30.12.06



"Às vezes tudo de que a gente precisa está bem debaixo de nossos pés", me disse assim desejando um feliz 2007 o escritor, poeta e amigo Cesar Cardoso. Vou andar de ponta-cabeça, talvez me inspire mais. Quanto a Saddam, parece que foi só questão de retirar a cedilha. Não lamento, ele que faça boa companhia a Pinochet. Só me espanta o fato de vivermos ainda na era medieval. Em todos os sentidos. Só mudou a perfumaria. Um feliz 2007 a todos. Espero que dê. Beijos.

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22.12.06




Merry Christmas darling

we're apart that's true

but I can dream and in my dreams

I'm Christmas-ing with you




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6.11.06

Mais um lançamento: Guimarães Rosa em foco






Premiado pela Associação Nacional de Pós-Graduação em Letras e Lingüística (ANPOLL), o livro de Deise Dantas analisa o texto do escritor mineiro, mostrando a contigüidade entre o sertão dos jagunços e o humilde cotidiano dos trabalhadores das fazendas de pecuária. O lançamento é amanhã, terça-feira, na Travessa de Ipanema. Deise, amiga e ex-colega das letras pátrias, e eu convidamos a galera deste blog. Apareçam. Até lá.

atualizando: No mesmo dia, na Travessa, haverá os lançamentos do livro de Francisco Bosco (filho do João) sobre Caymmi e o do Eucanaã Ferraz, sobre Vinicius, lançados pela Publifolha. Tudo no mesmo horário. Os da Publifolha no primeiro piso e o da Deise do Rosa no segundo, ok? Valeu a dica, Claudia. (Nossa, poema por metro agora? ara.)

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22.10.06





gaudérias


avô meu grande avô, o de bombachas, costumava percorrer a estância tomando um verde. Me lembro dele num churrasco preto-e-branco enquanto percorro o calçadão do Leme ao Túnel Novo. A única herança que deixou, além da genética estampada na minha cara, foi essa foto de bolso e um revólver prateado, regalo do general Flores da Cunha. O revólver se perderia, roubado por um assaltante carioca décadas depois. Morreu sem que eu o conhecesse, ou lembrasse, quase cego, diabético, atropelado na capital quando atravessava a rua. Já meu outro avô, o paterno, o das lavouras de arroz arcaico, explodiu de infarto durante uma gargalhada na mesa do almoço sem que eu o conhecesse também. Dele não me sobrou nem a imagem. Subindo o Morro da Babilônia, à meia-guampa, sei que deveria evitar lembranças de muito contraste. O sol deve estar sempre atrás de quem filma, uma regra básica. Daqui não posso ver mais a praia. Meu coração de balneabilidades. Henry James dedicou certa vez 10 páginas só para descrever uma agência de correios, por isso poetas amadores como eu, de perspectiva ainda chucra, devem dar preferência ao detalhe. Ater-se à cuia e bomba de metal. Fazer menos história e mais bonomia. A linguagem é uma virgem que se deve transformar em prostituta universal, não o inverso. Automóveis entram e saem do túnel. Escrevo agora a mais de 3 metros do objeto. Não é uma distância ideal. Nódoas de família não se lavam nem com toda água do Camaquã.




16.10.06




Quase todas as nossas desgraças nos advêm
de não termos sabido ficar em nosso quarto.


Pascal

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3.10.06



Topei hoje com este artigo do jornalista Altamiro Borges que me refrescou a memória de detalhes que eu já tinha esquecido e me trouxe novas informações de coisas que eu não sabia. Trata-se de uma pequena biografia do candidato do PSDB. Aviso que as opiniões nele expressas não necessariamente refletem a opinião deste blog. Fiquem à vontade, se quiserem ler e acharem útil. Bom, divertido não é. Um abraço.
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A obsessão autoritária de Alckmin


Na sua propaganda eleitoral de rádio e televisão, o presidenciável Geraldo Alckmin tem se esforçado para negar a imagem do político de direita, autoritário e centralizador. Na biografia fabricada pelos alquimistas do marketing, garante que ingressou na política na luta contra a ditadura. No maior cinismo, afirma: "Eu sou de centro-esquerda, um social-democrata." Mas um rápido levantamento confirma que sua formação é realmente conservadora, com sinistras ligações com a seita fascista Opus Dei, e que a sua atuação como governador de São Paulo foi marcada pela criminalização dos movimentos populares, pela montagem de uma equipe excludente de tecnocratas, a "turma de Pinda", e pelo total desrespeito ao Poder Legislativo.

Natural de Pindamonhangaba, no interior de São Paulo, desde a infância ele conviveu em sua própria casa com políticos reacionários, alguns deles envolvidos na conspiração que resultou no golpe militar de 1964, e com simpatizantes do Opus Dei, seita religiosa que cresceu sob as bênçãos do ditador espanhol Augusto Franco. Seu pai militou na União Democrática Nacional (UDN), principal partido golpista deste período; um tio foi prefeito de Guaratinguetá pelo mesmo grupo; outro foi professor do Mackenzie, que na época havia sido convertido num dos centros da direita fascista. Alckmin ingressou na política em 1972, convidado pelo antigo MDB para disputar uma vaga de vereador. Na ocasião, diante do convite formulado por seu colega do curso de medicina, José Bettoni, respondeu: "Mas meu pai é da UDN", talvez temeroso dos seus laços familiares com a ditadura.

Até hoje, Alckmin se gaba de ter sido um dos vereadores mais jovens do país, com 19 anos, e de ter tido uma votação histórica neste pleito: 1.147 votos (cerca de 10% do total). Mas, segundo o depoimento de Paulo de Andrade, presidente do MDB local nesta época, outros fatores interferiram nesta sua eleição. O tio de Alckmin, José Geraldo Rodrigues, tinha acabado de ser nomeado ministro do Supremo Tribunal Federal pela ditadura. "Ele transferiu prestígio para o sobrinho", diz Rodrigues. A outra razão era histórica. Geraldo é sobrinho-neto do folclórico político mineiro José Maria Alckmin, que foi o vice-presidente civil do general golpista Castelo Branco. "Ter um Alckmin no MDB era um trunfo [para o regime militar]", diz Andrade.

Tanto que o jovem vereador se tornou um bajulador da ditadura. Caio Junqueira, em um artigo no jornal Valor Econômico (03/04/06), desenterra uma carta em que ele faz elogios ao general Garrastazu Médici, "que tem se mostrado sensível aos problemas sociais, trabalhistas e previdenciários dos que trabalham para a grandeza do Brasil". Como constata o jornalista, Alckmin sempre se manteve "afastado de qualquer movimento de resistência ao regime militar... Ao contrário das personalidades que viriam a ter fundamental papel em sua trajetória política, relacionava-se bem com o regime. O tom afável do documento encaminhado a Médici, sob cujo governo o Brasil viveu o período de maior repressão, revela a postura de não enfrentamento da ditadura militar, fato corroborado pelos relatos de colegas de faculdade e políticos que com ele atuaram".

Em 1976, Alckmin foi eleito prefeito da sua cidade natal por uma diferença de apenas 67 votos e logo de cara nomeou seu pai como chefe de gabinete, sendo acusado de nepotismo. Ainda como prefeito, tomou outra iniciativa definidora do seu perfil, que na época não despertou muitas suspeitas: no cinqüentenário do Opus Dei, em 1978, ele batizou uma rua de Pinda com o nome de Josemaría Escrivá de Balaguer, o fundador desta seita fascista. Na seqüência, ele foi eleito deputado estadual (1982) e federal (1986). Na Constituinte, em 1998, teve uma ação apagada e recebeu nota sete do Diap; em 1991, tornou-se presidente da seção paulista do PSDB ao derrotar o grupo histórico do partido, encabeçado por Sérgio Motta.

Em 1994, Mário Covas o escolheu como vice na eleição para o governo estadual. Já famoso por sua ação pragmática e de "rolo compressor", coube-lhe a função de presidente do Conselho Diretor do Programa Estadual de Desestatização. As privatizações das lucrativas estatais foram feitas sem qualquer transparência ou diálogo com a sociedade, gerando várias suspeitas de negócios ilícitos. Nas eleições para a Prefeitura da capital paulista, em 2000, obteve 17,2% dos votos, ficando em terceiro lugar. Com a morte de Mário Covas, em março de 2001, assumiu o governo e passou a mudar toda a sua equipe, gerando descontentamento até mesmo em setores do PSDB. Em 2002, Alckmin foi reeleito governador no segundo turno, com 58,6% dos votos.

