26.9.04

Tu És o MDC da Minha Vida



Tu és o grande amor da minha vida
Pois você é minha querida
E por você eu sinto calor
Aquele teu chaveiro escrito "love"
Ainda hoje me comove
Me causando imensa dor
Eu me lembro
Do dia em que você entrou num bode
Quebrou minha vitrola
E minha coleção de Pink Floyd
Eu sei que eu não vou ficar aqui sozinho
Pois eu sei que existe um careta
Um careta em meu caminho
Ah! Nada me interessa nesse instante
Nem o Flávio Cavalcanti
Que ao teu lado eu curtia na TV
Nesta sala hoje eu peço arrego
Não tenho paz nem tenho sossego
Hoje eu vivo somente a sofrer
E até o filme que eu vejo em cartaz
Conta nossa história e por isso eu sofro muito mais
Eu sei que dia a dia aumenta o meu desejo
E não tem Pepsi-Cola que sacie
A delícia dos teus beijos
Ah! Quando eu me declarava, você ria
E no auge da minha agonia
Eu lhe citava Shakespeare
Não posso sentir cheiro de lasanha
Me lembro logo das Casas da Banha
Onde íamos nos divertir
Eh! Hoje o meu Sansui-Garrard-Gradiente
Só toca mesmo embalo quente
Pra lembrar do teu calor
Então, eu vou ter com a moçada lá no píer
Mas pra eles é careta
Se alguém fala de amor
Na faculdade de Agronomia
Numa aula de energia
Bem em frente ao professor
Eu tive um chilique desgraçado
Eu vi você surgindo ao meu lado
No caderno do colega Nestor
Por isso, é por isso que de agora em diante
Pelos cinco mil alto-falantes
Eu vou mandar berrar o dia inteiro
Que você é
O meu
Máximo
Denominador
Comum


Poesia sem título (1972)
Eu não pertenço ao domingo ensolarado
Meu pijama branco e largo
Que eu arrasto pela sala
Pela sala de jantar
Já não m'importa , o que m'importa nesse instante
É o meu vagar constante
Sob o peso dessa estante
Que eu vasculho até dormir
Meu quarto escuro sob os olhos de coruja
Boca seca e roupa suja
O coração se enferruja
Ao contato do verniz
Eu não pertenço nem à flor nem à espada
Tenho é u'a fome desgraçada
Minha cara engarrafada
Mais parece um guaraná


Raul Seixas

23.9.04

To hell and back



Agora fiz a minha primeira carnificina. Não sinto náuseas, não sinto orgulho, não sinto remorso. Há só uma entediante indiferença que me acompanhará durante toda a guerra... Tive de abandonar a idéia de que a vida fosse sagrada... No dia da rendição alemã, nas ruas da Riviera apinhadas de gente comemorando, eu senti apenas uma vaga irritação. Lá fora há o Dia da Vitória, mas por dentro não há paz. Como num filme de terror rodando de trás para frente, as imagens da guerra piscavam em meu cérebro... feito um incêndio que tivesse tomado conta desta casa humana, deixando apenas a carcaça carbonizada de algo que já foi verde. Em poucas horas eu não suportei mais. Voltei para o meu quarto. Mas não conseguia dormir. Minha cabeça rodava. Quando criança me disseram que a guerra estigmatizava os homens. O estigma foi colocado em mim? Os anos de sangue e ruína me despiram de todo sentimento de decência? De toda crença?... Creio na força de uma granada de mão, no poder da artilharia, na precisão de uma Garand. Creio em matar antes de ser morto.


Audie Murphy, na autobiografia To Hell and Back, de 1949. O mais condecorado dos heróis americanos da Segunda Guerra Mundial, célebre ator de Hollywood, Audie viveria em desespero até o final de sua vida, em 1971, por conta de sua participação numa guerra onde adquiriu a consciência da sua própria capacidade de matar.


