14.5.17

1 poema de Victor Casaus

Agora Aprendo de Novo
Como o assassino que regressa sempre ao local do crime
ou o tigre ao lugar
de sua penúltima fome
já vens aqui agora
para aprender de novo
                            enquanto comprovas
que ainda está aberto nessa estranha
(mas também fria) neve do lençol
o molde apagado de onde saiu
         (há quantas horas?)
         (há quantos séculos?)
aquela mulher que se alçava junto a ti
buscando o ciclo com uma insólita vocação de palma
e que agora deve andar (oh palma sozinha) pelo mundo
sobre uma neve que já não é este lençol
numa paisagem donde onde não há
estou quase certo   outra palma como ela
Já se foi
e já vens
a ver com as próprias mãos
o tamanho interminável e amoroso desta desordem
a escutar com tuas unhas
o ruído que ainda faz seu pêlo contra a janela
a sentir nas vozes que ainda preenchem este quarto
aquele cheiro que hoje te perseguiu
tantas horas pelo mundo
a descobrir dentro de  sua luminosa penumbra
estes olhos que te miram ainda
         daqui mesmo
e que te ensinaram outra vez
que o assassino regressa sempre ao lugar do crime
e o tigre ao local de sua penúltima fome
Já vistes como estão as coisas
a almofada     o telefone   a luz ainda está
         acesa
Vistes que a vida continua provocando
cataclismos e amores e fábulas
                                      tão certas
como esse molde morno onde repouso
minha cabeça de assassino amoroso
e sinto nascer o sonho de minha próxima fome

12.5.17

Desgraça Infinita


Sobre a capa da Veja
“Pão ou pães é questão de opiniães”, escreveu João Guimarães Rosa. Todo o ambiente político é, em larga escala, questão de opiniães, mas desumanidade não é questão de opiniães. Não reconhecer a humanidade no outro é apenas a maior violência que se pode cometer contra a dignidade de uma outra pessoa.
Ser de direita ou de esquerda já não importa mais, como acontece sempre que passamos a viver dentro de um estado de exceção.
O que estamos aprendendo é que há estados de exceção que podem se amparar em vestígios de legalidade e podem ser mantidos pelas instituições, que conferem a ele os rastros de legitimidade necessários para que vivamos em dúvida: será que isso aqui é mesmo um estado de exceção ou estão exagerando?
Quando não se pode convencer do contrário, fabricar a dúvida é o que basta.
Em um mundo minimamente humanizado, a despeito das opiniães, uma capa de revista como essa que chega amanhã às bancas com o logotipo da Veja (que eu me recuso a reproduzir) jamais seria permitida.
Há fronteiras que não deveríamos cruzar, e uma delas diz respeito à dor de perder alguém que se ame, porque a dor é o que é comum a todos nós e o que nos humaniza.
Todos os bandidos, por piores que sejam, amam alguém. E são por alguém amados. Você não brinca, não debocha, não ridiculariza, não ofende a maior força do universo – o amor.
Quando o filho de Geraldo Alckmin, político que eu considero um monstro, morreu em um acidente de helicóptero, não havia ali espaço para ofensas, deboches, críticas. A dor de Alckmin era a dor de todos nós. Como pai, como homem, como ser humano.
Não importa mais o que se pensa a respeito de Lula. O que estamos fazendo com ele é desumano. Um julgamento ilegítimo, conduzido por um homem que não respeita as leis, e amplificado em imoralidade pelo noticiário.
E agora a capa de uma revista de circulação nacional estampa a imagem de uma mulher que já não vive mais, induzindo o consumidor de noticiário, esse pobre ser humano tratado como gado, a acreditar que, diante de Moro, Lula jogou a culpa em dona Marisa.
Lula não disse no depoimento nada além do que dizia quando dona Marisa era viva. E ainda pediu que o juiz parasse de citá-la porque ela não estava mais aqui para se defender.
Mas para saber disso é preciso assistir 5 horas de depoimento, e isso dá um puta trabalho. Mais simples é acreditar no que o noticiário vai me contar a respeito do depoimento, assim não tenho que pensar por conta própria e posso apenas repetir o que alguém viu no meu lugar.
Mas nem os fatos importam mais. Brincar com a dor da saudade é cruzar ao mesmo tempo os limites do bom gosto, da elegância, da humanidade, da decência e da moral.
Que tempos tristes.
Termino com um trecho de um dos textos mais lindos já escritos por um ser humano, de David Foster Wallace:
“O mundo jamais desencorajará você de operar na configuração padrão, porque o mundo dos homens, do dinheiro e do poder segue sua marcha alimentado pelo medo, pelo desprezo e pela veneração que cada um faz de si mesmo. A nossa cultura consegue canalizar essas forças de modo a produzir riqueza, conforto e liberdade pessoal. Ela nos dá a liberdade de sermos senhores de minúsculos reinados individuais, do tamanho de nossas caveiras, onde reinamos sozinhos.
“Esse tipo de liberdade tem méritos. Mas existem outros tipos de liberdade. Sobre a liberdade mais preciosa, vocês pouco ouvirão no grande mundo adulto movido a sucesso e exibicionismo. A liberdade verdadeira envolve atenção, consciência, disciplina, esforço e capacidade de efetivamente se importar com os outros – no cotidiano, de forma trivial, talvez medíocre, e certamente pouco excitante. Essa é a liberdade real. A alternativa é a torturante sensação de ter tido e perdido alguma coisa infinita.”

