23.9.17

"Chuva" curta-metragem de Joris Ivens 1929



Regen (Chuva) é um poema-filme, um filme experimental da precipitação e queda de uma chuva em Amsterdã. Filme impressionista composto como uma sinfonia. Ivens levou dois anos para filmar diferentes chuvas em diferentes locações da cidade. A música é de Hanns Eisler, composta em 1941.




Rome The Orchards Berlin 2006

19.9.17

Ms. Bruna Beber

Glauber Rocha




A cruz na praça, segunda experiência cinematográfica de Glauber Rocha depois do curta-metragem O pátio (1959). Baseou-se no seu conto "A retreta na praça" publicado na antologia Panorama do conto baiano. No filme Glauber retira a dupla original homem e mulher do conto e substitui por dois homens. Sensibilizado pela grande violência contra os homossexuais na Bahia dos anos 1950, ele muda de foco para abordar um assunto que na época era politicamente pouco discutido. O filme mostra a perambulação dos dois homens pelo Cruzeiro de São Francisco, até que um deles, como na foto, agarra o membro do outro, o que leva a uma sequência de imagens fortes e reprimidas de anjos, santos e monstros barrocos da Igreja de Nosso Senhor e por fim à cena de castração em torno da cruz, o símbolo do catolicismo. A cruz na praça é considerado inacabado, e raro, quem não viu ficará no ar.  





Iturrusgarai

17.9.17

Carta #5 de José Luis Guerin para Jonas Mekas


Descrição:


Correspondencia(s) es un cofre de 5 DVDs del sello © Intermedio que reúne las misivas filmadas de diez directores esenciales del cine contemporáneo. La correspondencia fílmica es un nuevo y original formato de comunicación entre directores que, a pesar de encontrarse separados geográficamente, están unidos por la voluntad de compartir ideas y reflexiones sobre todo aquello que motiva su trabajo. Esta idea surgió originalmente (pero no están incluidas en esta colección) con las diez cartas cinematográficas que intercambiaron el director de cine español Victor Erice y el cineasta iraní Abbas Kiarostami, se trataban de cartas redactadas en formato video-digital, y escritas en sí literalmente, tanto en caracteres españoles como persas y con pluma estilográfica. Correspondencia(s) trae un un libro detallado para profundizar conceptualmente el total de 29 cartas filmadas, de Barcelona a Nueva York, de Girona a Nara, de Banyoles a Buenos Aires, de Madrid a Shaanxi, de Ciudad de México a Puxan y viceversa, entre los cineastas: José Luis Guerin (Barcelona) – Jonas Mekas (Nueva York) Albert Serra (Banyoles) – Lisandro Alonso (Buenos Aires) Isaki Lacuesta (Girona) – Naomi Kawase (Nara, Japón) Jaime Rosales (Madrid) – Wang Bing (Shaanxi, China) Fernando Eimbcke (Ciudad de México) – So Yong Kim (Pusan/Nueva York).


Rimbaud

16.9.17

Women of Ireland - Ceoltóirí




There's a woman in Erin who'd give me shelter and my fill of ale; There's a woman in Ireland who'd prefer my strains to strings being played; There's a woman in Erin and nothing would please her more Than to see me burning or in a grave lying cold. There's a woman in Erin who'd be mad with envy if I was kissed By another on fair-day, they have strange ways, but I love them all; There are women I'll always adore, battalions of women and more And there's this sensuous beauty and she shackled to an ugly boar. There's a woman who promised if I'd wander with her I'd find some gold A woman in night dress with a loveliness worth more than the woman Who vexed Ballymoyer and the plain of Tyrone; And the only cure for my pain I'm sure is the ale-house down the road.





