11.12.13

Marina Tadeu


Acessórios


Aqueles que metem o bugalho em tudo
dizem que as malas das mulheres
são transposições do útero.

Acho muito ordinário
pois se o corpo é ao contrário 
a minha, como a de Anne,
guardaria um aquário.

Meto a mão para remexer peixes
que mordem à procura de isco.
Um cigarro molhado acende-se no escuro.
Penso, se roupa é o corpo do avesso
que dizer dos bolsos de caqui colonial
ou dos calções de combate no deserto?

Terão homens inveja da vila?

Aqui carecas não usam pente no bolso 
de trás
e é isso que constrange o contrário.



Intimidade


Não consigo adormecer
sem o ressonar do marido
da mesma maneira
que parei de ver filmes
desde que encontrei os óculos

Preciso do som
para ganhar fôlego
mandar para o escuro
o olho da noite.

Somos dois cabeças no ar
pagamos por compras
que deixamos nas lojas
e se não fosse o filho
não entraríamos 
em casa.

Há muito que perdemos
as chaves.

Dois vencidos
que cantam destoados
nas ruas fazendo
figura triste
apesar de nos rirmos.

Quando discutimos
castigo-o com fado
e os Dubliners. 

Ah mulher, não me toques
folclore
que me desafinas

Ele vinga-se com os
Genesis do Gabriel.

Ah, homem
não me dês escatologia
que Messias
dão-me alergias.

Do pós-vida e a alma
fazemos apalpões.

Sabe que amo
os que antes dele existiam
e que por isso nunca mais
os verei.

Sei que ama
as que depois virão
e que por isso já as ceguei.

Há muito que o advento soprou.
À próxima teremos asas.

Sabemos que querer
dói menos que o fim
e lá nos vamos
consolando no outro
depositando na vida
a bolsa 
dessa ausência de todos.

Não consigo dormir
sem o ressonar dele
acertar o fôlego 
pela confiança 
da comédia
daquele coração deitado
e passando os dedos
pelo dorso dono
fechar estes olhos
vidrados à morte
exorcizando a mão
entre aquelas
pernas longas
até ao abandono.

Na volta descobrimos
que não nos deixámos.

Uns simplórios
é o que somos.

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(mais da autora aqui.)

Anne Sexton


As It Was Written


Earth, earth,
riding your merry-go-round
toward extinction,
right to the roots,
thickening the oceans like gravy,
festering in your caves,
you are becoming a latrine.
Your trees are twisted chairs.
Your flowers moan at their mirrors,
and cry for a sun that doesn't wear a mask.

Your clouds wear white,
trying to become nuns
and say novenas to the sky.
The sky is yellow with its jaundice,
and its veins spill into the rivers
where the fish kneel down
to swallow hair and goat's eyes.

All in all, I'd say,
the world is strangling.
And I, in my bed each night,
listen to my twenty shoes
converse about it.
And the moon,
under its dark hood,
falls out of the sky each night,
with its hungry red mouth  
to suck at my scars.

6.12.13

Queers Against Capitalist Crap

Anne Boyer




a form of sabotage

a form of sabotage in which you follow the book of rules exactly
a form of sabotage in which you will not print a word that is not the truth

a form of sabotage in which you open your mouth
a form of sabotage in which you shut it
a form of sabotage in which you repeat back only what you are told you should say aloud
a form of sabotage in which you say only what is said to you
a form of sabotage in which you say only what is said to you but never in so many words

a form of sabotage in which you adulterate the adulterated
a form of sabotage in which you adulterate something else
a form of sabotage in which you adulterate love, beauty, and springtime
a form of sabotage in which you adulterate critical theory, experimental literature, and the radical left
a form of sabotage in which you adulterate the german philosophers
a form of sabotage in which you adulterate the french poets
a form of sabotage in which you adulterate the lowest floating clouds

a form of sabotage in which you know you are the worker who makes herself as a product
a form of sabotage in which you know you are the content provider who provides herself as content
a form of sabotage in which you know you are the silk which dissolves in its folds
a form of sabotage in which you are the silk kept as strong as silk
a form of sabotage in which you are the gutter 
a form of sabotage in which you refuse to be silk or the gutter at all 

