstimo é consciente e a omissão das fontes é voluntária. Existe dolo, porque o plagiário sabe que o que faz não se deve fazer. O gênio (caso de Shakespeare) se distingue do simples plagiário, porque neste os empréstimos são evidentes.

Há o plagiário mal-intencionado, que "psicografa" textos alheios, e o plagiário involuntário, cujas ideias coincidem com textos de outros. Fala-se até em intertextualidade. Na elaboração de um texto literário ou científico pode haver a absorção e transformação de uma multiplicidade de outros textos. Diz-se até, com alguma ironia, que quando se tira alguma coisa de um escritor é plágio, mas quando se tira de vários é pesquisa.

É possível a coincidência de ideias? É perfeitamente possível e talvez o caso mais eloquente seja o da teoria da evolução. Charles Darwin estava trabalhando num livro de fôlego sobre o assunto quando, em 1858, recebeu um manuscrito de Alfred Russell Wallace, um naturalista britânico que na época estava trabalhando nas Índias Ocidentais. O conteúdo era a essência de sua teoria. Nos pontos essenciais as ideias de Darwin e Wallace eram semelhantes. Trabalhando de modo independente, Wallace desenvolvera sua teoria e enviara um resumo para a avaliação do renomado cientista. Essa situação embaraçosa foi contornada por ambos com uma apresentação conjunta do manuscrito de Wallace e de um resumo do livro de Darwin perante uma comissão científica de alto nível. No terreno científico a apropriação de ideias é comum e já os discípulos de Newton acusaram Leibniz de ter plagiado trabalhos do mestre sobre a descoberta do cálculo. E até Newton foi acusado de plagiário.

Na literatura há uma verdadeira obsessão com a originalidade e muitos escritores sofrem de plagiofobia. Alguns têm horror à leitura, porque acreditam que uma mente livre de influências funciona melhor para o trabalho criativo. É uma regra bizarra: excesso de leitura mata a criatividade, enquanto uma mente vazia acaba encontrando inspiração. A preocupação é infundada porque algum tipo de influência é inevitável e mesmo desejável. Uma frase do escritor Jorge Luís Borges mostra que um texto literário pode representar uma malha intricada de influências: "sou todos os autores que li, todas as pessoas que conheci, todas as aventuras que vivi..."

Já os puristas veem plágio em cada canto da atividade cultural: "O plágio é a base de todas as literaturas, exceto da primeira, que é desconhecida" (Jean Giraudoux); "Adão tinha muita sorte; quando dizia alguma coisa interessante sabia que ninguém tinha dito antes" (Mark Twain). Já o artista Paul Cézanne era um radical: "Em arte, ou se é revolucionário ou plagiário." O talentoso poeta Dalmo Florence queimou todos os exemplares de seu único romance, com o argumento de que ao ler o livro depois de impresso teve a nítida sensação de ter plagiado Guimarães Rosa. Gente do ramo que leu a obra discorda do poeta. É preciso que muitos escritores exorcizem esses demônios explicativos!

A tradição de nossa crítica literária é bajulatória e já foi dito que ela só é implacável com os best-sellers estrangeiros. Mas, vez por outra, é aberta a temporada de caça às bruxas da literatura. Geralmente a vítima é sacrificada no altar da ideologia. São os patrulheiros, os intolerantes, os ressentidos, enfim os que não aceitam um modo alternativo de pensar.

Em matéria de crítica literária, por sorte, temos desde críticos biliosos e iconoclastas até a república das letras que privilegia os modismos culturais, as afinidades ideológicas e mesmo o puro e simples compadrio.

O direito de crítica deve ser exercido sem limites. Não devem existir vacas sagradas na literatura ou em qualquer ramo da criação e, sempre que um importante escritor for flagrado jogando água fora da bacia, deve ser criticado. Parece ser o caso do poeta Vinicius de Moraes, que termina o último terceto do seu poema "Soneto da Fidelidade" com os seguintes versos: "Eu possa me dizer do amor (que tive)/ Que não seja imortal, posto que é chama/ Mas que seja infinito enquanto dure." Um poema de Henri Régnier (poeta inferior ao nosso Vinicius), publicado por volta de 1916, diz: "L’amour est éternel... oui, tant qu’il dure..." Simples coincidência?

