28.12.05




naquela época tínhamos um texas


e um dia, vi que tudo tinha um fim, menos o convento das carmelitas. As fronteiras históricas do sentimentalismo. Enquanto a croácia pensa, o brazil bronzeia os mamilos. Saio de dentro dele e vejo pela janela bêbados de pijama jogando truco na praça. O natal já passou, deixando simone com cara de aracy de almeida. Lágrimas da puberdade não secam. Sonhei que a ditadura militar tinha voltado e que eu era presa. Eu negociava com um sargento enquanto minha amiga levava porrada na cara. Algumas vezes soa melodramático. Conheci um poeta famoso que me disse que ouvia as vibrações do mito, as catástrofes do mundo, as evocações do silêncio. Ele caía como um elefante sobre o papel. Não sei o que foi feito dele. Também pouco importa, agora estou surda. Vozes polimorfas não me alcançam. Foi fácil. Acabei de ler o livro de GGM. Está caduco. Escreve caduco para leitores caducos. Não digo que parece caduco. É caduco. Afogado na senilidade. Mas seus personagens vendem muito. Escrevem bem. Como quando se aprende a andar de bicicleta, ninguém esquece. É infinita a imaginação dos autores quando ouvem falar em royalties. Não condeno. A vida é difícil para poucos. Para a maioria, resta o inferno. Dia desses vou lhe pedir um autógrafo. Entro nele outra vez e ela passa com as pernas de fora pela esquina. Os bêbados de pijama param de jogar. As pernas dobram a rua. Como se nada fossem. Esquecemos. Eu gozo, tomo um café e me submeto à realidade. Ele fica lá deitado. Tive um professor que dizia que se é pra se submeter à realidade, um escritor não devia nem escrever. O bom escritor tem de vencer a realidade, vencer o desespero. Acho que estávamos falando de coisas diferentes. Aquela versão olímpica da literatura não me convencia. O desespero é meu e ninguém tasca. "O tempo vai dizer qual texto sobrevive." Que bobagem. Como se palavras e idéias fossem vinho. Caducos. Caducos. Palavras velhas perpetuam idéias velhas, mesmo que não pareça assim e sua beleza nos confunda. Que bunda. Nada é mais chato do que "conversar sobre a literatura de hoje". Gozo outra vez. Um dos bêbados de pijama acena pra mim com um sorriso. Feliz ano novo, ele grita. Não sabe que estou surda. Pouco adiantaria ouvi-lo. Eu não sei jogar truco. Vou passar o ano novo fodendo.



