30.3.03

SONETO


primeira estrofe primeiro verso
primeira estrofe segundo verso
primeira estrofe terceiro verso
primeira estrofe quarto verso

segunda estrofe primeiro verso
segunda estrofe segundo verso
segunda estrofe terceiro verso
segunda estrofe quarto verso

terceira estrofe primeiro verso
terceira estrofe segundo verso
terceira estrofe terceiro verso

quarta estrofe primeiro verso
quarta estrofe segundo verso
quarta estrofe terceiro verso


-- Gerhard Rühm, trad. MP.

29.3.03

ROLOS COMPRESSORES


Meu coração é um sólido objeto de borracha. Dentro tem dois pregos de vidro dolorosos e indignos. Pego esse objeto e, enquanto ele resiste com unhas e dentes, consigo escondê-lo com grande dificuldade na gaveta onde guardo ocultamente palavras e histórias do país das bicicletas. Não temo nem a virgem portadora do falo nem o homem de olhos peludos que sobe e desce a escada em trevas. Conheço desde criança o espelho das flores. Canto a glória dos rolos compressores, recito o salmo das garrafas enquanto a minha coruja de papel diz dentro dela -- com o seu funil -- precisamente a palavra "estrangeira".

-- Níkos Eggonópoulos

"... Tenho me dedicado, o que não deixará de surpreendê-lo, à especulação -- em parte com fundos americanos, mas sobretudo com ações inglesas, que este ano parecem cogumelos, de tanto que se multiplicam (mais do que qualquer sociedade por ações, verdadeira ou imaginária), subindo a patamares inteiramente despropositados para em seguida, na sua maioria, entrar em colapso. Com isto, já ganhei mais de 400 libras e, agora que a complexidade da situação política está ampliando as oportunidades, vou começar tudo de novo. É um tipo de operação que demanda pouco tempo. Vale a pena correr um certo risco para tomar o dinheiro do inimigo."

-- Karl Marx (correspondência particular, anos 1860), na biografia de Francis Wheen, Marx.

28.3.03

A CÓPULA


Depois de lhe beijar meticulosamente
O cu, que é uma pimenta, a boceta, que é um doce,
O moço exibe à moça a bagagem que trouxe:
Culhões e membro, um membro enorme e turgescente.

Ela toma-o na boca e morde-o, incontinenti
Não pode ele conter-se e, de um jacto, esporrou-se.
Não desarmou porém. Antes, mais rijo, alterou-se
E fodeu-a. Ela geme, ela peida, ela sente

Que vai morrer: "Eu morro! ai não queres que eu morra?!"
Grita para o rapaz, que aceso como um Diabo,
Arde em cio e tesão na amorosa gangorra.

E titilando-a nos mamilos e no rabo
(que depois irá ter sua ração de porra),
Lhe enfia cono a dentro o mangalho até o cabo.


-- Manuel Bandeira, 1962. Este surpreendente soneto de Bandeira, com nítida influência de Bocage, faz parte da coleção de Obras Raras da Biblioteca da Universidade de Brasília. Foi publicado pela primeira vez na revista Bric a Brac, Brasília, 1986.

27.3.03

À Kora

É em vão que os poetas tentam
Preencher o vazio
Com seus versos
E imagens.
O vazio retorna
Mais vácuo do que antes
E reclama
Novo recheio.

-- Os versos são de Valaorítis. O vazio que reclama sou eu.

26.3.03

Kaváfis


As janelas

Nestes quartos sombrios, os dias de estupor
que eu passo, a procurar em vão janelas por
toda parte. Que alívio não seria
uma janela aberta à minha frente.
Mas não as há, ou não posso achá-las. Seja como for,
melhor talvez não ter janelas ao dispor.
Talvez a luz trouxesse dores mais pungentes.
Quem sabe as novas coisas que não mostraria.

-

Acordei cedo para dar uma caminhada sozinha. O jardim está vazio e os passarinhos dividem comigo os contornos das calçadas. Eu devia estar contente pois venho emagrecendo espontaneamente sem precisar de dietas rígidas ou exercícios. Com o passar dos dias consigo ver meu corpo por inteiro refletido em superfícies cada vez menores: monitores de TV, copos de água, lentes de óculos e nas poças de chuva sob o banco no qual me sento para descansar.
Antes eu dividia este banco com meus amigos, mas agora o telefone já não toca mais como antigamente. O que ouço são portas que se abrem e fecham com cuidado, vozes abafadas e passos de pessoas indo e vindo pelos cômodos da casa.
Meu cabelo começou a cair, fio por fio, até restarem dois que eu tive de arrancar para não atrapalhar a peruca.
A peruca faz sombra no papel da carta que estou lhe escrevendo. Mas não me importo porque sei de cor o que devo dizer. Hoje tenho 25 quilos, nenhum cabelo e é domingo. Aguardo ansiosamente a sua visita.