A turma de Pinda

Numa prova de sua vocação autoritária, um de seus primeiros atos no governo estadual foi nomear, para o estratégico comando do Departamento de Inteligência da Polícia Civil, o delegado Aparecido Laerte Calandra -- também conhecido pela alcunha de "capitão Ubirajara", que ficou famoso como um dos mais bárbaros torturadores dos tempos da ditadura. Com a mesma determinação, o governador não vacilou em excluir os históricos do PSDB do Palácio dos Bandeirantes, cercando-se apenas de pessoas de sua estrita confiança e lealdade -- a chamada "turma de Pinda". Atuando de maneira impetuosa e inescrupulosa, ele passou a preparar o terreno para impor sua candidatura à presidência da República no interior do partido.

Num artigo intitulado "Como a turma de Pinda derrotou os cardeais tucanos", o dirigente petista Joaquim Soriano descreve a postura excludente do ex-governador. "Alckmin nasceu em Pindamonhangaba, lá foi vereador e prefeito. Foi deputado estadual e federal. Foi vice de Covas, do qual se diz herdeiro. Herdou o governo e logo tratou de colocar a turma de Covas para fora. Ocupou os lugares com seus fiéis. Na turma do Alckmin não tem intelectuais nem economistas famosos, como é do gosto dos tucanos". Sua equipe é formada por pessoas sem tradição na história política nacional; é composta por tecnocratas subservientes. Esta conduta centralizadora é que explicaria, inclusive, a resistência de áreas do PSDB à sua candidatura.

Governador truculento

Como governador de São Paulo, Alckmin nunca escondeu sua postura autoritária. Sempre fez questão de posar como inflexível, como um governante avesso ao diálogo. Ele se gabava das suas ações "enérgicas" de criminalização dos movimentos sociais e de satanização dos grevistas. Não é para menos que declarou entusiástico apoio à prisão de José Rainha, Diolinda e outros líderes do MST no Pontal do Paranapanema; aplaudiu a violenta desocupação dos assentados no pátio vazio da Volks no ABC paulista e em outras ocupações de terras urbanas ociosas; elogiou a prisão do dirigente da Central dos Movimentos Populares (CMP), Gegê; e nunca fez nada para investigar e punir as milícias privadas dos latifundiários no estado.

Durante seu governo, o sindicalismo não teve vez e nem voz. Ele se recusou a negociar acordos coletivos, perseguiu grevistas e fez pouco caso dos sindicalistas. Que o digam os docentes das universidades, que realizaram um das mais longas greves da história e sequer foram recebidos; ou os professores das escolas técnicas, que pararam por mais de dois meses, não foram ouvidos e ainda foram retalhados com 12 mil demissões. "O governo estadual mantém a mesma política de arrocho salarial de FHC, com o agravante de reprimir o legítimo direito de greve dos servidores, não só com a força policial, mas com diversos mecanismos arbitrários", protestou o ex-presidente da CUT, Luis Marinho, atual ministro do Trabalho.


A linguagem da violência

Os avanços democráticos no país não tiveram ressonância no estado. Alckmin sabotou a implantação de fóruns de participação da sociedade criados pelo governo Lula, como o Conselho das Cidades. O movimento de moradia promoveu vários atos criticando o desrespeito à Lei nº. 9.142, que prevê a aplicação de 10% do ICMS em casas populares, e exigindo a criação do Conselho Estadual de Desenvolvimento Habitacional. "Há mais de dois anos que o governador dá as costas para o movimento social e o movimento sem teto de São Paulo", criticou Benedito Barbosa, líder da CMP, durante um protesto em agosto de 2004. Veruska Franklin, presidente da Facesp, também condenou "o autoritarismo e a truculência de Geraldo Alckmin".

Avesso ao diálogo e à democracia, a única linguagem entendida pelo ex-governador é a da repressão dura e crua. Isto explica sua política de segurança pública, marcada pelo total desrespeito aos direitos humanos e que transformou o estado num grande presídio. Semanalmente, 743 pessoas são depositadas em penitenciárias superlotadas de São Paulo -- já são 124 mil detentos para 95 mil vagas. Segundo relatório da Febem, o ex-governante demitiu 1.751 funcionários da instituição e, hoje, 6.500 menores vivem em condições subumanas, sofrendo maus-tratos. Nos últimos quatro anos, 23 adolescentes foram assassinados nestas escolas do crime, o que rendeu a Alckmin uma condenação formal da Corte Internacional da OEA.

A submissão dos poderes

Contando com forte blindagem da mídia, Alckmin conseguiu submeter quase que totalmente o Poder Judiciário, que hoje está infestado de tucanos enrustidos, e garantir uma maioria servil no Poder Legislativo. Através de um artifício legal do período da ditadura militar, o atual "paladino da ética" abortou 69 pedidos de CPIs (Comissões Parlamentares de Inquérito) na Assembléia Legislativa de São Paulo -- destas, 37 tinham sido solicitadas para investigar irregularidades, fraudes e casos de corrupção da sua administração. Este abuso autoritário só recentemente foi superado por uma decisão do Supremo Tribunal Federal, que considerou que o tal dispositivo fere o artigo 58, parágrafo 3º da Constituição e liberou a instalação das CPIs.

Como sintetiza o sociólogo Rodrigo Carvalho, no livrete "O retrocesso de São Paulo no governo tucano", Geraldo Alckmin marcou sua gestão pela forma autoritária como lidou com a sociedade organizada e pelo rígido controle que exerceu sobre os poderes instituídos e a mídia. "Alckmin trata os movimentos sociais como organizações criminosas, não tem capacidade de dialogar e identificar as demandas da sociedade... Além disso, ele utilizou sua força política para impedir qualquer ação de controle e questionamento das ações do governo". Esta conduta abertamente antidemocrática, que não nega sua formação política, é que "conquistou o respeito dos maiores industriais, banqueiros e latifundiários de São Paulo" e que o projetou para a disputa da presidência da República, derrotando inclusive alguns tucanos históricos.



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27.9.06




o passado está acabando rápido demais
7 reais o papelote
trepak cospe do último andar do prédio
e esfrega a gengiva
trepak acha que eu não existo
não vou desapontá-lo
seria um crime de lesa-majestade
amar demais esgota os recursos hídricos
de nosso teatrinho eletrônico
ele desvia a câmera e seus olhos consolam
os mil lagos da dinamarca



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23.9.06

Paco Urondo

si ustedes lo permiten, prefiero seguir viviendo






Bar "La Calesita"


Es el fondo de un bar. Es un lugar parecido a una
cueva donde uno se sienta, bebe y ve pasar a
hombres enrarecidos por distintos problemas. Es una
gran linterna mágica.

Es una gruta retirada del mundo que cobija a sus
criaturas. Uno se siente allí ferozmente feliz.

Acaba de aparecer el primer hombre, apenas ha
aprendido a caminar, aún no sabe defenderse.

El hombre sonríe y llora y sigue la fiesta.



Cárcel del pueblo


ciudadano de la clase 39
factor rh negativo
comunica
a la división de
investigaciones policiales
antidemocráticas
haber descubierto una cárcel del
pueblo
esta ubicada cerca de mi casa
es la villa
miseria
a la que da su espalda
la manufacturera
algodonera
argentina
sociedad anónima.



Breves


una mujer
una rama
y en el otoño algo más
asomado al flexible
horizonte
algo insignificante
sustantivo como la vida
en acción como los hombres
o el río



-- Paco Urondo


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18.9.06

estética dá vontade de comer


me muero por guarânias paraguaias
versos chacos de amor e morte
corpos afundados até a alma
saias descendo de cavalos
possíveis para as massas
possíveis para as mamas
gertrude stein é manha
galinha preta de encruzilhada
descarnada
sophisticated
estética carrancuda
dos zé coiós de rayban
ecstasy fossilizado
porque se o rosa é maior do que a rosa
asmática de repetição
pra quê manadas de bishops no curral do bom-letrismo
macacas do aibici, a poesia não é de ninguém
só armadilha de passarinho
poetas enterrados vivos, rebolem-se
mastiguem vidro
que essa anemia tem cura

no pound final.


