29.7.10

A Oxum



e seus pés de renda





Fotos de Cris Carriconde, Rio, 2009. Clique para ampliar.

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28.7.10



Como desaparecer completamente é o título do livro que André de Leones vai lançar hoje à noite no Rio, na Travessa do Leblon. Eu, por exemplo, gostaria de desaparecer completamente na Islândia, a Gelolândia. Lá tem vulcão, hadoque, salmão e gelo no copo à vontade, pouca gente, desta menos ainda em erupção, praias desertas e uma língua incompreensível. O ideal para quem quer sossego e 13 graus de temperatura no máximo. Já o inverno no Leblon é quase glacial não passa de uma rima. Antigamente eu gostava do Leblon, suas ruas largas, limpas e tranquilas sempre davam num canto de praia sujinho mas aprazível. Diferente de Ipanema, que virara um anexo de Copacabana, ainda era possível andar no Leblon com calma impassível. Hoje há um papparazzo atrás de cada poste e o bairro virou conjunto habitacional de celebridades da Globo, a Hollywood vira-lata. Sim, eu gostaria de desaparecer completamente na Islândia, com a Islândia. Com seus poetas do tempo e da água, como Steinn Steinarr:


Time and the Water

Time is like the water,
and the water is cold and deep
like my own consciousness.
And time is like a picture,
which is painted of water,
half of it by me.
And time and the water
flow trackless to extinction
into my own consciousness.


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23.7.10

Um convite muito especial





André de Leones, amigo e parceiro de fé, mudou de casa e está lançando seu terceiro romance agora pela editora Rocco, Como desaparecer completamente, para o qual tive a honra de ser convidada pelo autor a redigir seus pavilhões auriculares. André de Leones estreou em 2006 com o premiado Hoje está um dia morto e em 2008 publicou Paz na terra entre os monstros, ambos pela editora Record. O rapaz sabe o que faz. Apareça e leia. Ah, e clique na imagem para ampliar.


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22.7.10

D'Amici. Rua Antônio Vieira. Quarta-feira, 14:45. O almoço está na mesa. Perdiz ao molho de vinho branco e ervas. Tem quem escute crianças brincando na rua. A mulher esquecida do mundo fica olhando a perdiz torcendo para ela gostar do seu estômago. Que seja inteligente e boa, deixe-se levar. Mesmo assim engole em seco, garfo no ar. A perdiz não desabafa mais seus sofrimentos. O público não deve de saber certas coisas íntimas. Sobremesa: petit gâteau de goiaba com sorvete de queijo. Enfibraturas do Ipiranga.


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21.7.10





Bar do Tom. Rua Adalberto Ferreira. Sábado, 21:33. Barbudo maltrapilho com sotaque francês fala com gerente. Diz chamar-se Alfred e quer vender um desenho que ele mesmo fez. Um autorretrato seu com George Sand. Gerente olha desconfiado, não compra e oferece um chope pipoca como compensação. O francês bebe de um gole só e antes de sair agradece: "Mon verre n'est pas grand, mais je bois dans mon verre."

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20.7.10

Pizzaria Rosca Soberba, Estrada União Indústria, domingo, 18:30. Mesa 7. Homem branco, caucasiano, sub-20, magro, cabelo máquina 5, preto tingido, tatuagem indefinida no pescoço. Estado de ânimo: angustiado. Celular Motorola: " -- Dani, eu não tenho twitter, mas ainda sou gente, tá?" Pedidos: 1 Calzone napolitana, 2 chopes. Tempo de espera: 12 min. Tempo de consumo: 6 min. Conta: 18,90. Gorjeta: 0. Garçom Geraldo, voz interior: Maldito debiloide mão-de-vaca.


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15.7.10

Diadorim.
Diabo de dorzim. Das Dor.
Diadorim.
Nome de estrela do céu mais baixo.
De joaninha.
De comprimido. Dia do rim.
A gente lê Sêo Rosa e fica assim.
Falando línguas.
Se tem certa velhice, fica lembrando,
coisas, tudo tintimportintim.
Se não tem coisas, o sonho traz, inventa.
Fato por fato. Começo, meio, meio do meio,
fim do começo, começo do fim, e o do
fim exatamente. Que fim não tem meio.
Depois acorda e esquece do lembrado.
Vive a vida corrica. Uma só.
Que é vária e não se vê.
Diabo de dorzim. Diá de Sê o Rosa.
Diadorim é mulher só no final. Morta.
Sêo Rosa desvestiu.
A veredas só tem mulher diadorim.
Mulher feitio de homem. É ninguém.
Deve de lê Veredas com óculos de proteção, advirto,
que o dito respinga na gente e a memória
do coração minha mistura na dele, faz um caldo
grosso que não tem ralo que passe.
Ferve. Encolhe a carne da palavra que
eu tenho, fica um tantinho só. Dá vergonha.
De jumento espiando cavalo de raça. Não tem parelha.
Veredas é papel de ler em árvore da sombra do céu,
que não tem mais no de-Janeiro. Virar páginas
respirando curtinho. Contando nos dedos.
Não em poltrona de trem-bala, a vida passando
borrada. De onde se apeia quando a estação quer.
Ler até arder a porta do olho, a do fundo doer.
Jagunçada é pra encher linguiça.
Afazeres de livro gordo. Bote aí mil-e-quinhentos bois,
dezessete e setecentos cavalos entre burricos,
duas das mil carabinas e winchester, o mesmo número
de cabras tocando tudo, uma vingança por dia em vinte anos,
os gerais inteiro e soma a epopeia. O quebrado da conta é
o falar de amor. Amor encoberto. Dos pior.
E outras metafísicas estufadas.
Tesconjuro diminuir a história assim. Tirar água da carne.
Vá ler outra vez, vai. Dia dorzim.


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12.7.10

Djuna Barnes







Love Song


I am the woman -- it is I --
Through all my pain I suffer peace,
Through all my peace I suffer pain,
This insufficient agony --
This stress of woe I cannot feel --
These knees that cannot bend to kneel --
A corpse that flames and cannot die --
A candle with the wick torn through --
These are the things from which I grew
Into the woman whom you hate --
She whom you loved before you knew --
Loved, loved so much before you knew.

All I cannot weep -- in tears,
All I cannot pray -- in prayers,
For it is so the wild world moves,
And it is so that Tame Man loves.
It is for this books fall to ruin,
For this great houses mold and fall,
For this the infant gown, the pall,
For this the veil that eyes weep through,
For this the birds go stumbling down
Into the cycled ages where
Their squandered plumage rends the air.
For this each living thing that dies
Shakes loose a soul that will arise
Like ivory against black space --
A quiet thing, but with a face
Wherein a weeping mouth is built --
A little wound where grief is spilt.

I am the woman -- even so --
Through the years I have not swerved,
Through the years I've altered not.
What changes have I yet to know?
Through what gardens must I crawl?
How many roses yet must fall?
How many flowers yet must blow?
How many blossoms yet must rot?

How many thorns must I yet bear
Within the clenched fists of despair?
To be again she whom you loved --
Loved you so much, so much did care --
Loved, loved so much, so much did care!


Djuna Barnes, 1916.