25.3.03

Será esta voz
de amigos nossos, mortos,
ou o fonógrafo?


-- Seféris

Manifesto "Contra a Poesia"


Por que razão não gosto eu da poesia pura? Pelas mesmíssimas razões que me levam a não gostar de açúcar "puro". O açúcar é coisa deliciosa quando se o toma no café, mas ninguém se poria a comer uma pratada de açúcar -- seria demais. E em poesia o excesso cansa -- excesso de poesia, excesso de palavras poéticas, excesso de metáforas, excesso de nobreza, excesso de depuração e de condensação, excessos esses que assimilam o verso a um produto químico.
Como chegamos nós a isto? Quando um homem se exprime com naturalidade, quer dizer, em prosa, a sua linguagem abarca uma gama infinita de elementos que refletem por inteiro a sua natureza; mas há os poetas que procuram eliminar gradualmente da linguagem humana todo o elemento apoético, que querem cantar em vez de falar, que se convertem em bardos e em prestidigitadores, tudo sacrificando em prol do canto.
Quando um tal trabalho de depuração e de eliminação se mantém durante séculos, a síntese a que chega é tão perfeita que só restam algumas notas, e a monotonia forçosamente invade o domínio do melhor dos poetas. O seu estilo desumaniza-se, a sua referência deixa de ser a sensibilidade do homem comum, passando a ser a de um outro poeta, uma sensibilidade "profissional" -- e, entre profissionais, cria-se então uma linguagem tão inacessível como certos dialetos técnicos; e sobem uns para as costas dos outros, constroem uma pirâmede cujo cume se perde nos céus, enquanto nós, algo desconcertados, ficamos a seus pés. Mas o mais interessante é que todos eles se tornam escravos do seu instrumento, pois é tão rígido este gênero, é tão determinado, tão sagrado, tão reconhecido, que deixa de ser um modo de expressão; poder-se-ia então definir o poeta profissional como um ser que não se exprime porque exprime versos.

-- Witold Gombrowicz, no manifesto "Contra a Poesia", 1957.

24.3.03

É o amor. Terei de me esconder ou fugir.
Crescem as paredes de seu cárcere, como em um sonho atroz. A bela máscara mudou, mas como sempre é a única. De que me servirão meus talismãs: o exercício das letras, a vaga erudição, o aprendizado das palavras que usou o áspero Norte para cantar seus mares e suas espadas, a serena amizade, as galerias da Biblioteca, as coisas comuns, os hábitos, o jovem amor de minha mãe, a sombra militar de meus mortos, a noite intemporal, o gosto do sonho?
Estar contigo ou não estar contigo é a medida de meu tempo.
O cântaro já se quebra sobre a fonte, já se levanta o homem à voz da ave, já escureceram os que olham pelas janelas, mas a sombra não trouxe a paz.
É, eu sei, o amor: a ansiedade e o alívio de ouvir tua voz, a espera e a memória, o horror de viver no sucessivo.
É o amor com suas mitologias, com suas pequenas magias inúteis.
Há uma esquina pela qual não me atrevo a passar.
Agora os exércitos me cercam, as hordas.
(Este quarto é irreal; ela não o viu.)
O nome de uma mulher me delata.
Dói-me uma mulher por todo o corpo.

-- Jorge Luis Borges, "O Ameaçado".

22.3.03

Hollywood


Para ganhar o pão, cada manhã
vou ao mercado onde se compram mentiras.
Cheio de esperança
ponho-me na fila dos vendedores.

-- Brecht

A troca da roda


Estou sentado à beira da estrada,
o condutor muda a roda.
Não me agrada o lugar de onde venho.
Não me agrada o lugar para onde vou.
Por que olho a troca da roda
com impaciência?