Foi dito que O crime do Padre Amaro, de Eça de Queiroz, é um plágio de La Faute de l’Abbé Mouret, de Zola. Tartarin de Tarascon seria a versão francesa de Dom Quixote. Alexandre Dumas, pai, transcreveu, como suas, páginas inteiras de Victor Hugo, de Goethe e de outros romancistas. Guy de Maupassant teria se inspirado em Gustave Flaubert para escrever Une Vie. Muitas denúncias de plágio praticamente por grandes escritores podem ser infundadas. Prefiro acreditar que, em muitos casos, tratam-se de coincidência, criptomnésia, intertextualidade ou influência involuntária.

Outro problema comum são os equívocos de paternidade nas citações. Muita gente acredita que a frase "navegar é preciso" é do poeta português Fernando Pessoa ou do político Ulysses Guimarães. Nada disso. A frase é do general romano Pompeu e está em Plutarco. Havia necessidade de embarcar trigo para Roma, que estava sem pão, mas uma tempestade amedrontou os marinheiros, que se recusavam a embarcar. Então, Pompeu gritou que navegar era preciso, viver não era preciso. A propósito de citações há o fenômeno do contraplágio, quando alguém atribui a outrem as suas próprias ideias. Dizia-se que o embaixador Roberto Campos – uma verdadeira metralhadora de citações – inventava provérbios chineses!

Para resgatar um pouco a imagem de uma espécie que anda desgastada, pode-se afirmar que o ser humano nunca é plágio. É um estranho ímpar, no dizer do poeta Carlos Drummond de Andrade. O ser humano é editado num único exemplar e não tem segunda edição. Como todo argumento embute um contra-argumento, Millôr Fernandes é de opinião que o homem nasce original e morre plágio. Mas os brasileiros não vivem atormentados com o fantasma do plágio e, como o nosso produto original é o samba, já está consagrado o princípio: "samba é como passarinho: é de quem pegar primeiro."




Wilson Luiz Sanvito, 2004




8.11.17

Rui Nunes


2.



por vezes a tua cara torna-se nítida e insuportável. 
Outras vezes, esbate-se e com o esbatimento vem-me a resignação 
de te ter perdido. Às vezes, esqueço-te. Ou ficas escondido numa casa, 
num quadro, numa árvore, de onde ressurgirás. Um dia olharei o quadro, 
a casa, a árvore, e lembrar-me-ei de ti. Mas cada vez haverá menos 
sítios onde te esconderes.

a tua face vem e atira-me sempre para o mesmo tempo, 
é uma face que o ódio esquece, anterior à deserção, 
a face de quem encontrou a primeira palavra, 
é essa que me olha nos sítios mais vulgares. 
Não te procuro: de repente, estás ali.

Como uma arma. 
O límpido assassino.




Rui Nunes
in Ouve-se sempre a distância numa voz
Relógio D'Água





5.11.17

Lygia Lygia



Belo documentário sobre Lygia Fagundes Telles, dirigido por seu filho Goffredo Telles Neto
e co-dirigido por Paloma Rocha, premiado no Festival de Cinema de Gramado.



Sergei Rachmaninoff: Cello Sonata in G minor, Op. 19: Andante (3. movement)


Cello: Jiří Bárta Piano: Marián Lapšanský



3.11.17

Scherezade Siobhan



MIRA, AFTER FATHER'S RADIATION THERAPY.

​In a hospital, God is a scar tissue. A dog breathes as if a slur slipping off
my drunk uncle’s tongue. I place the poem between a prayer and a profanity. 
Here is the plucked rooster of my mouth, redder than an exit wound.
Here are the crows blacker than my grandmother’s misspelled tattoos. 
I swallow the root of turmeric. Stuff my cheeks with cupful of cardamoms.
Here’s to homemade antidotes, a halt in the hell of motion sickness. Purge
the vomit with goatmilk & camphor oil. Chew the marigold off the garland
coiled around his photograph like a sedated viper. Mourning fills the gaps
in my memory in an inexact dose of steroids. Any absence creates
the illusion of closeness. A callus grows on my big toe and I séance
the cratered fiction of  skin with the pinprick of a hairclip. When
the cancer came, his cells dominoed as if a cheap loss in a game of tetris.
His lung x-rayed in a charcoal map of the Andaman. Summer tiptoed
a month later than usual. The henna green swirl of my skirt had stilled itself
by then. My mother’s anklets divorced their bells, were unhooked, shoved deep
into the throat of a mango wood cupboard. Every evening we sat on the porch-swing in his hand-built pagoda. The obi of darkness rearranging the geometry of our grief. The fingertips of java plum trees elongated with the extempore of parrots. My mother’s eyes as bloodshot as their beaks. These birds never leave home, she said. They’d turn feral and empty out any tree.They’d rust a cage with the clockwork of mimicry. But they stayedNo diaspora clings to their wingspan. No pilgrimage across the arbor vitae of hemispheres. So, we sat back and let the green venery wrap the dusk in an epilogue of plumes. Our hands cupping the storm  whispering inside each teacup. Our bodies turning silver with rain. 

