18.11.14

Noel Rosa - Arranjei Um Fraseado



Arranjei um fraseado
Que já trago decorado
Para quando lhe encontrar:
"Como é que você se chama?
Quando é que você me ama?
Onde é que vamos morar?"

Como eu vou indagar
Quando é que eu posso lhe encontrar
Pra conseguir combinar
Onde é o lugar
Em que você quer morar?

Como vou saber ao certo
Quando é que você vem ficar perto
E quem já designou
Onde é o lugar
Do nosso lindo château?

"Como é que você se chama?
Quando é que você me ama?
Onde é que vou lhe falar?
Como é que você não diz?
Quando é que me faz feliz?
Onde é que vamos morar?"



5.11.14

1 poema de Danilo Augusto


não leia mais
pra que ler?
você pode me procurar
eu moro na rua afonso rui, nº189, itaigara
é uma casa bonita, a gente tem um jardim e uma piscina azul
a gente tem um coelho um peixe e uma cachorra e espaço pra você
o muro é de pedras verdes marinhas e o portão amarelo gema
é no topo de uma ladeira e é quase no topo de uma montanha
às vezes eu estou entre a loucura e o desespero mas eu não xingo
nem falo alto, nem fico me queixando, eu não vou deixar ninguém triste
aqui é calmo e tem espaço pra redes, a gente se ama e às vezes conversa até o amanhecer
ninguém é injusto, ou muito pouco, ou muito raramente
minha filha tem três anos e ela é uma grande poeta e uma grande companhia
ela é justa e boa e pode beijar seu machucado se você se machucar
eu faço café, eu cozinho massas, eu destilo minha própria cachaça
eu deixo a massa do bolo crescendo ao sol, a toca do coelho é feita de telhas e tijolos
o peixe muda de cor muito lentamente se você parar para reparar
minha mulher cuida dos doentes e desesperados e quando ela chega eu lavo suas costas
massageio sua testa e penteio seus cabelos, depois a visto e ela me abraça e começa a chorar
ela me diz que tem uma mulher com uma ferida que não se pode mais fechar
mas que ela é feliz e tem três maridos e que ela quer dar seu lugar a alguém
que realmente precise porque a única coisa que a incomoda é o cheiro
aqui nós temos três andares de jardins, temos coqueiros e copos d’águas
e aquelas flores comuns e bonitas que formam uma cúpula vermelha
e sempre trazem uma gota de mel em seu botão
nós temos muito mais do que precisamos só em flores
nós temos, muito, muito mais, venha até nós
eu ensinei minha filha a cuidar do cachorro, o cachorro do coelho,
o coelho do peixe e o peixe das suas cores, nós podemos cuidar de você
meus avós dormem de dia e de noite eles acordam
e substituem o filtro de água, e trocam a terra de dentro dos vasos
às vezes as próprias flores eu acho que eles trocam, depois dormem abraçados
sobre o sofá ou sobre os brinquedos e eu os levo pra suas camas, os cubro e abençoo

eles fizeram muito por mim, eles podem fazer muito por você
eu tenho uma cicatriz que vai do meu joelho até meus dentes
meus órgãos haviam se derramado e eles os costuraram em seus lugares, um por um
eles fizeram isso por mim, mas eu não quero falar sobre isso agora
você pode ficar o tempo que quiser, você não precisa ficar para sempre
você pode se sarar e partir e também não precisa deixar nada não
nem pagar nada, nem ter certas pretensões ou requisitos 
nós temos mais do que precisamos e um grande coração

(poema do livro inédito do autor, Estar na grama, retirado do site Mallarmargens)


24.10.14

5 poemas de Adriana Brunstein




e um medo estranho
de envelhecer
na hora de usar
o caixa eletrônico

#

tenho o nome de outro cara
tatuado no cóccix
caso você queira saber
antes de tirar a minha roupa
que as coisas pra mim
mesmo as que não se apagam
não duram muito tempo

#

em teus lábios
quando você diz
coisas cheias de vogais
como iowa
- é no que ando pensando -