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16.9.06



divinópolis - interior - preparando almoço. não estamos sós.
luzia:

" Desejo, como quem sente fome ou sede, um caminho de areia margeado de boninas, onde só cabem a bicicleta e seu dono. Desejo, como uma funda saudade de homem ficado órfão pequenino, um regaço e o acalanto, a amorosa tenaz de uns dedos para um forte carinho em minha nuca. Brotam os matinhos depois da chuva, brotam os desejos do corpo. Na alma, o querer de um mundo tão pequeno, como o que tem nas mãos o Menino Jesus de Praga."

ou:

"Ao entardecer no mato, a casa entre bananeiras, pés de manjericão e cravo-santo, aparece dourada. Dentro dela, agachados, na porta da rua, sentados no fogão, ou aí mesmo, rápidos como se fossem ao Êxodo, comem feijão com arroz, taioba, ora-pro-nobis, muitas vezes abóbora. Depois, café na canequinha e pito. O que um homem precisa pra falar, entre enxada e sono: Louvado seja Deus!"

cada poeta tem sua bíblia. me passa a asinha de frango.


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15.9.06




sexta-feira: 20:22

ouvindo no carro Rêverie de Debussy, o Bussyk, meu compositor favorito depois de Satie. uma surpresa. ah, Tom Jobim, você fez igualzinho no piano o seu primeiro verso: "Olha, está chovendo na roseira..." reparem só.



21:51 segunda parada

well, parece que descobri a pólvora, hum? Tom Jobim faz uma "citação" de Debussy. só eu não tinha percebido. a 120 por hora pelas estradas esburacadas de Minas, minha memória é névoa. estou no laptop puglado sobre a mesa encardida do bar Duas Cruzes. rumo a Divinópolis. depois de passar dias olhando os pombos se coçarem no peitoril de minha janela em JF, decidi ser stalker de adélia prado. o que fazer em Minas se eu não acredito em Deus? buscar adélia prado. assediar os seus versos. lentas tomadas em sépia. dou um gole na cerveja. polícia militar rodoviária a 500 metros, leio na placa. está escuro. o bar já vai fechar. penso nos versos que fiz esta semana e enviei para o Valter:

Verlaine era verde.
Às três da manhã sua boca verde
cochichava no ouvido de Rimbaud:
"Venez, chère grande âme,
on vous appelle,
on vous attend!"
Mas Rimbaud era daltônico
e se importava com outras coisas.
Perdeu-se n'África e nunca mais escreveu.

Às vezes a poesia dá um nojo.


eu não tenho nojo - angustura - dos versos de adélia. luzia, estou indo para Divinópolis, para a rua Ceará. acelerada, pneumática. se ela não me receber, vou me instalar numa carrocinha de cachorro-quente na frente de sua casa. será que a poeta tem balanços na varanda? as noites seriam mais curtas em divinópolis? antes que o dia amanheça estarei chegando em BH. dali para divinópolis é chão. esqueço das horas. ouço bois que não precisam da noite para mugir. minha boca tem gosto de prego. e do banco do carona vazio. o Duas Cruzes tem um jardim de gerânios secos no fundo. duas sepulturas. uma TV ligada na rede minas. minha orelha coça e descubro que é carrapato. a estiagem traz dessas coisas. estou seca. previsão de chuvas para o fim de semana. adélia não vai me deixar ao relento. ela deve ser educada. vai me receber com café e biscoitos. bolo de fubá. talvez me mostre a igreja da praça. um poema inédito. uma rua de terra. um quarto com crucifixo na parede. uma ampla cozinha onde se conversa da vida alheia enquanto se come à farta. isto é Minas. um silêncio na alma. meus pombos estão sozinhos no décimo quarto andar. eu só preciso agora pagar a conta e pisar no acelerador.


23:19

consulto o mapa pela décima vez. tenho de seguir por congonhas para chegar a divinópolis. quem foi o filho da puta que me falou de BH? sinto uns tremores só de pensar no fantasma de aleijadinho. dizem que ele assombra as estradas. estou parada num trevo. consigo a conexão com dificuldade. a bateria não vai suportar. não sei a que horas chegarei em divinópolis. só sei que ela estará lá. é mais perto do que eu imaginava. poucos carros passam por mim a esta hora. todos me ultrapassando nas curvas pelo meio da pista. muitas carretas. o que é pior. espero chegar viva para adélia. não faz diferença. luzia nem sabe que existo.

23: 58

outra parada obrigatória. acidente na estrada. duas ambulâncias. um corpo de bombeiros. uma multidão em volta. não quero olhar as ferragens. teclo no banco do carona. cochicham dois morreram. mulher de mão seca, não sei o que dizer aqui. gostaria de escrever torrencialmente. mas minha vizinha do coração disparado emudece. às vezes penso que adélia é uma miragem. vou chegar na hora do catecismo, luzia.

sábado 00:39

london motel. beira de estrada. papel de parede verde. ventilador de teto. apartamento simples, 35 reais. café da manhã. 40 watts. janelas sem cortinas. chuveiro elétrico. o melhor da região. pelo menos o mais visível. sem sabonete. bíblia na cabeceira. faltando a página 109. apago o cigarro. boa noite.

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12.9.06

Kobayashi Issa

tranquilidade --
o monge da montanha
espia através da cerca




não se preocupem, aranhas
eu limpo a casa
casualmente




que coisa estranha
estar vivo
sob as flores da cerejeira




escrevam aqui
amava haicai
e caqui




(4 haicais de Kobayashi Issa, 1763-1827. O último traduzido por Leminski e Alice Ruiz.)

2.9.06

1 poema de Cesário Verde



Contrariedades


Eu hoje estou cruel, frenético, exigente;
Nem posso tolerar os livros mais bizarros.
Incrível! Já fumei três maços de cigarros
Consecutivamente.

Dói-me a cabeça. Abafo uns desesperos mudos:
Tanta depravação nos usos, nos costumes!
Amo, insensatamente, os ácidos, os gumes
E os ângulos agudos.

Sentei-me à secretaria. Ali defronte mora
Uma infeliz, sem peito, os dois pulmões doentes;
Sofre de faltas de ar, morreram-lhe os parentes
E engoma para fora.

Pobre esqueleto branco entre as nevadas roupas!
Tão lívida! O doutor deixou-a. Mortifica.
Lidando sempre! E deve a conta na botica!
Mal ganha para sopas...

O obstáculo estimula, torna-nos perversos;
Agora sinto-me eu cheio de raivas frias,
Por causa dum jornal me rejeitar, há dias,
Um folhetim de versos.

Que mau humor! Rasguei uma epopéia morta
No fundo da gaveta. O que produz o estudo?
Mais duma redação, das que elogiam tudo,
Me tem fechado a porta.

A crítica segundo o método de Taine
Ignoram-na. Juntei numa fogueira imensa
Muitíssimos papéis inéditos. A imprensa
Vale um desdém solene.

Com raras exceções merece-me o epigrama.
Deu meia-noite; e em paz pela calçada abaixo,
Soluça um sol-e-dó. Chuvisca. O populacho
Diverte-se na lama.

Eu nunca dediquei poemas às fortunas,
Mas sim, por deferência, a amigos ou a artistas.
Independente! Só por isso os jornalistas
Me negam as colunas.

Receiam que o assinante ingênuo os abandone,
Se forem publicar tais coisas, tais autores.
Arte? Não lhes convém, visto que os seus leitores
Deliram por Zaccone.

Um prosador qualquer desfruta fama honrosa,
Obtém dinheiro, arranja a sua coterie,
E a mim, não há questão que mais me contrarie
Do que escrever em prosa.

A adulação repugna aos sentimentos finos;
Eu raramente falo aos nossos literatos,
E apuro-me em lançar originais e exatos,
Os meus alexandrinos...

E a tísica? Fechada, e com o ferro aceso!
Ignora que a asfixia a combustão das brasas,
Não foge do estendal que lhe umedece as casas,
E fina-se ao desprezo!

Mantém-se a chá e pão! Antes entrar na cova.
Esvai-se; e todavia, à tarde, fracamente,
Oiço-a cantarolar uma canção plangente
Duma opereta nova!

Perfeitamente. Vou findar sem azedume.
Quem sabe se depois, eu rico e noutros climas,
Conseguirei reler essas antigas rimas,
Impressas em volume?

Nas letras eu conheço um campo de manobras;
Emprega-se a réclame, a intriga, o anúncio, a blague,
E esta poesia pede um editor que pague
Todas as minhas obras...

E estou melhor; passou-me a cólera. E a vizinha?
A pobre engomadeira ir-se-á deitar sem ceia?
Vejo-lhe luz no quarto. Inda trabalha. É feia...
Que mundo! Coitadinha!