-- Brecht

21.3.03

Mais um poeta dos bons na rede: Carlos Saraiva, do Um Dia Gnóstico. Entre outras coisas

Inquisição 2003:
esprema o papa,
até que escorra o
sumo pontífice

20.3.03

Josephine Hart


Nossa sanidade depende, essencialmente, de uma estreiteza de visão -- a habilidade de selecionar os elementos vitais à sobrevivência, ao mesmo tempo em que se ignoram as grandes verdades. Assim, o indivíduo vive sua vida cotidiana sem dar a devida atenção ao fato de que não há garantias de um amanhã. Ele esconde de si mesmo o conhecimento de que sua vida é uma experiência única, que chegará ao fim numa sepultura; que, a cada segundo, vidas tão únicas como a sua começam e acabam. Esta cegueira permite que um padrão de vida se perpetue ao longo do tempo, e são poucos os que desafiam este padrão e sobrevivem. Por um bom motivo. Todas as leis da vida e da sociedade pareceriam irrelevantes se cada homem se concentrasse diariamente na realidade da própria morte.

-- Em "Perdas e Danos".

19.3.03

Olhai:

novamente decapitaram as estrelas
ensangüentando o céu como um matadouro!


-- Maiakovski

17.3.03

Karl Krolow


Eu vejo de outro modo

Eu vejo de outro modo:
as palavras são resíduos
do capitalismo.
Não creio.
Digo neve, e sinto
o inverno de 1929 na boca.
Água, digo, afogando-me
outra vez no mar do Norte.
Fogo: uma de minhas mãos
continua ardendo desde
a última guerra.
Digo liberdade, e continuo sem saber
o que digo.


(trad. MP)

15.3.03

OFÉLIA


ofélia tem sede
ofélia tem sede

ofélia bebe um copo de água
ofélia bebeu um copo de água
ofélia bebe um copo de água
ofélia bebeu um copo de água
ofélia bebe um copo de água

tudo é azul
tudo é azul
tudo é azul
tudo é azul

ofélia vai chorar
ofélia vai chorar
ofélia chorou

ofélia

tudo é azul
tudo é azul
tudo é azul
tudo é azul

água fria
água fria
água fria que ofélia bebeu

tudo é azul
tudo é azul
tudo é azul
tudo é azul

faz calor
faz calor
faz calor

ofélia vai banhar-se
se despiu
se despiu

ofélia vai banhar-se
se despe
se despe

a água está quente
a água está quente

água quente

ofélia se chama ofélia

se despiu
se banhou
se despiu

chuva
chuva
chuva
chuva
chuva
chuva
chuva
chuva

ofélia vai se afogar

ofélia corre e o suor corre pela pele
ofélia corre e o suor corre pela pele
se afoga
ofélia corre

ofélia corre
ofélia corre
ofélia corre
e o suor corre pela pele

tudo é azul
tudo é azul
tudo é azul
tudo é azul

ofélia se afogou

não chove
não chove
não chove
não chove
não chove
não chove
não chove
não chove

ofélia é uma nuvem
ofélia é uma nuvem


-- Gerhard Rühm, trad. MP.

14.3.03

Margens

Ali está pendurado o mapa, todas as paredes são brancas, este é o país, esta é a costa, esta é a história, esta é a janela alta com as árvores do parque, acima, o céu, este é o DC 8 de todos os dias, esta é a gata Nina, hoje é sexta-feira, não parece verão, tudo continua igual, este é o coração que acaba de bater, ali vem outra vez o que se chama esperança, esta foi a duração de um cigarro, aproxima-se um prazo, este é Münchhausen que traz um javali preso pela corrente, isto é o mais próximo do que se fala, pronuncia-se o nome de Mila Schön, isto deve ser Milão, o copo cheio, o copo vazio, ali está sentada uma pessoa e está sentada à mesa e ergue os olhos da mesa, isso é outra coisa, esse é O continente interior, tão limpo como um Opel de Opel, ali está pendurado o gesso do kaiser Guilherme, ali são dez da noite e lá são oito da manhã, aquela mosca não voa, isso é o que importa, isso é o que alguém esquece, esse é o Mississippi, é a palavra que designa um rio, ali há um forno vazio e apagado, ali um bom rádio portátil e ali dois fragmentos de coluna, ali há algo para se sentar e lá para se sentar e deitar.
Lá fora cai um temporal, um bando de pássaros luta contra o vento até que escurece.

-- Jürgen Becker, "Margens", trad. MP.

