RTP play: O Som que os Versos Fazem ao Abrir: Murilo Mendes - O pastor pianista. E uma descoberta que leva a uma correcção, relativa a Cristovam Pavia (e ao alemão Hans Magnus Enzensberger).
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18.10.19
O Som que os Versos Fazem ao Abrir - Murilo Mendes
RTP play: O Som que os Versos Fazem ao Abrir: Murilo Mendes - O pastor pianista. E uma descoberta que leva a uma correcção, relativa a Cristovam Pavia (e ao alemão Hans Magnus Enzensberger).
18.5.11
A poesia em pânico*
ágios agua dos mares alimenta alma amar comigo amei amiga angustia anjos aponto atridas atriz bela Berenice braços branca cabeleira cabeleira de Berenice cançado candelabros cerebro céu e a terra circula comunidade consciencia constelações coração corpo creação Cristina demonio desdobrando Deus A Materia diante Doce mistério doce o pensamento duplo e o desespero Eros Cristus esfinge espera espirito esposo estandartes estrela Venus eternidade existe faço esmola fascina febre filhos fisico força do amor fórma germina gosto gramofone grito homem homens inferno instante irmãos Kyrie levem-me mãi maquilhagem morrer mulher mulher-cometa mundo musica nascer naturesa novos amores olfato olhar olhos ouvidos palavra de consolo pecado pedra pensamento da morte poema poesia poetas preciso principio propria prostituta quero te abraçar quisera Regina responsavel rublo sangue Satan sentidos sete pecados sinão sinfonia sofro tambem tenho pena ternura terrivel transhumana tunica URSS vejo vestidos violoncelos Vitoria vivo volupia vós tres
C
26.10.05
Murilo Mendes
Propõe-nos Toledo um encontro de culturas díspares -- a cristã, a judia, a mourisca -- bem como a superposição de camadas do tempo. Mas outros dados poderão excitar o hóspede: também o caráter duro da sua posição natural, as rochas, a presença do Tejo de águas severas; suspenso na altura o casario cor de sangue coagulado, as pontes tão próximas, tão distantes; a mole da catedral e do castelo de San Servando, os restos da arquitetura árabe.
***
Na Idade Média Toledo foi centro de alquimistas, de iniciados em ciências esotéricas, artes mágicas, inclusive na arte do demônio, cultivando-se também a cabala, ritos ocultos. Para isso teria contribuído a influência israelita.
***
Isabel a Católica costumava dizer: "Sólo mi siento necia en Toledo." Aludia em particular à mordacidade do espírito das toledanas, o que é confirmado por Azorin: "estas toledanitas son terribles".
Procuro pelas ruas moças e mulheres que se assemelhem a outras, pintadas por El Greco. Através das grades daquele convento de freiras atingem-me ecos dum canto com algo de oriental ou não. Sinos ouvem-se de todas as partes, conforme a cantiga popular colhida por Dámaso Alonso: "campanillas de Toledo,/ óigoos y no vos veo". Descubro uma loja onde me forneço de mazapán, estupendo doce árabe a base de amêndoas. É dia de Corpus Christi: as casas acham-se pavesadas, e as ruas atapetadas de folhagem. Sai a procissão percorrendo o centro; o cardeal primaz levanta no ar a pesada custódia do século XVI, invenção de Juan de Arfe; distinguem-se hábitos escuros ou variopintados de membros de ordens religiosas que eu julgava extintas de há muito. Decora externamente a catedral uma série de tapeçarias antigas: vestiram a pedra para a festa. Os turistas que contavam regressar a Madrid no ônibus da tarde impacientam-se: a corrida só terminará de noite. Festa de Corpus Christi e tourada no mesmo dia, quase na mesma hora: somente na Espanha isto sucede, indicando aspectos contrastantes do seu gênio. Mas eu não volto hoje a Madrid: como de outras vezes dormirei em Toledo; aqui a noite ainda consegue dispor de filtros mágicos; ajuda a funcionar o motor da história toledana, áspera.
Murilo Mendes, em "Espaço Espanhol, 1966-1969".
8.8.03
Arte de desamar
Meu amor é disponível,
A qualquer hora ele fecha;
A crise de convicção
É mesmo muito grande.