9.10.17

Brasil: O Grande Salto Para Trás [legendado]



O documentário dos jornalistas franceses Fredérique Zingaro e Mathilde Bonnassieux chamado "Brésil: Le Grand Bond en Arrive" ("Brasil: O Grande Passo para Trás") retrata as consequências do golpe e a tomada de poder por uma classe política corrupta e dedicada a seus próprios interesses.
O filme foi exibido no sábado, 30/09, na programação do Festival Biarritz América Latina 2017.



30.9.17

Frida Kahlo La Bruja - versão do Conjunto Jardín


Ay que bonito es volar A las 11 de la noche A las 11 de la noche Ay que bonito es volar Ay mama Subirse y dejarse caer en los tirantes de 1 coche en los tirantes de 1 coche y hasta quisiera llorar ay mama

Me agarra la bruja Me lleva a su casa Me vuelve maceta Y una calabaza Me agarra la bruja Me lleva al cuartel Me vuelve maceta Y me da de comer Y diga me diga Me diga me usted Cuantas creaturitas Se ha chupado usted Señora ninguna Ninguna no sé Ando en pretenciones De chuparle a usted A una bruja me encontré Por el aire iba volando Por el aire iba volando A una bruja me encontré Ay mama

Entonces le pregunté A quien andaba buscando Me dice quién es usted Soy cantador de huapango Ay mama Levantate Chucha Y levantate Joana Que viene la bruja Detrás de tu hermana Levantate Pepa Y levantate Adela Que viene la bruja Detrás de tu abuela Y diga me diga Me diga me usted Cuantas creaturitas Se ha chupado usted Señora ninguna Ninguna no sé Ando en pretenciones De chuparle a usted

Ahora si maldita bruja Ya te chupaste a mi hijo Ya te chupaste a mi hijo Ahora si maldita bruja Ay mama Ahora le vas a chupar A tu marido el ombligo A tu marido el ombligo Y hasta quisiera llorar Ay mama Cuando a tu marido Le encuentro dormiendo Le arrancó las piernas Y me voy corriendo Cuando a tu marido Le encuentro dormido Le arrancó las piernas Y me voy contigo

Y diga me diga Me diga me usted Cuantas creaturitas Se ha chupado usted Señora ninguna Ninguna no sé Ando en pretenciones De chuparle a usted


23.9.17

"Chuva" curta-metragem de Joris Ivens 1929



Regen (Chuva) é um poema-filme, um filme experimental da precipitação e queda de uma chuva em Amsterdã. Filme impressionista composto como uma sinfonia. Ivens levou dois anos para filmar diferentes chuvas em diferentes locações da cidade. A música é de Hanns Eisler, composta em 1941.




Rome The Orchards Berlin 2006

19.9.17

Ms. Bruna Beber

Glauber Rocha




A cruz na praça, segunda experiência cinematográfica de Glauber Rocha depois do curta-metragem O pátio (1959). Baseou-se no seu conto "A retreta na praça" publicado na antologia Panorama do conto baiano. No filme Glauber retira a dupla original homem e mulher do conto e substitui por dois homens. Sensibilizado pela grande violência contra os homossexuais na Bahia dos anos 1950, ele muda de foco para abordar um assunto que na época era politicamente pouco discutido. O filme mostra a perambulação dos dois homens pelo Cruzeiro de São Francisco, até que um deles, como na foto, agarra o membro do outro, o que leva a uma sequência de imagens fortes e reprimidas de anjos, santos e monstros barrocos da Igreja de Nosso Senhor e por fim à cena de castração em torno da cruz, o símbolo do catolicismo. A cruz na praça é considerado inacabado, e raro, quem não viu ficará no ar.  