20.9.04



Deixo para trás todas as roupas
Que usei quando estive contigo
Levo só minhas botas e o casaco de couro
Enquanto me despeço dos braços de Ruby.
Mesmo que o coração aperte
Tenho de me esgueirar pelas persianas
Porque logo irás acordar.

A luz da manhã lavou teu rosto
E agora o azul vai cobrindo tudo
Abraça teu travesseiro
Que agora já não posso fazer nada
Enquanto me despeço dos braços de Ruby.
Encontrarás outro soldado
E juro por Deus que pelo Natal
Terás outro alguém para te abraçar.

Do desalinho de tuas roupas
Levo só um lenço
Vou fugindo rente à tua cômoda
E aos teus sinos de vento quebrados
Enquanto me despeço
Enquanto digo adeus aos braços de Ruby.
Descerei pelo corredor escuro
E, rompendo a manhã, verei que os vagabundos da estação
Mantiveram as fogueiras acesas
Meu Deus, como chove
E não há um trem...
Não beijarei mais teus lábios
Nem partirei o teu coração
Enquanto me despeço
Enquanto digo adeus aos braços de Ruby.


Tom Waits




19.9.04

A realidade é que sem ela não há paz, não há beleza, é só tristeza e a melancolia que não sai de mim, não sai de mim, não sai. Eram quase duas da manhã quando pisei no Arpège, lotado aquela noite. Tom Jobim, todo muito sincopado, espremendo do piano queixas de amor com uma nova batida que o público não entende, só se balança. Pra mim aquela bossa não dizia nada, nada que Cole Porter já não tivesse dito, e melhor. Peço um White Horse duplo, sem gelo, e fico por ali em suspenso, fumando e assobiando baixinho De cigarro em cigarro, do Bonfá. De cinco em cinco minutos meu olhar se despeja nas mesas, procurando Dindi. Encostado na parede ao meu lado, um sujeito lê no Correio da Manhã a inauguração da nova capital federal. Na luz fraca da boate vejo a foto daquela cidade de sonho talhada no deserto. Um chapadão de arquitetura arrevesada e megalomaníaca, pra assustar e afastar a calangada revoltada dos centros de decisão. Mas se ela voltar, se ela voltar que coisa linda, que coisa louca, pois há menos peixinhos a nadar no mar do que os Vejo o corpo de Silvinha cruzando a fumaça e meu coração acelera. Silvinha chegando é só encantamento. Não precisa de música. Ela senta na minha mesa sem tirar os olhos do piano, a mão suada apertando a minha. Silvinha não sabe que amanhã vou pra Brasília e nunca mais nos veremos. Foi assim que combinamos, desde o início. O fim não seria anunciado. Ela marca o meu copo de batom e antes de sairmos dali apaga um último cigarro no cinzeiro de cristal.


14.9.04

Há, no Bairro Francês, vários bares gays, tão repletos todas as noites que os viados transbordam pras calçadas. Um ambiente cheio de viados me enche de pavor. Eles se sacodem que nem marionetes movidas por fios invisíveis, galvanizados por uma agitação hedionda que é a própria negação de tudo que é vivo e espontâneo. A vida genuína se mudou desses corpos há muito tempo. E algo se infiltrou lá dentro, quando o locatário original foi embora. Viados são bonecos de ventríloquos que tomaram de assalto a alma do mestre. O boneco senta no balcão, ninando sua cerveja e tagarelando sem parar. Nada é capaz de alterar a rigidez de seus traços inumanos.

De vez em quando a gente encontra personalidades intactas num bar gay, mas são as bonecas que estabelecem o padrão nestas bibocas, e eu sempre fico deprimido quando entro numa delas. Com o tempo, a depressão só faz aumentar. Depois de uma semana numa cidade nova, já esgotei todas as possibilidades desses bares; só me resta fuçar noutros cantos, em geral nos bares da boca do lixo e imediações.

