27.6.07

Bruno Tolentino






A grande alma penada



Se Baudelaire, à diferença de Pascal,
odiou a amplidão
e não soube conter a vertigem do mal
no drama da razão,


terá sido talvez porque insistiu em ver
o olhar que usurpa e mata:
a Medusa da Idéia, esse avatar do ser
que vai virando estátua.


Pascal calou-se ante os silêncios infinitos
e ouviu de Deus a cura;
o outro, o ceifador do mal, saiu aos gritos,
como um louco à procura


da comiseração que os abismos não têm.
A simples diferença
entre o temor a Deus e o pânico de alguém
que O não escuta é imensa.


Um radical, um jansenista, um puritano
da estirpe de Pascal,
teme a misericórdia de Deus (se não me engano);
mas nem em Port Royal,


aquela fortaleza do orgulho, houve lugar
jamais para um bueiro
de que o Céu se tornasse a tampa tumular
e o velho desespero


a bússola da vida, ou um contrapeso a ela.
Vira a alma penada
o poeta imortal que ao abrir a janela
vai do Infinito ao Nada.





24.6.07

a orelha


From: dx@hotmail.com
To: bx@editorax.com.br
Sent: Monday,February 19,2007
Subject:Re:Proposta


B., meu caro

Li o livro de X. e gostei. Sem dúvida, o autor tem talento. Os pontos fracos são bem menos significativos que os pontos fortes. A presença do tempo como uma força que oprime e fragmenta a vida dos narradores é interessante. Não gostei, porém, dos textos que seguem o formato típico de textos de blog (a enumeração de gostos e ações dos narradores), acho que não funcionam bem no suporte livro. Mesmo assim, vou recusar o convite de escrever a orelha, o que não tem nada a ver com o meu julgamento do livro de X. Apesar de 200 reais fazerem falta a quem vive de frila, só assino orelhas de livros pelos quais eu tenha uma admiração extraordinária ou de autores com quem tenha vínculos de amizade ou afinidade. Espero que compreenda a minha posição. Ando também sem tempo pois me ocupo do meu próprio livro a ser lançado mês que vem pela editora xxg. Se eu tiver alguma chance, contudo, poderei elogiar o livro de X. no meu blog, em entrevistas ou conversas, pois trata-se realmente de um bom livro.

um abraço,

D.


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19.6.07

Mário Cesariny



Afinal o que importa não é a literatura

nem a crítica de arte nem a câmara escura

Afinal o que importa não é bem o negócio

nem o ter dinheiro ao lado de ter horas de ócio

Afinal o que importa não é ser novo e galante

-- ele há tanta maneira de compor uma estante

Afinal o que importa é não ter medo: fechar os olhos frente ao precipício

e cair verticalmente no vício

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Versos da "Pastelaria" de Mário Cesariny.

15.6.07

Bolero


Qué vanidad imaginar
que puedo darte todo, el amor y la dicha,
itinerarios, música, juguetes.
Es cierto que es así:
todo lo mío te lo doy, es cierto,
pero todo lo mío no te basta
como a mí no me basta que me des
todo lo tuyo.

Por eso no seremos nunca
la pareja perfecta, la tarjeta postal,
si no somos capaces de aceptar
que sólo en la aritmética
el dos nace del uno más el uno.

Por ahí un papelito
que solamente dice:

Siempre fuiste mi espejo,
quiero decir que para verme tenía que mirarte.

Y este fragmento:

La lenta máquina del desamor
los engranajes del reflujo
los cuerpos que abandonan las almohadas
las sábanas los besos

y de pie ante el espejo interrogándose
cada uno a sí mismo
ya no mirándose entre ellos
ya no desnudos para el otro
ya no te amo,
mi amor.


Julio Cortázar

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13.6.07




Quer botar na rua o seu livro engavetado? Veja aqui dicas para o autor inédito.


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11.6.07

Sátira contra as molheres

Sátira contra as molheres


Esforça-te meu coraçom,
nom te mates, se quiseres,
lembra-te que sam molheres.

Lembra-te qu’é por naçer
nenhûa que nam errasse
lembra-te que seu prazer,
por bondade e mereçer,
nam vi quem dele gostasse,
pois nam te dês a paixam,
toma prazer se poderes,
lembra-te que sam molheres.

Descansa, triste, descansa,
que seus males sam vingãças,
tuas lagrimas amansa,
leix’as suas esperanças.
Ca pois naçem sem rezã,
nunca por ella lh'esperes;
lembra-te que sam molheres.

Tuas mui grandes firmezas,
tuas grandes perdições,
suas desleais nações
causaram tuas tristezas.
Pois nam te mates em vão,
que quanto mais as quiseres,
verás que sam molheres.

Que te presta padeçer,
que t'aproveita chorar,
pois nunc’outras ham de ser,
nem sam nunca de mudar?
Deix’as com sua naçam,
seu bem nunca lho esperes;
lembra-te que sam molheres.

Não te mates cruamente
por quem fez tam grande errada,
que quem de si nam sente,
por ti nam lhe dará nada.
Vive lançando pregam
por hu fores e vieres,
que sam molheres, molheres.

Espanha foi já perdida
por Letabla hûa vez,
e a Troia destroida
por males qu’Elena fez.
Desabafa, coraçam,
vive, nam te desesperes,
que quem fez pecar Adam
foi a mãi destas molheres.



Jorge d'Aguiar, Portugal, séc. 15.

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8.6.07

Por que os touros são melhores do que os críticos literários



Touros não fazem resenhas. Touros de 25 anos não casam com velhas de 55 nem esperam ser convidados para o jantar. Touros não o citam como testemunha em processos de divórcio. Touros não pedem dinheiro emprestado. Touros ainda servem para se comer depois de mortos.



(Hemingway em carta a Ezra Pound de 1925. A carta faz parte de uma coleção de 1.000 documentos históricos encontrados recentemente em uma lavanderia de uma mansão na Suíça. O colecionador era um banqueiro austríaco falecido em 2005. Entre as peças raras estão cartas de Napoleão a Josefina, de Churchill, de Pedro o Grande, Puchkin, John Donne, Gandhi entre outros. A coleção será leiloada mês que vem e já foi avaliada em quase 5 milhões de dólares.)

5.6.07

e. e. cummings



maggie and milly and molly and may
went down to the beach (to play one day)

and maggie discovered a shell that sang
so sweetly she couldn't remember her troubles, and


milly befriended a stranded star
whose rays five languid fingers were;

and molly was chased by a horrible thing
which raced sideways while blowing bubbles: and

may came home with a smooth round stone
as small as a world and as large as alone.

For whatever we lose (like a you or a me)
it's always ourselves we find in the sea