13.12.14

2 poemas de Mina Loy



Letters of the unliving

The present implies presence
thus
unauthorized by the present
these letters are left authorless -- 
have lost all origin 
since the inscribing hand 
lost life.

The harshness of the past
croaks,
from creased leaves
covered with unwritten writing
since death's erasure
of the writer --
erased the lover

Well-chosen and so ill-relinquished
the husband heartsease --
acme of communion --

made euphonious
our esoteric universe.

Ego's oasis now's 
the sole companion.


My body and my reason 
you left to the drought of your dying:
the longing and the lack
of a racked creature
shouting 
to an unanswering hiatus
'reunite us!'

till slyly
patience creeps up on passion
and the elation of youth
dwindles out of season.

Agony 
ends in an equal grave 
with ecstasy.

An uneasy mist 
rises from this calligraphy of recollection
documenting a terror of dementia.

This package of ago
creaks with the horror of echo.


The bloom of love 
decoyed
to decay by the finger
of Hazard the swindler --
deathly handler who leaves
no post-mortem mask
but a callous earth.

Posing the extreme enigma
in my Bewilderness
can your face excelling Adonis
have ceased to be
or ever have had existence?

With you no longer the addresser
there is no addressee
to dally with defunct reality.

Can one who still has being 
be inexistent?

I am become 
dumb
in answer
to your dead language of amor.


Diminuendo
of life's imposture
implies no possible retrial
by my present self --
my cloud-corpse
beshadowing your shroud.

The one I was with you:
inhumed in chasms.
No creator
reconstrues scar-tissue
to shine as birth-star.

But to my sub-cerebral surprise
at last on blase sorrow
dawns an iota of disgust
for life's intemperance:

'As once you were'

Withhold your ghostly reference
to the sweet once were we.


Leave me
my final illiteracy
of memory's languor --

my preference
to drift in lenient coma
an older Ophelia
on Lethe. 




An old woman

The past has come apart

events are vagueing
the future is a seedless pod
the present pain.

Not even pain has that precision
with which it struck youth.

Years like moths
erode internal organs
hanging or falling
in a spoiled closet.

Does you mirror bedevil you?
Or is the impossible
possible to senility?

How could the erstwhile
agile and slim self---
that narrow silhouette---
come to contain
this huge incognito---
this bulbous stranger---
only to be exorcised by death?

Dilation has entirely dominated
your long reality.




12.12.14

4 poemas de Adele Weber





Uma palavra

Insidiosa –
palavra aguda,
punhal penetrante
quando se pronuncia
pausadamente.
Não se presta a gritos.
Insidiosa –
o cansaço persiste
se acomoda
nos membros, costas, cabeça.
Não emboscada.
Estratagema. É assim que ela chega.


TIPOS DE RUA VI

O velho lavrador está sentado
pouco à vontade
na sua roupa de ver Deus.
Espera um ônibus,
descansa as mãos calosas
no cabo da bengala, outrora curvo,
agora uma reta a se quebrar.

Várias gerações lixaram a bengala.



pertence a ti toda esta tarde
 

e a tarde pode resumir uma vida inteira.
Finges que compreendes teu amigo
e sorris ou mostras um rosto grave
conforme o assunto debatido.
Te perdes em dúvidas, nem te interessam
os gerânios, jacintos e lilases
destruídos nos versos de Eliot.
A agonia cabe em uma tarde.


...o que vive
Pode apenas morrer.


A escuridão permite um pensamento mais puro?
Fraudar purifica o sensual?
Você discute ou se defende da solidão?

Há os que mergulham no pó
vestidos com as últimas palavras.





18.11.14

Noel Rosa - Arranjei Um Fraseado



Arranjei um fraseado
Que já trago decorado
Para quando lhe encontrar:
"Como é que você se chama?
Quando é que você me ama?
Onde é que vamos morar?"

Como eu vou indagar
Quando é que eu posso lhe encontrar
Pra conseguir combinar
Onde é o lugar
Em que você quer morar?

Como vou saber ao certo
Quando é que você vem ficar perto
E quem já designou
Onde é o lugar
Do nosso lindo château?

"Como é que você se chama?
Quando é que você me ama?
Onde é que vou lhe falar?
Como é que você não diz?
Quando é que me faz feliz?
Onde é que vamos morar?"



