31.3.05

O futuro na paixão


José Castello



A cultura no novo século -- o tema me é proposto por Carminha Guerra e seu seminário "A Arte do Encontro/ Uma reflexão sobre as artes no século XXI", que se realiza entre 28 de março e 01 de abril no Teatro Alterosa, em Belo Horizonte. O assunto é vasto, pode parecer vago, mas toca na aflição mais extrema que atormenta escritores, artistas e intelectuais nesse momento. O que será da cultura, em um mundo cada vez mais veloz, pragmático e "profissional"? A arte ainda terá lugar (e que lugar?) num tempo em que a internet e a televisão se tornam universais, formando uma rede de uniformidade e de repetição que encobre todo o planeta? Enfim: ainda haverá espaço para os escritores e para a literatura em um mundo gerido pelas imagens, pela superficialidade e pela síntese?

A minha resposta para as três perguntas, apesar de todos os indícios pessimistas, é: sim. De fato, o novo século começa com uma tendência, que parece irreversível, à padronização, à superficialidade e à razão prática. O mundo de hoje, mais que nunca, exige resultados - na economia, na política, no campo jurídico, na engenharia, na pesquisa científica. É um mundo cada vez mais "profissional" e que cada vez tem menos tolerância com amadores e aventureiros. Isso é bom? A verdade é que é. Se contratamos um arquiteto, queremos que ele não cometa erros na construção de nossa casa. De um médico, exigimos seriedade e bons resultados. De um advogado, idoneidade e esperteza. Os atletas são treinados com métodos científicos para chegar a marcas precisas. A todos eles, pedimos basicamente uma coisa: competência.

Só que nada mais distante da cultura e da arte que a idéia de eficácia. A arte, dizia o filósofo alemão, é o caminho que não leva a parte alguma. Sua matéria prima é a gratuidade, a perplexidade, a hesitação, a liberdade. Um pintor pode estudar na melhor academia, um músico pode contratar o melhor mestre, um escritor pode ser o melhor leitor dos clássicos; mas não será isso que irá determinar se ele será, ou não, um grande pintor, um grande músico, um grande escritor. Há algo espontâneo, imprevisível e obscuro, que entra em jogo e que decide o destino do artista. Um artista não é competente, é brilhante. Ou arranca uma luz especial do que faz, ou será apenas um burocrata da criação.

O problema é que é justamente esse aspecto não mensurável e irracional, é justamente essa força sombria e indomável que, agora, está a se perder. A praticidade, o senso de lucro, a busca de efeitos e de resultados invade a cultura. A um pintor, hoje, se pede que suas telas sejam vendáveis. A um escritor, que seus escritos sejam compreensíveis e acessíveis. A um músico, que sua música seja agradável e digerível. Os artefatos culturais são observados, cada vez mais, como objetos de consumo, quer dizer, como peças de um mercado, o mercado da arte. Se esse quadro não combina com a parede de minha sala, eu me desinteresso. Se aquele livro exige um pouco mais de minha atenção, eu me canso e o dispenso. Se essa música não me traz harmonia e tranqüilidade, eu a ignoro. Pede-se à arte que ela seja tão confortável quanto uma poltrona e tão aconchegante quanto um bom agasalho. Em outras palavras: que não nos faça pensar, sentir e, sobretudo, sofrer.

Mas a cultura - a arte - não é o terreno dos resultados, e sim das origens. É misteriosa a origem da criação e ninguém a experimenta se uma boa dose de entrega e de risco. Um artista cria a partir de sua experiência pessoal, da cultura que acumulou, dos saberes que lhe transmitiram; mas cria, também, a partir do que desconhece, do que não domina e, até, do que o assusta e submete. A qualidade da arte se guarda muito além de qualquer cálculo, de qualquer etiqueta de qualidade e de qualquer "boa procedência". Por isso a cultura é, continua a ser, tão importante: em um mundo cada vez mais prático e previsível, ela coloca em cena o desconhecido e o que não se pode controlar. Num mundo uniformizado, ela traz de volta a surpresa. Num mundo "profissional", quer dizer, que se guia por projetos e métodos claros e se pauta por resultados objetivos, ela recoloca em cena o ato tormentoso da paixão.

Penso em um poema esplêndido de Vinicius de Moraes, infelizmente não muito lembrado: a "Carta aos Puros", que ele escreveu em fins dos anos 50. E que, no entanto, parece ter, hoje, uma brutal atualidade. "Ó vós, homens sem sol, que vos dizeis os Puros/ e em cujos olhos queima um lento fogo frio", o poeta começa seu poema. "Vós de nervos de nylon e de músculos duros/ capazes de não rir durante anos a fios". Nesse quatro primeiro versos, está quase tudo dito. A frieza, a praticidade, a dureza, a sobriedade são atributos que, com o passar dos anos, se tornaram ainda mais prestigiados e dominantes. Volto a lembrar do arquiteto, do médico, do economista, do político: é bom que assim seja. Mas a arte nada tem a ver com o mundo prático. A cultura e a arte tratam, justamente, daquele outro terreno em que perdemos o controle sobre nossas vontades, em que nos assombramos com nós mesmos e em que nos sentimos numa contínua, ainda que criativa, perplexidade.