Mas, vez por outra, eu tenho umas recaídas. Certa noite, no Frank's, fiquei descerebrado de tanto beber e fui a um bar gay. Devo ter bebido mais lá, pois fui acometido de um lapso temporal. Já estava clareando lá fora quando se abriu no bar um desses súbitos bolsões de silêncio. Silêncio é algo que não ocorre com frequência num bar gay. Acho que a maioria dos viados já tinha ido embora. Eu estava debruçado no balcão diante de uma cerveja que eu não queria. O barulho se dissipou feito fumaça e notei que um garoto ruivo me olhava fixamente, a um metro de distância.

Como ele não veio com viadagens pra cima de mim, me animei a dizer, "Como vão indo as coisas?", ou algo assim.

-- Cê quer ir pra cama comigo? -- ele disse.

-- Tudo bem, vamos nessa -- eu disse.

Quando íamos saindo do bar, ele apanhou minha garrafa de cerveja no balcão e escondeu-a sob o casaco. Lá fora já era dia. O sol despontava. Atravessamos trôpegos o Bairro Francês, passando a garrafa um pro outro. Ele ia me levando ao seu hotel, pelo menos foi o que me disse. Sentia meu estômago crispar, como se estivesse prestes a tomar um pico depois de muito tempo sem droga. Eu devia ficar mais atento, sem dúvida, mas nunca consegui misturar sexo e vigilância. O tempo todo eu ouvia sua voz sexy, cujo sotaque sulista não era de Nova Orleans. Mesmo à luz do dia, ele ainda me parecia apetecível.

Chegamos no hotel e ele veio com um papo de que tinha de entrar primeiro. Tirei umas notas do meu bolso. Ele deu uma olhada e disse: "Melhor me dar uma de dez." Dei a ele. Entrou no hotel e logo saiu.

-- Lotado -- disse ele. -- Vamos tentar o Savoy.

O Savoy ficava logo ali, do outro lado da rua.

-- Espere aqui -- ele disse.

Fiquei uma hora esperando. De repente me bateu o que havia de errado com o primeiro hotel. Não devia ter porta dos fundos ou lateral por onde ele pudesse escapar. Voltei ao meu apartamento e peguei meu revólver. Fiquei esperando perto do Savoy. Depois dei uma volta pelo Bairro Francês, à cata do garoto. Já devia ser meio-dia quando me bateu a fome. Tracei um prato de ostras e uma cerveja. Ao sair do restaurante, senti um cansaço repentino de dobrar as pernas, como se me aplicassem golpes de karatê nas junções atrás dos joelhos.

Peguei um táxi até em casa e me joguei atravessado na cama, sem tirar os sapatos. Acordei por volta das seis da tarde e fui ao Frank's. Três cervejas mais tarde, eu já me sentia melhor.


William Burroughs, em Junky, 1953.


13.9.04

Fantasia erótica
A mulher que eu amo, que impressão me faz!
De cabelos rasos, parece um rapaz.
Mas os olhos dela, sem ela o querer,
É que dizem coisas que só de mulher.
As suas narinas vibram, a chamar
Os turvos eflúvios vagabundos no ar;
E os seus dentes, frios no sorriso moço,
Sinto-os, só de vê-los, contra o meu pescoço.
A mulher que eu amo, que impressão me faz!
Seu sorriso é triste, seu perfil minaz.
Os seus seios hirtos, pequeninos, túmidos,
Bastam a que os olhos se me façam húmidos.
Suas mãos felinas, logo que me tocam,
Meus nervos agudos todos se deslocam.
Suas ancas -- taças do prazer -- transbordam
De ópios que adormentam... mas que logo acordam.
Suas pernas magras de desenho fino
São como suspensos arcos de violino.
Quando as beijo cego-me! e esse beijo, corre
Como a onda solta que só longe morre.
Com seu riso aéreo nos lábios vermelhos,
Ela, então, recebe-me, entre os nus joelhos,
Sobre o longo corpo inteiramente franco...
E os seus olhos mortos boiam só em branco.


José Régio, 1961.