20.12.05

17.12.05

Guia para ter cultura de Paulo Francis 1991



Pedem minha ficha acadêmica para jovens vestibulandos... Não tenho. Tentei um mestrado na Universidade Columbia em Nova York 1954, mas desisti, aconselhado pelo professor-catedrático Eric Bentley. Achou que eu perdia o meu tempo. Li toda a literatura relevante, de Ésquilo a Beckett, e sabia praticamente de cor a Poética de Aristóteles. Em alguns meses se lê tudo que há de importante em teatro. Li e reli anos a fio.
Mas, sem o doutorado ou nem sequer mestrado, me proponho fazer algumas indicações aos jovens, que, no meu tempo, seriam supérfluas, mas que, hoje, talvez tenham o sabor de novidade. Falo de se obter cultura geral. É fácil.
Educação era a transmissão de um acúmulo de conhecimentos. Hoje, é uma adulação da juventude, que supostamente deve fazer o que bem entende, estar na sua, como dizem, e o resultado é que os reitores de universidades sugerem que não haja mais nota mínima de admissão, que se deixe entrar quem tiver nota menos baixa. Deve haver exceções, caso contrário o mundo civilizado acabaria, mas a crise é real, denunciada por gente como o príncipe Charles, herdeiro do trono inglês, e por intelectuais como Alan Bloom, que consideram a universidade perdida nos EUA. No Brasil, houve a Reforma Passarinho nos anos 1980. A ditadura militar tinha o mesmo vício da esquerda. Queria ser popular. Era populista. Quis facilitar o acesso universitário ao povo, como reza o catecismo populista. Ameaça generalizar o analfabetismo.
Não há alternativa à leitura. Me proponho apontar alguns livros essenciais ao jovem, um programa mínimo mesmo, mas que, se cumprido, aumentará dramaticamente a compreensão do estudante do mundo em que está vivendo.
Começando pelo Brasil, é indispensável a leitura de Os sertões, de Euclides da Cunha. É curto e não é modelo de estilo. Euclides escreve como Jânio Quadros fala. É cara do far-te-ei, a forma oblíqua de que Jânio se gaba. Mas o livro é de gênio. Nos dá a realidade do sertão, que é, para efeitos práticos, o Brasil quase todo, tirando o Sul; a realidade do sertanejo, e do nosso atraso como civilização, como cultura, como organização do Estado. Euclides mostra o choque central entre o Brasil que descende da Europa e o Brasil tropicalista, nativo, selvagem. Euclides apresenta argumentos hoje superados sobre a superioridade da Europa, mas nem por isso deixa de estar certo. Tudo bem ter simpatia pelo índio e o sertanejo, o matuto, mas nosso destino é ser, à brasileira, à nossa moda, um país moderno nos moldes da civilização européia. Euclides começou o livro para destruir Antônio Conselheiro e a Revolta de Canudos, mas se deixou emocionar pela coragem e persistência dos revoltosos e terminou escrevendo um grande épico, em prosa, que o poeta americano Robert Lowell, que só leu a tradução, considera superior a Guerra e paz, de Tolstoi.
Mas o importante para o jovem é essa escolha entre o primitivo irredentista dos Canudos e a civilização moderna, porque é o que terá de enfrentar no cotidiano brasileiro. É o nosso drama irresolvido.
Leia algum dos grandes romances de Machado de Assis. O mais brilhante é Memórias póstumas de Brás Cubas. Para estilo, é o que se deve emular. O coloquialismo melodioso e fluente de Machado. É um grande divertimento esse livro. Eu recomendaria ainda para os que tem dificuldade de manejar a língua O memorial de Aires. É o livro mais bem escrito em português que há.
Os gregos são um dos nossos berços. Representam a luz e a doçura, na frase de um educador inglês, Mathew Arnold (também poeta e crítico). Arnold falava contra a tradição judaico-cristã, dominante na nossa cultura, na nossa vida, a da Bíblia e do Novo Testamento, que predominaram no mundo ocidental desde o século V da Era Cristã, quando o imperador romano Constantino se converteu ao cristianismo. Estudos gregos sérios só começaram no Século XIX, quando se tornaram currículo universitário, porque antes os padres e pastores não deixavam.
Mas leia originais. Escolhi quatro. Depois de se informar sobre Platão na enciclopédia do seu gosto, se deve ler A apologia, que é a explicação de Sócrates a seus críticos, quando foi condenado à morte, e Simpósio, um diálogo de Platão. Platão não confiava na palavra escrita. Dizia que era morta. Preferia a forma de diálogo.
Na Apologia se discute o que é mais importante na vida intelectual. A liberdade de ter opiniões contra as ortodoxias do dia. Ajudará o estudante a pensar por si próprio e ter a coragem de suas convicções.
Depois, o delicioso Simpósio. É uma discussão sobre o amor, tudo que você precisa saber sobre o amor sensual, o altruístico, o que chamam de platônico, é o amor centrado na sabedoria.
Platão colocou, à parte Sócrates, seu ídolo, no Diálogo, Aristófanes, o grande gozador de Sócrates. Na boca de Aristófanes põe uma de suas idéias mais originais. Que o ser humano era hermafrodita, parte homem parte mulher, e que cada pessoa, depois da separação, procura recuperar sua parte perdida, e daí a predestinação da mulher certa para um homem e do homem certo para uma mulher.
Imprescindível também ler As vidas, de Plutarco, o grande biógrafo da Antiguidade. Ficamos sabendo como eram os grandes nomes em carne e osso, de Alexandre, paranoico, a Júlio César, contido, a Antônio e Cleópatra. Shakespeare baseou grande parte de suas peças em Plutarco e leu em tradução inglesa, porque Shakespeare, como nós, não sabia latim ou grego. E, finalmente, como história, leia A Guerra do Peloponeso, de Tucídides. É sobre a guerra entre Atenas, Esparta, Corinto e outras, durante 27 anos, no século V antes de Cristo. Lendo sobre Péricles, o líder ateniense, Cleon, o führer espartano, e Alcebíades, o belo, jovem e traiçoeiro Alcebíades, nunca mais nos surpreenderemos com qualquer ato de político em nossos dias. É o maior livro de história já escrito. Sempre atual.
Da Roma original basta ler Os Doze Césares, de Suetônio, e Declínio e queda do Império Romano, de Gibbon. Mais um banho de natureza humana.