12.3.03

obra póstuma do poeta


Entre os papéis do poeta Aluvião Malomar, foram encontrados rascunhos de poemas, idéias a serem desenvolvidas, bilhetes para ele mesmo com temas que obviamente pretendia usar em sua obra futura -- enfim, um verdadeiro tesouro de material inédito que seus editores fizeram muito bem em publicar, postumamente. Aluvião, como se recorda, esteve no noticiário dos jornais pouco antes da sua morte. Compareceu à delegacia de seu bairro para se queixar de perseguições fantásticas que estaria sofrendo, e que muito divertiram o plantão. Todos na delegacia sentiram a morte de, como o chamavam carinhosamente, "o doido aquele". O poeta era um asceta que vivia sozinho, voltado inteiramente para a sua arte. Três vezes por semana ia uma pretinha fazer a limpeza e as compras, mas é certo que Aluvião nem notava sua presença, tão absorto estava na criação do seu mundo imaginário.
No livro póstumo, agora oportunamente lançado, o material compilado, organizado e anotado por uma equipe de críticos estruturalistas dá uma nítida idéia do novo rumo que Aluvião pretendia para a sua poesia. De especial interesse para os estudiosos de sua obra é um poema semi-erótico que ele estava escrevendo em fragmentos, em pedaços de papel que os pesquisadores encontraram espalhados pelo seu quarto-e-sala, e que foram montados na seqüência aparente. O poema começa assim:
"Amanhã Doraci não me escapa. Coragem!"
É clara a intenção do poeta de experimentar um estilo mais coloquial para seus versos, ele que fora chamado "o último parnasiano", e que se notabilizara nos meios literários pela apaixonada defesa que fez do seu estilo numa monografia intitulada 117 Rimas Para Quimera, sem Contar a Primavera.
Na página 46, utilizando-se da forma revolucionária de uma lista de compras na feira, Aluvião vai mais longe na incorporação do cotidiano à sua imagística. O poema -- certamente ainda em embrião -- é assim:
"Chuchu, agrião, arroz
feijão e uma lata de óleo.
Ah, sim, e uma vassoura.
E passe no meu quarto para pegar
o dinheiro, Doraci."
Na página 47, o estilo torna-se mais elaborado. Sua intenção, agora indisfarçável, é a de contrastar a alegre fartura de uma feira livre com a contenção de sua misteriosa Doraci, um símbolo claro da fêmea enquanto pureza pré-cultural. Numa nota de pé de página, os compiladores chamam a atenção para esta quase paródia de um dos temas mais constantes do romantismo, que o poeta aqui renega.
"Alface, muita alface.
Aquelas batatas pequenas.
Miúdos de porco para o feijão.
Você ficou sentida comigo, Doraci?
Venha ao meu quarto,
que desta vez nada acontecerá.
Juro. O dinheiro está sobre a cômoda
longe da cama."
Página 48. Este esboço de verso intrigou os pesquisadores, pois parecia escrito por outra pessoa. É possível que, como utilizasse o ponto de vista da sua Doraci, o poeta tentasse escrever como a personagem escreveria. Há, inclusive, erros deliberados de ortografia.
"Seu Aluvião, assim não dá.
No seu quarto eu não entro mais.
Deixa o dinheiro na mesa da sala.
Olha que meu pai vai ficar sabendo.
Doraci."
Mas é a partir da página 49 que Aluvião começa a dominar o seu novo estilo. Seus versos ganham em força e expressão. Na certa seriam publicados como estão, se o autor não tivesse morrido tão misteriosamente.
"Doraci: Para o almoço,
quero carne assada, uma saladinha,
pêssegos em calda
e você."
O trecho seguinte é escrito, outra vez, na letra de Doraci.
"Seu Aluvião, meu pai descobriu tudo.
Vem aqui conversar com o senhor,
e meus irmãos também."
Na página 51:
"Doraci, diga a seu pai
que fiz queixa na polícia.
Se alguma coisa me acontecer,
eles saberão quem procurar.
Da feira não quero nada
E você está despedida."
Quando foi encontrado sem vida no poço do edifício, depois de ter-se jogado da área de serviço do seu apartamento -- certamente preso de profunda depressão por ter renegado o romantismo -- Aluvião tinha na mão o último verso desta admirável obra de sua surpreendente imaginação:
"Estão arrombando a porta.
Deve ser o pai da Do..."

-- Luís Fernando Veríssimo, 1978.