John Ashbery

13.9.17

1 poema de Patricia González López





A patroa te ama


Mandem embora todos os paraguaios
que vêm aqui roubar nossos empregos
lotam os hospitais
e não pagam impostos!
Que voltem pro seu país
ou que fiquem no interior onde tem menos gente
e precisam de mulas.
Mandem embora todos,
menos minha faxineira,
vocês não imaginam como é boa!
Em todos esses anos
nunca me roubou,
e olha que muitas vezes
deixei dinheiro no criado-mudo
e meus anéis no banheiro
mas nunca dei falta de nada
e isso que mora numa favela....
É uma em um milhão!
Honesta,
Asseada...
Se veste mal, coitada,
mas como eu sou muito generosa
desapegada
sempre lhe dou alguma peça de roupa.
É muito boa
tão boa que não me pede nada
nem pra ser registrada,
É tão caro pagar os encargos sociais!
Tem a sorte de comer como um passarinho,
traz pão e mate de sua casa,
quando tem alguma festa é ela que serve,
e como eu gosto de ajudá-la
lhe dou as sobras do bolo para que leve a seus filhos
Você acredita que ela os deixa todo o dia sozinhos?
Uma vez bancou a esperta
e não trabalhou no Ano Novo,
tinha que ficar doente justo aí!
Tudo bem, uma vez em 27 anos
que falte num Ano Novo,
Não foi nada, até porque no Natal ela veio
Ah, mas na Semana Santa não falha!
Tão boazinha,
é uma dádiva que não responda
e que sempre fique até tarde.
Mas no seu aniversário
eu a deixo ir lá pelas nove,
assim chega em sua casa
antes da meia-noite
e pode comemorar com sua família.


(tradução de Paulo Ferraz)

12.9.17

Queermuseu x MBL




O episódio de Porto Alegre [censura da exposição Queermuseu] mostra -- uma vez mais -- que não vinga no Brasil esse negócio de direita moderninha, descolada, liberal. Esse era o projeto do MBL, tal como imaginado por seus idealizadores na América do Norte. Uma direita que fosse capaz de disputar o ambiente acadêmico, arejada nos "costumes" e troglodita como sempre no que diz respeito às relações entre capital e trabalho ou à regulação pública das relações econômicas. O modelo seria o de outra estrela da Atlas Network na América Latina, a jovem cientista política guatemalteca Gloria Álvarez, que esteve até por aqui, dando palestras para FHC assistir. Sua conta no Twitter é "crazyglorita", que revela bem como ela deseja ser vista. Por trás do terninho, da maquiagem pesada, da certeza sobre o caráter imutável da natureza humana egoísta e da defesa do Estado mínimo, ela é crazy. Como diria Luciano Huck: loucura, loucura, loucura.


Não funcionou. 

Direita descolada é um luxo que o Brasil não está em condições de sustentar. Por isso, o MBL não perde a chance de despir a fantasia e assumir o velho obscurantismo raiz de sempre. Seu caminho é se tornar uma nova versão da TFP.


Luis Felipe Miguel

via FB


10.9.17

http://mykristeva.tumblr.com/post/165164665485

Conversa com Luis da Câmara Cascudo

Jornal Movimento




Jornal Movimento, edição de 1976, manchete "Geisel em um Mar de Lama". O jornal, ligado ao francês Le Monde, apontava mais de 2.000 casos de corrupção no período entre 1964 e 1976. Uma junta militar ficou responsável pelo recolhimento das publicações e a sede do jornal foi fechada por seis meses, com a acusação de suspeita de terrorismo. Esse é um dos poucos exemplares que sobraram dessa histórica edição.



30.8.17

6 poemas de Margarida Vale de Gato










Se sinto isto aqui chiar cá dentro 


De qualquer forma sei como encontrar
quem alivie. Nem o problema está
em que não sejas tu. Antes será
que venham mas não tenha para lhes dar,


atribuir-lhes uso, não lugar:
esse amplo espaço que te abri, já
feito o trespasse, o isolei: aliás
de ti adopto o jeito de vedar,

e embora admita que também estalas,
há que emplastrar de novo a cal, o gesso,
e sem falta cobrir as decepções,


que cesse o eco, quando ainda me falas,
esticada como antes, tua, tesa. 
Tudo estanque, agora, é raro o ar


um silvo só arranha entre os pulmões. 