Cesário Verde



28.8.06

Agradecimentos


Obrigada, Aly. Minha primeira máquina de escrever foi uma Hermes Baby portátil, herança de minha irmã. Acho que era mais fácil escrever ali. Só para mim e uma garrafa de Domecq ao lado. O resto era silêncio. Agora há um carro de som em cada esquina. Funk ou propaganda eleitoral. Assusta as vacas. Minas é bela, mas fogueteira, genuflexória e politiqueira. Não sei se vou suportar por mais tempo. Saudade de um Rio que não há mais.


a novidade do dia
é que alguém morreu
ou está para morrer
daqui a pouco

no lento encontro das torradas
quebradas com a geléia
amostra grátis
de amora vencida



Obrigada, Bruna, pelos versos terminais aí de cima. Que leio ao lado de Caetés, do Graciliano, onde o homem lá pelas tantas diz assim: "Eu seria um marido exemplar e Marta uma companheira deliciosa, dessas fabricadas por poetas solteiros." Enquanto isso aguardo o livro da Beber, A fila sem fim dos demônios descontentes, até o final do ano.
E sobre a moda dos espíritos maldesencarnados que andam assediando a teledramaturgia global, obrigada, Ólabauti, pela conclusão de gênio: "Não basta morrer, tem que participar."
Obrigada, Angélica, pela dica de um excelente blog de poetas, o Escolhas Afectivas. A Angélica é poeta também e uns poemas dela saíram na última Inimigo Rumor. Seu livro Rilke Shake, ela me conta num furo de reportagem, está na boca do forno para publicação agora em novembro. Vamos conferir, baby. Confiram também o livro do blogger André de Leones: Hoje está um dia morto. Tudo nas melhores livrarias do ramo. Fal Vitiello, uma de minhas parceiras no Blog de Papel, já lançou o segundo livro solo: O nome da cousa. Falando em Blog de papel, a poeta Ane Aguirre convida para o lançamento da antologia Contos ao mar em setembro, da qual participa também o Sergio Fonseca. E o Bicarato manda avisar que quem não leu o Grande sertão do mestre Guimarães Rosa, é só baixá-lo aqui. Corre que é só até dezembro.

Recado: já está nas livrarias o último livro de um dos maiores escritores americanos -- Lunar Park, do Bret Easton Ellis. O melhor livro que ele escreveu após o sucesso do Psicopata americano. Tive a honra de ser a co-tradutora. A imprensa parece que fez vista grossa ao livro.

Agradeço ao povo gaúcho e à revista de cultura Aplauso pela simpática matéria ao meu respeito -- "Dura, mas sem perder a ternura" -- indicando a leitura do meu livro, Não feche seus olhos esta noite. A matéria está na seção "Spot", pág. 29, do último número (77) da revista, não saiu on-line.


E de Portugal soube do lançamento da revista on-line Minguante. Aberta à participação do leitor, especializada em micronarrativas. Vi um texto lá do Henrique Fialho que diz assim: Uma bicicleta pergunta-me as horas. Respondo-lhe que não tenho rodas. É o vento quem me guia, a luz me orienta, as sombras o que me move. A bicicleta olha-me indignada e comenta: "mas quem raio és tu que nem horas tem?"
E obrigada, Angela, pela Mona perversa polimorfa. E por falar em símbolos, se Plutão não é mais planeta, o que será do Zodíaco? Do mapa astral? "Vai-se o Zodíaco de ouro/sobre a planura espectral...", diz assim um poeminha do Nicolai Zabolótzki.



Obrigada a todos, porque alguém tem que tocar este blog.

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25.8.06




é tão tarde, a manhã já vem
todos dormem, a noite também
só eu velo por você, meu bem
dorme anjo, o boi pega neném
lá no céu deixam de cantar
os anjinhos foram se deitar
mamãezinha precisa descansar
dorme anjo, papai vai lhe ninar




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Rui Barbosa




Mentira de tudo, em tudo e por tudo. Mentira na terra, no ar, no céu, onde, segundo o Padre Vieira, o próprio céu mentia no Maranhão, e direis que hoje mente ao Brasil inteiro. Mentira nos protestos. Mentira nas promessas. Mentira nos programas. Mentira nos projetos. Mentira nos progressos. Mentira nas reformas. Mentira nas convicções. Mentira nas transmutações. Mentira nas soluções. Mentira nos homens, nos atos e nas coisas. Mentira no rosto, na voz, na postura, no gesto, na palavra, na escrita. Mentira nos partidos, nas coligações e nos blocos. Mentira dos caudilhos aos seus apaniguados, mentira dos seus apaniguados à Nação. Mentira nas instituições. Mentira nas eleições. Mentira nas apurações. Mentira nas mensagens. Mentira nos relatórios. Mentira nos inquéritos. Mentira nos concursos. Mentira nas embaixadas. Mentira nas candidaturas. Mentira nas garantias. Mentira nas responsabilidades. Mentira nos desmentidos. A mentira geral. O monopólio da mentira.



Rui Barbosa, em discurso de campanha presidencial na Associação Comercial do Rio de Janeiro, 1919.

23.8.06

Oswald de Andrade



infância

O camisolão
O jarro
O passarinho
O oceano
A visita na casa que a gente sentava no sofá


adolescência

Aquele amor
nem me fale


maturidade

O Sr. e a Sra. Amadeu
Participam a V. Exa.
O feliz nascimento
De sua filha
Gilberta


velhice

O netinho jogou os óculos
Na latrina




Oswald de Andrade, "As Quatro Gares", 1927.





17.8.06



Eis como o cantador paraibano Manoel Camilo explica o que é a poesia, o que é ser poeta, numa genial trova escrita e publicada em 1958 no folheto "O Filho de Garcia":


Deus Grande Ser Incriado
Com os seus dons multiformes
Torna-se imaginário
Nos seus mistérios triformes
Simbolicamente fala
Aos gênios "aculeiformes".

E estes "aculeiformes"
Têm a visão "duplicia"
Que abstraticamente
Concretizando procria
Imagens compositórias
Eis o que é poesia.

Ser poeta é ser geníaco
Sensibilante ao ouvir
As magnificências; e
Unificar concretir
Na visão imaginária
Formar, criar, colorir.
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Para saber mais dos cordelistas, ver aqui.
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14.8.06

A filha de Maiakovski

Uma flauta-vértebra?







Alguém saberia dizer quem é esta simpática senhora da foto? Pois ela é nada mais nada menos do que a filha americana do poeta Maiakovski. A única filha. Seu nome é Helen Patricia Jones Thompson, filha do poeta russo com a emigrada russa Ellie Jones. Maiakovski conheceu Ellie por ocasião de uma palestra que proferiu em Nova York em 1925. Apresentados por David Birliuk, famoso pintor cubista amigo de Maiakovski e da família de Ellie, os dois tiveram um romance-relâmpago e a filha nasceria um ano depois, quando o poeta já havia retornado para a Rússia e para os braços de Lília Brik, sua eterna paixão. Ellie Jones depois se casou e a filha foi criada pelo padrasto, daí o sobrenome Thompson. Durante décadas a existência dessa filha foi mantida em segredo pela mãe e o próprio Maiacovski, que temia uma aproximação de Lília Brik, sua amante, editora e suposta agente da NKVD (futura KGB). Patricia cresceu sabendo que era filha do poeta mas não podia comentar com ninguém, tornou-se professora de filosofia numa universidade nova-iorquina, publicou vários livros e só em 1991, poucos anos após a morte da mãe e do padrasto, foi à Rússia revelar a sua identidade. Lília Brik, apesar de tudo, sabia da existência da menina mas fez o possível para apagar as evidências disso: após o suicídio do poeta em 1930, jogou fora a única foto que ele tinha da filha, aos 3 anos, e que mantinha em sua escrivaninha. Lília Brik foi a única herdeira do legado de Maiakovski, tomou posse dos direitos autorais e dos quadros de pintores famosos que o poeta ganhara de presente durante a vida, seus únicos bens, pois Maiakovski sempre viveu na penúria. A mãe e as irmãs do poeta ficaram a ver navios. Patricia Thompson, que tem um filho chamado Rodger, não reivindica o legado de Maiakovski e não acredita que o pai tenha se suicidado. A morte do poeta na verdade se deu em circunstâncias ainda abertas a muita especulação. Hoje Patricia Thompson também se chama Yelena Vladimirovna Maiakovskaia. Embora haja evidências da filiação de Patricia, creio que somente um exame de DNA poria um ponto final a dúvidas. Quem a conheceu disse que a semelhança é impressionante. Compare as fotos para ter uma idéia. Leia aqui uma entrevista exclusiva de Patricia falando a respeito de Maiakovski e do imbróglio com mais detalhes.





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9.8.06





que pode uma boca

esperar

senão outra boca?





