29.9.07

A importância de ser pepino




A importância de ser pepino


Como muita gente sabe, o sanduíche de pepino é um acompanhamento tradicional do chá inglês, ou dos piqueniques de verão daquelas bandas. Preparado com finas camadas de pepino colocadas em duas fatias de pão de fôrma branco, sem casca, besuntadas com manteiga. No entanto, os sanduíches de pepino ganharam notoriedade literária na peça de Oscar Wilde, A importância de ser Prudente, onde eram especialmente preparados para Lady Bracknell, que se deu mal porque... ora, leiam a peça. Hoje há muitas versões do sanduíche de pepino. Até acrescido de bacon e cream cheese, o que sem dúvida revoltaria o paladar delicado de Lady Bracknell. Dito isto, publico aqui a receita do Sanduíche de Pepino à Oscar Wilde, grande sucesso nos salões literários da Paris dos anos 1920:

Para preparar 10 sanduíches, descasque e corte em finíssimas camadas um pepino grande. Coloque as fatias do pepino em uma peneira e acrescente uma pitada de sal. Deixe descansando por 1 hora. Depois seque bem as fatias com um pano limpo ou toalha de papel. Coloque as fatias de pepino em uma tigela com 1 colher de sopa de azeite de oliva, 1 colher de sopa de suco de limão, 1/2 colher de chá de açúcar e uma pitada de pimenta branca. Misture tudo suavemente e deixe em repouso enquanto prepara o pão. Use um pão de fôrma branco da melhor qualidade -- de preferência caseiro e do dia seguinte -- e corte-o em finas camadas. Para preparar 10 sanduíches, obviamente você precisará de 20 fatias. Em uma tigela, coloque 1 1/2 de manteiga sem sal na temperatura ambiente, 2 colheres de sopa de creme (natas), 1/2 colher de sopa de mostarda. Misture tudo. Em seguida espalhe esta mistura generosamente em cada fatia de pão, acrescente as fatias de pepino e, pronto, feche o sanduíche. Corte-o na diagonal, formando dois triângulos. Coloque os triângulos no prato para servir enfeitado com raminhos de agrião ou hortelã. Os sanduíches devem ser preparados logo antes de servir, para evitar que fiquem úmidos demais e percam o frescor. Aprecie com moderação.


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24.9.07

A carta de Helsinque




Ele colocou os livros na mesa e abriu a carta de Helsinque. Agora vêm as notícias. O que penso que lerá nessa carta? Anna não virá nunca mais. A cena se repetia todas as manhãs: quando o telefone tocou ele ainda não havia chegado. Ouvira falar dos livros e comprou-os. Tudo muito por hábito, pensava idéias que todo mundo fala sem notar a diferença das suas. Idéias comuns sempre chegam mais cedo do que se espera. Começou a ler sem interromper a continuidade do silêncio. O papel fino tremendo nas mãos. O papel dos livros é duro. Não verga. A carta era breve, 265 palavras e a assinatura final. Vamos terminar por aqui. Ele já tinha notado a diferença. Anna não virá nunca mais. Poesia toda numa só. Ano passado ela disse que voltava já. Ele ficou esperando e comprou livros. Das 265 palavras, 42 foram usadas uma só vez. Distribuídas em um único parágrafo de frases com sujeito obrigatório e algumas agramaticalidades. O sujeito oculto estava em algum lugar. Vamos terminar por aqui veio seguido de uma pausa: cinco linhas em branco. Ficção da indiferença. Ele pensou em preencher o espaço com desaforos e devolvê-lo ao remetente. O acaso é um processo, eu pensei em dizer, sem coragem de chamá-lo pelo nome: eram letras borradas no destinatário do envelope. Sei que ele gosta de ler livros, já o irmão é alto. Todos sabem. Anna conheceu o irmão em Helsinque. Ninguém sabe. Ele colocou a carta dentro do livro. O papel da carta é mole, o papel do livro é duro. Mal os sentia agora.

18.9.07



row row row your boat
gently down the stream
merrily merrily merrily merrily
life is but a dream



17:48

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12.9.07

flashes da Blooks -- Tribos & Letras na Rede





A poeta e blogueira Ane Aguirre foi conferir a exposição, me achou lá (o texto embaixo) e gentilmente Sergio Fonseca clicou. As fotos saíram meio escuras porque o ambiente era cavernoso. Mais detalhes sobre a mostra no Rio veja num post aí embaixo.








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9.9.07

Josefina Plá




Quisera eu algum dia ser a faca
que me corta e saber o que ela sente


Josefina Plá (1902-1999)




Nascida na Espanha, quase desconhecida no Brasil, Josefina Plá tornou-se uma das maiores expressões da cultura do Paraguai, onde passou a maior parte de sua vida. Para este blog, traduzi 3 de seus poemas.



Livre


Livre para nascer sem escolher o dia
livre para beijar sem saber por que esta boca e não outra
livre para engendrar e conceber o que há de te trair
livre para pedir o que depois será inútil
livre para buscar o que amanhã já não terá significado
livre para morrer sem escolher o dia
livre para apodrecer sem escolher o lugar
livre para voltar ao pó sem memória
livre para seguir o rumo das raízes pequenas
livre para olhar o sol que não te olha
Livre para nascer sem escolher o dia



As portas


...Um fechar de portas,
à direita e esquerda;
um fechar de portas silenciosas,
sempre a destempo,
sempre um pouco antes
ou um momento demasiado tarde;
até restar só uma aberta,
a única pontual,
a única obscura,
a única sem paisagem e sem olhar



A viagem


Não sei onde tomei este trem
O vagão está fechado
e a única paisagem
é a sombra que corre com o trem
Me acompanham um velho que já se esqueceu de tudo
e um menino que não sabe aonde vai nem com quem
Sei apenas que este trem tem
uma só estação uma só plataforma
e que quando chegar seja onde for
não sei onde estarei



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6.9.07

Programação de setembro



Blooks -- Tribos & Letras na Rede

Prosa, poesia, quadrinhos, letras de música e games. A efervescência da criação literária na web e a interferência dos bytes na escrita e na leitura do que é hoje produzido na internet vão estar na exposição Blooks - Tribos & Letras na Rede, da editora Aeroplano. A mostra, idealizada pela professora e crítica literária Heloisa Buarque de Hollanda e com a participação de Omar Salomão e Bruna Beber, ressalta o vasto universo da palavra, que prolifera na rede em blogs interativos, podcasts e sites, celeiros de expressão e criação literária do novo milênio.

Além da Blooks, onde esta que vos fala vai ter um texto lá exibido, você poderá ver no mesmo espaço a exposição Waly Salomão: Babilaques, Alguns Cristais Clivados que vai até 14 de outubro. A TechNô, uma mostra de arte, poesia e tecnologia. Denise Stoklos encenando teatro para crianças e outras atrações. O convite está aí embaixo. Tudo no Rio de Janeiro, Oi Futuro, rua Dois de Dezembro 63, Flamengo. Aproveite. Nas exposições a entrada é franca.





5.9.07

Casimiro de Abreu com Che Guevara



Oh! que saudades que tenho
Da aurora da minha vida



Da minha infância querida
Que os anos não trazem mais!



Que amor, que sonhos, que flores,
Naquelas tardes fagueiras




À sombra das bananeiras,
Debaixo dos laranjais!



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