a form of sabotage in which you make the sharpest thing when they want the softest
a form of sabotage in which you make the kindest thing when they want the meanest
a form of sabotage in which you make the innocent thing when they want the ruthless
a form of sabotage in which you make the decorous thing when they want the useful
a form of sabotage in which you are boring 
a form of sabotage in which you are stupid
a form of sabotage in which you make the ugly thing, and the ugly thing, and the ugly thing 

a form of sabotage in which you make a material thing when they want an immaterial one
a form of sabotage in which you make an immaterial thing when they want a material one 
a form of sabotage in which you make the most perfect thing 

a form of sabotage in which you keep a full account  
a form of sabotage in which you have retained all the information 
a form of sabotage which is always your perfection
a form of sabotage which is the best job ever
a form of sabotage which is the level of contrition 
a form of sabotage in which you have merely forgot

a form of sabotage in which you will be precisely as they made you
a form of sabotage where you will offer a clear view of what is done to you
a form of sabotage in which you will not tell anyone the story
a form of sabotage in which you refuse to be a dialectician
a form of sabotage in which you are an eagle
a form of sabotage in which you are a tiger 
a form of sabotage in which you are already dead 

a form of sabotage in which you will not be lovers
a form of sabotage in which you will always be lovers
a form of sabotage in which there is no relation not of lovers
a form of sabotage in which I will always kiss you
a form of sabotage in which I will never kiss 

a form of sabotage in which you will not make slaves, not of yourselves or of your children
a form of sabotage in which you have weaponized your body
a form of sabotage in which you have weaponized your children’s bodies
a form of sabotage in which you have weaponized your jpegs
a form of sabotage in which you have weaponized your emails
a form of sabotage in which you have weaponized your books, chapbooks, magazines, journals, zines, communiques, and archives  
a form of sabotage in which you have weaponized your pdfs

and in your weaponized pdfs, the slow corroding of the tin can tinged with silk of the body of the silk-slaves which you have made from yourselves, of love then and the slow corroding, of the gutter then and all of the bodies who are lovers who did not know that they were lovers who are silent or saying everything who are not aleatory who are eagles who are no dialecticians who are already dead


26.11.13

Edwin Honig



        Elsewhere



Where are you going and when —
way around and coming out
who knows where?

Are you still turning
for going away
just not to be way out

and around here no more?


       


To Infinite Eternity



                       I  

Death is closer
to infinite eternity
than life is

and each life closer
to each least breath
than the blankness of
infinite eternity itself

          II

To think blankness
rouses certain terror
and in the feeling
the sudden sense

of self responding
down to the smallest
unaided particle

of its existence
as answer to
the blankness of
sure nonexistence

          III

Then infinite eternity
may be the opposite
of felt existence

durable as any
measurably
felt time

          IV

I say hello
to myself

and to break
the terror

of nonexistence
I restore my self

to existence whatever
the consequence



3.11.13

Depoimento à Comissão da Verdade na íntegra



A seguir o depoimento de Fátima Setúbal, minha amiga e companheira de lutas, liberado para divulgação e publicização



Depoimento de Maria de Fátima Oliveira Setúbal para a Audiência Pública da Chacina de Quintino à Comissão Estadual da Verdade – CEV-RIO
“O esquecimento está cheio de MEMÓRIA.”
(Mário Benedetti)

“Há casos em que se chorou muito anteriormente. Sabe-se, então, que a História vai mudar.”
(Ruy Duarte, poeta angolano)

À Comissão Estadual da Verdade e a todos os presentes:

            Meu nome é Fátima, nascida no Rio de Janeiro, em 1953. Sou professora de História da rede pública estadual de ensino, na cidade do Rio, onde resido.
            Sou mãe de dois filhos e fui agraciada com dois netinhos, que adoro.
            Vou procurar falar aqui com o coração.  É a minha emoção que está aqui, agora, com vocês.  Minha voz, embargada, neste momento, representa também, além da minha própria, algumas outras vozes que foram caladas à força durante os anos de repressão da ditadura militar, especialmente duas vozes: a de meus amados irmãos ANTONIO MARCOS e JANUÁRIO.
            Moramos em um casarão no subúrbio carioca, durante minha infância, e na minha adolescência a família já havia se mudado para a Tijuca.
            Fui criada em uma família numerosa (oito filhos), de classe média, de origem portuguesa e extremamente católica.  Meu tio Monsenhor Francisco Pinto, irmão de minha mãe, era padre e secretário do então Cardeal Eugênio Sales.  Três de meus irmãos mais velhos estudavam para serem padres, sendo que o mais velho foi estudar em Roma, num seminário próximo ao Vaticano, tendo desistido e retornado ao Brasil pouco antes de se ordenar padre.  Meus outros dois irmãos, protagonistas desta história, também estudavam para serem padres, já que este era o grande sonho de meus pais: ter filhos sacerdotes.  Eles desistiram da escolha sacerdotal e saíram do seminário por volta de 1966, dois anos após o golpe civil-militar de 1964, que arrasou o nosso país em todos os sentidos.
Estes irmãos eram JANUÁRIO JOSÉ PINTO DE OLIVEIRA, a quem chamávamos de JANU, cinco anos mais velho do que eu, e ANTONIO MARCOS PINTO DE OLIVEIRA, a quem chamávamos de MARCOS, três anos mais velho que eu.  Eles eram os irmãos mais chegados a mim, éramos os três “do meio”, e minha admiração por eles era ilimitada. Os dois eram a minha referência; sempre procurava seguir seus passos e comportamento. Com eles aprendi o gosto pela leitura, pela política, pela História, por poesia e literatura.
            Nossa história política se inicia, então, com a saída deles do Seminário e em sua entrada para a JEC (Juventude Estudantil Católica), por volta de 1966.  Efetivamente, tudo começou com a JEC, uma entidade católica progressista, onde a atuação dos jovens se baseava no ideal cristão de fraternidade e luta por justiça social, obviamente em oposição ao regime militar.
            Não cheguei bem a frequentar a JEC por ser muito jovenzinha nesta época (em 66 eu tinha 13 anos de idade), mas cheguei a ir a algumas reuniões, nas quais chegava com meus irmãos, assustada, escondida de meus pais, que eram adeptos de uma igreja institucional e conservadora.  Nas vezes em que fui às reuniões da JEC, fui logo apelidada de “IGUALZINHA” pelos companheiros.  Como outros jovens também se chamavam Marcos, o Janu e o Marcos foram apelidados de “OS IGUAIS”, e eu era a “IGUALZINHA”.
            Em 1967/68, época da efervescência das passeatas, começamos a participar do Movimento Estudantil.  Em 68, aos 15 anos, fundei um grêmio no meu colégio (Orsina da Fonseca) e criei um jornalzinho, por influência de meus irmãos. Estes  estudavam no Colégio João Alfredo (Marcos) e Rivadávia Correia (Janu), e eram líderes dos respectivos grêmios estudantis, que depois foram proibidos e fechados.
            Em dezembro de 1968, com o AI-5 e o recrudescimento da repressão, vários líderes estudantis e militantes foram presos, e meus irmãos saíram da JEC para ingressarem em uma organização clandestina: a ALA VERMELHA DO PC DO B.
            Em dezembro de 1969, JANU foi preso em casa e levado para o quartel da PE (DOI/CODI).  Minha família sofreu demais nesta ocasião. Tenho lembranças de horror, de invasões repetidas de privacidade por pessoas estranhas e hostis, vasculhando, com armas, apontando metralhadoras, vasculhando a nossa casa em várias horas do dia e no meio da noite.  O barulho violento, as ameaças, as agressões, tudo isso assombrava a todos nós, meus pais e irmãos, minha avó, gerando traumas que muito marcaram a minha família inteira.