Coping


Ficar quieta é técnica que já
aplico com rigor, e no preciso
sítio em que pulsa paraliso
tudo, quem está morto livre está.


Creio que começou quando cedeu 
o avô. Alguém disse: afinal
o coração não aguentou. Eu
pensei: mais vale declinar o abalo. 


Mas também não cheguei nessa altura
até ao fim. Escangalhei-me na novena
aos degredados filhos de Eva. 
Iniciei-me então nos barbitúricos

e hoje passo bem melhor. Às vezes
é um jogo, em que recorro ao coito
antes de apanhada, e se esgoto
essa via, dedico-me à mimese,


diluo-me com os objectos, tudo
me toca mas nada dá por mim, tão
imóvel que me ignora a dor, não 
há como acordar um corpo mudo. 


Por exemplo agora que não veio
o homem, podia ter-me ferido
ou saído a buscar outro, e perdido;
mas pratico com vantagem a apneia

e a domesticidade. É pena
que me esqueça tanta coisa; foi 
sorte saber da lamela - eia, pois,
advogada nossa - dormir serena. 




Ressabiadas


Talvez lá no fundo acredite
que os seres humanos são todos sensivelmente 
os mesmos em toda a parte, mas então 
necessariamente as mulheres são mais. 
Costumes que frequentamos: 
o arame da loiça, os panos dos pratos, os ganchos e as linhas
do estendal, a vinha-de-alhos, o fogão, 
o alguidar, guardamos os restos, torcemos
os trapos, os nossos recados, os nossos sacos,
os nossos ovos. 


Certamente que eles, em grande maioria, 
escanhoam os queixos e gostam
de arejar, mas não médicos, polícias,
engraxadores, economistas
e os vários naipes da banda filarmónica
nós somos todas domésticas, mesmo

assim não nos entendemos, e
nem serve escrever isto
que o maniqueísmo em traços largos
resvala na aldrabice, e a poesia
vem dos anjos já se sabe
carecidos de sexo. 


E aliás que me rala a mim,
levo a minha vida e tenho o amor
de que não desconfio
e se consolo o cio e a fome
decerto falo de cor,
nem é por isso que me doem os calos
mas por causa dos bicos
dos vossos saltos
no desnível dos soalhos, refinadas
galdérias que se tomam a sério,
pestanas certeiras e beiços
que brilham, línguas que estalam 
e mamas que chispam

corada invoco a imagem mal tirada
da fêmea recortada ao macho que a conforma;
sei que desminto qualquer laço comunal
e seja como for ninguém pediu 
o meu palpite, pelo que não me habilito 
e me desquito, acinte,
mudo, era eu


quem estava mal. 




Mulher ao mar


MAYDAY lanço, porque a guerra dura
e está vazio o vaso em que parti
e cede ao fundo onde a vaga fura,
suga a fissura, uma falta – não
um tarro de cortiça que vogasse;
especifico: é terracota e fractura,
e eu sou esparsa, e a liquidez maciça.
Tarde, sei, será, se vier socorro:
se transluz pouco ao escuro este sinal,
e a água não prevê qualquer escritura
se jazo aqui: rasura apenas, branda
a costura, fará a onda em ponto
lento um manto sobre o afogamento.



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No rascunho que Fernando Pessoa usou
para a tradução do Corvo de Edgar Poe
há no fim versos talvez seus que rasurou.

«Dic. de Rimas», em letra legível vem
por cima; depois, porém, o que não quis
que viessem a ler, nem ele a ter de escrever,
afigura-se tão honesto quanto sofrível.
Devo admitir que não pude coibir-me
(julgo eu que nenhum outro, ao descobrir
o bilhete ignorado de um morto)
a tentar ver se ele traduzia, se
aquilo era poesia ou um apelo
e a mim cabia, por mais
que inexacto, transcrevê-lo.