#

aí o cara desapareceu
aí tu ficou puta
aí tu esperou mais uma pá de dias
aí tu ficou mais puta ainda
aí o cara liga
aí o filho da puta do cara liga pra te desejar um feliz dia internacional da mulher
aí tu vai até o armário da cozinha
aí tu pega aquela faca de açougueiro
aí tu manda afiar a faca de açougueiro
aí tu sente que o afiador tá com medo de você
aí tu paga pra aliviar e diz que ficou bom
aí o afiador sai fora rapidinho
aí tu quer rir mas tu tá puta
aí tu vai fazer tocaia na porta do cara
aí o cara sai
aí tu chega perto com a faca de açougueiro
aí tu não fala nada
aí tu fica vendo o reflexo da faca na cara dele
aí ele tenta falar alguma coisa
aí tu não ouve
aí ele grita
aí ele não fala mais nada
aí tu volta pra casa
aí tu deita na cama
aí tu tá em paz
aí vem nego falar de tpm
aí tu pensa que pode ser
mas tu nem liga


#

a gente envelhece
dormindo às dez
acordando às seis
ameaçando pernilongos em voz alta
antes de errar o tapa
a gente envelhece
medindo a circunferência do braço
evitando usar regatas
se cadastrando em sites de receitas
e consultando horóscopos
a gente envelhece
dormindo de meias
falando pra manicure
no pé só um rosinha básico
a gente envelhece
cantarolando a música
de ao mestre com carinho
descobrindo na wikipedia
que o sidney poitier ainda tá vivo
a gente envelhece
recusando convites
lembrando que piquenique
era chamado de convescote
nos clássicos que ainda não lemos
a gente envelhece
gerundiando
esperando uma oferta incrível
da garota do telemarketing



(mais da autora aqui)



3.10.14

Nicanor Parra, por ele mesmo




La víbora


Durante largos años estuve condenado a adorar a una mujer despreciable
Sacrificarme por ella, sufrir humillaciones y burlas sin cuento,
Trabajar día y noche para alimentarla y vestirla,
Llevar a cabo algunos delitos, cometer algunas faltas,
A la luz de la luna realizar pequeños robos,
Falsificaciones de documentos comprometedores,
So pena de caer en descrédito ante sus ojos fascinantes.
En horas de comprensión solíamos concurrir a los parques
Y retratarnos juntos manejando una lancha a motor,
O nos íbamos a un café danzante
Donde nos entregábamos a un baile desenfrenado
Que se prolongaba hasta altas horas de la madrugada.
Largos años viví prisionero del encanto de aquella mujer
Que solía presentarse a mi oficina completamente desnuda
Ejecutando las contorsiones más difíciles de imaginar
Con el propósito de incorporar mi pobre alma a su órbita
Y, sobre todo, para extorsionarme hasta el último centavo.
Me prohibía estrictamente que me relacionase con mi familia.
Mis amigos eran separados de mí mediante libelos infamantes
Que la víbora hacía publicar en un diario de su propiedad.
Apasionada hasta el delirio no me daba un instante de tregua,
Exigiéndome perentoriamente que besara su boca
Y que contestase sin dilación sus necias preguntas,
Varias de ellas referentes a la eternidad y a la vida futura
Temas que producían en mí un lamentable estado de ánimo,
Zumbidos de oídos, entrecortadas náuseas, desvanecimientos prematuros
Que ella sabía aprovechar con ese espíritu práctico que la caracterizaba
Para vestirse rápidamente sin pérdida de tiempo
Y abandonar mi departamento dejándome con un palmo de narices.
Esta situación se prolongó por más de cinco años.
Por temporadas vivíamos juntos en una pieza redonda
Que pagábamos a medias en un barrio de lujo cerca del cementerio.
(Algunas noches hubimos de interrumpir nuestra luna de miel
Para hacer frente a las ratas que se colaban por la ventana).