17.9.17

Carta #5 de José Luis Guerin para Jonas Mekas


Descrição:


Correspondencia(s) es un cofre de 5 DVDs del sello © Intermedio que reúne las misivas filmadas de diez directores esenciales del cine contemporáneo. La correspondencia fílmica es un nuevo y original formato de comunicación entre directores que, a pesar de encontrarse separados geográficamente, están unidos por la voluntad de compartir ideas y reflexiones sobre todo aquello que motiva su trabajo. Esta idea surgió originalmente (pero no están incluidas en esta colección) con las diez cartas cinematográficas que intercambiaron el director de cine español Victor Erice y el cineasta iraní Abbas Kiarostami, se trataban de cartas redactadas en formato video-digital, y escritas en sí literalmente, tanto en caracteres españoles como persas y con pluma estilográfica. Correspondencia(s) trae un un libro detallado para profundizar conceptualmente el total de 29 cartas filmadas, de Barcelona a Nueva York, de Girona a Nara, de Banyoles a Buenos Aires, de Madrid a Shaanxi, de Ciudad de México a Puxan y viceversa, entre los cineastas: José Luis Guerin (Barcelona) – Jonas Mekas (Nueva York) Albert Serra (Banyoles) – Lisandro Alonso (Buenos Aires) Isaki Lacuesta (Girona) – Naomi Kawase (Nara, Japón) Jaime Rosales (Madrid) – Wang Bing (Shaanxi, China) Fernando Eimbcke (Ciudad de México) – So Yong Kim (Pusan/Nueva York).


Rimbaud

16.9.17

Women of Ireland - Ceoltóirí




There's a woman in Erin who'd give me shelter and my fill of ale; There's a woman in Ireland who'd prefer my strains to strings being played; There's a woman in Erin and nothing would please her more Than to see me burning or in a grave lying cold. There's a woman in Erin who'd be mad with envy if I was kissed By another on fair-day, they have strange ways, but I love them all; There are women I'll always adore, battalions of women and more And there's this sensuous beauty and she shackled to an ugly boar. There's a woman who promised if I'd wander with her I'd find some gold A woman in night dress with a loveliness worth more than the woman Who vexed Ballymoyer and the plain of Tyrone; And the only cure for my pain I'm sure is the ale-house down the road.





John Ashbery

13.9.17

1 poema de Patricia González López





A patroa te ama


Mandem embora todos os paraguaios
que vêm aqui roubar nossos empregos
lotam os hospitais
e não pagam impostos!
Que voltem pro seu país
ou que fiquem no interior onde tem menos gente
e precisam de mulas.
Mandem embora todos,
menos minha faxineira,
vocês não imaginam como é boa!
Em todos esses anos
nunca me roubou,
e olha que muitas vezes
deixei dinheiro no criado-mudo
e meus anéis no banheiro
mas nunca dei falta de nada
e isso que mora numa favela....
É uma em um milhão!
Honesta,
Asseada...
Se veste mal, coitada,
mas como eu sou muito generosa
desapegada
sempre lhe dou alguma peça de roupa.
É muito boa
tão boa que não me pede nada
nem pra ser registrada,
É tão caro pagar os encargos sociais!
Tem a sorte de comer como um passarinho,
traz pão e mate de sua casa,
quando tem alguma festa é ela que serve,
e como eu gosto de ajudá-la
lhe dou as sobras do bolo para que leve a seus filhos
Você acredita que ela os deixa todo o dia sozinhos?
Uma vez bancou a esperta
e não trabalhou no Ano Novo,
tinha que ficar doente justo aí!
Tudo bem, uma vez em 27 anos
que falte num Ano Novo,
Não foi nada, até porque no Natal ela veio
Ah, mas na Semana Santa não falha!
Tão boazinha,
é uma dádiva que não responda
e que sempre fique até tarde.
Mas no seu aniversário
eu a deixo ir lá pelas nove,
assim chega em sua casa
antes da meia-noite
e pode comemorar com sua família.