Nada mais distante da poesia e da arte que a pureza, que o rigor, que a exatidão, e Vinicius sabia muito bem disso. Ao contrário, ele pensava, a poesia é o terreno da impureza. É o lugar do deslize e da imperfeição. "Ó vós, homens iluminados a néon/ seres extraordinariamente rarefeitos/ vós que vos bem-amais e vos julgais perfeitos/ e vos ciliciais à idéia do que é bom", escreveu o poeta. A arte lida com os dejetos do mundo pragmático, com tudo aquilo que não produz efeitos e que não gera resultados - as "inutilidades", de que nos fala outro grande poeta, Manoel de Barros. O inútil, o imprestável, o repulsivo: esses são os objeto de paixão na arte. Caminho que não leva a parte alguma, a arte só traz o sujeito de volta a si mesmo e a àquilo que em si desconhece.

Na medida em que lidam com universos tão extremos, a arte e a cultura não podem ser feitas sem um elemento fundamental: a paixão. Quando falamos da arte, é da paixão que se trata. Se não fosse assim, por que João Gilberto Noll se isola e leva meses, anos à fio debruçado sobre os originais de um romance? Por que José Celso Martinez passa noites e noites ensaiando e repetindo a mesma peça? Por que Tomie Othake se afasta do mundo para se debruçar, em silêncio, sobre suas cores e telas? Por que Walter Salles investe tanta força e fúria para produzir seus filmes? Sem paixão, a postura desses artistas perderia o sentido. Sem paixão, ninguém faz arte.

Contudo, o mundo pragmático de hoje quer nos convencer de que a arte, como qualquer outra atividade humana, pode ser ensinada na escola. Quer nos persuadir de que ela é uma questão de competência, quem sabe de bom comportamento, ou de títulos. O mundo de hoje acha que os artistas, ou são "profissionais", isto é, produzem para o mercado, para os patrocinadores e para os doutores e especialistas, ou não têm interesse algum. "Ó vós que desprezais a mulher e o poeta/ em nome de vossa vã sabedoria", escreveu Vinicius. Nada contra o saber, ao contrário. Mas a arte, embora exija certo grau de competência, de mestria, não é, em definitivo, o lugar do saber. É o lugar da exaltação, do irracional, do susto. O lugar da paixão.

Não é preciso ficar no terreno da cultura. Hoje, quando tudo o que se pede é saber e competência, elementos como o impulso, o devaneio e a intuição caem em desprestígio. Em um mundo cada vez mais voltado para efeitos práticos e para fatos mensuráveis, se torna cada vez mais importante -- embora cada vez mais estreito -- o lugar destinado à gratuidade. "Ó vós que pedis pouco à vida que dá muito", escreveu ainda Vinicius, se referindo assim às terríveis limitações que esse muito objetivo e seco impõe à existência humana.

O que se pode esperar, então, da cultura no novo século? Nada mais adequado do que esperar aquilo que mais nos falta: a paixão. Porque essa é a função da arte, se é que ela serve para alguma coisa: injetar intensidade e arrebatamento em um mundo que, mesmo quando funciona da melhor maneira, tende cada vez mais à superficialidade, à monotonia e à repetição. "Ó vós que vos negais à escuridão dos bares/ onde o homem que ama oculta o seu segredo/ vós que viveis a mastigar os maxilares/ e temeis a mulher e a noite, e dormis cedo", escreveu Vinicius. Está tudo dito: no mundo da clareza e do funcional, a arte nos traz um pouco de segredo e de escuridão. Num mundo objetivo e forte -- dizemos, errando, "masculino" -- a arte nos leva em direção ao impreciso, ao subjetivo e à fraqueza -- diz-se, errando também, ao "feminino". Artistas não têm sexo, têm, isso sim, um modo particular de se conectar com a vida.

Da cultura, não se pede rigor, mas susto. Ao artista, não se pede competência e certezas, mas hesitação e perturbação. Do escritor não se espera a palavra bem dita e o português castiço, mas a palavra plena e o pensamento devastador. Se a arte serve para alguma coisa, é para colocar em dúvida as nossas certezas e ilusões. Ao artista, ao escritor, ao intelectual, como já escreveu Edward Said, se pede, hoje mais do que nunca, que seja novamente um amador. Amador não só no sentido daquele que se dedica a sua arte por prazer e com liberdade, mas daquele para quem a arte é, antes de tudo, um ato de paixão.



-- Artigo publicado em 26.03.05 no Estado de Minas.