(versos de eugénio de andrade)


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1.8.06

meu nome



meu nome é andre, sem acento. o sobrenome não interessa. não gosto de conversa, não faço nada pra viver. eu vivo por aí. não me preocupo. eu tiro fotos. minha pentax é velha, sem manutenção. talvez eu seja um pouco assim também. o que me chama atenção eu clico. pode ser feio. pode ser bonito. não me importo. sou um amador. podia ser pior. gosto de carros. e do amarelo. pra mim basta.




31.7.06

Baudelaire: de fato e ficção



Nas "Litanias de Satã" em As flores do mal:


Tem piedade, ó Satã, de minha atroz miséria!Ó Príncipe do exílio, a quem fizeram mal
E que, vencido, sempre te ergues mais triunfal,

Tem piedade, ó Satã, de minha atroz miséria!Tu que vês tudo, ó rei das trevas soberanas,
Charlatão familiar das angústias humanas,

Tem piedade, ó Satã, de minha atroz miséria!...

E por aí vai a oração baudelaireana. Mas na intimidade do poeta, a regra era outra, já que ansiava "dirigir todas as manhãs minha oração a Deus, reservatório de toda força e toda justiça, a meu pai, a Mariette [a "ama bondosa" que o criou, celebrada nas Flores do Mal] e a Poe, como intercessores". A contradição é apontada por André Breton no Segundo Manifesto do Surrealismo em 1930, como exemplo de atitude que desonra o pensamento. Entre outras revelações, Breton entrega o dramaturgo Antonin Artaud, ex-membro da panelinha surrealista, a quem chama de informante da polícia [por estar sempre cercado de policiais na porta do Teatro Alfred Jarry] e ator exclusivamente voltado para o lucro e a fama [por encenar peças de autores que desprezava mas que obtinham patrocínio]. Muito divertidas as revelações desse Manifesto, onde se vê que o coquetismo literário e a briga de egos não são privilégio dos nossos tempos.



30.7.06

Blogueiro: a grande imprensa vai invadir tua praia!


Ora, foi com satisfação sem dúvida que topei com os blogs na matéria de capa da revista Época desta semana. E de ver lá mencionados 3 dos meus blogs favoritos:
Pensar Enlouquece, Catarro Verde e Cocadaboa. Faltou muita gente, ponto pacífico, blogs mais recentes e tal, mas para compilar os mais representativos seria preciso um livro, portanto deu pro gasto. Talvez agora um público maior veja, como diz Inagaki em seu blog, que Internet não é só intercâmbio de piadas velhas por e-mail. E talvez os blogs e o seu "neo-anarquismo digital" -- o quinto poder? --possam nos dar a ler um pouco mais do que dizem as revistas de papel que me distraem na privada. Lendo o resto da revista fui agraciada com a informação de que o bem mais precioso de Claude Troigos é a família dele. Que tubarões mutantes e assassinos são menos perigosos que Suzane Richthofen, que a evangélica campeã de tae kwon do se sente perto de Deus quando dá porrada em suas adversárias, e que se desejo uma saúde aiurvédica perfeita, um corpo purificado, vou ter de vomitar muito, induzir diarréia, fazer constantes lavagens intestinais, cafungar pó de ervas e fazer sangrias regulares com seringas ou ventosas. É, os blogs podem fazer melhor do que isso. Acho até que o Mothern poderá ensinar à nouvelle mamman de 52 anos a ser uma mãe moderninha e preparar o corpitcho para usar a meia-calça de bichinhos da filha em 2020. Quem quase derruba presidentes pode tentar de tudo. Esse é o tesão da blogosfera. Bom domingo, bloggers!

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28.7.06




Os sinos das igrejas de Minas ainda batem uma vez a cada meia hora, seis vezes às seis horas, onze vezes às onze. E ao meio-dia ou meia-noite batem doze vezes. Todo dia. Toda madrugada. Não é para os nervos de qualquer um. Nas grandes cidades, todos os barulhos formam um só. Um imenso rugido ao fundo, indetectável, que dia após dia não damos atenção. Não ouvimos mais. Em Minas cada ruído é um só. Inacrescentável. Solitário. Metrificável ao ouvido. A folha que cai no quintal primeiro cai de pé, bandeia pro lado e por fim deita inteira. Essa queda final dura um segundo, mas você é capaz de ouvir cada movimento e, se for esperto, saberá até de que árvore partiu. Um boi mugindo, o tintim do padeiro que passa na rua, o cricri metálico das corujas acasalando no campanário, o cântico da missa, as quatro ferraduras do cavalo, o lamento sertanejo nos botequins, o último suspiro dos agonizantes -- Minas morre muito. Cada ruído é um só. O sino bate dez vezes com um intervalo de 8 segundos entre um dobre e outro. São dez horas. Meu coração ajusta seus batimentos ao tempo das badaladas. Não há pressa. Em Minas todo coração bate demorado.

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16.7.06




Amar é sofrer, eu vou te dizer. "Não se esqueça de trazer uma lagosta pra mim", disse ela bem assim na beira do cais antes de eu partir para um mergulho de onde não sabia se voltaria. Agora aqui, a 45 metros de profundidade, e descendo cada vez mais, fico me perguntando por que não a mandei à merda, sem endereço. Desde criança que tenho dois sonhos: resgatar do fundo do mar a cruz do bispo Sardinha e me apaixonar por uma samurai que pisasse minha garganta até que me faltasse o oxigênio pra eu gozar. Se isso é pecado, me puna. A cruz do bispo eu ainda não achei, mas continuo mergulhando, e fundo, muito fundo. Tão fundo que acabei descobrindo Isabel dentro de uma ostra, escondidinha. Hoje vivemos juntas, só eu pago o aluguel enquanto ela arde na Fogueira Santa de Israel. Amar é sofrer, não preciso dizer mais do que as canções banais: é só uma gota de sangue verbal, apaixonei-me por uma obreira pentecostal.



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15.7.06




Algumas perguntas que este livro pode responder:


O que você faria se, no meio de uma festa, um escritor surtasse e começasse a matar todo mundo, inclusive a história?

Você já pensou em trocar de alma? Escolheria a de quem?

Quer ler algumas cartas ao editor de autores famosos?

Que livros os editores lêem? Você já entrou na casa de um?

Por que motivo você mataria alguém?

Por que motivo você se mataria?

Você odeia o seu corpo? Quer modificá-lo?

Por que carregar um peso morto se você pode cortá-lo em pedacinhos?

Você está preparando o jantar e se corta na cozinha, o telefone toca e sua casa pega fogo. Vai fazer o quê?

Por que você não pára de sangrar?

Quer saber mesmo o que é viver no interior?

O que é o Rio de Janeiro?

Tom Jobim era um clone de Cole Porter?

Qual seria a sensação de se jogar do alto de um prédio?

Você está preso num caixão. Vai apelar pra quem?

O que sente um doente terminal? Por que os amigos somem enquanto você definha?

O que querem saber os mortos do mundo que deixaram para trás?

O mundo está todo roído pelas formigas. Você ainda não viu como?

Você já teve vontade de matar seus pais?

Por que as crianças querem morrer?

A criança em você ainda vive?

Por que os filhos envelhecem mais rápido do que os pais?

Já tomou um chá das cinco com Jesus? Ele se pareceria com quem hoje? Você o confundiria com um camelô se o visse na rua?

Quem é o Darth Vader de Deus?

Quer acertar suas contas com Deus?

Quantas mulheres há dentro de uma mulher?

Por que as mulheres não falam que peidam?

Por que os amantes nunca dizem o real motivo por que dão o pé na bunda de alguém?

Quer saber por que um poeta é um escritor que não escreve?

Rimbaud ainda dá samba?

E você? Quer ser escritor pra quê?

Quais as obsessões de um escritor?

Por que os escritores no fundo odeiam outros escritores? Por que todo escritor quer ser um James Joyce sem nunca ter lido James Joyce?

O que são as oficinas literárias?

Na sua noite de autógrafos você descobre que seus leitores vieram para o seu enterro?

Qual o mais belo tom de azul?

Por que essa sensação de que sempre tem alguém nos espionando, nos vampirizando?

O que sonham os delirantes? Por que todos acham que são artistas?

Já se imaginou preso num manicômio?

Quer conhecer os piores pesadelos?

O que fazem os bêbados de pijama?

Por que a raça humana é porca?

Quer entrar na pele de um suicida?

E, afinal, quem é a mula-sem-cabeça de James Dean?