5.11.14

1 poema de Danilo Augusto


não leia mais
pra que ler?
você pode me procurar
eu moro na rua afonso rui, nº189, itaigara
é uma casa bonita, a gente tem um jardim e uma piscina azul
a gente tem um coelho um peixe e uma cachorra e espaço pra você
o muro é de pedras verdes marinhas e o portão amarelo gema
é no topo de uma ladeira e é quase no topo de uma montanha
às vezes eu estou entre a loucura e o desespero mas eu não xingo
nem falo alto, nem fico me queixando, eu não vou deixar ninguém triste
aqui é calmo e tem espaço pra redes, a gente se ama e às vezes conversa até o amanhecer
ninguém é injusto, ou muito pouco, ou muito raramente
minha filha tem três anos e ela é uma grande poeta e uma grande companhia
ela é justa e boa e pode beijar seu machucado se você se machucar
eu faço café, eu cozinho massas, eu destilo minha própria cachaça
eu deixo a massa do bolo crescendo ao sol, a toca do coelho é feita de telhas e tijolos
o peixe muda de cor muito lentamente se você parar para reparar
minha mulher cuida dos doentes e desesperados e quando ela chega eu lavo suas costas
massageio sua testa e penteio seus cabelos, depois a visto e ela me abraça e começa a chorar
ela me diz que tem uma mulher com uma ferida que não se pode mais fechar
mas que ela é feliz e tem três maridos e que ela quer dar seu lugar a alguém
que realmente precise porque a única coisa que a incomoda é o cheiro
aqui nós temos três andares de jardins, temos coqueiros e copos d’águas
e aquelas flores comuns e bonitas que formam uma cúpula vermelha
e sempre trazem uma gota de mel em seu botão
nós temos muito mais do que precisamos só em flores
nós temos, muito, muito mais, venha até nós
eu ensinei minha filha a cuidar do cachorro, o cachorro do coelho,
o coelho do peixe e o peixe das suas cores, nós podemos cuidar de você
meus avós dormem de dia e de noite eles acordam
e substituem o filtro de água, e trocam a terra de dentro dos vasos
às vezes as próprias flores eu acho que eles trocam, depois dormem abraçados
sobre o sofá ou sobre os brinquedos e eu os levo pra suas camas, os cubro e abençoo

eles fizeram muito por mim, eles podem fazer muito por você
eu tenho uma cicatriz que vai do meu joelho até meus dentes
meus órgãos haviam se derramado e eles os costuraram em seus lugares, um por um
eles fizeram isso por mim, mas eu não quero falar sobre isso agora
você pode ficar o tempo que quiser, você não precisa ficar para sempre
você pode se sarar e partir e também não precisa deixar nada não
nem pagar nada, nem ter certas pretensões ou requisitos 
nós temos mais do que precisamos e um grande coração

(poema do livro inédito do autor, Estar na grama, retirado do site Mallarmargens)


24.10.14

5 poemas de Adriana Brunstein




e um medo estranho
de envelhecer
na hora de usar
o caixa eletrônico

#

tenho o nome de outro cara
tatuado no cóccix
caso você queira saber
antes de tirar a minha roupa
que as coisas pra mim
mesmo as que não se apagam
não duram muito tempo

#

em teus lábios
quando você diz
coisas cheias de vogais
como iowa
- é no que ando pensando -

#

aí o cara desapareceu
aí tu ficou puta
aí tu esperou mais uma pá de dias
aí tu ficou mais puta ainda
aí o cara liga
aí o filho da puta do cara liga pra te desejar um feliz dia internacional da mulher
aí tu vai até o armário da cozinha
aí tu pega aquela faca de açougueiro
aí tu manda afiar a faca de açougueiro
aí tu sente que o afiador tá com medo de você
aí tu paga pra aliviar e diz que ficou bom
aí o afiador sai fora rapidinho
aí tu quer rir mas tu tá puta
aí tu vai fazer tocaia na porta do cara
aí o cara sai
aí tu chega perto com a faca de açougueiro
aí tu não fala nada
aí tu fica vendo o reflexo da faca na cara dele
aí ele tenta falar alguma coisa
aí tu não ouve
aí ele grita
aí ele não fala mais nada
aí tu volta pra casa
aí tu deita na cama
aí tu tá em paz
aí vem nego falar de tpm
aí tu pensa que pode ser
mas tu nem liga


#

a gente envelhece
dormindo às dez
acordando às seis
ameaçando pernilongos em voz alta
antes de errar o tapa
a gente envelhece
medindo a circunferência do braço
evitando usar regatas
se cadastrando em sites de receitas
e consultando horóscopos
a gente envelhece
dormindo de meias
falando pra manicure
no pé só um rosinha básico
a gente envelhece
cantarolando a música
de ao mestre com carinho
descobrindo na wikipedia
que o sidney poitier ainda tá vivo
a gente envelhece
recusando convites
lembrando que piquenique
era chamado de convescote
nos clássicos que ainda não lemos
a gente envelhece
gerundiando
esperando uma oferta incrível
da garota do telemarketing



(mais da autora aqui)



