30.10.08


Sua mãe foi embora em um mês de junho. Disse que não tinha mais nada pra ela nessa cidade. Viúva, o filho morto. Me olhei no espelho e vi que ela tinha razão. Dei uma mão na hora de fazer as malas. Ela me beijou de leve na boca e me chamou de lindinho. A gente trepou uma última vez, a melhor de todas, e ela me deu um conselho de mãe: Tenta não se matar, garoto. Eu olhei pra ela como se prometesse alguma coisa. Nesse momento, ela fechou os olhos. E pareceu que não ia abrir nunca mais.


Eis um trecho do segundo livro do escritor e amigo André de Leones, Paz na terra entre os monstros, que acaba de ser lançado pela ed. Record. Não perca, nas melhores livrarias do ramo. E quem for de Goiânia, aproveite para dar uma passadinha na noite de autógrafos, hoje às 19h, na livraria Saraiva do Shopping Flamboyant. Eu já li e recomendo, cá esperando pelo lançamento no Rio.


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29.10.08

Casas de pó




Alguém já disse que os artistas precisam criar na mesma proporção da capacidade que a sociedade tem de destruir. É no que parece acreditar a artista colombiana radicada em Miami, Maria Adelaida Lopez, com suas "Casas de Pó". Enquanto a civilização limpa o seu pó e dá as costas, ela confecciona sua obra com casas de boneca e o pó dos aspiradores, formando paisagens da vida doméstica, da vida de dentro e de fora.









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28.10.08

Dicas para quem quer comprar ou alugar uma casa: saiba interpretar os anúncios



Você se pergunta o que isso tem a ver com literatura? Tudo, posso dizer sem medo de errar. Ora, se sabemos que a literatura se distingue das demais formas de conhecimento da realidade pelo fato de exprimir-se por meio de palavras polivalentes - palavras que contêm vários significados -, o que seria mais polivalente do que um anúncio dos classificados? Como a literatura, a propaganda também mente, engana, finge uma realidade que não é a que se conhece. Como a literatura, a propaganda é uma mera representação, uma realidade paralela. Portanto, classificar algo como "propaganda enganosa" é incorrer em redundância. Toda propaganda é forçosamente enganosa, ou não seria propaganda. Posto isto, vejamos alguns poucos exemplos de signos polivalentes em anúncios de casas. Quando você ler que uma casa

- é de "fácil acesso", isto pode significar que a casa fica em beira de rua, perto de um ponto de ônibus, ao lado de um supermercado, de uma casa de funk, de uma igreja evangélica, enfim, sem a menor privacidade e provavelmente barulhenta;

- é "rústica", significa que é tosca, detonada ou sem acabamento, provavelmente feita de material reaproveitado, sobras, o que eles chamam de "reciclado";

- é "charmosa", sem dúvida a casa deve ser torta, de arquitetura impossível, toda fora de esquadro, quando o próprio dono fez o projeto e chamou uns dois ou três pedreiros para levantar o trambolho;

- é "aconchegante", pode esperar que os cômodos são mínimos, impossível de abrir os braços no banheiro;

- é "ensolarada", é porque ela é tórrida, um Afeganistão, sem um pé de árvore para lhe consolar;

- é "sombreada", neste caso ela pode ser escura, úmida, cheia de mofo, quase sinistra; você vai começar a ter problemas respiratórios e achar que é asmático, vai ter dores nas articulações e achar que é reumatismo;

- tem "cisterna", prepare-se que a água é pouca, eventualmente você precisará de um caminhão-pipa para encher a cisterna;

- fica em "local tranqüilo", isto significa que ela pode ficar num fim de mundo, longe de tudo que se conhece por civilização, você vai levar horas para chegar em casa;

- fica em terreno com "ligeiro declive" ou "suave aclive", não pense duas vezes, a casa fica numa pirambeira;

E boa sorte.

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27.10.08

Wesley Peres



Do corpo de uma mulher, algo é voz
Há uma química de mãos em seus olhos,
eles arestam meu corpo
e povoam de relâmpagos
cada um dos meus lábios
estes, que se freqüentam de silêncios
em dilatação no espaço escandido
por um tempo, ao mesmo tempo,
contínuo e descontínuo.
Morri três vezes neste dia
de lábios que se calam
por sonorização de cômodos
do corpo que por comodidade
chamo de vísceras
— chego a pensar que é mesmo
entre elas que, de seus olhos,
vêm os relâmpagos de calar
lábios e produzir,
no corpo,
arestas sutis
como o instantezerodeumundo
.



Wesley Peres, em poema-resposta ao nosso post "Procura-se um poema erótico...". Nossos agradecimentos ao autor.

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22.10.08




Inscription for the ceiling of a bedroom


Daily dawns another day;
I must up, to make my way.
Though I dress and drink and eat,
Move my fingers and my feet,
Learn a little, here and there,
Weep and laugh and sweat and swear,
Hear a song, or watch a stage,
Leave some words upon a page,
Claim a foe, or hail a friend --
Bed awaits me at the end.

Though I go in pride and strength,
I'll come back to bed at length.
Though I walk in blinded woe,
Back to bed I'm bound to go.
High my heart, or bowed my head,
All my days but lead to bed.
Up, and out, and on; and then
Ever back to bed again,
Summer, Winter, Spring, and Fall --
I'm a fool to rise at all!