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30.3.05

antroponímia

Abrilina Décima Nona Caçapavana Piratininga de Almeida
Alce Barbuda
Barrigudinha Seleida
Cafiaspirina Cruz
Chevrolet da Silva Ford
Cólica de Jesus
Colapso Cardíaco da Silva
Comigo é Nove na Garrucha Trouxada
Dezêncio Feverêncio de Oitenta e Cinco
Éter Sulfúrico Amazonino Rios
Foca Bilota
Gerunda Gerundina Pif Paf
Graciosa Rodela D'Alho
Hepotamedes Maria Good Good
Himeneu Casamentício das Dores Conjugais
Ilegível Inelegível
Inocêncio Coitadinho Sossegado
Janeiro Fevereiro de Março Abril
Joaquim Casou de Calças Curtas
José Marciano Verdinho das Antenas Longas
Jotacá Dois Mil e Um
Kussen Pestana
Letsgo
Magnésia Bisurada do Patrocínio
Maria da Segunda Distração
Maria Panela
Maria Passa Cantando
Maria Tributina Prostituta Cataerva
Naída Navinda Navolta Pereira
Ocricocrides de Albuquerque
Pália Pélia Pília Púlia dos Guimarães Peixoto
Pedrinha Bonitinha da Silva
Placenta Maricórnia da Letra Pi
Restos Mortais de Catarina
Sete Rolos de Arame Farpado
Soraiadite das Duas a Primeira
Última Delícia do Casal Carvalho
Voltaire Rebelado de França


-- nomes de brasileiros registrados em cartório.

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19.3.05

Anna Akhmatova



Poeta


Que grande mistério este trabalho,
esta vida de nenhuma agrura:
espiar qualquer coisa da música
e fazê-la passar por coisa sua.

E intrometer por entre as linhas
um scherzo de outrem bem alegre,
jurando que na luz das pradarias
é teu pobre coração que geme.

Roubar qualquer coisa aos pinheiros
da negra floresta taciturna,
enquanto ergue os seus nevoeiros
a toda a volta a cortina de bruma.

E ir procurar - impudica -,
por onde calha e me aventuro,
alguns pedaços da vida oblíqua
e, ao silêncio da noite, tudo.



Anna Akhmatova, 1959.

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16.3.05

Cantiga de Amiga


"A gente nunca está só de verdade. Nossos sentidos conversam uns com os outros, a razão discute com a imaginação, tudo numa sublime camaradagem", dizia Ju para A. quando passei pelo sofá da sala. Ora, eu conhecia essa frase, o autor dessa frase. Levei uns 15 segundos para baixá-lo da memória. Era uma frase idiota que poderia ter sido dita por qualquer idiota, mas tinha dono. Mário de Andrade. Fui lentamente até a janela para tomar um pouco de ar. Parado. Nenhuma folha das palmeiras centenárias da Paissandu se mexia. Eu suava por baixo da camiseta preta. Dei um gole na coca, virei as costas para a rua e encarei as duas com meu olhar lombrosiano. Nada. Eu era uma cebola. Elas conversavam animadamente, pelo visto sobre a recente viagem de A. ao norte do país. Entrei na Billie Holiday do porta-retrato sobre a mesinha para ouvi-las mais de perto. A. garantia que havia provado ensopado de jacu com uísque. As duas riram. E riram. E riram. Ainda estavam rindo quando Ju disse que ia estudar literatura galega medieval no ano que vem. A. não acreditou. E riram outra vez. Ju explicou que há muito tempo era apaixonada pela literatura galega. Que nutria por seus autores "um não sei quê, que nascia não sei onde, vem não sei como e dói não sei por quê". A. suspirou. Eu engasguei. Outra citação? As duas suspiraram. E suspiraram. Depois começaram a cochichar e eu perdi o final da história.

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10.3.05

Waly Salomão

A memória é uma ilha de edição -- um qualquer
passante diz, em um estilo nonchalant,
e imediatamente apaga a tecla e também
o sentido do que queria dizer.

Esgotado o eu, resta o espanto do mundo
não ser levado junto de roldão.
Onde e como armazenar a cor de cada instante?
Que traço reter da translúcida aurora?
Incinerar o lenho seco das amizades
esturricadas?
O perfume, acaso, daquela rosa desbotada?



A vida não é uma tela e jamais adquire
o significado estrito
que se deseja imprimir nela.
Tampouco é uma estória em que cada minúcia
encerra uma moral.
Ela é recheada de locais de desova, presuntos,
liquidações, queimas de arquivos,
divisões de capturas,
apagamentos de trechos, sumiços de originais,
grupos de extermínios e fotogramas estourados.
Que importa se as cinzas restam frias
ou se ainda ardem quentes
se não é selecionada urna alguma adequada,
seja grega seja bárbara,
para depositá-las?

Antes que o amanhã desabe aqui,
ainda hoje será esquecido o que traz
a marca d'água d'hoje.


Fragmento de "Carta Aberta a John Ashbery", 1995.

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