Todas estas perguntas podem ter uma resposta se você comprar o livro. Lançado pouco antes da Copa do Mundo e, apesar dela, os exemplares já estão se esgotando, e sua autora também. Segundo o escritor e crítico José Castello, que leu, fez questão de fazer a orelha e citá-lo num longo artigo no jornal Valor Econômico, o Não feche seus olhos esta noite é "um livro enigmático e imprudente que revolve o mal-estar contemporâneo. Um livro que não vê saída para a literatura quando a própria palavra está condenada. Um livro em chamas de uma autora que escreve com os nervos". Deu pra entender? Não sei se ele quis me chamar de histérica, ou se a própria literatura foi quem surtou. A bem, você ainda não leu por quê? Pra mim é um guia para suicidas, mal-amados e escritores fracassados com muito sexo, drogas e rock'n'roll embalados num lirismo desesperado. Vai perder essa? Compre aqui, ou nos melhores sites de vendas ou livrarias do ramo. Se você já leu, obrigada, mas tem certeza de que entendeu a página 69? Tente outra vez. Última chamada.

8.7.06

Baú do Raul



Hoje

Tensão total

Angústia

Apatia

Ansiedade

Dor de cabeça

Depressivo

Triste

Desanimado

Culpado

Desolado

Irritado

Mentalmente fraco

Existencialmente pesado

Falta de vontade

Labilidade


Presa fácil da minha cerebrotânica labilidade
à terrível lucidez do medíocre.
Negar que é pestilento, jamais.
O mais e o menos são valoráveis.
Porém de nada se extrai
Da média-ocridade
Idade da pedra.
Me incomodar
A dúvida que, mascarada em cão,
Ladra e morde enfermamente.
Não quero interferências banais
Interferindo no meu espírito.
Não.


Me dê um momento para não escrever,
para não ficar na necessidade de preencher coisas


me peguei com 36 de idade, fumando
e no espelho grande vi muita vontade
imediatamente saí e comprei outro igual.


Hoje é aniversário do meu pé
ele é poucos meses mais velho do que eu
foi por causa do parto de minha mãe
diz ela que, na hora que eu estava pra ser parido,
meu pé pintou primeiro e ficou dois meses de fora.
Só depois desses dois meses que o resto de mim saiu inteiro.
E como eu, paranóico, desconfio
que ele se gaba de ter dois meses de vida em minha frente
no seu aniversário eu o castigo
não colocando polvilho Granado no seu pé-de-atleta.


Amanheci determinado a mudar
agora vou ser punk até apodrecer


Pássaro negro
Corvo, por certo,
Solitário
Me olha de soslaio
Do muro do cemitério
Aí, eu olho pra ele
Fixo
Ele voa embora,
Mas volta.




Raul Seixas, do seu Baú, revirado.
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5.7.06




sinto dores no reto enquanto durmo. eu não vou me levantar pra cagar. vai que me sai um caroço de tucumã e a noite arrebente lá dentro. não gosto de namoro grudado quando só eu existo no mundo. se toco outro corpo, é como se tocasse o meu. a pele do mar. abraço as pernas duras de drummond e um verso gelado e morto percorre minha espinha. a vida passada a bronze. o poeta vive jogado na praia. os amigos o abandonaram lá com as moscas da areia. você respira no meu ouvido, esperando que meu amor saia por ali. olhos de anzol, descarrega o mundo no meio da sala e me abraça às cegas. resmunga e me pede que eu não escreva isso. que não escreva nunca mais porque me arranha o trato intestinal. despede-se num balão de quadrinhos antes de partir pra Tremembé. patina nos meus pensamentos por uma estrada que já saiu de moda. bombons velozes, trocamos de pose. nossas mãos juntinhas suando no copo de gim.

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1.7.06

Breizh-izel, meu Breizh-izel brasileiro





Breizh-izel, meu Breizh-izel brasileiro


Breizh-izel é o nome bretão da Bretanha francesa e, segundo estudiosos, Breizh é uma palavra de origem céltica que significa "vermelho", da "cor do fogo", de onde surgiria depois o termo bois brésil (madeira vermelha) em textos do século 12, inclusive em romances do ciclo arturiano. O que prova que os bretões, grandes navegadores que eram, conheceram, antes das descobertas dos séculos 15 e 16, muitas terras do Atlântico Sul, inclusive o nosso país aqui, descrito a princípio como "ilha", um conceito da navegação bretã na Idade Média. Pois bem, bois brésil depois seria traduzido como "pau-brasil" e daria origem ao nome de nossa terrinha, como todos sabem, um nome que os portugueses demoraram em oficializar, porque queriam salvaguardar seus direitos de conquista. Mas já se sabe que, muito antes de Cabral aportar por cá, bretões e normandos já comerciavam com os índios o pau-brasil nas cabeceiras do rio São Francisco, assim como os vikings já conheciam a América muito antes de Colombo. Há evidências, inclusive, de que navegadores fenícios é que descobriram mesmo o Brasil em 1100 a. C., donde se conclui que teria havido uma civilização pré-histórica no Brasil. Bom, voltando à cabeceira do São Francisco, até onde se sabe foi ali que teve início o fervilhante comércio do nosso pau-brasil, ou ibirapitã, orabutã, brasileto, ibirapitanga, pau-rosado, essa árvore tão preciosa, de seiva avermelhada, que emprestaria seu nome ao país e atrairia a cobiça estrangeira. Sim, porque o pau-brasil, além de nomear o nosso berço esplêndido e sendo fértil como é, deu origem também a manifestos literários, institutos, hotéis, associações ecológicas, grupos de música folclórica/regionalista, colares, facas, violinos, camas e a toda uma série infindável de artefatos tipo exportação. Aonde quero chegar com essa conversinha? Hoje o Brasil vai enfrentar mais uma vez os seus legítimos descobridores numa Copa do Mundo, n'est pas? Um curioso confronto. Uma batalha campal com os nossos ancestrais, sim, porque ainda não há provas suficientes de que somos descendentes dos fenícios. Mesmo que houvesse, para o futebol e para nós hoje não significaria muita coisa pois não existe uma seleção fenícia, não é mesmo. E você? Vai torcer por quem? Pelo Brasil ou pelo Breizh-izel?



29.6.06

histórias de guerra para boi dormir





"Era uma vez dois sapos. O Sapo Otimista e o Sapo Pessimista. Certa noite os dois sapos saíram pulando e pulando na floresta atraídos pelo cheiro de leite fresco que vinha de uma casa. Ao avistarem a casa, eles pularam pela janela de onde vinha o irresistível aroma e caíram direto dentro de um latão de leite. Para a infelicidade deles, as laterais do latão eram íngremes e escorregadias demais e o Sapo Pessimista logo desistiu e afundou. Já o Sapo Otimista ganhou coragem e começou a nadar e a se debater no leite, esperando sair dali de algum jeito. Ele não sabia como, mas não iria desistir sem lutar. Não se entregaria. E assim o Sapo Otimista se agitou e se debateu por toda a noite e, na manhã seguinte, ah, que alegria, ele estava flutuando em uma rodela de manteiga!... Eu sou o Sapo Otimista!"



-- fábula que o primeiro-ministro britânico Winston Churchill deu como resposta a um embaixador sueco que lhe perguntou como a Inglaterra enfrentaria o maciço bombardeio dos alemães lá pelos idos de 1941.



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23.6.06




Resultado do Concurso: Amigos, este blog está num dilema. Temos um empate técnico, mas como mostra a moça da foto aí de cima, só um pode ganhar!, aqui não há disputa por pênaltis. Pois bem, a leitora Denise Pessoa então acertou quando disse que na foto havia um saco plástico com água pendurado na parede, porém errou nos detalhes e função. Já o leitor Erwin, sabendo pelos comentários que se tratava de um saco plástico com água, acertou a função do dito cujo: para espantar um bicho, mas errou o bicho, não é para espantar mosca. Como não posso rasgar um livro ao meio e enviar os pedaços para os dois, e se eu der um livro para cada um, vou ficar prejudicada aqui, darei mais uma chance para eles adivinharem o bicho certo, ok? (Poupem-me de bichos nojentos, please, eu sou pobre mas sou limpinha.) Portanto, os finalistas Denise e Erwin terão uma chance de desempate, devem pensar bem e me enviar a resposta correta: qual é o bicho que o saco d'água espanta? Se ainda assim, os dois acertarem a resposta, quem responder primeiro levará o livro. Espero ter sido justa aqui. Aos outros leitores agradeço a participação. (Gostei dessa história de dar livros, de dar, acho que vou promover outros concursos para desovar meus livros, já ando sem espaço aqui para andar. Alguma idéia?) Um abraço, e parabéns aos finalistas.