Dorothy Parker
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20.10.08

Procura-se um poema erótico que não faça sexo



Procura-se um poema erótico que não faça sexo, que não use as palavras contornos, curvas, fendas, gretas, canais, seios, gemidos, ventre, flancos, orgasmos, espasmos, espermas, gritos, gozo, bocas, dentes, desejo, língua, lábios, lóbulos, nádegas, coxas, corpos, beijos, abraços, mãos, dedos, mamilos, orelhas, cabelos, saliva, pernas, quadris, rego, abertura, carne, cama, lençóis, roupas, travesseiro, sucos, sumos, êxtase, febre, calor, suor, umidade, líquidos, pele, peso, teso, penugem, órgão, tato, encaixe, coração, paixão, prazer, ponto g, sedas, poros, incêndio, libido, dentro, fora, duro, mole, seco, molhado, hálito, adagas, facas, velas, varas, baloiço das ancas, pênis, vagina, ânus, clitóris e seus semelhantes, palavras estas que já começam a brochar e entediar os leitores. Cartas ao editor.

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13.10.08

Mário de Sá-Carneiro




Meu querido Amigo, não sei por quê eu já não venho ao Café Riche. Talvez porque na mesa do fundo, ali no canto - onde um "monsieur decoré" se embebe do TEMPS - receie encontrar o Sá-Carneiro, o Mário, de 1913, que era mais feliz, pois acreditava ainda na sua desolação... Enquanto hoje... Descia-a toda; no fundo é uma coisa peganhenta e açucarada, digna de lástima e só para os rapazes do liceu a receberem à tourada. Creia o meu Amigo que é absolutamente assim - sem literatura má, sem paulismo, afianço-lhe. / A verdade nua e crua:

- Quando eu morrer batam em latas,
Rompam aos berros e aos pinotes -
Façam estalar no ar chicotes,
Chamem palhaços e acrobatas.

Que o meu caixão vá sobre um burro
Ajaezado à andaluza:
A um morto nada se recusa,
E eu quero por força ir de burro...


Mas então para fixar o instante desta minha vinda ao Café Riche, onde agora já não entro com medo de encontrar o Mário - hoje felizmente ele não estava, estava só o monsieur do TEMPS - envio-lhe esta carta inútil e riscada que você perdoará, hem?



(Mário de Sá-Carneiro, em carta a Fernando Pessoa de 16 de fevereiro de 1916, dois meses antes de seu suicídio. O poema levou o título de "Fim".)


11.10.08

Jacques Lacan




O amor é dar o que não se tem
a alguém que não o quer.


-  Conferência de Louvain, 13 de outubro de 1972.

8.10.08



O post de hoje vem manifestar apoio irrestrito ao poeta, professor de literatura e amigo deste blog Oswaldo Martins e total repúdio à Escola Parque do Rio de Janeiro por sua atitude medieval ao demitir o professor e poeta, alegando serem incompatíveis o exercício do magistério e a prática da poesia. A escola, que se autoproclama "de vanguarda" e voltada à expansão cultural de seus alunos, demonstrou incompetência na gestão de um conflito entre pais e professores e optou pelo caminho mais fácil, afastar sumariamente o professor de seus quadros, sem discussão. Uma atitude aliás que costuma ser a regra de qualquer escola medíocre de ensino pago. Afinal, não se pode desagradar o cliente, e a educação é um produto customizado. Oswaldo é poeta e eventualmente publica em seu blog poemas eróticos, o que foi descoberto por alguns pais de alunos que pediram à diretoria a cabeça do professor. Mais um exemplo de que a dita pós-modernidade ainda não deixou os cueiros da era medieval. Lamentável. Mas, diante de coisas como essas, como diz a Fal, "Tomara que a nave-mãe venha me buscar logo".


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3.10.08



Suas velhas palavras me ferem de um jeito novo.
Estoicamente, ofereço a outra face.
Deixar você me magoar é um jeito lícito de tê-la.
Dói, mas foda-se.

Fal Azevedo há muito tempo alimenta um blog, como todos nós. Um blog de opiniões pessoais lançadas com muito humor e melancolia. Um blog que congrega pessoas das mais diversas tendências políticas e existenciais. Um blog que não é de direita, não é de esquerda, não quer convencer ninguém, é o blog da Fal, a palavra certa, na hora certa. Simplesmente isso. Você vai lá e se diverte com ela, conversa com ela, sofre com ela. Mas você sabe que Fal escreve outras coisas além dos posts. Fal enveredou pela literatura e já está no seu terceiro livro: Minúsculos assassinatos e alguns copos de leite. E neste livro você vai encontrar “carne crua” e “doce de leite”, que é a melhor definição de Fal Azevedo. Não procure em Fal Danieis Galeras, Ruffatos, Mirisolas, Calcanhottos em surtos poético-psicóticos, ou Jabutis. Procure em Fal as palavras de quem chora na cama, de quem usou o primeiro sutiã Du Loren, de quem não esquece os bolos da avó, do tempo e dos amores perdidos, das noites sem respirar, dos e-mails desesperados, do cheiro de maçã verde. E é por essas e mais tantas, que estarei no lançamento deste livro da Fal pela editora Rocco, dia 9, na livraria Prefácio, Rio de Janeiro. Aproveitando aqui para convidar todos vocês.

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