Meu conhecimento científico é quase nenhum. Mas li, claro, a Lógica da pesquisa científica, de Karl Popper, quando entendi o que esses cabras querem. Para quem quer um começo apenas, recomendo o prefácio do Novum Organum, de Francis Bacon, que quer dizer, o título, novo instrumento, e Bacon explica o método científico e o que objetiva a ciência. E para complementá-lo leia o prefácio dos Os princípios matemáticos da filosofia natural, de Isaac Newton, e o prefácio de Bertrand Russell e Alfred North Whitehead de seus Princípios da matemática. Também vale a pena ler a História da filosofia ocidental, de Bertrand Russell, e o capítulo sobre Positivismo lógico que é a filosofia calcada no conhecimento científico. Em resumo, tudo que pode ser provado lógica e matematicamente, é filosofia.O resto não é. Acho isso perfeitamente aceitável. Dispenso o resto.
É nas artes que está a sabedoria. Como viver bem sem ler Hamlet, de Shakespeare? Está tudo lá em linguagem incomparável, é de uma clareza exemplar, tudo que nós já sentimos, viremos a sentir, ou possamos sentir.
Preferi citar junto com Shakespeare uma peça grega, que considero vital: Antígona, de Sófocles. Há uma tradução de Antígona, em verso, por Guilherme de Almeida, que Cacilda Becker representou no Teatro Brasileiro de Comédia.
Antígona é o que há de melhor na mulher. É a jovem princesa cujos irmãos morreram em rebelião contra o tio, o rei Creon, e ela quer enterrá-los, porque na religião grega espíritos não descansam enquanto os corpos não são enterrados. Creon não quer que sejam enterrados, como advertência pública a subversivos. Antígona desafia Creon. Ele manda matá-la. Ela morre. Seu noivo se suicida. É o filho de Creon, que enlouquece. Parece um dramalhão, mas não é. É a alma feminina devassada em toda sua possibilidade fraterna. Hegel achava que Antígona era o choque de dois direitos, o direito individual e o direito do Estado. E assim definiu a tragédia.
A melhor história de Roma é a de Theodore Mommsem. A melhor história da Renascença é a de Jacob Buckhardt. Tudo que você precisa saber.
E aprenda com um dos mais famosos autodidatas, Bernard Shaw (o outro é Trotski). Leia todos os prefácios das peças dele. São uma história universal. Um estalo de Vieira na nossa cabeça. Em um dia você lê todos. Anotando, uma semana. Também vale a pena ler a Pequena história do mundo, de H.G.Wells, superada em muitos sentidos, mas insuperável como literatura.
Passo tranquilo pelo Iluminismo. Foi tão incorporado a nossa vida, que não é necessário ler Voltaire ou Diderot. Os livros de Peter Gay sobre o Iluminismo são excelentes. Dizem tudo que se precisa saber. Se se quer saber mesmo o que foi o cristianismo, a obra insuperada e As confissões de Santo Agostinho, uma das grandes autobiografias, à parte a questão religiosa.
Não é preciso ler Origem das espécies, de Darwin, mas é um prazer ler Viagens de um naturalista ao redor do mundo, as aventuras de Darwin como botânico e zoólogo, a bordo do navio inglês Beagle, nos anos 1830, pela América do Sul, com páginas inesquecíveis sobre Argentina, Brasil e Galápagos, que está até hoje como Darwin encontrou (e o Brasil e Argentina, na sua alma?)
Houve três grandes revoluções no mundo, a americana, a francesa e a russa. A literatura não poderia ser mais copiosa. Mas basta ler, por exemplo, Cidadãos, de Simon Schama, para se ter um relato esplêndido da revolução interrompida, 1789-1794, na França, e concluir com o livro de Edmund Wilson, Rumo à Estação Finlândia. Schama é conservador, Wilson não era, quando escreveu, fazia fé, ainda na década de 1930, como tanta gente, na Revolução Russa. Mas a esta altura, e mesmo antes de ele morrer, em 1972, é fácil notar que a Revolução Russa não teve o Terror interrompido, como a Francesa, mas continuou até Gorbachev revelar o seu imenso fracasso.
O melhor livro sobre a Revolução Francesa é História da Revolução em França, de Edmund Burke, de 1790, que previu o Terror de Robespierre e Saint-Just. Se o estudante quer um livro a favor da Revolução Francesa, leia, o título é o de sempre, o de Gaetano Salvemini. A favor da russa a de Sukhanov, que a Oxford University Press resumiu num volume, ou A Revolução Russa, de Trotski, um clássico revolucionário. Mas os fatos falam mais alto que o brilho literário de Trotski.
Sobre a Revolução Americana não conheço livro bom algum traduzido, mas por tamanho e qualidade, um volume só, sugiro a da editora Longman, A History of the United States of America, do jovem historiador inglês Hugh Brogan, 749 págs, apenas, quando comprei custava US$ 25. Tem tudo que é importante.
Em economia, a Abril publicou 50 volumes dos principais economistas. Eu não perderia tempo. Têm tanta relação com a nossa vida como tiveram Zélia e a criançada assessora. Mas há o Dicionário de Economia, também da Abril. Quando tascarem o jargão, você consulta para saber, ao menos, o que significa a embromação. Economia se resume na frase do português: quem não tem competência não se estabelece.
Dos romances do século XIX, Guerra e paz, de Tolstoi, e Crime e castigo, de Dostoievski, me parecem absolutamente indispensáveis. Guerra e paz porque é o retrato completo de uma sociedade como uma grande família, porque rimos e choramos sem parar, porque contém um mundo e as inquietações do protagonista, Pierre Bezhukov, que até hoje não foram respondidas. Crime e castigo, porque exemplifica toda a filosofia de Nietzsche de uma maneira acessível e profundamente dramática, de como o cérebro humano é capaz de racionalizar qualquer crime, que tudo é relativo, em suma, a pessoa que pensa e age, como Raskolnikoff, o protagonista. Vale tudo. Dostoievski, para nos impedir de aniquilar uns aos outros, acrescenta que não se pode viver sem piedade.
Dos modernos, Proust é maravilhoso, mas penoso, Joyce é desnecessário, mas vale a pena ler as obras-primas de Thomas Mann, A montanha mágica, para saber o que foi discutido filosoficamente neste século, e Dr. Fausto, que leva o relativismo niilista que domina a cultura moderna e de que precisamos nos livrar, se vamos sobreviver culturalmente, como civilização, e não como meros consumidores, num nível abjeto de satisfação animal.
Há muitas obras que me encantaram e não estou, de forma alguma, excluindo autores ou quaisquer livros. A lista que fiz me parece o básico. Em algumas semanas, duas horas por dia, se lê tudo. Duvido que se ensine qualquer coisa de semelhante nas nossas universidades. Se eu estiver enganado, dou com muito prazer a mão à palmatória.


