29.6.12

27.6.12

Harry Crosby (1898-1929)























A Short Introduction to the Word


1
A nursery game called
Hunt-the-Slipper. A flower called
Lady-Slipper. Running in the
Gold Cup a horse called Slipper.
Drinking champagne out of
her Red Slipper. From these
magic sources the development
of the word Slipper in my mind
so that it becomes the word internal
and therefore as such a part of
me as my eyes or feet.


2
Names for girls: Clytoris,
Puma, Firedine, Sunelope, Yes, Ráhda,
Rãese.
3
Honorificabilitudinity,
Incircumscriptibleness, Anitdisestablishmentarianisms.
4
Take the word Sun
which burns permanently in
my brain. It has accuracy
and alacrity. It is monomaniac
in its intensity. It is a continual
flash of insight. It is the
marriage of invulnerability with Yes
of the Red Wolf, with the Gold Bumblee
of Madness with Rã.
5
Birdileaves, Goldabbits,
Fingertoes, Auroramor, Barabarific,
Parabolaw, Peaglecock, Lovegown,
Nombrilomane.
6
Actress and Poet,
Prizefighter and Princess, Aviator and Nun.
7
I understand certain
words to be single and by themselves
and deriving from no other words
as for instance the word I.
8
Certain words must
be avoided altogether.
9
The intoxicating
promise of words such as the
words in her eyes.
10
Names of horses: The Arrow,
Locomotive, Firecracker, Tornado, Galloper Light,
Trajectory, The Meteor, Fleetness, Velocity.

11
Slang: snifetr = a little drink,
kiss-pretties = go to hell, jumping =
jumping into bed with someone hence
the expression ‘she’s a jumper,’
what’s the crêpe = how are you,
to put on a storm = to stage a wild party,
harra or harra burra = a cry of
enthusiasm, brunch = a combination
of breakfast and lunch, m. o. =
mutual orgasm, 34 ½ = ½ of 69,
d.b. = dumb blonde.


                    12

I believe that certain
physical changes in the brain
result in a given word—this
word having the distinguished
characteristics of unreality
being born neither as a result
of connotation nor of conscious

endeavor     Starlash

13
The evolution of a word
in the mind requires despotic
power and unlimited elimination.
How would Yes for instance flourish
among words such as dog or corset
or safety-pin or hot-water-bag or eunuch

14
A word should be not
merely an image but a directive
force which guides the flight of
the soul

15
I believe that the
constant repetition of certain words
is as necessary as eating or as
taking exercise
16
Calendar
January          Fire
February       Barbaric and Catapult

March           The Arrow
April             Amor and Ra
June               Invulnerability
July               Meteoric Madness Velocity Sorcerers
August         I          Yes
September    Slipper         New Moon

17
There is the automatic
word as for instance with me
the word Sorceress where the
word goes on even while the
attention is focused on entirely
different subjects just as in
swimming my arms and legs
go on automatically even
when my attention is focused
on subjects entirely different
from swimming such as
witchcraft for instance or
the sorceress
18
The spiritual source of
the word is too often ignored—any
word that will serve for any other use
is seldom satisfactory.

19
Time in regard to the word
should be qualitative rather than
quantitative.
20
The significance of the
word must differ from that of
daily life. This is important.
21

The word Aphrodisiac
according to the dictionary is a
drug provocative of sexual desire.
But for me it is the name of a yacht
and white as her great white sails
and has nothing whatever to do
with sexual desire. 
22
Always     dominate
the word. 

23
For the body of man a
hareem of houris for the brain of
man a hareem of words.

24
Very Nice To Look At And
Sweet To Touch words written
in red lettering on a card
pinned to a bathing suit worn by a
wooden mannequin in a shop window at Deauville.

25
The flesh of lions is fit
meat for brave men because they
at the same time transfer its
courage to themselves. So is the word
fit meat for brave minds because
they at the same time transfer
its courage to themselves. Take
the words Conqueror Meteoric
Attack     Magnificent.
26
An aeroplane over Paris
trailing a long white banderole
on which is written in huge
letters the words Dry Gin.
27
I believe that inanimate
words as well as living words
contain stores of magical
force        Stone or Star.
28
The root of the word
is to be sought in one’s own mind.
29
A word should be
absolute in its application
Phallic    Thrust    Propellor
30

Explosion

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Há várias versões diferentes deste poema de Crosby. Esta é a versão 
original do autor para a revista experimental transition, publicada em 
Paris no final dos anos 1920.