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18.6.06




Hoje está um dia morto, romance vencedor do prêmio SESC de Literatura 2005, é o primeiro romance do goiano André de Leones, onde ele retrata a vida angustiada de um adolescente no interior de Goiás. Já a carioca Lúcia Bettencourt levou o prêmio com sua coletânea de contos A secretária de Borges, onde ela cria um labirinto em que Borges e sua hipotética secretária se perdem. Os dois livros, numa parceria SESC/ed. Record, serão lançados na Academia Brasileira de Letras (Av. Presidente Wilson 203- Castelo - RJ) no dia 20 de junho, nesta terça-feira, às 17h30. Se você estiver na área, apareça para conferir e dar uma força. O André estende o convite a todos os leitores do Prosa, lógico. Boa sorte pra ele e Lúcia.


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15.6.06

Álvares de Azevedo



É ela! É ela! - murmurei tremendo,
E o eco ao longe murmurou - é ela!
Eu a vi... minha fada aérea e pura -
A minha lavadeira na janela!
Dessas águas-furtadas onde eu moro
Eu a vejo estendendo no telhado
Os vestidos de chita, as saias brancas;
Eu a vejo e suspiro enamorado!
Esta noite eu ousei mais atrevido
Nas telhas que estalavam nos meus passos
Ir espiar seu venturoso sono,
Vê-la mais bela de Morfeu nos braços!
Como dormia! Que profundo sono!...
Tinha na mão o ferro do engomado...
Como roncava maviosa e pura!...
Quase caí na rua desmaiado!
Afastei a janela, entrei medroso...
Palpitava-lhe o seio adormecido...
Fui beijá-la... roubei do seio dela
Um bilhete que estava ali metido...
Oh! de certo... (pensei) é doce página
Onde a alma derramou gentis amores;
São versos dela... que amanhã de certo
Ela me enviará cheios de flores...
Tremi de febre! Venturosa folha!
Quem pousasse contigo neste seio!
Como Otelo beijando a sua esposa,
Eu beijei-a a tremer de devaneio...
É ela! É ela! - repeti tremendo;
Mas cantou nesse instante uma coruja...
Abri cioso a página secreta...
Oh! Meu Deus! Era um rol de roupa suja!
Mas se Werther morreu por ver Carlota
Dando pão com manteiga às criancinhas
Se achou-a assim mais bela - eu mais te adoro
Sonhando-te a lavar as camisinhas!
É ela! É ela! meu amor, minh'alma,
A Laura, a Beatriz que o céu revela...
É ela! É ela! - murmurei tremendo,
E o eco ao longe suspirou - é ela!




14.6.06





vejo no livro do poeta
que sua biografia tem mais palavras
que os poemas

prêmios
menções honrosas
títulos e medalhas
o poeta é um vencedor
chegou na casa das américas
três segundos antes de colombo

suspiro sobre o caldo de enguia
uma saudade rasa de almôndegas
o poeta diria boldroegas

japonesas rindo na memória



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12.6.06

Acaba de ser lançada no Brasil, pela Editora do Bispo, Aurélia, a dicionária da língua afiada, a primeira dicionária de língua portuguesa de termos e expressões do universo gay. Seus autores, ou organizadores, são o jornalista Ângelo Vip e o professor Fred Lib, ambos usando pseudônimo. Segundo eles, o projeto teve início em um site gay já extinto onde eles catalogavam os termos com a colaboração dos leitores. Eu me lembro deste site lá pelo ano de 2000, onde realmente havia uma página dedicada ao "Aurélia". Quem quisesse podia consultar e participar enviando exemplos das gírias que conhecia. Me lembro também que um amigo meu na época inventava umas gírias gays tétricas que só ele usava de brincadeira, expressões que não representavam nada do e para o mundo gay, eram uma invenção particular, doméstica. Pois bem, na época, também de brincadeira, eu coloquei lá neste site, cujo nome esqueci, estes termos que meu amigo inventou e mais alguns que eu conhecia e que eram "reais", quer dizer, eram realmente usados no universo gay que eu conhecia, o do Rio de Janeiro. Logo depois fiquei surpresa de constatar que todos os verbetes que enviei foram adicionados ao "Aurélia" do site. Estou curiosa agora para ver Aurélia, o livro, para saber se as expressões que meu amigo inventou ainda estão lá. Não quero colocar em dúvida o projeto da dicionária ou a coragem da editora em bancá-lo, apenas a veracidade de algumas "fontes", como a minha. Antes de ser um dicionário rigoroso, Aurélia vale por ser também uma obra de ficção de autoria coletiva. E já está causando polêmica. A família do famoso dicionarista quer tirar o dicionário gay das livrarias, alegando que é um caso de proteção da marca e não de homofobia. Sei. Bom, não é de espantar, pois hoje se sabe que os escritores viraram grife também. Ludlum, por exemplo, já morreu e ainda continua escrevendo best-sellers.

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9.6.06


Eu não disse que ela ia voltar? E já está no segundo post: "Tesouros da Jumentude". O blog novo é o Um Por Semana e já avisa que pode sumir novamente a qualquer momento. É preciso aproveitar a fase de bom humor. All About Eve ganhou relativa notoriedade na blogosfera brasileira em 2002 ao criar o irreverente blog Eu Quero Ser Cora Rónai, já extinto. Quem conheceu se divertiu muito. Depois Ólabauti, como era conhecida por seus leitores, voltou em aparições ocasionais no blog Mundo Podre, também extinto. Agora vamos ver quanto tempo vai durar o Um Por Semana. Eu vou acompanhar. Bem-vinda, Ólabauti.

6.6.06

Trilogia suja de Havana





Estou leve demais para chorar. Não tenho desejos, ou não consigo rezar, nem agradecer. Nunca peço nada a Deus. Só agradeço. Tenho sempre muita coisa para agradecer, mas agora não. Estou transparente, vazio como o ar. Levantei-me e segui pela Carlos III Unter der Linden. Era uma boa hora. O entardecer. O crepúsculo e as árvores. A hora das libações, como dizia a mulher mais bonita que tive na vida. Neste horário o marido dela estava libando em algum bar e só voltava depois das dez da noite. E eu aproveitava para fazer pequenas orgias de duas ou três horas com ela, que afinal terminavam com todos libando juntos, a partir das dez, como bons amigos ao fim e ao cabo. Tenho a impressão de que ele desconfiava de alguma coisa, mas isso já é outra história. Desde então, o crepúsculo sempre foi terrível para mim.



Nada de libações, Pedro Juan, disse para mim mesmo. Aí me dei conta de que eu era um mendigo de merda. Um pedinte asqueroso. Sujo, com barba de dois dias. Estava sem sapatos e sem camisa, andando ainda meio bêbado, quase inconsciente. Podia pedir esmola e comprar alguma coisa de comer. Depois resolvia que droga ia fazer para voltar para o meu quarto e agarrar a Cusa pelo pescoço e acabar com a raça dela. Por que você me deixou ali caído, sua filha da puta? , haveria de perguntar-lhe, só que entre bofetões. Gosto de dar uns bons sopapos nas mulheres, quando elas merecem. E vou comer a Cusa desse jeito. Dando bofetões na cara dela. Bem ardidos, bem doídos, vou encher a cara dela de bolacha e quando meu pau ficar duro, meto nela. Ahh, que bom. E a velha vai dizer: "Pare de me bater, mas ponha tudo, até o talo, papi gostoso. Pare de me bater, porra!" E na hora começa a ter orgasmos e a gritar e a ofegar com cada jato de porra. Ah, como vou gozar com aquela velha peituda.



Estendi a mão e comecei a pedir a todos os que passavam por mim. Mal balbuciava alguma coisa. Para pedir esmolas não se pode falar com clareza, nem argumentar, nem nada. Você é um animal miserável, um micróbio pedindo umas moedas pelo amor de Deus. Um pesteado.



Assim foi desde que o mundo é mundo. É toda uma arte pedir esmola e aparentar imbecilidade, cretinismo, embriaguez crônica, burrice. Só um imbecil pede esmola. Se o cara está um pouquinho acima da imbecilidade é porque pode fazer alguma outra coisa. Assim é. É preciso fazer cara de imbecil para convencer. Mas nem assim. Ninguém me deu nada! Andei muitos quarteirões Carlos III abaixo. Lentamente. Esfarrapado. Sem rumo. Com cara de louco ou de imbecil, estendendo as mãos abertas diante de todos e balbuciando. Ninguém me deu nem uma moeda! Que horror! Nada. Naquela noite eu podia ter morrido de fome. Percorri toda a Carlos III. Duas ou três horas. Não sei quanto tempo. Pedindo pelo amor de Deus. E todos viravam a cara. Olhavam para outro lado. Ou fingiam que eu era um fantasma. Eu nunca tinha pedido esmola antes. Mas é terrível pedir esmola quando as pessoas são tão miseráveis. Estão todos no fundo do poço e detestam quando outro vem se queixar. Muitos me disseram: "Não enche o saco, velho, que eu até gostaria que alguém me desse esmola."