11.3.03

Gosto quando posso ouvir ao longe
a palavra ritmando a poesia.
Gosto de um certo ar parado
circulando o poema,
enquanto nasce a vontade fugidia.
Bem que podia a fome
fazer poetas em qualquer esquina,
eu ficaria dias,
esperando os dentes comerem
qualquer palavra minha.

-- Kora, "Tribal". Uma gratíssima surpresa, Kora está lá no Olhos Sobre Telas.

põe a mesa
come à mesa
levanta a mesa
trabalha à mesa

desmanivela-a
desce
é cama

faz a cama
abre a cama
brinca na cama
dorme na cama

desmanivela-a
desce mais
é caixão

entaipa o caixão
forra o caixão
entra no caixão
fecha o caixão

era a brincar
era a brincar

manivela-o
sobe
é cama

manivela-o
sobe
é mesa

põe os cotovelos na mesa


-- Alexandre O'Neill

9.3.03

Poetas e Vagabundos


O cartaz na parede ensinava "Beba mais leite" Dono do "flor do estácio" dizia que aquele cartaz era um bom negócio Era mesmo Tão bom que quando desabrigo mais miquimba acabaram de boiar e viram o cartaz se lembraram na mesma horinha de tomar umas batidas de limão Depois tiraram o gosto ruim do limão com umas batidas de abacaxi e só depois é que desabrigo sentiu umas porradinhas nas costas Virou pra ver quem tava dando e ficou cheio de vento quando evêmero falou que tinha vindo só por causa dele e mandou logo o garçom trazer três batidas duplas de tamarindo Apresentou também
-- Esse aqui é o miquimba que já boi bicheiro jogador de chapinha e agora vai ser beque do "poesia futebol clube"
-- Muito prazer
-- Muito prazer
Se apertaram as mãos e evêmero sentou Desabrigo pegou a falar
-- Sabe miquimba?...
Miquimba não sabia mas ficou sabendo que evêmero já tinha escrevido poesia no jornal e agora ia botar num livro a vida de todo vagabundo e mulher da vida que ele sobesse
-- ... não é seu evêmero?
Seu evêmero fez que sim com a cabeça e como já tava mais pra lá do que pra cá por causa das batidas deu de contar uma história comprida de miserê que acabou com um negócio assim
-- Sou poeta por ser vagabundo ou vagabundo por ser poeta? A resposta depende muito de quem faz a pergunta Do ponto de vista ético todo poeta é vagabundo e do ponto de vista estético todo vagabundo é poeta Poeta ou vagabundo em potencial mas sempre poeta e vagabundo ou vagabundo e poeta Ora se entre poetas e vagabundos a diferença é milimínima não acontece o mesmo entre vagabundos e malandros O primeiro é sempre um idealista e é portanto individualista enquanto que o segundo é pragmatista e é povo Há entre os dois a diferença quilométrica que há entre uma balada de françois villon e um samba de noel rosa...
Miquimba não tava pescando níquel e ia pedir pra ele trocar aquilo em miúdos quando desabrigo disse
-- Quando ele começa a falar difícil é porque já tá porradinho da silva

-- Antônio Fraga, em "Desabrigo e Outros Trecos", 1945.