Josefina Plá


Biografia
Segui o caminho em que me lançaram
dormi na cama que me deram
lavei o rosto nas chuvas
das tormentas que vieram
comi um pão feito com a farinha
que meus próprios ossos moeram
e bebi água do azul frio
do poço inverso que é o céu.

Seguindo o croquis do tesouro
No baú do bucaneiro
cheguei ao jardim das cinzas
para saber que sou correio
de algum segredo já extinto
de não sei qual caduca folha
poeirento mensageiro errado
sem outra opção que seu retorno.


9.5.17

Dentro de mim ninguém entra - José Castello





"A história é uma sutil narrativa ficcional de José Castello, que convida o jovem leitor de todas as idades a se enveredar no surpreendente universo criado por Arthur Bispo do Rosário, figura que escapa às nossas tentativas de definição", diz a editora neste livro de Castello lançado no final do ano passado. Uma produção impecável, da melhor qualidade, com um texto delicado e poético para o público infanto-juvenil, uma área em que o autor resolveu se arriscar e gostou da experiência. "Só que são os adultos que mais o leem", confessou-me ele por telefone.  Na grande imprensa passou meio que em branco, por que não estranho? Está na minha cabeceira para degustá-lo. O volume conclui com um ensaio biográfico sobre o artista Arthur Bispo do Rosário e é todo ilustrado com fotografias de suas obras que encontram-se preservadas no Museu Bispo do Rosário Arte Contemporânea, no Rio de Janeiro.

O início:

"Estou preso em uma cama de hospital. Os médicos me ligaram a uns fios, enfiaram umas agulhas em meu braço e eu já não posso me levantar. Dizem que fazem isso para cuidar de mim, mesmo assim me sinto um prisioneiro. Não sei se são os médicos que me prendem, ou se é a minha doença -- que, por sorte, eles garantem, não é grave. Mas alguma coisa me impede de voltar para casa."




7.5.17










Silvia Jänkel



bem adentro punhaladas 
de veludo 
as beiradas 
suam 
a ira do mar que não é 

Parece morta ou dormida (quase sempre). Anos de latência
empalideceram seus contornos. Uma massa amorfa que cresce
(para dentro), como um abcesso ou a loucura, que não conhece
limites (por isso os manicômios têm os muros tão altos).
Dar-lhe forma ao informe, sustentar (ou encerrar), proibir a fuga.
Mas as fissuras (deus meu), as fissuras, produto da umidade que
invade e abranda (não pertence a nenhuma religião mas acredita na
natureza).
Está instalada no centro e se burla da polícia. Aparece de repente,
vestida de pecado. Monta seu caótico espetáculo e permanece, como
uma marca, negra (ou vermelha), no almanaque.
se agitam as espinhas
o silêncio
do rio que estrangula
Desperto quase sempre acreditando que existe a saída (o resto é delírio). 
Evito os trens e os elevadores porque no instante em que
fecham suas portas já não tem forma de escapar. 
Prefiro as poltronas
laterais, bem ao lado do corredor, 

e não sonho entrar (pelo centro) vestida de branco.

Durmo cada noite e sei
que uma vez que está dentro
nunca mais volta a sair.


19.4.17

Pedro Nava


O defunto



Quando morto estiver meu corpo,
Evitem os inúteis disfarces,
Os disfarces com que os vivos,
Só por piedade consigo,
Procuram apagar no Morto
O grande castigo da Morte.

Não quero caixão de verniz
Nem os ramalhetes distintos,
Os superfinos candelabros
E as discretas decorações.


Quero a morte com mau-gosto!

Dêem-me coroas de pano.
Dêem-me as flores de roxo pano,
Angustiosas flores de pano,
Enormes coroas maciças,
Como enormes salva-vidas,
Com fitas negras pendentes.

E descubram bem minha cara:
Que a vejam bem os amigos.
Que não a esqueçam os amigos.
Que ela ponha nos seus espíritos
A incerteza, o pavor, o pasmo.
E a cada um leve bem nítida
A idéia da própria morte.

Descubram bem esta cara!


Descubram bem estas mãos.
Não se esqueçam destas mãos!
Meus amigos, olhem as mãos!
Onde andaram, que fizeram,
Em que sexos demoraram
Seus sabidos quirodáctilos?

Foram nelas esboçados
Todos os gestos malditos:
Até os furtos fracassados
E interrompidos assassinatos.

— Meus amigos! olhem as mãos
Que mentiram às vossas mãos…
Não se esqueçam! Elas fugiram
Da suprema purificação
Dos possíveis suicídios.

— Meus amigos, olhem as mãos!
As minhas e as vossas mãos!

Descubram bem minhas mãos!


Descubram todo o meu corpo.
Exibam todo o meu corpo,
E até mesmo do meu corpo
As partes excomungadas,
As sujas partes sem perdão.

— Meus amigos, olhem as partes…
Fujam das partes,
Das punitivas, malditas partes …

E, eu quero a morte nua e crua,
Terrífica e habitual,
Com o seu velório habitual.

— Ah! o seu velório habitual!

Não me envolvam em lençol:
A franciscana humildade
Bem sabeis que não se casa
Com meu amor da Carne,
Com meu apego ao Mundo.


E quero ir de casimira:
De jaquetão com debrum,
Calça listrada, plastron…
E os mais altos colarinhos.

Dêem-me um terno de Ministro
Ou roupa nova de noivo …
E assim Solene e sinistro,
Quero ser um tal defunto,
Um morto tão acabado,
Tão aflitivo e pungente,
Que sua lembrança envenene
O que resta aos amigos
De vida sem minha vida.

— Meus, amigos, lembrem de mim.
Se não de mim, deste morto,
Deste pobre terrível morto
Que vai se deitar para sempre
Calçando sapatos novos!
Que se vai como se vão


Os penetras escorraçados,
As prostitutas recusadas,
Os amantes despedidos,
Como os que saem enxotados
E tornariam sem brio
A qualquer gesto de chamada.

Meus amigos, tenham pena,
Senão do morto, ao menos
Dos dois sapatos do morto!
Dos seus incríveis, patéticos
Sapatos pretos de verniz.
Olhem bem estes sapatos,
E olhai os vossos também. 






4.4.17

Debora Mazzola


Muchacho kirchnerista

Salí con un chico de la JP.
¿Sushi o tradicional?,
me preguntó
cuando subí al Renault gris
y encaró para Palermo.
Entramos a un lugar de pastas
palermitaliano
entre cool y desprolijo
El pibe que atendía la mesa
–es mucho llamarlo mozo–
tenía los pelos teñidos de rojo.
Pedimos tinto
chocamos las copas
sonaba de fondo un cover
en vivo de Floyd.
Gran parte de la noche
se habló de política, claro
me contó la historia
de su militancia nacionalista.
Habló de los pibes de Consti
que duermen en la calle
de la biblioteca popular
de las ventajas del modelo
con inclusión social.
Citó a Gramsci y a Schopenhauer
mientras fumaba un cigarrillo
tras otro usó mucho la expresión
“el tejido social”.
Justificó los personalismos
con datos históricos.
San Martín, Rosas, Perón y Menem
Yo comía helado de dulce de leche.
Ay, chico militante
de los cuadros de Cristina,
¿qué te pasa que no podés
conversar de otra cosa?
¿Que si te hablo
de The Cure en Alemania
lo relacionás enseguida
con Kiss y con Mauricio?
¿Por qué no te podés concentrar
en los sorrentinos caprese?
Y hablar de comidas favoritas
de vacaciones de libros de discos.
Los viernes a la noche
no se hicieron para debates sociopolíticos.
¿En qué lugar te dejará la historia
chico de la JP
que te sumaste a la lucha
después de los 30?
Ay chico de la JP
recibido en universidad privada,
¿por qué la militancia invade
esta noche primaveral
que es nuestra y nos deja
desunidos y desorganizados?
Chico de la JP mejor invitame
un trago vayamos a pasear
por las calles de Colegiales
que huelen a tilo llevame
a un lugar donde no importen
ni Clarín ni Cristina inventemos
nuestro propio relato hagamos
justicia social con nuestras soledades
redistribuyamos el amor
que lo demás
son detalles


5.3.17

Dahlia Ravicovitch




Orgulho


Até as rochas se partem, eu te digo,
e não é pela idade.
Tantos anos deitadas de costas no calor e no frio,
tantos anos
que quase se cria a ilusão de tranquilidade.
Não se movem, escondendo as rachaduras.
Uma forma de orgulho.
Os anos as passam enquanto aguardam.
Quem quer que venha arrebentá-las
ainda não veio.
E assim floresce o musgo, a alga
chicoteia,
o mar rebenta e volta –
e ainda parecem imóveis.
Até que uma foca venha se esfregar contra as rochas, venha e vá.
E de repente na rocha surge uma ferida aberta.
Eu te disse, é uma surpresa quando as rochas se partem.
As pessoas, mais ainda.





24.2.17

Peter Weiss




These lies they tell about the ideal state
The rich will never give away their property
of their own free will
And if by force of circumstances
they have to give up just a little
here and there
they do it only because they know
they’ll soon win it back again
The rumor spreads
that the workers can soon expect higher wages
Why
Because this raises production and increases demand
and thereby fills the entrepreneurs’ pockets
Don’t imagine
that you can beat them without using force
Don’t be deceived
when our Revolution has been finally stamped out
and they tell you
things are better now
Even if there’s no poverty to be seen
because the poverty’s been hidden
even if you ever got more wages
and could afford to buy
more of these new and useless goods

which these new industries foist on you
and even if it seems to you
that you never had so much
that is only the slogan of those
who still have much more than you
Don’t be taken in 
when they pat you paternally on the shoulder and say 
that there’s no inequality worth speaking of 
and no more reason 
for fighting 
Because if you believe them 
they will be completely in charge 
in their marble homes and granite banks 
from which they rob the people of the world 
under the pretense of bringing them culture 
Watch out 
for as soon as it pleases them 
they’ll send you out 
to protect their gold 
in wars 
whose weapons rapidly developed 
by servile scientists 
will become more and more deadly 
until they can with a flick of the finger 

tear a million of you to pieces.




Kim Gordon - 1977

21.2.17

David Gilmour divino por Bizet



Je crois entendre encore,
Caché sous les palmiers,
Sa voix tendre et sonore
Comme un chant de ramiers !
Ô nuit enchanteresse !
Divin ravissement!
Ô souvenir charmant!
Folle ivresse! Doux rêve!
Aux clartés des étoiles,
Je crois encor la voir,
Entr’ouvrir ses longs voiles
Aux vents tièdes du soir!
Ô nuit enchanteresse!
Divin ravissement!
Ô souvenir charmant!
Folle ivresse! Doux rêve!


I think I still hear, hidden under palm trees, her voice soft and sound like a song of wood pigeons. Oh, enchanting night, divine rapture, oh, delightful memory, mad euphoria, sweet dream! In the clear starlight, I think I still see her, half drawing her long veil in the tepid night breeze. Oh, enchanting night, divine rapture, oh, delightful memory, mad euphoria, sweet dream! Delightful memory!