15.12.05

Roberto Schwarz

Depois do telejornal


Pela terceira vez explico a manobra legal usada contra os pretos ativistas à velha tia surda que visito em Nova York. Seus olhos cansados postos em mim, também as mãos, são da irmã que envelhece noutro continente. Está aqui desde 42. Fugiu aos nazistas em 39, foi internada em 40 num campo francês, em 41 passou para um quartel em Casablanca, perdeu a mãe em Buchenwald e costurou seis dias por semana, 25 anos, numa fábrica de roupas no Bronx. Sem entender acena ao sobrinho do Brasil -- onde as coisas vão mal -- a cabeça que não pacienta mais com as lutas infindáveis do planeta. -- Sei que você vai dizer que explico fatos sociais como se fossem naturais, e vai pensar que sou uma velha. Mas às vezes acredito nalgum defeito genético do homem. Senão por que este gosto de brigar? É tudo muito, muito triste, e eles enquanto isto, os donos da vida como dizem os outros, os donos dos meios de produção -- a lepra do mundo, me entenda bem! a lepra do mundo -- nos acabam de trabalho, desemprego, guerra ou loucura.

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Divagações no cais


Há fuga de capitais
devido às medidas policiais
nesta não acredito mais
onde estais
que não nos achacais
meus sentimentos nacionais
diluem-se mais e mais
estranha essa paz
o que será que preparais

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Vejo num globo terrestre
de portaria de hotel
a familiar cara larga
e torta do Brasil
simpática, geografia
não é história




- Em Corações veteranos, 1974.