6.3.03

A lenda macabra de Carlos Magno













Não sei se a história que vou relatar aqui é muito antiga ou se chegou aos meus ouvidos há muito tempo. Se  uma  verdade contada por tantos acaba virando mentira, peço que me perdoem se os detalhes da narrativa acidentalmente estropiarem a natureza dos acontecimentos. Pois a outra verdade até onde sou capaz de acreditar e de me lembrar é que o imperador Carlos Magno já era muito velho quando tudo isso aconteceu. Vivendo solitário em seu palácio de Aix-la-Chapelle, o rei, já tantas vezes viúvo, não tinha muito com o que se distrair além das infinitas reflexões acerca da sua sucessão. Os barões da corte, preocupados com a saúde frágil do rei que a cada dia parecia mais deprimido, e temendo que a morte súbita de Carlos Magno fizesse subir ao trono Pepino, o Corcunda, o primogênito herdeiro que não lhes convinha, decidiram em uma assembleia de notáveis que o rei precisava de uma rainha. E uma rainha jovem. O rei concordou com a decisão é só exigiu que ele mesmo escolhesse sua futura consorte. No entanto, o alívio de todos durou pouco porque, para surpresa geral, a escolhida foi uma jovem donzela alemã, criada do palácio. As bodas foram realizadas com toda a pompa e em pouco tempo o rei deixou de lado a sua tristeza para entregar-se a uma paixão amorosa irrefreável que fazia com que se esquecesse de sua dignidade real e negligenciasse os deveres da coroa. Do nascer ao pôr do sol o casal era visto em folguedos sensuais, totalmente nus, correndo pelos jardins do palácio ou se esgueirando pelos corredores, sem se preocupar ou se intimidar com a atenção de olhos estranhos, fizesse chuva, fizesse sol. A situação passou do constrangimento abafado ao escândalo declarado. A vida íntima do rei era motivo de chacota nas tavernas mais longínquas. Quando um dia a jovem esposa do rei caiu doente, vindo a falecer subitamente não se sabe se de friagem ou envenenada, os dignitários respiraram aliviados, mas por pouco tempo, pois o amor de Carlos Magno não morreu com ela. Inconsolável, o imperador mandou embalsamar o corpo morto de sua amada e ordenou que o colocassem em seu leito nupcial, recusando-se a se separar dele. Todas as noites o rei deitava-se ao lado do corpo frio de Constança. Tal paixão macabra espalhou-se pelo vento chegando aos ouvidos sagrados do papa que, suspeitando de bruxaria, enviou um emissário para solucionar o mistério daquela obsessão necrófila. Em chegando ao palácio, o bispo exigiu uma vistoria completa do corpo insepulto da rainha, a ser realizada por ele mesmo. Vasculhando aqui e ali, erguendo pernas e braços, examinando dedos, separando fio por fio da farta cabeleira da jovem morta, o bispo nada encontrou. Seria preciso um exame das cavidades. Por onde começaria? Achou menos grotesco começar pela boca. Afastou com dificuldade os lábios rígidos e ao puxar para fora a gélida língua, seus dedos esbarraram num metal frio. Banhado em saliva, um anel encimado por uma pedra preciosa pulou na palma da mão do bispo, que guardou-o consigo para posteriores exames. E assim, um dia depois, surpreendentemente, o rei mandou sepultar o cadáver da rainha e, esquecido de tudo, passou a perseguir o bispo pelos corredores do palácio, derramando-se em gentilezas. Desdobrava-se em mimos e elogios, lançando olhares lânguidos constantes ao religioso, situação que deixou toda a corte e o próprio bispo presos de visível embaraço. O bispo, não suportando mais aquele estado de coisas e vendo-se impedido pelo rei de viajar de volta à presença do papa, desesperou-se e, numa noite fria, após muitas orações e sentindo que seu coração fosse desfalecer, correu até as cercanias do palácio, carregando o amaldiçoado anel, e lançou-o no primeiro charco que avistou. No dia seguinte e nos muitos dias que se seguiram até sua morte, Carlos Magno nunca mais foi visto em qualquer dos aposentos do palácio. Apaixonado pelo charco, ao qual chamava de Lago de Constança, o imperador nunca mais se afastaria de suas margens e era visto frequentemente aspirando com voluptuosidade todo o odor fétido de sua lama. Pepino, o Corcunda, jamais subiria ao trono do pai. Com a alma coberta de ressentimento, o que chamava de Deus, virou monge copista e posteriormente magister officiorum da Casa do Senhor, onde inventou esta história. Debruçado sobre códices e pergaminhos, seu ofício incansável  provocou-lhe a alcunha com que é conhecido até hoje.



5.3.03

salto quântico


predo, logo existo.

penso, logo existo.

reconheço padrões, logo existo.




3.3.03

Vinicius de Moraes




O ônibus Greyhound atravessa o Novo México


Terra seca árvore seca
E a bomba de gasolina
Casa seca paiol seco
E a bomba de gasolina
Serpente seca na estrada
E a bomba de gasolina
Pássaro seco no fio
(E a bomba de gasolina)
Do telégrafo: S.O.S.
E a bomba de gasolina
A pele seca o olhar seco
(E a bomba de gasolina)
Do índio que não esquece
E a bomba de gasolina
E a bomba de gasolina
E a bomba de gasolina
E a bomba de gasolina...


(1962)




1.3.03

Waly Salomão

Derradeira photo: mágoas de caboclo: estou levando uma vida de sábio santo solitário: acordo ao romper da barra do sol me levanto saio pra passear nos arredores ouvindo passarinhos indo até a fonte dágua vendo a cidade do Corcovado cantando pra dentro: