16.9.14

1 poema de Dana Levin




You wanted to be a butcher
but they made you be a lawyer.

You brought home presents
when it was nobody’s birthday.

Smashed platters of meat
she cut against the grain.

Were a kind
of portable shrine — 

I was supposed to cultivate a field of  bliss,
then return to my ordinary mind.



You burned the files
and moved the office.

Made your children fear
a different school.

Liked your butter hard
and your candy frozen.

Were a kind
of diamond drill, drilling a hole
right through my skull — 

quality sleep, late November.



What did it mean, “field of bliss” — 

A sky alive “with your greatest mentor” — 

I wore your shoes, big as boats,
flopped through the house — 
while you made garlic eggs with garlic salt, what

“represents the living teaching” — 

Sausages on toasted rye with a pickle,
and a smother of cheese, and
frosting
right out of  the can without the cake — 
You ruled
with a knife in one hand and a fork in the other, you raged
at my stony mother, while I banged

from my high chair, waving
the bloodied bone

of something slaughtered — I was
a butcher’s daughter.

So all hail to me — 

Os Gurges, Vortex Mouth, I gap my craw
and the bakeries of the cities fall, I

stomp the docks — spew out a bullet stream
of oyster shells, I’ll

drain the seas — the silos
on every farm, the rice

from the paddy fields, the fruit
from all the orchard trees, and then I’ll

eat the trees — 
I’ll eat with money and I’ll eat
with my teeth until the rocks

and the mountains curl
and my blood sings — 

I’m such a good girl

to eat the world.




13.9.14

Yoko Ono




PEÇA DE ESCONDE-ESCONDE


Esconda-se até que todos voltem para casa.
Esconda-se até que todos se esqueçam de você.
Esconda-se até que todos morram.


primavera de 1964



PEÇA DE SANDUÍCHE DE ATUM

Imagine mil sóis no céu
ao mesmo tempo.
Deixe que brilhem por uma hora.
Depois faça-os derreter pouco a pouco.
Prepare um sanduíche de atum e coma.


primavera de 1964




6.9.14

Giuseppe Ungaretti


I FIUMI 

Cotici il 16 agosto 1916

Mi tengo a quest’albero mutilato
abbandonato in questa dolina
che ha il languore
di un circo
prima o dopo lo spettacolo          
e guardo
il passaggio quieto
delle nuvole sulla luna
Stamani mi sono disteso
in un’urna d’acqua                      
e come una reliquia
ho riposato
L’Isonzo scorrendo
mi levigava
come un suo sasso                     
Ho tirato su
le mie quattr’ossa
e me ne sono andato
come un acrobata
sull’acqua                                   
Mi sono accoccolato
vicino al miei panni
sudici di guerra
e come un beduino
mi sono chinato a ricevere          
il sole
Questo è l’Isonzo
e qui meglio
mi sono riconosciuto
una docile fibra                          
dell’universo
Il mio supplizio
è quando
non mi credo
in armonia                                  
Ma quelle occulte
mani
che m’intridono
mi regalano
la rara                                         
felicità
Ho ripassato
le epoche
della mia vita
Questi sono                                
i miei fiumi
Questo è il Serchio
al quale hanno attinto
duemil’anni forse
di gente mia campagnola             
e mio padre e mia madre
Questo è il Nilo
che mi ha visto
nascere e crescere
e ardere d’inconsapevolezza       
nelle estese pianure
Questa è la Senna
e in quel suo torbido
mi sono rimescolato
e mi sono conosciuto                   
Questi sono i miei fiumi
contati nell’Isonzo
Questa è la mia nostalgia
che in ognuno
mi traspare                                   
ora ch’è notte
che la mia vita mi pare
una corolla
di tenebre




31.8.14

5 poemas de Félix Francisco Casanova



A veces, cuando la noche me aprisiona...

A veces, cuando la noche me aprisiona
suelo sentarme frente a una cabina telefónica
y contemplo las bocas que hablan
para lejanos oídos.
Y cuando el hielo de la soledad
me ha desvenado, los barrenderos moros
canturrean tristemente
y las estrellas ocupan su lugar, yo acaricio el teléfono
y le susurro sin usar monedas.

#

El autobús de medianoche
pasará por aquí, frente a tu casa.
Sonará tres veces el claxon
y oirás las risas contagiosas
de sus pasajeros.
Tú morderás la cortina de la ventana
y aferrándote a los muebles
romperás a llorar.
Justo la noche en que decidas marchar.
Si faltara a la cita.

#

De más allá del mar
vienes a contarme tu derrota
y esperas que yo te arrulle
y te preste un poco de viento.
Hoy, día de la carne abierta,
con tu olor a subterráneo
y tu pálida huella en las cosas,
amigo, urge saltar del tren
y dejar un disfraz vacío
velando el asiento:
así verás que eres tú el túnel
por donde los demás corremos.

#

La brisa mantiene
la pluma en el aire,
el ave, furiosa, escarba
en la arena, sus alas
dormidas, la sangre pesando
dentro de su cuerpo, el peso
de su cuerpo dentro del zarzal,
y la pluma subiendo
y la pluma subiendo...

#

¡Qué alivio!..
Eres un árbol y
no puedes seguirme




19.8.14

Lina Ekdahl




What do you want


Why did you come here. Why are you here. What are you doing. What are you doing here. Who are you. What's your name. What do you want. What are you thinking about. What do you wish for. What do you want. Why are you standing here. What are you waiting for. What's your name. Where is your mum. Where is your dad. What's his job. What's your job. What do you want. What do you eat. Do you eat meat. Do you eat fish. Do you like spicy food. Do you like mild food. Are you in good health. What health problems do you have. What health problems have you had. Do you know how to read. Do you know how to write. Do you know how to whistle. What language do you speak. Do you know Finnish. English. German. Portuguese. Do you understand Danish. What do you want. What kinds of clothes do you like. Are you interested in sex. Are you sad. What are you doing. Why are you standing here. Why are you not talking. What do you want. What do you like to do in your spare time. Do you like going to the beach. Swimming. Diving. Mountain climbing. Fishing for crabs. For crayfish. What do you want. Do you ski. Are you from Skåne. Gästrikland. Småland. Jämtland. So where are you from then. What's your best colour. Why. What do you want. Who is your best friend. Where do you live. Who are you. What are you doing. What do you want. Are you in love. With whom. What do you want. What's his name. Hers. Why are you standing here. When did you arrive. Are you hungry. Do you want cookies. Do you want a spanking. Do you want cock. Do you want to have fun. What do you want. Why are you not laughing. Who are you. Where do you live. Why are you standing up. What are you thinking about. What do you want. Do you make things. Songs. Music. Do you play an instrument. Do you like travelling. Where are you from. Are you happy. Why are you not laughing. When did you arrive. When are you leaving. What do you want. How much do you cost. Who pays. How much do you eat. How are your teeth. Your stomach. Nerves. What do you want. Who is going to pay. Where do you live. Where do you sleep. Who are you. What do you want. Me. Us. Why did you come here. Do you know where you are. Why not. What do you want. What health problems are you going to have. Are you creative. What do you want. Are you horny. When did you arrive. Why are you standing here. What's your name. What do you want. Why do you act. How long are you planning on staying. Did you bring sheets.



14.8.14

Carla Diacov



neste sofá deitou-se o meu amor
eu poderia dizer isso
neste sofá deitou-se o meu amor
posso e digo e digo sorrindo
pois que neste sofá deitou-se o meu amor
e pronto
estou livre da horrenda figura
neste sofá deitou-se o meu amor


10.8.14

Carta de Cazuza a Denise Dumont



Rio, 22/7/86.



a saudade é grande, mulher vermelha tiro no coração. estou escrevendo numa tarde cinzenta e fria daí resolvi bater à maquina elétrica. estou ouvindo o último disco do the smiths e me sentindo meio hemisfério norte. o cara na sala conserta o meu vídeo. estou com um da Billie Holiday lindo, filmados numa boate, ela escarrando antes de cantar com os olhos molhados boca amarga sorriso de criança baby porque nossos corações são tão atormentados?



ainda não estive com Rita pra saber novidades, eu sou tão difícil de escrever, mas aqui vão novidades que não dão no telefone. tenho trabalhado bastante, pra espantar a solidão e os maus pensamentos. hoje, pela 456° vez resolvi que preciso fazer análise, porque tenho sentido muito medo. medo de voar, de entrar no palco, de amar, de morrer, de ser feliz. medo de fazer análise e não ter mais problemas e perder a inspiração... eu fiz 28 anos e descobri um cara solitário sem vocação pra solidão. ultimamente eu passo mal quando não tem ninguém perto, chego a ter febre, é uma loucura. o menino sozinho brincando de cidades desertas cresceu e quer amar, mas é tão difícil. eu vou chegar pro analista e vou dizer: eu quero aprender a mar. estou gravando um disco, está quase pronto, e as músicas revelam muito isso que eu tô te contando, só que de um jeito sarcástico, debochado e por isso mesmo profundamente triste.

viver é bom nas curvas da estrada, solidão que nada!

viver é bom partida e chegada, solidão que nada!

esse é o refrão de uma balada blue que talvez seja a música de trabalho, e é a minha vida nesses meses, de aeroporto em aeroporto (cada aeroporto é um nome num papel, um novo rosto atrás do mesmo véu). daqui a pouco eu escrevo a letra toda! tem um blues que fala "ando apaixonado por cachorros e bichas, duques e xerifes, porque eles sabem que amar é abanar o rabo, lamber e dar a pata". forte, né?

ah, estou ficando careca, fico passando minoxidil pra fingir que é possível parar o tempo. eu queria parar o tempo e voltar e voltar pra barriga da mamãe, mas ia ficar tudo tão parado.

você vai continuar gostando de mim se eu ficar careca?

eu penso muito em você aí, menina linda tentando o grande sonho americano. eu ando muito cansado pra ir à NY, vou tirar férias depois do disco na chapada dos guimarães, onde uma amiga minha tem um sítio. às vezes eu fico pensando no porque disso tudo, ganhar dinheiro cantando as minhas aventuras de desventuras. comprar uma fazenda e fazer filhos talvez fosse uma maneira de ficar na terra pra sempre, porque discos arranham e quebram... mas eu acho que no fundo não passa de uma grande viadagem minha esses papos.


te amo muito. do nosso jeito. beijos em Margarida. (agora botei morte em veneza na vitrola)

beijos no new american boy Diogo. e beijos pra quem é de beijos. e abraços pra quem é de abraços. ciao!



Caju.


(via On the Rocks)




5.8.14

Memórias de uma menina na noite escura da ditadura, de Luiz Fernando Sarmento





Belo documentário de Luiz Fernando Sarmento com o depoimento de Fátima Setúbal que, 
menina ainda, participou dos movimentos de resistência à ditadura militar.


Um depoimento franco e leve de uma mulher sofrida que não perdeu seu
jeito e alegria de menina para contar a história por que passou.
A História do Brasil.




2.8.14

2 poemas de Matilde Campilho




Badland 



Não sei se sou homem
já não sei se sou
homem
se sou besta
se tenho olhos azuis
ou mesmo se visto
camisa azul.
Também já não sei
se seguro um toco
meio ardido, aqui sentado
na esplanada desta cidade
cujo nome é Tavizkam.
Não sei se sobre meu ventre
foi depositada uma concha, há uns
1000 dias atrás.
Não sei se sou automático, se devo
trabalhar, pagar o revólver a prestações,
fazer remo, correr na calçada, usar
camisa esquadrinhada, escrever em
cedro esquadrinhado. Eu não sei
se possuo uma barca, se possuo
ossos que podem apodrecer
a qualquer hora. Eu não sei os nomes
dos poetas todos mas sei que os poetas

todos são os novos roqueiros. Eu não
sei, só sei que antes julguei que
os poetas eram escavadores.

Aquele amor
aquele que eu pensei
que se despedaçaria como
um meteorito no Minnesota
(uma coisa assim
estrondosa abusiva
gritante maravilhosa
estilhaço prolongado
cheio de uivos)
afinal caiu silencioso
como um aviãozinho de papel
passeando em Itaparica
em dia da apanha dos morangos.

Não sei se sou homem,
se sou mulher. Mas este
é o caminho do estio
e por perto passam os bois.




JUIF ERRANT


O que fiz depois dela foi mudar
de cara de corpo e de persona
para que ela deixasse
de me reconhecer
Para que assim não existisse
a menor possibilidade
de reconhecimento
Confundimos muitas vezes
o amor com o reconhecimento
e essa foi a maior trapaça
de nós dois no mundo
Tem gente por aí que acha
que fizemos coisas piores
Assaltamos alguns bancos no sul
Fizemos péssimas imitações
de Harrison nos karaokes
Mentimos para nossas avós
sobre a verdadeira natureza
de nossas pernoites em conjunto
Lemos O’Hara em alto nos cafés
fingindo ser aquele o canto
do novo poeta português
Mas nada disso era comparável
à grande rasteira
que nos infligíamos ela e eu
todos os dias das nossas vidas
Eu sou teu amor tu és o meu
Um passando a perna ao outro
mesmo antes de descermos

para a refeição inicial, isto é,
a laranja mística do Deus
no qual acreditávamos os dois
Mudei de corpo porque perdi
uns quantos quilos
Mudei de cara porque envelheci
Tudo isso foi bastante simples
e mais ou menos natural
Até porque o desgosto é o melhor
acelerador de partículas e de tempo
que o tal Deus vitaminado engendrou
Difícil mesmo foi trocar de eu
Foram precisas umas quantas viagens
vestido de métèque e vagabundo
Quatro ou cinco visitas
ao gabinete de astrologia
Um gole no xarope amazônico
Bastantes papos com meus inimigos
Foi precisa a contagem dos tremoços
nas taças das aldeias costeiras
A reza da novena dos gêmeos de fogo
Foi preciso simular o amor
na cama de mais mulheres
do que provavelmente
meu sistema imunitário

pudesse antes suportar
Repetir i love you’s aí pelas praças
Esquecer a oração da missa das dez
e mais ainda o poema do canhoto
aquele Mother Nature’s Son
Foi assim, sempre simulando alguém
cantando, que deixei de me reconhecer
E foi por causa disso
Porque eu não me reconheço
Ela não me reconhece mais
Abdicando de meu corpo no mundo
eu abdiquei do corpo dela no mundo
Estas são as instruções para se dar cabo
de uma história daquelas semi-raras
Aquelas que se a gente não prestar atenção
se arriscam bastante a ser eternas.