Se julguei entender a certo passo
o verbo «treslêem», era chato
que ao primeiro sinal faltasse o traço;
olhando de novo, talvez achasse
«conteem» (atestando no passado
mais desafogo ortográfico)
o que era menos ousado
embora não desdissesse
aquilo que me comove
na p. 229
do Livro do Desassossego,                  
«Ler é sonhar pela mão de outrem.
Ler mal e por alto é libertarmo-nos 
da mão que nos conduz.»
Isto sobretudo quando, como dizia
o galês que o Ivan Junqueira traduz,
«Grande é a mão que mantém
o seu domínio sobre um homem
por ele ter escrito um nome.»
(Neste ponto, nota de rodapé onde se lê:
Jerónimo Pizarro, em comunicação pessoal,
diz-me que o trecho não é do livro afinal.)

Devolvendo-me, por linhas tortas,
à reflexão do que fazer
com o papel em que um homem,
nem de propósito por muitos
considerado o maior génio
da língua portuguesa do século
vigésimo, depositou quem sabe
o seu mais pungente recado, o qual
riscou, mas não deixou por isso de guardar
numa resma arrumada que o culto nacional
não só numerou como hoje disponibiliza
digitalmente a quem quiser consultar.

E eu –– a tergiversar –– isto não é poema
nem condiz com sentida homenagem:
Fernando, tu dizias, da brevidade da vida
e da dor e desgraça que «ha n’ella» (anela),
e aquilo que mais doía era a falta de coragem
de confiar os desmandos do teu ser,
«oculto o meu interior aos olhares humanos»
(embora aqui talvez haja desfocagem
e possa ser «critério» o que esteja
no lugar de «interior» – onde, mais se justifica,
no início dessa estrofe, «Sinto horror»);
e ainda declinavas, pela margem
«Pensamentos.. gestos... palavras... almas»,
 
e eu que devia vir aqui dar corpo
ao inarticulado da poesia falar-te
do que perdeste, com esse teu feitio,
e a interna rima traindo-te a descarga
de eterno contentor que não explode ––

nem sei se a letargia tanto me sacode,
«além de que o não posso a alguém vazio».




 



27.8.17

Apple


Think Different. O slogan da Apple nos convida a pensar diferente. Mas tudo indica que a empresa, apesar de "pensar diferente", age como de costume. Igual a todas as grandes corporações criminosas. A Apple, símbolo de inovação e criatividade, tem demonstrado também ser criativa para burlar leis concorrenciais e pagar o mínimo de impostos. As procuradorias-gerais dos estados de Nova York e Connecticut estão investigando a Apple por práticas danosas à livre concorrência. E a Comissão Europeia investiga a empresa desde o ano passado por suspeita de fraude fiscal.
É sabido também que a Apple se utiliza de mão de obra estrangeira em condições além de precárias. Tristes linhas de montagem dos tempos pós-modernos. Enquanto cultuamos o design, a tecnologia e a funcionalidade de nossos produtos favoritos, ficamos tão absorvidos pelo fetiche dessas mercadorias que esquecemos como, por quem e em que condições elas são produzidas.

O interessante é que grande parte da tecnologia utilizada no IPhone é decorrente de pesquisas financiadas pelo setor público. A economista Mariana Mazzucato refresca nossa memória e nos faz relembrar que "a Internet, onde dá para navegar para qualquer lugar no mundo; GPS, com que dá para saber onde você está em qualquer lugar do mundo; a tela sensível ao toque, que também torna um celular fácil de usar por qualquer pessoa. Essas são as coisas muito inteligentes, revolucionárias no iPhone, e são todas financiadas pelo governo".

Em seu livro O Estado Empreendedor — Desmascarando o Mito do Setor Público vs. o Setor Privado, Mariana Mazzucato nos recorda que "a Internet foi financiada pela DARPA, do Departamento de Defesa dos EUA. O GPS foi financiado pelo programa Navstar dos militares. Até a Siri foi, na verdade, financiada pela DARPA. A tela sensível ao toque foi financiada por duas concessões públicas da CIA e da NSF a dois pesquisadores universitários na Universidade de Delaware". Todos órgãos públicos.