            Nesta prisão do Janu, ao final de 1969, levaram meu pai, que também se chamava Januário, preso, antes de capturar o filho, fazendo-o passar por situações humilhantes, inclusive colocando-lhe capuz e empurrando-o de uma escada, verdadeiro terror.
            Janu foi torturado no DOI/CODI, e depois foi transferido para o quartel da Vila Militar, em Realengo, a partir do início de 1970.  Neste quartel, ele foi torturado pelo então Tenente Ailton Guimarães Jorge, que depois se tornou Capitão, e passou a ser chamado no DOI/CODI de “Doutor Roberto”. O CAPITÃO GUIMARÃES, mais tarde, passou a integrar a Liga Independente das Escolas de Samba, e a fazer parte da “máfia” do “jogo do bicho” e até de grupos de extermínio ligados à repressão, conforme investigações publicadas recentemente. Janu foi torturado pelo TENENTE AILTON GUIMARÃES, em 1970, no Quartel da Vila Militar, por se recusar a submeter-se a uma situação ridícula e vexaminosa perante oficiais superiores que visitavam aquela Unidade.  Seus colegas de cela, em solidariedade, fizeram greve de fome durante todo aquele dia e o seguinte.
            Em 1971, Janu já em liberdade, juntou-se ao nosso irmão Marcos (que estava, a essa altura, semiclandestino) e ambos romperam com a ALA VERMELHA DO PC DO B e passaram a fazer uma opção pela luta armada, indo engrossar as fileiras da organização clandestina Vanguarda Armada Revolucionária (VAR)-Palmares).
            Eu passei a ser “SIMPATIZANTE” da VAR, freqüentando grupos de estudo, encontrando companheiros que me davam “assistência política”. Todos tínhamos codinomes, por questão de segurança, inclusive eu, que era chamada de Márcia.
            Prosseguindo em sua militância na VAR, Janu e Marcos assumiram um trabalho comunitário, no qual também me integrei, dentro de uma igreja (Paróquia Nossa Senhora Medianeira), que era frequentada por diversos setores populares, em Osvaldo Cruz, bairro do subúrbio carioca. Essa igreja tinha como pároco um padre sensível e humanista, que logo se tornou adepto da “corrente progressista”.  Este se chamava Padre João Daniel de Castro.  Meus irmãos fundaram ali, na igreja comandada por este padre, o GRUJOC (Grupo de Jovens de Osvaldo Cruz)
Durante todo o ano de 1971 meus irmãos e eu, assim como amigos que foram dar aulas em um curso de “art. 99” (atual supletivo) para a comunidade local no salão paroquial, e também os jovens frequentadores que passaram a integrar o GRUJOC, passamos a nos reunir, com frequência, naquele espaço, e a estreitar vínculos de afeto e companheirismo.  Nas reuniões, tratávamos de reivindicações para a comunidade, desde as particulares (saneamento básico, educação, saúde, transporte, lazer, cultura...) às mais gerais (oposição ao regime e luta pelo fim da ditadura e por uma sociedade mais justa).
            No final de 1971, o DOPS invadiu a Paróquia e prendeu vários integrantes do GRUJOC, como também foram à minha casa, onde me levaram presa (esta foi a minha primeira prisão, aos 18 anos de idade).  Janu e Marcos conseguiram escapar.  O Padre Daniel entregou-se ao DOPS.  Este pároco era muito querido e respeitado pelos moradores da área.
            Desta forma, meus irmãos viram-se forçados a entrar para a clandestinidade, e passaram a ser procurados por todos os órgãos de “segurança” e repressão.
            Eu e os amigos do GRUJOC, assim como dois companheiros da VAR  (ex -presos políticos que conosco frequentavam aquele espaço, JOSÉ BENEDITO DE FREITAS – BENÉ, que era meu namorado, e ADAUTO DOURADO DE CARVALHO), também ficaram detidos no DOPS, onde sofremos humilhações, coações e torturas físicas e psicológicas.
            No começo de 1972, eu e a maior parte dos integrantes do GRUJOC fomos soltos, por pressão do meu tio padre (influente na Igreja, como disse), e pela corajosa atuação de nossos advogados: Modesto da Silveira, Osvaldo Mendonça, Nilo Batista, entre outros.
            Nessa época, a ditadura exercitava sua expressão máxima de terror no governo presidido pelo General Médici, prendendo, exilando, torturando, assassinando, ocultando corpos e mais todo tipo de crime, em nome da chamada “Segurança Nacional”.