13.12.05




E a primeira, e a primeira, e a primeira memória, memória que tenho, que tenho de meu pai é dele me colocando no refrigerador. Ele tinha o hábito de tirar toda a roupa do meu corpo de cinco anos de idade e eu ficava sentada nua naquela prateleira prateada da geladeira. ... Então ele se abaixava em direção à gaveta dos legumes, abria a gaveta e tirava as cenouras, o aipo, a abobrinha, os pepinos. E aí ele começava a trabalhar o meu buraquinho, meu pequeno buraquinho, meu pequeno pequeno buraquinho. Meu buraquinho de menina. Me mostrando "como é ser como a mamãe", ele diz. Me mostrando "como é ser uma mulher, ser amada. Essa é uma tarefa para o papai", ele me diz. Trabalhando meu buraquinho. ... Então ouço minha mãe chegar em casa. E ela começa a gritar a plenos pulmões. "O que aconteceu com os legumes do jantar de hoje? Você andou brincando com sua comida de novo, menina? Eu ia fazer a receita favorita do seu pai." Eu apenas quero gritar, mas não posso, claro, "Mamãe, abra seus olhos! VOCÊ NÃO SABE QUE EU SOU A FAVORITA DO PAPAI?"



Karen Finley, no monólogo do "Refrigerador", San Francisco, 1990. Na foto, a polêmica autora e performer atuando em George and Martha, 2004.


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7.12.05

Oswald de Andrade



Fatigado
Das minhas viagens pela terra
De camelo e táxi
Te procuro
Caminho de casa
Nas estrelas
Costas atmosféricas do Brasil
Costas sexuais
Para vos fornicar
Como um pai bigodudo de Portugal
Nos azuis do clina
Ao solem nostrum
Entre raios, tiros e jabuticabas.



Oswald de Andrade, "Fim de Serafim", 1929.


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6.12.05

Poesia africana

Poesia africana -- 2 momentos



Ser tigre


O tigre ignora a liberdade do salto
é como se uma mola o compelisse a pular.

Entre o cio e a cópula
o tigre não ama.

Ele busca a fêmea
como quem procura comida.

Sem tempo na alma,
é no presente que o tigre existe.

Nenhuma voz lhe fala da morte.
O tigre, já velho, dorme e passa.

Ele é esquivo,
não há mãos que o tomem.

Não soa,
porque não respira.

É menos que embrião
abaixo do ovo,
infra-sémen.

Não tem forma,
é quase nada, parece morto.

Porém existe,
por isso espera.

Epopéia, canção de amor,
epigrama, ode moderna, epitáfio,

Ele será
quando for tempo disso.


(Arménio Vieira, Cabo Verde, 1999.)

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Em teus dentes


Em teus dentes
o sol
é diamante de fantasia
a lua
caco-de-garrafa
e
a mentira
verdade vagabunda
errando de cágado
em torno da lagoa dos olhos da noite
na treva aveludada
de tua pele
os dedos curiosos
são estrelas de marfim
à busca
de um dia caprichoso
despontando de miragem
por detrás das corcundas de elefantes adormecidos


(Arlindo Barbeitos, Angola)