23.6.12

Suona, suona violino


O Sr. D. diz ser escritor e trabalha em um emprego seguro porém limitante que não corresponde aos seus anseios literários. Procurou a análise aos 32 anos, quando a esposa, de um casamento que durara oito anos, o deixou. Ele procurou o tratamento a fim de descobrir se ele foi a causa do fracasso do seu casamento. No transcorrer da análise ficou claro que sua motivação para a terapia não era apenas o desejo de conhecimento ou reconhecimento intelectual, ele buscava ajuda porque sofria de um grave transtorno de autoestima e de uma sensação profunda de vazio interior. Para o petit déjeuner do Sr. D. servimos hoje simplicidade: pain perdu tout bête com café au lait e jus d’orange. A resposta empática foi perfeita. Nosso chef sentiu-se recompensado. A apatia e falta de iniciativa do Sr. D. fazem com que ele se sinta “meio vivo”, segundo suas palavras, e ele procura superar essa sensação de vazio com a ajuda de fantasias sexuais contendo um carregado matiz sádico. A fantasia de controle sádico dirigia-se principalmente às mulheres, em particular à esposa, que o considerava “doente” sempre que se via na condição de “amarrada” aos móveis do casal. Sem dúvida, essas encenações eram uma tentativa de encobrir uma falha primária por meio de estruturas defensivas. Para o déjeuner não obtivemos o mesmo sucesso. O Sr. D. pareceu não apreciar o nosso plat. Queixou-se que o tartare de boeuf estava duro e a vaca, passada. Não quis esperar pela dessert, uma divina panna cotta au caramel au beurre salé. O chef precisou ser tranquilizado com doses comedidas de reforço de onipotência. O Sr. D. pediu um bloco para escrever e voltou para o seu quarto. É correto dizer que seu trabalho como escritor poderia contribuir de forma considerável para o aumento de sua autoestima, no entanto encontrava-se obstruído por um nexo de distúrbios inter-relacionados. O primeiro, manifestação da falha estrutural primária mencionada, estava geneticamente relacionado à falha da função de self-objeto de sua mãe como espelho para o sadio exibicionismo da criança D. O segundo era uma manifestação de uma falha nas estruturas compensatórias do paciente, geneticamente relacionado à falha da função de self-objeto do pai como imagem idealizada. O Sr. D., trancado no quarto, dispensou o goûter. O chef trancou-se na cuisine e quebrou toda a nossa Sarreguemines Louis XV. Reunião extraordinária da diretoria para discutirmos estruturas contensoras adequadas. Os obstáculos ao trabalho criativo do Sr. D. não podem, entretanto, ser explicados apenas com exame minucioso de sua relação com o self-objeto especular materno, pois as aptidões que ele empregava para escrever não se baseavam na estrutura primária, ou seja, no seu relacionamento com o self-objeto especular, e sim na estrutura compensatória, isto é, em talentos adquiridos em um posterior período da infância, na matriz do seu relacionamento com o self-objeto idealizado, o pai. Simplificando, a hora do dîner estava chegando e precisávamos tomar uma decisão. A diretoria, por unanimidade, escolheu um fricassé de mer et sa Julienne de légumes, um prato leve e de fácil confecção que serviria como uma válvula de escape transicional às tensões suscitadas pela alta vulnerabilidade especular entre objeto paciente e objeto chef. Sem que soubéssemos, o chef, por sua própria conta, havia preparado um buffet vegetariano da culinária italiana. Compreendemos de imediato que ele estava disposto a uma fusão bem-sucedida com o paciente, não aceitaria mais decepções. Um buffet era tiro certo, o suficiente para manter seu equilíbrio narcísico. A mesa da sala de refeições exibia o resultado dos processos de elaboração ocasionados por sua recente frustração: um delicado pizzette di sfoglia con zucca e spinaci, um polpettine di melanzane e ricotta, um festivo cous cous con chicchi di melograno e uvetta, um sformato di finocchi e formaggio de tirar o fôlego, uma zuppa di lenticchie e crostini di pane fritto, uma crostata di frutta vegan, uma travessa repleta de biscotti della fortuna vegan. Para a sobremesa, uma mousse al cioccolato con scorza d’arancia candita. O sr. D. surgiu na sala de bom humor e banho tomado. Olhou demoradamente para o buffet exposto, parecendo surpreso. Em vez de se servir, começou a ler os rótulos dos vidros de molho. Sabíamos que, para um escritor, grande parte do self-objeto é a palavra escrita, uma certa habilidade de encontrar alguma coisa na literatura que irá dizer algo de significativo para ele em um momento de necessidade. Por fim, o sr. D. pegou um prato, uma colher de chá e quatro vidros de molho. Pingou algumas gotas de cada um no prato, provando uma por uma, misturando e voltando a provar. Não satisfeito, substituiu os quatro molhos por outros quatro e repetiu o procedimento. Era evidente o prazer com sua obra. A comida esfriava na table, intacta. Após sete meses de tratamento, o sr. D. teve alta, abandonou a literatura e veio trabalhar conosco como chef principal. A sua inventividade no campo dos molhos atrai estudiosos da psique dos quatro cantos do planeta. Quanto ao nosso antigo chef, bem, nosso antigo chef, após algumas sessões de reabilitação conosco, comprou um violino e se mudou para Porretta Terme, onde passa as noites tocando tarantellas in un vecchio ristorante. Suona, suona violino.



18.6.12

Não vamos falar, toma o teu vinho




Quando me falam das delícias que na outra vida 
os eleitos irão gozar, respondo: 
Confio no vinho, não em promessas; 
o som dos tambores só é belo ao longe. 


 Omar Khayyam, Rubaiyat.


15.6.12

Glenn Gould

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A tecnologia da gravação trará uma nova espécie de ouvinte, um ouvinte
mais participativo da experiência musical, um potencial usurpador do
poder, um hóspede não convidado no banquete das artes, alguém
cuja presença ameaça a hierarquia familiar do establishment
musical.

Glenn Gould, na High Fidelity, 1966.





7.6.12

André de Leones



















Yerushalayim

para Maira Parula


em Jerusalém sonhei com Neve Tsedek
o SoHo de Tel Aviv
você comprava uma tela abstrata
de uma pintora hippie
dentes ruins
tela depois trocada por
não me lembro
quantas doses de arak
em uma barraca do shuke
chuva torrencial
e no fotograma seguinte
pedalando ensolarados
pelo calçadão de Yafo
o Mediterrâneo nos fitava
sonolento
como se olhasse para o passado
e ainda nem existíssemos