Llevaba la víbora un minucioso libro de cuentas
En el que anotaba hasta el más mínimo centavo que yo le pedía en préstamo;
No me permitía usar el cepillo de dientes que yo mismo le había regalado
Y me acusaba de haber arruinado su juventud:
Lanzando llamas por los ojos me emplazaba a comparecer ante el juez
Y pagarle dentro de un plazo prudente parte de la deuda,
Pues ella necesitaba ese dinero para continuar sus estudios
Entonces hube de salir a la calle a vivir de la caridad pública,
Dormir en los bancos de las plazas,
Donde fui encontrado muchas veces moribundo por la policía
Entre las primeras hojas del otoño.
Felizmente aquel estado de cosas no pasó más adelante,
Porque cierta vez en que yo me encontraba en una plaza también
Posando frente a una cámara fotográfica
Unas deliciosas manos femeninas me vendaron de pronto la vista
Mientras una voz amada para mí me preguntaba quién soy yo.
Tú eres mi amor, respondí con serenidad.
¡Ángel mío, dijo ella nerviosamente,
Permite que me siente en tus rodillas una vez más!
Entonces pude percatarme de que ella se presentaba ahora provista de un 
pequeño taparrabos.
Fue un encuentro memorable, aunque lleno de notas discordantes:
Me he comprado una parcela, no lejos del matadero, exclamó,
Allí pienso construir una especie de pirámide.
En la que podamos pasar los últimos días de nuestra vida.
Ya he terminado mis estudios, me he recibido de abogado,
Dispongo de buen capital;
Dediquémonos a un negocio productivo, los dos, amor mío, agregó
Lejos del mundo construyamos nuestro nido.
Basta de sandeces, repliqué, tus planes me inspiran desconfianza,
Piensa que de un momento a otro mi verdadera mujer
Puede dejarnos a todos en la miseria más espantosa.
Mis hijos han crecido ya, el tiempo ha transcurrido,
Me siento profundamente agotado, déjame reposar un instante,
Tráeme un poco de agua, mujer,
Consígueme algo de comer en alguna parte,
Estoy muerto de hambre,
No puedo trabajar más para ti,
Todo ha terminado entre nosotros.





Bruna Beber again


Amaro Rio


amar uma cidade

é como amar

uma mulher

os anéis e os nós

de suas raízes

arrancados a pente

o tamanho do sorriso

e os dentes sujos

de feijão

o cheiro e os olhos cor

de queimada na estrada

num dia de calor

e depois da chuva amar

as águas cinzas, depois

azuis e as águas mudas

as mãos hoje macias

as mãos amanhã secas

o doce veneno da convivência

é amar sua natureza completa

e só por isso conseguir

separar o lixo

amar uma cidade

é como amar

uma mulher

e esperar

que ela acorde viva

todos os dias.





16.9.14

1 poema de Dana Levin




You wanted to be a butcher
but they made you be a lawyer.

You brought home presents
when it was nobody’s birthday.

Smashed platters of meat
she cut against the grain.

Were a kind
of portable shrine — 

I was supposed to cultivate a field of  bliss,
then return to my ordinary mind.



You burned the files
and moved the office.

Made your children fear
a different school.

Liked your butter hard
and your candy frozen.

Were a kind
of diamond drill, drilling a hole
right through my skull — 

quality sleep, late November.



What did it mean, “field of bliss” — 

A sky alive “with your greatest mentor” — 

I wore your shoes, big as boats,
flopped through the house — 
while you made garlic eggs with garlic salt, what

“represents the living teaching” — 

Sausages on toasted rye with a pickle,
and a smother of cheese, and
frosting
right out of  the can without the cake — 
You ruled
with a knife in one hand and a fork in the other, you raged
at my stony mother, while I banged

from my high chair, waving
the bloodied bone

of something slaughtered — I was
a butcher’s daughter.

So all hail to me — 

Os Gurges, Vortex Mouth, I gap my craw
and the bakeries of the cities fall, I

stomp the docks — spew out a bullet stream
of oyster shells, I’ll

drain the seas — the silos
on every farm, the rice

from the paddy fields, the fruit
from all the orchard trees, and then I’ll

eat the trees — 
I’ll eat with money and I’ll eat
with my teeth until the rocks

and the mountains curl
and my blood sings — 

I’m such a good girl

to eat the world.