            Em 29 de março de 1972, em uma sexta-feira santa, por ocasião de prisão e assassinato em massa de militantes da VAR-PALMARES, assim como de outras organizações revolucionárias, meu irmão ANTONIO MARCOS PINTO DE OLIVEIRA, com 22 anos de idade, juntamente com duas jovens: LÍGIA MARIA SALGADO NÓBREGA (então grávida), e MARIA REGINA LEITE LOBO FIGUEIREDO (viúva de Raimundo Figueiredo, desaparecido político em Recife desde 1971, com quem tinha duas filhas bebês, e namorada de meu irmão Antonio Marcos), foram surpreendidos por agentes do DOI/CODI, na Av. Suburbana (hoje Av. Dom Hélder Câmara), número 8985, casa 72, Quintino, RJ, sendo lá assassinados. Foi uma chacina, todos estavam desarmados e sem nenhuma possibilidade de defesa.
            Lígia, a gestante, foi logo a primeira a ser alvejada e morta, quando, na porta, já havia se rendido, avisando estar GRÁVIDA, segundo testemunho de vizinhos.
            Marcos e a namorada Maria Regina foram mortos a seguir, sendo que Marcos foi metralhado por todo o corpo (ver óbito entregue à Comissão), e há indícios de que foi submetido a torturas no local.  Ele “se passou” por JAMES ALLEN LUZ, o “CIRO” (“quadro” da Direção Nacional da VAR-PALMARES, procuradíssimo em cartazes espalhados pelo país), que lá estava e conseguiu escapar, sendo morto em perseguição policial no ano seguinte.  Meu irmão quis, ao saber que iria ser morto, “se passar pelo Ciro”, para que este pudesse escapar e continuar a militância.
            Quanto à Maria Regina, investigações e indícios apontam para o fato de que tenha sido baleada junto com Marcos, porém levada ainda com vida para algum outro espaço de repressão, provavelmente um hospital (HCE), onde veio a falecer.  Seus atestados de óbito (dos 3) foram assinados pelos médicos legistas VALDECIR TAGLIARI e EDUARDO BRUNO.
            Logo após este episódio, a “Chacina de Quintino”, JANU continuou clandestino, traumatizado ao saber da violência do assassinato do irmão e das companheiras.
            O corpo de MARCOS só nos foi entregue porque meu já citado tio padre fez pressão até no Vaticano para que o sobrinho não ficasse “desaparecido” e insepulto.  O enterro de MARCOS foi feito diante da presença de policiais que nos insultavam e ameaçavam, coibindo-nos, inclusive, de prantear o nosso tão amado familiar, vítima deste hediondo crime!
            A vizinhança da vila em que foram assassinados também sofreu horrores, pois os agentes fizeram do local e adjacências uma verdadeira praça de guerra, lançando granadas, metralhando a casa, aterrorizando os vizinhos,  moradores e tudo o mais com requintado sadismo.
            JANU, então, entra de vez para a clandestinidade.
            Cerca de um mês após a “Chacina de Quintino”, eu fui levada para a PE (DOI/CODI), presa em casa, pela segunda vez, ainda com 18 anos, para contar o paradeiro de meu irmão JANU.  Fui levada em um carro por 3 homens, que me encapuzaram e, ao chegar ao DOI/CODI, me despiram e me submeteram a toda espécie de torturas, físicas e psicológicas.  Tive muita hemorragia e fiquei com o rosto inchadíssimo e o corpo todo trêmulo (em consequência de choques elétricos) por muito tempo. Minha família acionou tudo e todos os que estavam a seu alcance para minha liberação. O GENERAL SÍLVIO FROTA, Comandante do Primeiro Exército, foi me visitar no DOI/CODI, e disse que tinha uma neta da minha idade, quando então perguntei o que ele faria se visse sua neta no estado em que eu estava. Ele não me respondeu, apenas disse que eu iria para um Hospital. Fui levada para o Hospital Central do Exército (HCE) em estado semicomatoso, tendo que receber diversas bolsas de sangue e ficar no soro com medicamentos por cerca de um mês e meio.  FIZ MEU ANIVERSÁRIO DE 19 ANOS PRESA NAQUELE HOSPITAL, e meus pais conseguiram informações de que eu estava presa lá, e me levaram um bolo de aniversário, que não pôde entrar na minha cela, tendo eles que voltar para casa com grande decepção e tristeza.  O caso foi parar no Vaticano para investigação, mais uma vez, por influência de meu tio padre.
            Saí do HCE e fui levada novamente para o DOI/CODI, onde fiquei mais um dia, e de lá fui solta, com os agentes me levando para o Ministério do Exército, na Av. Pres. Vargas (Central do Brasil), onde tive que comparecer semanalmente para assinar presença, na sala ao lado do Coronel Adyr Fiúza de Castro (outro comandante-torturador), durante dois meses.