As pernas do meu amor
Distraem da metafísica,
O corpo do meu amor
Tem a vantagem sublime
De disfarçar o horizonte.
Eu não amo meu amor,
Para que tapeação.
Não amo ninguém no mundo,
Nem eu mesmo, nem me odeio.
Meu amor é uma rede
Onde descanso da vadiação.
Os olhos do meu amor
São bastante distraídos,
Não vêem meu desamor.
Com o porta-seios moderno
Os seios do meu amor
Aparados à la garçonne
Ocupam lugar pequeno
No espaço do seu corpo.
Se meu amor qualquer dia
Me abandonar, ai de mim!
Eu não me suicidarei...
Escreverei mais poemas.
-- Murilo Mendes, em "O Visionário", 1930-1933.
Meu amor é disponível,
A qualquer hora ele fecha;
A crise de convicção
É mesmo muito grande.
As pernas do meu amor
Distraem da metafísica,
O corpo do meu amor
Tem a vantagem sublime
De disfarçar o horizonte.
Eu não amo meu amor,
Para que tapeação.
Não amo ninguém no mundo,
Nem eu mesmo, nem me odeio.
Meu amor é uma rede
Onde descanso da vadiação.
Os olhos do meu amor
São bastante distraídos,
Não vêem meu desamor.
Com o porta-seios moderno
Os seios do meu amor
Aparados à la garçonne
Ocupam lugar pequeno
No espaço do seu corpo.
Se meu amor qualquer dia
Me abandonar, ai de mim!
Eu não me suicidarei...
Escreverei mais poemas.
-- Murilo Mendes, em "O Visionário", 1930-1933.
4.6.03
Frutas da infância e post
O jambo. O tamarindo. A guabiroba.
A uvaia. A pitanga. A carambola.
A pitangueira dá pitangas e indigestão.
Os uivos da uvaia. A raiva da cabeluda. A força da banana. O ácido do araçá.
O cântico do cambucá nos canais do intestino.
A sublevação dos indígenas alimentos frutais ingeridos e indigeridos.
O odre podre de qualquer fruta.
As comadrices da tangerina. O ubre convexo da mamoa.
O verdeveronese das frutas. As veludosas amarelezas do mamão.
Os passeios do limão nas alamedas de tangerineiras.
A fruta-de-conde. A fruta-de-condessa. Principalmente a fruta-de-condessa.
A fúria do abacaxi. A relva do abacate. A soledade da grumixama. A ironia da goiaba. A explosão da manga-espada. A glória do maracujá. O peito da laranja. O asco da toronja.
O preto da jabuticaba. As pretas da jabuticabeira. As tetas das pretas na jabuticabeira.
O sorriso em flor da canela. As congeminações da noz-moscada. Os esgares da pimenta desacompanhada da hortelã.
Morder a realidade, a matéria mordível e mordente, a universal tangerina, a fruta-esfera da terra. Saborear o sumo de todas as coisas somadas. O sumo do universo, o saber do sabor, o sabor do saber.
-- Murilo Mendes
O jambo. O tamarindo. A guabiroba.
A uvaia. A pitanga. A carambola.
A pitangueira dá pitangas e indigestão.
Os uivos da uvaia. A raiva da cabeluda. A força da banana. O ácido do araçá.
O cântico do cambucá nos canais do intestino.
A sublevação dos indígenas alimentos frutais ingeridos e indigeridos.
O odre podre de qualquer fruta.
As comadrices da tangerina. O ubre convexo da mamoa.
O verdeveronese das frutas. As veludosas amarelezas do mamão.
Os passeios do limão nas alamedas de tangerineiras.
A fruta-de-conde. A fruta-de-condessa. Principalmente a fruta-de-condessa.
A fúria do abacaxi. A relva do abacate. A soledade da grumixama. A ironia da goiaba. A explosão da manga-espada. A glória do maracujá. O peito da laranja. O asco da toronja.
O preto da jabuticaba. As pretas da jabuticabeira. As tetas das pretas na jabuticabeira.
O sorriso em flor da canela. As congeminações da noz-moscada. Os esgares da pimenta desacompanhada da hortelã.
Morder a realidade, a matéria mordível e mordente, a universal tangerina, a fruta-esfera da terra. Saborear o sumo de todas as coisas somadas. O sumo do universo, o saber do sabor, o sabor do saber.