Ainda segundo Mariana Mazzucato, "a Apple foi financiada inicialmente pelo programa SBIC, que antecedeu o programa SBIR, assim como todas as tecnologias por trás do iPhone. E, mesmo assim, sabemos que eles legalmente, como muitas outras empresas, pagam pouquíssimos impostos de volta". De fato, as práticas agressivas de planejamento tributário da Apple, com a finalidade de pagar o mínimo de impostos, são bastante conhecidas. Mas a fronteira entre o planejamento e a fraude já foi ultrapassada.

De acordo com o Financial Times, a Apple utiliza a Irlanda desde 1980 como um paraíso fiscal para recolher menos impostos. Investigações da Comissão Europeia apuraram que a Apple teria recebido vantagens ilícitas do Estado irlandês, onde os impostos são menores do que 2%. Na União Europeia, o imposto corporativo padrão é de 12,5%.
Em resumo, a empresa considerada o modelo mais perfeito e acabado de sucesso da nova economia cresceu com financiamentos públicos diretos e indiretos para, no fim das contas, utilizar mão de obra precarizada, burlar a livre concorrência e fraudar impostos. Assim é muito fácil incentivar recém-formados para que sejam inovadores, "indo atrás do que amam" e "continuando loucos", como fez Steve Jobs, em célebre discurso na Universidade de Stanford, em 2005.
Riscos públicos, benefícios privados. Efeitos colaterais de um mercado não tão livre assim. A liberdade econômica, para os defensores do livre mercado, é unilateral. Só vale quando lhes favorecem. Marx também era um liberal, no sentido iluminista do termo. Acreditava que com o uso da razão seria possível construir um mundo melhor, mais igualitário e mais livre. Mas para ele, o liberalismo só faria sentido quando não houvesse mais dominantes e dominados. Nem empresas monopolistas e oligopolistas regendo o mundo. Um mundo livre não apenas de direito, mas livre de fato. Uma bela utopia marxista.

Ulysses Ferraz
via FB



25.8.17

Violeta Parra - o outro lado de Gracias a la Vida



Maldigo del alto cielo
la estrella con su reflejo,
maldigo los azulejos
destellos del arroyuelo,
maldigo del bajo suelo
la piedra con su contorno,
maldigo el fuego del horno
porque mi alma está de luto,
maldigo los estatutos del tiempo
con sus bochornos,
cuánto será mi dolor.

Maldigo la cordillera
de los Andes y de La Costa,
maldigo, señor, la angosta
y larga faja de tierra,
también la paz y la guerra,
lo franco y lo veleidoso,
maldigo lo perfumoso
porque mi anhelo está muerto,
maldigo todo lo cierto
y lo falso con lo dudoso,
cuánto será mi dolor.

Maldigo la primavera

con sus jardines en flor
y del otoño el color
yo lo maldigo de veras;
y a la nube pasajera
la maldigo tanto y tanto
porque padezco un quebranto.
Maldigo el invierno entero
con el verano sincero,
maldigo profano y santo,
grande será mi dolor.


Maldigo a la solitaria
figura de la bandera,
maldigo cualquier emblema,
la Venus y la Araucaria,
el trino de la canaria,
el cosmos con sus planetas,
la tierra y todas sus grietas
porque me aqueja un pesar,
maldigo del ancho mar
sus puertos y sus caletas,
grande será mi dolor.


Maldigo luna y paisaje,
los pueblos y los desiertos,
maldigo muerto por muerto
y el vivo de rey a paje,
las aves con sus plumajes
las maldigo a sangre fría,
las aulas, las sacristías
porque me aflige un dolor,
maldigo el vocablo "amor"
con toda su brujería,
cuánto será mi dolor.


Maldigo por fin lo blanco,
lo negro con lo amarillo,
obispos y monaguillos,
ministros y predicandos
yo los maldigo cantando;
lo libre y lo prisionero,
lo dulce y lo pendenciero
yo pongo mi maldición
en griego y en español
por culpa de un traicionero,
cuánto será mi dolor.