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4.12.05

Tudo começou quando eu tinha 12 anos. E agora vou ter de contar isso por escrito porque meu médico mandou. Não estou com a menor paciência para revelações íntimas a esta altura da vida e ainda por cima domingo à noite. Mas o médico diz que escrever vai me ajudar porque ele acha que eu preciso de ajuda. Diz que tudo que é escritor é maluco e que só não estão trancafiados num hospício porque a sociedade ainda valoriza os livros porque dão um bom dinheiro a quem disfarça bem a maluquice. Ele disse isso, eu fiquei olhando, tentando entender por que o meu caso era motivo de comentários sobre literatura. Eu quero mais é que os escritores se fodam se eles gostam de lavar o rabo em público, mas parece que meu médico não pensa assim quando pensa. Eu quando penso, penso exatamente assim. Eu não gosto de lavar o rabo em público e vou ter que lavar porque tudo começou quando eu tinha 12 anos e um dia acordei gorda e peluda. Pêlos debaixo do braço, nas pernas, na buceta. E a pele inchada. Camadas de gordura se acumulando por baixo, sem que eu tivesse feito qualquer coisa que provocasse isso. Modificaram meu corpo sem a minha autorização. Os médicos disseram que era normal. Ouvi uma conversa de hormônios, tireóide, glândulas disso, glândulas do caralho e todos aqueles polissílabos que hoje qualquer ignorante diplomado ou não aprendeu a repetir na televisão sem entender xongas. Porque gente burra é mercadoria que não falta. E daí eu tinha 12 anos, acordei peluda e gorda e peguei uma gilete e cortei tudo. Pêlos e pele. Eu me furei como se fura um balão de aniversário, pra ver se desinchava. Não desinchou e fui parar no hospital. Fiquei umas duas semanas lá, até passar o risco de infecções. Voltei magra. Precisava ver. Meus pais até passaram a reparar em mim. Não bem em mim, mas na minha tentativa de suicídio, o que me pareceu o novo nome que eles deram pra mim. Tentativa de Suicídio, sexo feminino, branca, 12 anos. Não tive do que reclamar. A rua inteira, o colégio, o pessoal da praia, todos passaram a me ver com novos olhos. Eu me conferira um novo poder. Eu agora tinha poder sobre o meu corpo. Podia modificá-lo quando bem quisesse. Quando o mundo se acostumava com minha aparência, eu mudava tudo. Fazia dietas sucessivas de engorda e emagrecimento. Cabelo curto, cabelo grande. Loura, morena, grisalha, ruiva, verde, roxa. Alta, baixa, banho tomado, suja. Roupa nova e limpa, rasgada e fedorenta. Isso pra falar o mínimo que não estou aqui pra dar detalhe a vagabundo. Hoje em dia ninguém se mete mais. Médicos, especialistas, amigos ou parentes. Eles sabem que isso é coisa minha. Que sou feliz assim. E sempre forneço um espetáculo à parte. Devem se divertir à minha custa, os pobres de espírito. Falam pelas minhas costas, que eu sei. Eles pensam que vivo de costas. Que se fodam. Já foi determinado, é minha lei, ninguém se meta com o prazer que tiro de minhas experiências com o corpo. Quem não se interessa, que se foda também. A quem se interessa posso dizer que já fiquei 3 semanas sem dormir, 3 meses sem comer, 4 meses sem me mexer sentada numa cadeira de frente pra parede, 17 minutos debaixo d'água, 39 horas dentro de uma sauna na temperatura máxima, 4 dias sem roupa num freezer de açougue, troquei de cara 6 vezes, 23 transfusões de sangue, provei tudo que é droga e remédio, posso dizer isto tudo e muito mais mas não quero me exibir. Eu morri? Não morri. Se quisesse contar vantagem tinha aceito a proposta de um primo idiota e ido trabalhar num circo fazendo dupla com a gorila da mãe dele. Não fui. Será que meu médico vai gostar deste relato? Acho que não, médicos já ouviram falar de cada coisa, são todos pervertidos. Se ele soubesse da surpresa que estou preparando pra ele, não ia desfilar por aí com aquela carinha bonita que estou querendo pra mim.



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2.12.05

Gregório de Matos


QUANTA ADMIRAÇÃO QUE LHE CAUSARAM AS MUDANÇAS DO SÍTIO.


Ou o sítio se acabou,
ou o mudaram daqui,
ou eu às cegas o vi,
e a cegueira me cagou:
quando o sítio me logrou,
ou eu o sítio lograva,
o sítio me enfeitiçava,
pelo sítio me morria,
pelas fêmeas, que ali via,
pelas saídas, que achava.

Havia umas fermosuras
mui ledas, e mui louçãs
para qualquer sim mui chãs
para qualquer não mui duras:
hoje há quatro más figuras
mui presumidas, e inchadas,
querem-se muito adoradas,
porém com pretexto errado,
e é que ao fazer do pecado
são fidalgas estiradas.

Outras putinhas malsins
me têm cercado de sorte,
que por ver-me em mãos da morte
não me dão descarga aos rins:
mas como nestes confins
tenho tanta parentela,
dando uma vista a Castela
me deparou logo Amor
na terra uma linda flor,
no céu uma rica estrela.

Fretei-a a pouco trabalho,
e mui pouco me custou,
porque era do ferro, ou
porque era amiga do alho:
veio buscar-me sem falho,
inda durava o luar,
não veio para ficar,
mas eu contudo finquei-o:
com que se a ficar não veio,
contudo veio a fincar.

Como tenho já segura
a carne no garavato,
me rio, que o sítio ingrato
tenha, ou não tenha fartura:
porque em sendo conjuntura,
que é lá pela noite alta,
nunca a Mulatinha falta,
e dêem-me outra Parda forra
em que tudo isto concorra,
geme, gosta, atura, e salta.



Gregório de Matos


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