            JANU foi preso pela segunda vez em 1973, sofrendo bastante tortura e quase perdendo a vida no DOI/CODI, onde permaneceu por mais de um mês, sendo em seguida transferido para o DOPS.  Respondia a quatro processos por auditores da Marinha, Exército e Aeronáutica.  Foi condenado a cerca de dois anos de prisão, conseguiu pelos advogados ter a pena reduzida, saindo da prisão em 1975, com graves sequelas físicas e psicológicas.  Sua vida, tão marcada pela repressão, encerrou-se tragicamente em 11 de fevereiro de 1983, durante a chamada “abertura política”, mas ainda no período ditatorial, sob o comando do General Figueiredo.
            Seu corpo, com sinais de enforcamento, foi jogado nos matagais de Rio do Ouro, em São Gonçalo, e, mesmo sem ter atestado de óbito, foi enterrado no Cemitério do Pacheco, São Gonçalo. JANU foi vítima de um crime com todas as características de Esquadrão da Morte e grupos de extermínio e hoje, como disse, sabemos da ligação entre estes grupos e os órgãos de repressão na ditadura.
            Assim relato a síntese de minha história e a de meus irmãos, no contexto político da ditadura militar brasileira.  Além dos irmãos e dos jovens citados, perdemos também dois amigos/companheiros de JEC, LUCIMAR BRANDÃO GUIMARÃES, assassinado nos porões da ditadura em Belo Horizonte (MG) e PADRE HENRIQUE PEREIRA NETO, assessor de Dom Hélder Câmara, torturado e morto em Recife, assim como tantos companheiros, homens e mulheres, mortos e desaparecidos políticos neste país, entre 1964 e 1985.    Meus irmãos, assim como Maria Regina Lobo e Lígia Nóbrega, e muitos outros companheiros, hoje são nomes de rua e logradouros na Cidade do Rio e em outras Cidades brasileiras.
            O crepúsculo dos anos de arbítrio desapareceu no horizonte carregando o seu arsenal de intolerância e autoritarismo.  A sombra da ditadura esmaeceu-se, levando consigo os dolorosos tempos de terror institucional que o povo brasileiro viveu.  Com erros e acertos, a sociedade vem tentando reparar os danos causados ao país.  Lembramos que esse reparo tem sido restrito à camada intelectualizada, em sua maioria egressa da classe média, cuja compreensão da realidade política daqueles dias de triste memória, os levou a resistir à usurpação do poder constituído.  O impressionante nos dias atuais é que a mentalidade opressora ainda continue viva, com práticas que são permanentemente atualizadas entre aqueles que, por culpa mesmo do Estado e das injustiças sociais cometidas, vivem na periferia das grandes e médias cidades brasileiras e nas inúmeras favelas.  Esta situação é hoje personificada pela figura do pedreiro AMARILDO, que se transformou em símbolo de tantas questões sem resposta ao longo dos tempos. Basta de impunidade! Queremos JUSTIÇA! A luta não acabou, continua!
“ A POLÍCIA QUE REPRIME, FERE E PRENDE NA AVENIDA É A MESMA QUE MATA NAS FAVELAS “.
            Enquanto essa mentalidade vigorar, nuvens cinzentas permanecem ameaçando o brilho de dias por vir, um novo PORVIR!
            Contudo, sabemos que, no final, é a VIDA, sim, que sempre VENCE!
            E é em louvor à VIDA que deixo aqui, registrados, um poema de Pablo Neruda, e um trecho poético de meu mano Marcos para mim. Faço isto em homenagem aos que tombaram na luta – meus irmãos - e tantos (as) outros (as) companheiros (as)!
            É, também, uma entrega às NOVAS GERAÇÕES, que precisam saber destas histórias, que fazem parte e ficaram para a História do Brasil.
            Para os meus/nossos filhos e netos, e para os filhos e netos deles.  A  luz  dissipa as trevas do arbítrio, e fazemos, assim, um tributo à VIDA!  Que venceu a ditadura venceu a tortura, venceu a morte!
            Valeu a pena!  Hoje preservamos a generosidade, a amizade, o companheirismo, o sonho de mudança, a utopia, a esperança, tudo isso que ninguém nunca vai poder matar! E que bom sabermos que tudo pulsa e está em constante movimento, como diz a canção, com “TANTA VIDA LÁ FORA”!...
“PARA QUE NUNCA MAIS SE ESQUEÇA, PARA QUE NUNCA MAIS ACONTEÇA!”
POR MEMÓRIA, VERDADE E JUSTIÇA!