3.10.14

Nicanor Parra, por ele mesmo




La víbora


Durante largos años estuve condenado a adorar a una mujer despreciable
Sacrificarme por ella, sufrir humillaciones y burlas sin cuento,
Trabajar día y noche para alimentarla y vestirla,
Llevar a cabo algunos delitos, cometer algunas faltas,
A la luz de la luna realizar pequeños robos,
Falsificaciones de documentos comprometedores,
So pena de caer en descrédito ante sus ojos fascinantes.
En horas de comprensión solíamos concurrir a los parques
Y retratarnos juntos manejando una lancha a motor,
O nos íbamos a un café danzante
Donde nos entregábamos a un baile desenfrenado
Que se prolongaba hasta altas horas de la madrugada.
Largos años viví prisionero del encanto de aquella mujer
Que solía presentarse a mi oficina completamente desnuda
Ejecutando las contorsiones más difíciles de imaginar
Con el propósito de incorporar mi pobre alma a su órbita
Y, sobre todo, para extorsionarme hasta el último centavo.
Me prohibía estrictamente que me relacionase con mi familia.
Mis amigos eran separados de mí mediante libelos infamantes
Que la víbora hacía publicar en un diario de su propiedad.
Apasionada hasta el delirio no me daba un instante de tregua,
Exigiéndome perentoriamente que besara su boca
Y que contestase sin dilación sus necias preguntas,
Varias de ellas referentes a la eternidad y a la vida futura
Temas que producían en mí un lamentable estado de ánimo,
Zumbidos de oídos, entrecortadas náuseas, desvanecimientos prematuros
Que ella sabía aprovechar con ese espíritu práctico que la caracterizaba
Para vestirse rápidamente sin pérdida de tiempo
Y abandonar mi departamento dejándome con un palmo de narices.
Esta situación se prolongó por más de cinco años.
Por temporadas vivíamos juntos en una pieza redonda
Que pagábamos a medias en un barrio de lujo cerca del cementerio.
(Algunas noches hubimos de interrumpir nuestra luna de miel
Para hacer frente a las ratas que se colaban por la ventana).

Llevaba la víbora un minucioso libro de cuentas
En el que anotaba hasta el más mínimo centavo que yo le pedía en préstamo;
No me permitía usar el cepillo de dientes que yo mismo le había regalado
Y me acusaba de haber arruinado su juventud:
Lanzando llamas por los ojos me emplazaba a comparecer ante el juez
Y pagarle dentro de un plazo prudente parte de la deuda,
Pues ella necesitaba ese dinero para continuar sus estudios
Entonces hube de salir a la calle a vivir de la caridad pública,
Dormir en los bancos de las plazas,
Donde fui encontrado muchas veces moribundo por la policía
Entre las primeras hojas del otoño.
Felizmente aquel estado de cosas no pasó más adelante,
Porque cierta vez en que yo me encontraba en una plaza también
Posando frente a una cámara fotográfica
Unas deliciosas manos femeninas me vendaron de pronto la vista
Mientras una voz amada para mí me preguntaba quién soy yo.
Tú eres mi amor, respondí con serenidad.
¡Ángel mío, dijo ella nerviosamente,
Permite que me siente en tus rodillas una vez más!
Entonces pude percatarme de que ella se presentaba ahora provista de un 
pequeño taparrabos.
Fue un encuentro memorable, aunque lleno de notas discordantes:
Me he comprado una parcela, no lejos del matadero, exclamó,
Allí pienso construir una especie de pirámide.
En la que podamos pasar los últimos días de nuestra vida.
Ya he terminado mis estudios, me he recibido de abogado,
Dispongo de buen capital;
Dediquémonos a un negocio productivo, los dos, amor mío, agregó
Lejos del mundo construyamos nuestro nido.
Basta de sandeces, repliqué, tus planes me inspiran desconfianza,
Piensa que de un momento a otro mi verdadera mujer
Puede dejarnos a todos en la miseria más espantosa.
Mis hijos han crecido ya, el tiempo ha transcurrido,
Me siento profundamente agotado, déjame reposar un instante,
Tráeme un poco de agua, mujer,
Consígueme algo de comer en alguna parte,
Estoy muerto de hambre,
No puedo trabajar más para ti,
Todo ha terminado entre nosotros.





Bruna Beber again


Amaro Rio


amar uma cidade

é como amar

uma mulher

os anéis e os nós

de suas raízes

arrancados a pente

o tamanho do sorriso

e os dentes sujos

de feijão

o cheiro e os olhos cor

de queimada na estrada

num dia de calor

e depois da chuva amar

as águas cinzas, depois

azuis e as águas mudas

as mãos hoje macias

as mãos amanhã secas

o doce veneno da convivência

é amar sua natureza completa

e só por isso conseguir

separar o lixo

amar uma cidade

é como amar

uma mulher

e esperar

que ela acorde viva

todos os dias.