3.4.14

Nos compassos panteístas da protofonia




Permita mesmo que os diminutivos
Coloquem os conspícuos pela sua ausência
Falando em alta estrutura,
Relevo logicamente falando
E vocabularizando a frase hipotética
Estética e filosófica das criaturas
Proscrito lógica e de brincadeira
Mas que indeniza a humanidade inteira

Nos compassos panteístas da protofonia
De linguagem sambista e poemas bucólicos
Eu já fiz até a estatística
Dos inocentes e dos melancólicos
Na sintetização sutil de forças estáticas
De um micro-organismo incipiente
Terminarei com essa história difícil
Inconstitucionalissimamente.




18.3.14

Maxine Kumin




Heaven as Anus


In the Defense Department there is a shop
where scientists sew the eyelids of rabbits open
lest they blink in the scorch of a nuclear drop

and elsewhere dolphins are being taught to defuse
bombs in the mock-up of a harbor and monkeys
learn to perform the simple tasks of draftees.

It is done with electric shocks. Some mice
who have failed their time tests in the maze
now go to the wire unbidden for their jolts.

Implanting electrodes yields rich results:
alley cats turn from predators into prey.
Show them a sparrow and they cower

while the whitewall labs fill up with the feces of fear
where calves whose hearts have been done away
with walk and bleat on plastic pumps.

And what is any of this to the godhead,
these squeals, whines, writhings, unexpected jumps,
whose children burn alive, booby-trap the dead,
lop ears and testicles, core and disembowel?


It all ends at the hole. No words may enter
the house of excrement. We will meet there
as the sphincter of the good Lord opens wide
and He takes us all inside.



Time

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Você hein

27.2.14

André de Leones

PAISAGEM PARA A QUEDA DE ÍCARO


Sempre olho pela janela do avião e rezo 
para que o sol esteja do outro lado.
Não vê-lo é sempre melhor.
Não há nada pior do que a luz solapando as retinas 
para escorrer crânio adentro, 
a voz solar de D’us: não há mais o que ver, ou por quê.

Sempre olho pela janela do avião e rezo 
para que o sol esteja do lado de dentro.
Não ver é sempre melhor.
Não há nada pior do que a luz desajustando as coisas lá embaixo 
enquanto escorro para longe delas, 
a voz arranhada do piloto: à esquerda dos senhores, o mar.

Sempre olho pela janela do avião e rezo 
para que o mar tome conta do resto 
e nos alcance lá em cima.



(mais do autor aqui)



22.2.14

Pedro Homem de Mello




Resgate

Não sou isto nem aquilo
É o meu modo de viver
É, às vezes, tão tranquilo
Que nem chega a dar prazer...
Todavia, onde apareço,
Logo a paz desaparece
E a guerra que não mereço
Dá princípio à minha prece.
És alegre? Vês-me triste?
Por que não te vais embora?
Quem é triste é porque é triste.
E quem chora é porque chora.
Tenho tudo o que não tens
Tenho a névoa por remate.
Sou da raça desses cães
Em que toda a gente bate.
Só a idade com o tempo
Há-de vir tornar-me forte.
A uns, basta-lhes o vento...
Aos Poetas, basta a morte.


Prece

Talvez que eu morra na praia,
Cercado, em pérfido banho,
Por toda a espuma da praia,
Como um pastor que desmaia
No meio do seu rebanho…

Talvez que eu morra na rua
E dê por mim de repente –
Em noite fria, sem lua,
Irmão das pedras da rua
Pisadas por toda a gente!

Talvez que eu morra entre grades,
No meio duma prisão
E que o mundo, além das grades,
Venha esquecer as saudades
Que roem o meu coração.

Talvez que eu morra dum tiro,
Castigo de algum desejo.
E que, à mercê desse tiro,
O meu último suspiro
Seja o meu primeiro beijo…

Talvez que eu morra no leito,
Onde a morte é natural,
As mãos em cruz sobre o peito…
Das mãos de Deus tudo aceito.
- Mas que eu morra em Portugal!



19.2.14

William Faulkner




Portrait 



Raise your hand between us, to your face, 
And draw the opaque curtains on your eyes. 
Let us walk here, softly checked with shadow, 
And talk of careful trivialities. 

Let us lightly speak at random; tonight's movie, 
Repeat a broken conversation, word for word; 
Of friends, and happiness. The darkness scurries, 
And we hear again a music both have heard 

Singing blood to blood between our palms. 
Come, lift your eyes, your tiny scrap of mouth 
So lightly mobile on your dim white face; 
Aloofly talk of life, profound in youth 

And simple also. Young and white and strange 
You walk beside me down this shadowed street, 
Against my hand your small breast softly lies, 
And your laughter breaks the rhythm of our feet. 

You are so young. And frankly you believe 
This world, this darkened street, this shadowed wall 
Are dim with beauty you passionately know 
Cannot fade nor cool nor die at all. 

Raise your hand, then, to your scarce seen face, 
And draw the opaque curtains on your eyes; 
Profoundly speak of life, of simple truths, 
The while your voice is clear with frank surprise. 

(Em Double Dealer, New Orleans, junho de 1922)