10.9.04

porque a ficção é parte da história


Mata Hari foi executada no pátio do Castelo de Vincennes. O fuzil do jovem oficial que executou a sentença fez correr o seu sangue antes que ela concluísse suas últimas palavras: "Gosto que me matem." No cinema, Greta Garbo mordeu o charuto e a frase foi cortada. Na vida real, Mata Hari, ou Margarette Zelle, foi condenada à morte por se recusar a confessar sua participação no maior contrabando da história. A Basílica de São João de Latrão, a maior e mais antiga de Roma, um verdadeiro museu de relíquias cristãs, teve alguns dos principais itens de sua fabulosa coleção secreta roubados. A saber: todos os originais dos evangelhos gnósticos, as cabeças de São Pedro e São Paulo, a Arca da Aliança, uma urna de maná, a túnica da Virgem, a mesa de jantar da Última Ceia, os cinco pães e dois peixes com que Jesus matou a fome de cinco mil, e, o mais notável, o prepúcio e o cordão umbilical de Jesus. Interrogada pelo serviço secreto francês sobre o destino que dera às relíquias desaparecidas, Mata Hari limitou-se a repetir seus "nada a declarar". O crime só não teve repercussão porque a cúpula papista estalou o chicote para abafar o caso. A Scotland Yard lavou as mãos. O último desejo da suposta espiã antes de ser libertada da matéria foi que sua execução se desse no vigésimo oitavo degrau da Escada Santa. Recusado. A famosa escada que Cristo subira para se encontrar com Pôncio Pilatos também havia sido roubada. O mundo cristão ocidental só contaria com o Santo Sudário dali para a frente. O paninho sujo de Cristo foi o único item que os ladrões deixaram para trás.

poesia trovadoresca, c. 1200


Et ab jio li er mos treus
Entre gel e vent e neus.
La Loba ditz que seus so,
Et a.n be dreg e razo,
Que, per ma fe, melhs sui seus
Que no sui d'autri ni meus.

Procuro-a com alegria
Pelo vento neve granizo.
A Loba diz que sou dela
E meu Deus ela está certa:
Sou todo dela
E de ninguém mais, nem de mim.


Peire Vidal, em tradução livre do occitano. A Loba do poema era Etiennette de Pennautier, a dama mais bela e cortejada de sua época no Languedoc, região da antiga França que foi berço dos heréticos, do amor cortês e da poesia trovadoresca. Isso até aparecerem os soldados de Cristo, os cruzados, e empatarem tudo.


9.9.04

Um site de portugueses sobre literatura brasileira


O que motivou um grupo de portugueses a criar um blog para falar de literatura brasileira? O blog Gávea acaba de entrar na rede e já chama nossa atenção. Veja aqui a resposta:

"A ignorância, de um e de outro lado do Atlântico, sobre o que se faz na outra margem, é um dos absurdos da nossa vida. Temos de viver com ele. Muitos portugueses precisavam de uma terapia de choque nesse sentido. Eu tive a minha quando frequentei Literatura Brasileira na universidade. Íamos cheios de Jorge Amado, Graciliano e pouco mais, mas isso garantia uma série de certezas absolutas ? Érico Veríssimo estava um pouco deslocado no retrato, era leitura de família. Mas Guimarães Rosa era um mundo longínquo que falava outra língua, Machado uma espécie de subproduto desconhecido (que Eça satirizava em privado, rindo do mulato), os modernos escreviam numa gramática terrível, cheia de sons e de atropelos. Manuel Bandeira, por tradição, conhecíamos, sim, e Vinicius, pelas canções, e Drummond, porque sim. Não vale a pena enumerar as desgraças. O meu professor era o poeta (angolano) Mário António Oliveira. As suas primeiras palavras foram simples: «Lamento desiludi-los, mas a literatura brasileira é muito superior à portuguesa.» Um eco de indignação percorreu a sala. Ele ria. Abençoado riso. Semanas depois percebíamos a provocação. Eu tinha percebido a provocação com Gregório de Mattos (o homem falava de Itaparica e, junto com as águas azuis e transparentes da ilha, falava das putas e dos álcoois), por exemplo, ainda que aceitasse com dificuldade, nesses anos, dividir Tomaz Gonzaga ou Cláudio Manuel da Costa com Ouro Preto (a Inconfidência, aliás, era um pormenor na leitura dos autores brasileiros), e encontrar consonâncias em Castro Alves ou Olavo Bilac (ah, a última flor do Lácio?). Se Capitú traiu ou não, sempre me pareceu assunto secundário, desde que Brás Cubas continuasse a perorar além-túmulo. E, depois, que brincadeira era essa de haver um leitor brasileiro de Sterne? Preconceito sincero. Quando Antônio Cândido teve o Premio Camões, houve mesmo um professor de uma universidade de Lisboa (e de literatura, e de esquerda, e que participava em jornadas de apoio ao PT?) que desabafou para os jornais: «É essa mania de premiarem os desconhecidos?» Coitado do Antônio Cândido. Vocês também não se portavam muito melhor, é preciso dizer. Quanto ao preconceito, nessas aulas de literatura, desapareceu com o tempo e com uma dose de ciúmes assombrosa, quando se descobriu que Oswald de Andrade tinha seduzido Isadora Duncan daquela maneira gloriosa, como um canibal de verdade. Eça riu dos paulistas que se atiraram aos pés de Sarah Bernhard, mas a verdade é que os autores portugueses não tiveram grandes momentos de exuberância, pequeninos e confinados a um mundo de fronteiras curtas. Isto também tem os seus exageros, mas a culpa também é vossa. Não sei porquê. Deve ser dessa mania de implicarem com os portugas, não sei; e de os portugueses fingirem que são tão sérios que ainda não aprenderam a brincar. Temos de viver com isso."


7.9.04

O que você não pode fazer porque é casado?

(breve amostra)

Você não pode:

. sair de casa sem dizer aonde está indo.
. deixar de dizer a que horas vai voltar.
. sair quando o outro prefere ficar em casa.
. ir a festas sozinho.
. sair só por sair.
. planejar nada sem consultar o outro, particularmente à noite e nos fins de semana.
. ser um porcalhão.
. deixar pela casa seus livros, lenços de papel, sapatos, maquiagem, correspondência, roupas íntimas, trabalho, material de costura ou pornografia.
. fumar, ou fumar dentro de casa, ou deixar cigarros em xícaras.
. amontoar mais quinquilharias do que o outro acha suportável.
. deixar os pratos para lavar depois, ou lavá-los mal, beber direto da garrafa, fazer farelo sem limpá-los.
. acumular coisas que você acha que pode usar um dia se o outro acha que você não vai usar.
. jogar roupas úmidas no cesto de roupa suja.
. ter uma mesa confortável porque ela não combina com a decoração.
. deixar de perceber se a casa está arrumada ou bagunçada.
. contratar uma faxineira, porque seu parceiro é socialista e não consegue conviver com a idéia, ou porque o outro acha que não poderão pagar, embora você tenha feito as contas.
. deixar a tampa da privada aberta.
. deixar coisas ensangüentadas no cesto de lixo do banheiro.
. deixar produtos de higiene íntima feminina à vista.
. lavar suas mãos sujas na pia da cozinha.
. colocar o rolo de papel higiênico no suporte "voltado para baixo".
. deixar de prestar atenção ao que você simplesmente ignora: os pêlos de seu nariz, os pêlos da axila, as unhas dos pés.
. deixar de fazer a cama, ou deixar de expressar apreciação quando o outro faz a cama.
. dormir separado, ir para a cama em horários diferentes, cair no sono no sofá sem acordar para ir para a cama, comer na cama, sair da cama logo depois do sexo, ter insônia sem passar por um interrogatório sobre o que realmente está te aborrecendo, aumentar o ar-condicionado do jeito que quer, dormir tarde se o outro tem que acordar cedo.
. ver novelas sem se divertir com elas, assistir pornografia, se isolar patologicamente nos esportes mesmo que esta seja a única forma de liberar a ansiedade, ouvir Bob Dylan nem outros excessos de sua juventude, sair para jogar fliperama, fumar maconha, beber de dia ou nos fins de semana, tirar sonecas quando o outro está em casa porque o parceiro acha que o tempo livre deve ser compartilhado, trabalhar quando devia estar relaxando, passar tempo demais no computador (e fique longe das salas de chat!), ter paqueras por e-mail mesmo que sejam inocentes, jogar paciência no computador porque os cliques deixam o outro maluco.
. conversar ao telefone quando estão em casa trabalhando, ser mal-educado com as pessoas que telefonam para o parceiro, falar ao telefone quando o outro está no quarto sem que o outro comente a conversa ou tente falar com você ao mesmo tempo, seu melhor amigo não pode ligar depois das dez.
. deixar de prestar atenção à presença do outro, ser impulsivo, ensimesmado ou distraído, assumir riscos, a menos que sejam riscos com os quais o outro concordou, dar o fora do trabalho nem se demitir de repente, tomar decisões profissionais unilaterais, nem trocar de emprego sem discussões e negociações intensas, fazer grandes compras sozinho, nem gastar dinheiro em coisas que o outro considera supérfluo, nem pode torrar dinheiro só porque está de mau humor, e não pode ficar de mau humor sem explicar por quê. Você não pode ter segredos - sobre dinheiro ou qualquer outra coisa.
. comer o que quer, deixar de fazer as refeições, deixar de preferir comer o que o outro cozinhou, sair de sua dieta, comer alho porque o outro não agüenta o cheiro, comer manteiga se o outro está monitorando seu colesterol, assoar o nariz à mesa, ler o jornal às refeições, comer coisas que lhe dão gases ou fazer piadas sobre os gases.
. usar o "tom de voz errado", se repetir, saber de coisas que o outro não sabe ou dar a impressão de que está exibindo seu conhecimento, comemorar demais suas realizações particularmente se o parceiro é menos bem-sucedido, pedir ajuda e depois criticar o modo da ajuda, ser simplista mesmo quando as coisas são simples, ter o riso errado: alto, explosivo demais, inadequado demais, bobo demais, falar "xereca", fazer piadas com tamanho de pênis ou rir quando os outros fazem.
. dizer o que pensa da família do outro, comparar o outro com qualquer membro de sua família, expressar ironia inadequada sobre alguma coisa que o outro leva a sério, chamar um faz-tudo para consertar alguma coisa se o outro se considera "habilidoso", deixar de dar apoio mesmo quando o parceiro faz alguma coisa insuportável, analisar a cinematografia de um filme que comove o outro, fazer uma piada que o outro possa interpretar como inconscientemente dirigida a ele.
. falar de relacionamentos passados, deixar de falar de relacionamentos passados, dizer nada que deixe o outro consciente demais de sua incompetência ou suas falhas, questionar o autoconhecimento do outro ou a interpretação que o outro dá a uma determinada situação, ter amigos que gostem mais de um do que do outro, ter amigos de quem um de vocês goste mais do que o outro, ser grosseiro com as visitas, sair de casa quando as visitas estão presentes, falar de sua depressão em público, ignorar o parceiro quando saem, ser encantador demais em público especialmente com pessoas do sexo oposto (ou do mesmo sexo, quando aplicável), conversar com pessoas que fazem o parceiro se sentir inseguro ou ameaçado, fazer social com seus ex mesmo que você jure que tudo acabou, transgredir os padrões de franqueza que o outro acha adequado em situações sociais, deixar de ter o grau de informalidade do outro, deixar de rir das piadas do outro em público.
. vestir roupas que não combinam, usar roupas mal ajambradas em casa sem ouvir algum tipo de comentário, dormir com a camiseta que tem desde a faculdade, comprar roupas sozinho se o outro não confia no seu gosto, sair de casa sem passar por uma inspeção, usar alguma coisa que te deixe sexy demais (ou atarracado demais, ou que não seja adequada para a idade), estar mais arrumado que o outro.
. beber mais que a quantidade x quando saem juntos, beber sem que o outro conte seus drinques, deixar de "se entrosar", dançar se o outro te acha péssimo dançarino, sair de um lugar antes que o outro esteja pronto para ir, esquecer coisas e depois voltar em casa para pegá-las depois que a porta foi fechada, dirigir rápido demais ou mais rápido do que o outro define como rápido, colar na traseira do outro carro ou buzinar, criticar o modo como o outro dirige, sinaliza ou troca de pista, ficar irritado quando dirige, nem xingar outros motoristas, ouvir rádio no carro.