Poemas:
CANTO GERAL
(Pablo  Neruda)
Vou chamá-los como se aqui estivessem:
Irmãos! Sabeis que nossa luta
Continuará na terra
Continuará na fábrica, no campo,
Na rua, nas minas,
Na cratera do cobre verde e vermelho,
Na grande cova do carvão.
Nossa luta estará em todas as partes.
E em nosso coração, estas bandeiras
Que presenciaram vossa morte,
Que se empaparam em vosso sangue,
Vão se multiplicar como as folhas
Da infinita primavera.



AINDA SEREMOS IGUAIS (Trechos)
 “DO IGUAL PARA A IGUALZINHA”
(...)
Eu sei que as coisas pequenas
Parecem se perder na imensidão
Mas que essa oferta seja amiga
E nos fortaleça a completar
A oferta incompleta
Da nossa vida toda
E a alegrar o nosso momento
Para, apesar de tudo,
Sermos alegres
Para a alegria
Geral.
(Antonio Marcos Pinto de Oliveira)
Para Fátima (“Igualzinha”) – do Marcos (“Igual”) - (1971)

            Quanto aos agentes da repressão,...
‘’ ...Eles passarão...
Nós ... passarinhos!...
(Licença, Quintana?!)





AGRADECIMENTOS
            Agradeço, com emoção e carinho a todos os integrantes da Comissão da Verdade Estadual – Rio, em especial ao Coordenador da Audiência Pública sobre a Chacina de Quintino João Ricardo Dornelles, e à equipe de pesquisa do caso (Ana Carolina, Denise Assis, Lucas), e também à Renata, Marta e a todos os que colaboraram, pela competência, dedicação e trabalho primoroso. O resultado deste conseguiu desmascarar a farsa da história oficial, divulgada pela mídia a partir do ocorrido, em 29 de março de 1972.
            Ao Grupo Tortura Nunca Mais – RJ, que auxiliou nas pesquisas, e nos apoiou sempre, historicamente parceiros na luta.
            Ao Grupo Testemunhos, em especial à Vera Vital-Brasil, que pacientemente me apoiou com freqüência, e também Cristiane, Eduardo, Tânia Kolker, e a todos os companheiros dos grupos que me apoiaram em tantos momentos, sendo alguns marcantemente difíceis e dolorosos para mim. No Grupo Testemunhos tive trocas enriquecedoras que muito me acrescentaram. Agradeço também à Cristina Rauter, minha terapeuta de tantos anos, ótima sempre!
            Ao amigo e companheiro Marcos de Carvalho, que tanto me ajudou contribuindo com esclarecimentos, sendo também farto em solidariedade, na prévia de meu depoimento neste evento.
            Aos filhos e netinhos amados, que tiveram de ser pacientes durante os cinco meses que antecederam a esta finalização, em que mergulhei na preparação deste depoimento e precisei me ausentar de nosso convívio.
            À Iara Lobo Figueiredo e à sua irmã Isabel, assim como Francisco e Olímpio Nóbrega, que já são, também, a minha família.
            Enfim, aos amigos, familiares e companheiros todos, minha gratidão e carinho!





Rio de Janeiro, 29 de Outubro de 2013.


                           __________________________________________
Maria de Fátima Oliveira Setúbal


Obs.: Nomes dos TORTURADORES:

VILA MILITAR – 1969 / 1970
Sargento Rangel
Sargento (ou Tenente) Hughes
Capitão Celso Lauria

P.E / DOI-CODI – início dos anos 1970
Capitão Ailton Guimarães Jorge
Tenente Jair
Coronel Adyr Fiúza de Castro
Amilcar Lobo (oficial médico)
Major Jacarandá
Major Demiurgo

DOPS – 1971
Inspetor Mário Borges
Inspetor Décio

MÉDICOS LEGISTAS
Valdecir Tagliari

Eduardo Bruno