(tradução de Paulo Ferraz)

12.9.17

Queermuseu x MBL




O episódio de Porto Alegre [censura da exposição Queermuseu] mostra -- uma vez mais -- que não vinga no Brasil esse negócio de direita moderninha, descolada, liberal. Esse era o projeto do MBL, tal como imaginado por seus idealizadores na América do Norte. Uma direita que fosse capaz de disputar o ambiente acadêmico, arejada nos "costumes" e troglodita como sempre no que diz respeito às relações entre capital e trabalho ou à regulação pública das relações econômicas. O modelo seria o de outra estrela da Atlas Network na América Latina, a jovem cientista política guatemalteca Gloria Álvarez, que esteve até por aqui, dando palestras para FHC assistir. Sua conta no Twitter é "crazyglorita", que revela bem como ela deseja ser vista. Por trás do terninho, da maquiagem pesada, da certeza sobre o caráter imutável da natureza humana egoísta e da defesa do Estado mínimo, ela é crazy. Como diria Luciano Huck: loucura, loucura, loucura.


Não funcionou. 

Direita descolada é um luxo que o Brasil não está em condições de sustentar. Por isso, o MBL não perde a chance de despir a fantasia e assumir o velho obscurantismo raiz de sempre. Seu caminho é se tornar uma nova versão da TFP.


Luis Felipe Miguel

via FB


10.9.17

http://mykristeva.tumblr.com/post/165164665485

Conversa com Luis da Câmara Cascudo

Jornal Movimento




Jornal Movimento, edição de 1976, manchete "Geisel em um Mar de Lama". O jornal, ligado ao francês Le Monde, apontava mais de 2.000 casos de corrupção no período entre 1964 e 1976. Uma junta militar ficou responsável pelo recolhimento das publicações e a sede do jornal foi fechada por seis meses, com a acusação de suspeita de terrorismo. Esse é um dos poucos exemplares que sobraram dessa histórica edição.



30.8.17

6 poemas de Margarida Vale de Gato










Se sinto isto aqui chiar cá dentro 


De qualquer forma sei como encontrar
quem alivie. Nem o problema está
em que não sejas tu. Antes será
que venham mas não tenha para lhes dar,


atribuir-lhes uso, não lugar:
esse amplo espaço que te abri, já
feito o trespasse, o isolei: aliás
de ti adopto o jeito de vedar,

e embora admita que também estalas,
há que emplastrar de novo a cal, o gesso,
e sem falta cobrir as decepções,


que cesse o eco, quando ainda me falas,
esticada como antes, tua, tesa. 
Tudo estanque, agora, é raro o ar


um silvo só arranha entre os pulmões. 




Coping


Ficar quieta é técnica que já
aplico com rigor, e no preciso
sítio em que pulsa paraliso
tudo, quem está morto livre está.


Creio que começou quando cedeu 
o avô. Alguém disse: afinal
o coração não aguentou. Eu
pensei: mais vale declinar o abalo. 


Mas também não cheguei nessa altura
até ao fim. Escangalhei-me na novena
aos degredados filhos de Eva. 
Iniciei-me então nos barbitúricos

e hoje passo bem melhor. Às vezes
é um jogo, em que recorro ao coito
antes de apanhada, e se esgoto
essa via, dedico-me à mimese,


diluo-me com os objectos, tudo
me toca mas nada dá por mim, tão
imóvel que me ignora a dor, não 
há como acordar um corpo mudo. 


Por exemplo agora que não veio
o homem, podia ter-me ferido
ou saído a buscar outro, e perdido;
mas pratico com vantagem a apneia

e a domesticidade. É pena
que me esqueça tanta coisa; foi 
sorte saber da lamela - eia, pois,
advogada nossa - dormir serena. 




Ressabiadas


Talvez lá no fundo acredite
que os seres humanos são todos sensivelmente 
os mesmos em toda a parte, mas então 
necessariamente as mulheres são mais. 
Costumes que frequentamos: 
o arame da loiça, os panos dos pratos, os ganchos e as linhas
do estendal, a vinha-de-alhos, o fogão, 
o alguidar, guardamos os restos, torcemos
os trapos, os nossos recados, os nossos sacos,
os nossos ovos. 