É assim que se obtém amor.


Laura Kipnis, no livro Against Love, 2003.



6.9.04



Samba di Una Nota


Per un samba piccolino
una nota basterà
Altre note troverò
ma la base è tutta qua
E quest'altra è conseguente
puoi comprenderlo da te
perchè tu sei conseguenza
inevitabile di me.

Per non imitare
chi non parla
che in maniera imprecisata,
approssimata...
Cerco tra le note d'ogni scala
ad una eseminata
e abbandonata

E ritorno alla mia nota
come tu torni da me
e non cerco che una nota
come cerco sempre te
Che m'importa d'ogni nota
re mi fa sol la si do
me ne basta solo una
e su quella canterò.


-- Versão italiana de G. Calabrese ao "Samba de Uma Nota Só", de Tom Jobim e Newton Mendonça.



3.9.04


Morro de saudades. Acordo de madrugada e fico vagando pela casa, tomando café e fumando com aquele sentimento esquisito de lack of rabanadas. Recebi tua carta hoje de manhã, agora mesmo, às nove horas, e faz um dia lindo. Aquele frio lá fora, o céu azul transparente mostra que a poluição diminuiu bastante... Para mim seis degraus centígrados é frio à beça. Corro para dentro e ligo o heat na toda, no clima supertropical de Ipanamo. Mas o ar fica seco, racha-violão. Só mesmo no banheiro, com o chuveiro quente ligado, nu, de camisa de meia, na umidade das nuvens de vapor quente, fazendo uma infinita barba, com aparelho, pincel e muita espuma e respuma, gilete nova, desligado, num mundo sem problemas, só fico assim mais como Ipanerma, Ipanoma, Ipaderma, Ipanonha, Aipinina, Ipatonha... Ipanhonha?


Tom Jobim, de Los Angeles, 1965, em carta a Vinícius de Morais.



2.9.04

A biblioteca de Babel





a Jorge Luis Borges


Se eu digo que nos galhos de um cedro do Líbano costumavam se aninhar todas as aves dos céus. Que à sua sombra se acolhiam todos os animais dos campos e descansava toda a espécie de gente. Se eu digo que meus ouvidos mortais não foram preparados para o som de cânticos, das harpas, das liras e dos címbalos. Que, antes disso, as ruas abertas de minha infância transformaram em mármore as tardes que hoje busco na memória. Se eu digo que minha raça, classe e sexo são definitivamente a garatuja de tudo aquilo que sou. Que tudo aquilo que sou poderia muito bem acomodar-se no espaço entre uma vírgula e um ponto num rodapé desnecessário. Que não tenho a pretensão das páginas elegantes para pendurar minhas reflexões rudimentares de minha vidinha rudimentar, muito menos quinhentos séculos de dúvidas. Se eu ainda assim digo que não acredito num livro total porque sempre desconfiei dos místicos e do seu Deus circular de lombada contínua, é porque, depois de tudo o que acabei de dizer ou que me disseram, o meu universo não é uma biblioteca, ou porque qualquer coisa que eu venha a dizer ou escrever não passam de letras soltas de uma história inteira de que quase nem lembro.

M.P.




1.9.04


por que eu não posso esquecer


que Deus sonda os meus rins


penetra até o fundo do meu coração


e ouve as minhas palavras?