-- Murilo Mendes
10.4.03
OS RESTOS
Os restos do cavalo. Os restos da amazona.
Os restos do avião. Os restos da aeromoça.
Os restos do perfume. Os restos da putain.
Os restos do pincel. Os restos da colagem.
Os restos do gargalo. Os restos da garganta.
Os restos de Brasília. Os restos de Granada.
Os restos do artesão. Os restos da cadeira.
Os restos do oceano. Os restos da lagosta.
Os restos do ascensor. Os restos da cidade.
Os restos do jornal. Os restos do repórter.
Os restos do nazismo. Os restos da opressão.
Os resistentes renitentes insistentes
impertinentes restos do nazismo da crueldade e da opressão
dispersos pelo mundo sob nomes diversos, até sob o nome da liberdade:
quando sumirão? quando se consumirão?
Fechou-se uma inquisição, abriram-se outras, ahimè!
Os restos, os restos vivos e ativos. Os restos.
-- Murilo Mendes
Os restos do cavalo. Os restos da amazona.
Os restos do avião. Os restos da aeromoça.
Os restos do perfume. Os restos da putain.
Os restos do pincel. Os restos da colagem.
Os restos do gargalo. Os restos da garganta.
Os restos de Brasília. Os restos de Granada.
Os restos do artesão. Os restos da cadeira.
Os restos do oceano. Os restos da lagosta.
Os restos do ascensor. Os restos da cidade.
Os restos do jornal. Os restos do repórter.
Os restos do nazismo. Os restos da opressão.
Os resistentes renitentes insistentes
impertinentes restos do nazismo da crueldade e da opressão
dispersos pelo mundo sob nomes diversos, até sob o nome da liberdade:
quando sumirão? quando se consumirão?
Fechou-se uma inquisição, abriram-se outras, ahimè!
Os restos, os restos vivos e ativos. Os restos.
-- Murilo Mendes
7.12.02
Murilo Mendes
O ovo é um monumento fechado, automonumento; plano-piloto, realizado agora, do germe inicial da criação.
A exemplo da torre de Pisa, o ovo não costuma sustentar-se em pé. Ninguém ignora que a torre gosta de emigrar durante a noite. De resto, ela subsiste somente porque amparada por uma pena num quadro de René Magritte.
O mesmo pintor em outro quadro Les vacances de Hegel mostra um guarda-chuva aberto: em cima pousa um copo contendo um líquido. Evidentemente todos os observadores sofrem uma ilusão de ótica, trocando o copo por um ovo, de resto mais vizinho ao pensamento do filósofo.
O ovo, objeto concreto de alto coturno, caríssimo, quase inacessível: diamante do pobre.
No meu tempo de infância, indo a noite alta a dois metros, eu já não ouvia mais o tique-taque do relógio; antes, o pulsar do ovo na sua gema, nunca sua clara.
Num tempo ainda mais recuado eu tinha medo do ovo. O medo: confere-nos uma téssera de identidade, fazendo-nos enfrentar algo de real, o próprio medo. O medo é o ovo da aventura posterior.
-- "O Ovo".
A exemplo da torre de Pisa, o ovo não costuma sustentar-se em pé. Ninguém ignora que a torre gosta de emigrar durante a noite. De resto, ela subsiste somente porque amparada por uma pena num quadro de René Magritte.
O mesmo pintor em outro quadro Les vacances de Hegel mostra um guarda-chuva aberto: em cima pousa um copo contendo um líquido. Evidentemente todos os observadores sofrem uma ilusão de ótica, trocando o copo por um ovo, de resto mais vizinho ao pensamento do filósofo.
O ovo, objeto concreto de alto coturno, caríssimo, quase inacessível: diamante do pobre.
No meu tempo de infância, indo a noite alta a dois metros, eu já não ouvia mais o tique-taque do relógio; antes, o pulsar do ovo na sua gema, nunca sua clara.
Num tempo ainda mais recuado eu tinha medo do ovo. O medo: confere-nos uma téssera de identidade, fazendo-nos enfrentar algo de real, o próprio medo. O medo é o ovo da aventura posterior.
-- "O Ovo".
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