Certamente que eles, em grande maioria, 
escanhoam os queixos e gostam
de arejar, mas não médicos, polícias,
engraxadores, economistas
e os vários naipes da banda filarmónica
nós somos todas domésticas, mesmo

assim não nos entendemos, e
nem serve escrever isto
que o maniqueísmo em traços largos
resvala na aldrabice, e a poesia
vem dos anjos já se sabe
carecidos de sexo. 


E aliás que me rala a mim,
levo a minha vida e tenho o amor
de que não desconfio
e se consolo o cio e a fome
decerto falo de cor,
nem é por isso que me doem os calos
mas por causa dos bicos
dos vossos saltos
no desnível dos soalhos, refinadas
galdérias que se tomam a sério,
pestanas certeiras e beiços
que brilham, línguas que estalam 
e mamas que chispam

corada invoco a imagem mal tirada
da fêmea recortada ao macho que a conforma;
sei que desminto qualquer laço comunal
e seja como for ninguém pediu 
o meu palpite, pelo que não me habilito 
e me desquito, acinte,
mudo, era eu


quem estava mal. 




Mulher ao mar


MAYDAY lanço, porque a guerra dura
e está vazio o vaso em que parti
e cede ao fundo onde a vaga fura,
suga a fissura, uma falta – não
um tarro de cortiça que vogasse;
especifico: é terracota e fractura,
e eu sou esparsa, e a liquidez maciça.
Tarde, sei, será, se vier socorro:
se transluz pouco ao escuro este sinal,
e a água não prevê qualquer escritura
se jazo aqui: rasura apenas, branda
a costura, fará a onda em ponto
lento um manto sobre o afogamento.



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No rascunho que Fernando Pessoa usou
para a tradução do Corvo de Edgar Poe
há no fim versos talvez seus que rasurou.

«Dic. de Rimas», em letra legível vem
por cima; depois, porém, o que não quis
que viessem a ler, nem ele a ter de escrever,
afigura-se tão honesto quanto sofrível.
Devo admitir que não pude coibir-me
(julgo eu que nenhum outro, ao descobrir
o bilhete ignorado de um morto)
a tentar ver se ele traduzia, se
aquilo era poesia ou um apelo
e a mim cabia, por mais
que inexacto, transcrevê-lo.

Se julguei entender a certo passo
o verbo «treslêem», era chato
que ao primeiro sinal faltasse o traço;
olhando de novo, talvez achasse
«conteem» (atestando no passado
mais desafogo ortográfico)
o que era menos ousado
embora não desdissesse
aquilo que me comove
na p. 229
do Livro do Desassossego,                  
«Ler é sonhar pela mão de outrem.
Ler mal e por alto é libertarmo-nos 
da mão que nos conduz.»
Isto sobretudo quando, como dizia
o galês que o Ivan Junqueira traduz,
«Grande é a mão que mantém
o seu domínio sobre um homem
por ele ter escrito um nome.»
(Neste ponto, nota de rodapé onde se lê:
Jerónimo Pizarro, em comunicação pessoal,
diz-me que o trecho não é do livro afinal.)

Devolvendo-me, por linhas tortas,
à reflexão do que fazer
com o papel em que um homem,
nem de propósito por muitos
considerado o maior génio
da língua portuguesa do século
vigésimo, depositou quem sabe
o seu mais pungente recado, o qual
riscou, mas não deixou por isso de guardar
numa resma arrumada que o culto nacional
não só numerou como hoje disponibiliza
digitalmente a quem quiser consultar.

E eu –– a tergiversar –– isto não é poema
nem condiz com sentida homenagem:
Fernando, tu dizias, da brevidade da vida
e da dor e desgraça que «ha n’ella» (anela),
e aquilo que mais doía era a falta de coragem
de confiar os desmandos do teu ser,
«oculto o meu interior aos olhares humanos»
(embora aqui talvez haja desfocagem
e possa ser «critério» o que esteja
no lugar de «interior» – onde, mais se justifica,
no início dessa estrofe, «Sinto horror»);
e ainda declinavas, pela margem
«Pensamentos.. gestos... palavras... almas»,
 
e eu que devia vir aqui dar corpo
ao inarticulado da poesia falar-te
do que perdeste, com esse teu feitio,
e a interna rima traindo-te a descarga
de eterno contentor que não explode ––

nem sei se a letargia tanto me sacode,
«além de que o não posso a alguém vazio».