26.2.07




meus barquinhos





a tantos quilômetros da praia





só esperam o mar






para partir



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24.2.07




são minhas as ruas que dão na praia
e o sono das manhãs que dão no mar
são meus a areia o barco e o vazio
dentro do barco
são meus o mar e o vazio dentro do mar
em que mergulho sem qualquer vestígio
de sangue




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imagem de Sérgio Fonseca.

16.2.07



a cidade esvazia pouco a pouco. amanhã nas ruas tudo parecerá brasília. tristezas não fazem rafting. do tamanho do aconcágua, esperam você subir devagar, bem devagar. sozinho e sem oxigênio. até dar de cara num paredão. há quem prefira se bronzear, seguir as placas, esquecer da vida em cancun, posar de morto em lençóis maranhenses ou na praia da esquina. sempre há um pacote especial para um coração cansado. um patrimônio histórico, um navio soterrado, uma maratona do vinho, aquele coqueiro que dá coco. o sol entra e sai da minha janela a 13 nós. areia baixa, sol de asfalto. o celular sobre a cama está desligado. vulcão inativo, ninguém há de me achar. para isso comprei calçados apropriados. temperatura média 19 graus no ambiente, 15 na água. não há como chegar a mim sem passar por quito e guayaquil. meus amigos sabem disso e não telefonam. há preços mais em conta.

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11.2.07




Como fazer-se escriptor


Todo aspirante a escriptor precisa aprender a soletrar. A ortografia é um dos grandes pilares da literatura. A maioria imagina-se douta em matéria de ortografia, no entanto raríssimos são os casos de perfeição em coisa tão simples. Tu, que me lês, sem dúvida julgas que sabes soletrar impecavelmente. Pois bem. Dá a um amigo um dicionário e pede-lhe que te faça um teste de palavras comumente usadas: em cinco minutos terás perdido a ilusão. A verdade é que não se tira uma pessoa de dez em cuja correção ortográfica se possa absolutamente confiar. Não creio mesmo que os próprios escriptores sejam, nesse ponto, mais favorecidos do que o público ao qual se dirigem. O aspirante a escriptor deve portanto dedicar 10 minutos, todos os dias, ao estudo dos senões deste ramo da gramática. Não pense que, pelo receio de ser tomado por algum colegial, eu esteja dando um conselho ridículo. Não, senhor, é um conselho intensamente prático e muito sensato.


a. bennett

6.2.07

José Carlos Oliveira

Evocação dos bares

Ainda existe, Lúcio Cardoso, aquele barzinho da Lapa, debaixo dos Arcos, onde eu, você, o poeta Gullar e o Binho passávamos longas tardes comendo siri e bebendo vinho branco. Você era o único escritor realizado ali presente. Nós outros estávamos iniciando a carreira. O Gullar era desesperado, o Binho, surrealista, eu tinha um medo danado da vida. Construíamos grandes montanhas com as cascas de siri, onde as moscas fervilhavam. E não havia nada a fazer, porque você sempre foi disponível e nós, naquela época, não gostávamos de trabalhar. O bondinho de Santa Teresa trepidava sobre nossas cabeças e, em torno de nós, o trânsito espesso da Lapa. Às vezes aparecia um bêbado e, vendo que éramos pessoas ilustres, porque só falávamos de coisas incompreensíveis, sentava-se conosco e bebia do nosso vinho e comia dos nossos siris. A vida naquele tempo era amável, ligeiramente amarga e sem dificuldade porque cada qual podia muito bem morrer no dia seguinte -- não tragicamente, mas -- como dizia Rimbaud -- par delicatesse. Agora mudamos de bar e nos compenetramos no futuro, esse tempo também, Lúcio, não volta mais.
[...]
Há pessoas que se ligam aos lugares onde moram de tal maneira que não se pode pensar em um sem pensar em outro. Não se pode falar de Rachel de Queiroz sem aludir, indiretamente, à Ilha do Governador; e a Lapa e Manuel Bandeira são dois nomes muito próximos um do outro. De Lúcio Cardoso não se pode falar sem pensar, primeiro, em Minas Gerais, e em seguida em alguns bares. Minas é o paraíso infernal que ele tem no coração. É o paraíso porque foi perdido; o inferno, porque nesse lugar mitológico sopra constantemente um vento maligno que, às vezes, apaga o lume dos castiçais. Minas e infância, para Lúcio Cardoso, são a mesma coisa; o Rio se confunde com sua maturidade. [...] onde anda o Lúcio? Já sei: quando não está escrevendo, está descobrindo e revelando algum bar. A quantos bares nos afeiçoamos, nesta cidade onde até os botequins, para quem é curioso, possuem sua especialidade. Ou é batida de limão, ou são pequenas mesas num compartimento espaçoso e vazio, ou a lingüiça frita que vai tão bem com uma cerveja, ou ainda a vista que se descortina de sua varanda. Cada bar deve ser descoberto, como um porão, como o fundo do mar, como todas as coisas.


José Carlos Oliveira, 1960. Crônica republicada em O homem na varanda do Antonio's, 2004.


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