Assim que nem um centavo. Em compensação, recuperei a lucidez. Tinha de voltar para minha casa. Por que estava retardando a hora de voltar para casa? Não queria aparecer lá arrebentado, quase desmaiado. Os vizinhos são fofoqueiros. Hoje eu entendo. A razão é essa. Um pouco mais lúcido, falei para mim mesmo: "Volte para casa, Pedro Juan, tente chegar. Já está escuro, ninguém vai ver você." Pelo jeito desliguei o piloto automático e assumi de novo o comando.



Pedro Juan Gutiérrez, em fragmento de "Pegar o touro pelos chifres", do livro Trilogia suja de Havana, 1998.


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1.6.06

"Não feche seus olhos esta noite" -- primeiras fotos

















Aí estão algumas fotos da noite de autógrafos clicadas por Cris Carriconde. Outras virão. Foi uma festa. Muita gente amiga que encheu a livraria pra me dar uma força. Muito legal. A moça lendo os textos é a atriz Doriana Mendes. Da blogosfera estavam lá Marcos VP (leiam o livro Contos do Rio II, da Bom Texto/O Globo, ele escreve lá), as poetas C., do Numa Cidade do Interior, e Ane Aguirre (recém-chegada de Porto Alegre, pra ficar, né?), o fotógrafo Sergio Fonseca e Flávio Corrêa de Mello, do site Bagatelas, de escritores brasileiros e portugueses. Marcos VP fala a respeito do lançamento em seu blog e Ane Aguirre também publicou umas fotos, vejam lá. Enfim, foi ótimo. Depois coloco mais fotos. Onde está o rolo do Glauber Rocha? O mistério da noite. Depois de tanto vinho... Ah, sim, a Debbie também apareceu por lá, a ex-Maricleide de Jesus, vencedora do concurso Piores Contos Brasileiros que o Prosa Caótica promoveu em 2003. All About Eve, mais conhecida como Ólabauti, famosa ex-blogger e baba-ovada jornalista, também veio conferir. Aliás, ouvi um bochicho no lançamento de que ela ensaia um retorno triunfal à blogosfera. Segundo me disseram, não sobrará pedra sobre pedra. A ver.



26.5.06




Amigos, aí está a livraria da Travessa de Ipanema, no Rio, onde acontecerá o lançamento do meu livro na próxima terça-feira, dia 30, às 20h. Na foto ela ainda está vazia, mas vocês podem chegar cedo e pegar os melhores lugares, podem enchê-la mais um pouco para mim. Não precisam comprar o livro, é só passar por lá e ver a mané aqui, quem sabe dar um abraço. Outro dia vocês compram, ou não. Pra mim pouco importa se vai vender ou não, sem demagogia. Não espero muito retorno do tipo de coisas que escrevo. Seria uma completa idiota megalomaníaca se esperasse. Há 30 anos estou nesta estrada de escrever e divulgar meus textos em publicações independentes, revistas, jornais ou antologias. (Como todo mundo que escreve, já tive livros rejeitados por editoras, quando as procurei, o que confesso que fiz só duas ou três vezes na vida pois não sei dar tapinhas nas costas nem participo de panelinhas, o que aliás é a minha postura neste blog. Eu tenho bons amigos na blogosfera que fazem parte de vários grupos, nos quais eu não me meto, sou uma loner e espero continuar assim.) A publicação por uma editora grande foi a cerejinha pra coroar um bolo que eu ainda não sei o sabor que tem. Publicar por uma editora grande, porém, me trouxe muitas surpresas. As ruins: amigos que eu julgava assim se afastaram discretamente o suficiente para que eu pudesse perceber; as boas: de quem eu nada esperava recebi grande apoio, contrariando a máxima do Barão de Itararé. Mas não me queixo, fui até prevenida de que coisas assim aconteceriam. Não vou enganá-los, muitos dos textos do Não feche seus olhos esta noite foram publicados neste blog, porém no formato do livro, no critério de seleção e organização, eles ganharam um outro sentido, tiveram um novo caminho. Há textos inéditos também. O livro na verdade é para atingir um outro público, um público maior que ainda não me conhece, porque nem só de blogs vive a literatura. Amém. Algumas pessoas me perguntaram se o título do livro vem daquela música "Don't close your eyes tonight". Sim, é verdade. O título do livro foi sugestão de um grande amigo meu que foi assassinado por homofóbicos no ano de 2000. É em homenagem a ele portanto, e o livro é dedicado a ele. (O crime permanece impune.) É isso. Este será o último post-convite que publicarei. Chega. Após o lançamento, teremos as fotinhas de praxe, pra provar que não foi tudo cascata, certo? Estou obviamente ansiosa, nada que um bom ansiolítico com goró não resolva, mas vou relaxar e gozar o momento porque daqui a algum tempo tudo cairá novamente no limbo, na "normalidade". Talvez eu tivesse ainda alguma coisa a dizer, mas não me lembro agora, acordei esta manhã e vim direto pro computador falar com vocês. Minha barriga ronca. Vou tomar o meu café e lhes deixo um grande abraço. Até lá. Até breve.


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Novos doadores continuam aderindo à campanha da pombinha escritora. Ver no post lá embaixo. Obrigada, humanos.


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Para quem quiser comprar o livro sem sair da poltrona, que delícia, procure aqui, ou nos sites das livrarias Cultura, Siciliano, Saraiva ou no Submarino.

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segunda-feira: André de Leones, blogger e jovem autor amigo deste blog, acaba de me comunicar que também ele lançará seu romance, vencedor do prêmio SESC, pela editora Record no dia 20 de junho na ABL às 17 horas. Eu dou a maior força e assino embaixo. Andrezito, não se preocupe de ser na ABL, agora só falta o fardão! Beijos em Nélida, hiac hiac. Relaxe e sucesso.

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augúrios: nesta madrugada um burro ficou zurrando na porta de minha casa a noite inteira. o burro não é meu, mas cavalos e outros quadrúpedes costumam pastar no gramado do lado de fora de minha casa. será um sinal?

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22.5.06

Sylvia Plath e Ted Hughes

A nada mole vida de poeta





Os poetas Ted Hughes e Sylvia Plath tiveram um casamento conturbado. Ele, mulherengo e infiel, ela, depressiva e ciumenta. Sylvia grávida do segundo filho, Ted inicia um romance secreto com uma amiga do casal, Assia Wevill, mulher do poeta David Wevill, publicitária e aspirante a poeta. Sylvia acaba descobrindo e o abandona. Seis meses após a separação se mata aspirando gás de fogão, depois de sucessivas crises de depressão e de estar escrevendo como nunca, à luz de velas e num apartamento sem calefação que pertencera ao poeta Yeats. Suspeita-se que ficou sabendo que a amante de Ted esperava um filho dele, que acabou sendo abortado após o suicídio da poeta. Ted passa a viver com Assia -- uma mulher obcecada por Sylvia e que chegava a usar as roupas da poeta -- que, seis anos mais tarde e também sofrendo de depressão, se mata da mesma forma que Sylvia, com a cabeça ao lado do fogão e junto com a filha de 4 anos que teve com Ted e que era rejeitada pelo pai. Nessa época Ted já estava de romance com a enfermeira Carol Orchard, com quem veio a se casar e de quem se diz que também tentou o suicídio. A lembrança de Sylvia sempre acompanharia o poeta, que a certa altura escreveria o verso: "O teu fantasma, inseparável de minha sombra..." Os fãs de Sylvia Plath o odeiam, não sem motivos, o poeta declararia à Paris Review que queimou parte dos Diários de Sylvia referentes aos últimos meses de vida da poeta pois não queria que os filhos ficassem sabendo dos últimos dias de sofrimento da mãe. Ted Hughes era um dos poetas preferidos da nobreza britânica e de Margaret Thatcher, que deu uma mãozinha para ele se consagrar como poeta laureado. Ted morreria de câncer 35 anos depois de Sylvia Plath.




Assia Wevill, a Outra.



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17.5.06




Zizi: -- Lançamento de quem?

Chico: -- De um livro aí de uma tal de Maira.

Zizi: -- E quando é? Vocês vão?

Bethânia: -- Sei não. Tá muito em cima. É daqui a 20 anos.



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10.5.06




Réquiem


O bar fechou.

O chope acabou.

A luz apagou.


Ao sair
favor não balançar as alças.



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