31.1.03

Já passava da meia-noite. Passava da meia-noite e chovia fino, o que para mim não significaria nada se não estivesse chovendo há mais de três dias. A louça sobre a pia ia desaparecendo peça por peça enquanto eu recheava os armários da cozinha. Xícaras à direita, pratos à esquerda, panelas no alto, copos e talheres embaixo. Na mesa das refeições apenas a minha sombra dividia o espaço com garrafas vazias. Estaria mentindo se dissesse que estou com sono. Eu não sabia mais o que era dormir, embora não me faltassem silêncio e tudo o que pudesse imaginar para dar forma a uma boa noite de descanso. Cortinas fechadas, luzes baixas, poltronas de almofadões, sofás convidativos, televisão acesa e muda, cobertores espalhados pelo chão, tapetes felpudos e ninguém mais. Ainda assim alguma coisa parecia me impedir de pregar o olho. Alguma coisa de que eu não me dava conta mas que no entanto estava lá. Há muito tempo. Tempo suficiente para me incomodar, me perturbar as horas, atrapalhar meu banho, amarrotar minhas roupas, embaçar meu espelho, azedar minha comida, esfriar minha cama. E eu sabia que era alguma coisa que não fazia barulho ao andar, embora andasse. Que não batia à porta, embora entrasse. Que não conversava comigo, embora falasse. Alguma coisa medonha, de hálito medonho e medonha geometria. Alguma coisa que já havia se transformado em sensação, uma sensação desprezível, ao mesmo tempo intrusa e vazia, como se eu tivesse recebido a notícia de uma tragédia na qual não tomara parte. E a sensação estava lá. Acompanhando meus passos pela casa. Infiltrada nas paredes, bastava tocá-las. Misturada na água, fervida nos temperos, evaporando dos perfumes, na trama das toalhas, na superfície dos capachos, nas fotos de casamento, nas dobras dos lençóis, nas páginas dos livros, na gaveta das meias, nos brinquedos pelo chão, na garrafa térmica, nas chaves do carro, nas fotos dos filhos, nos diálogos dos personagens, na roupa lavada, na tinta da caneta, nas folhas do calendário, nos fios de tampax, nos telefonemas, nos dias de festa, no cheiro de gordura, no sol refletido nas lentes, nas quinas dos móveis, nos bicos de gás, nos cremes hidratantes, nas contas de luz empilhadas, no mofo, nas fotos dos netos, nas janelas empenadas, na caixa de costura, nos sacos de supermercado, nas flores secas, no pêndulo do relógio, nas receitas de remédios. Estava lá. E me acompanhava sem estar ao meu lado. Eu podia sentir suas mãos firmes se fechando sobre as minhas e me levando para dentro de sua casa. Uma casa onde as noites chegam de repente e não há fila de espera. Uma casa comum, numa rua como as demais. Uma casa comum mas com uma única diferença, e essa diferença distraía minhas horas.

30.1.03

Nesse sábado, com um otimismo radioativo, abri o jornal:

QUESTÃO DE MOMENTO
A Sociedade Protetora dos Animais e a Prefeitura
Grande Escândalo
"Faz muito tempo já que essa
Benemérita sociedade que usa o
..............................................."

O artigo preenchia uma viagem de bonde. Dava-me a impressão de um anúncio num muro. Uma questão de bois. Antes foi uma longínqua complicação dos Bálcãs -- intestinos da Europa. O caso era o seguinte: o Conselho Municipal legislara sobre a condução e proteção bovinas. Os bois da cidade deveriam ter a sua carteira de identidade escrita no chifre esquerdo, para que todos vissem, menos as pessoas do lado direito. Para protegê-los, cada boi deveria ter um homem vestido de verde, ao lado. Este homem estava encarregado de proteger e educar o animal. A S.P. dos A. protestou declarando que era uma barbaridade MEDIEVAL (oxalá!) gravar números (equações e logaritmos) nos chifres bovinos: sugeriu mui nobre e alcandoramente que se amarrasse a certidão à ponta da cauda. Discussões e descomposturas pelos a-pedidos dos jornais existentes e inexistentes, lidos e ignorados. Finalmente a Cara da Cidade (que eu estava lendo) espalhou que o prefeito queria nomear amigos seus para esses novos cargos. Jornais oposicionistas como os poetas ao dinheiro diziam a mesma coisa. O prefeito queria nomear os bacharéis F, S, B. Há um mês e tanto essa questão preocupava o espírito de todos os cidadãos. Os bairros da cidade entrecombatiam-se. Tentativas de separatismo. Botafogo quis constituir-se independente sob a regência de um dinheiroso toucinheiro local.
Pensei longamente a respeito. Fi-lo de tal modo que deixei de pensar. Dobrei outra página.

Escândalo! Escândalo!
O caso dos pijamas cor de sabão

O prefeito resolvera decretar que na cidade, dentro e fora de casa, só se poderiam usar pijamas cor de sabão. Os críticos literários protestaram logo. A lei não dizia de que cor era o sabão. Toda a gente se indignou com grande veemência de pronomes mal colocados. Sabão, diziam os peritos prefeiturais, é mais ou menos amarelado; sabonete, sim, é colorido. Invocara-se um longínquo texto russo ou chinês. Decretara-se um tipo uniforme. A casa vendedora? Percorreram-se todas ( a população tem o excesso da obediência). Só se encontrou uma --- F X & Cia. O escândalo? O prefeito queria enriquecer uma firma.
Tomei o café depressa, detestando as mulheres que cheiram a museus e coleções de selos.

-- Teixeira Soares, em "Vida em Espiral", publicado na revista literária "Estética", 1924.

27.1.03

Manual de Civilidade das Meninas



Manual de Civilidade das Meninas
(destinado às escolas)


Não digas... Diz...


Não digas "a minha cona", diz "o meu coração".

Não digas "tenho vontade de foder", diz "estou nervosa".
Não digas "gozei que foi uma loucura", diz "sinto-me um pouco fatigada".
Não digas "vou masturbar-me", diz "vou ali e volto já".
Não digas "quando eu tiver pentelhos", diz "quando eu for crescida".
Não digas "gosto mais de língua do que de pixota", diz "sou chegada a prazeres delicados".
Não digas "entre as refeições só bebo esperma", diz "sigo um regime especial".
Não digas "os romances honestos me chateiam", diz "quero qualquer coisa interessante para ler".
Não digas "deixa-se enrabar por todos os que lhe fazem minete", diz "é muito namoradeira".
Não digas "vi-a foder pelos dois buracos", diz "é uma eclética".
Não digas "ela goza como uma égua", diz "é uma exaltada".
Não digas "é uma menina que se masturba até morrer", diz "é uma sentimental".
Não digas "ela se deixa enrabar por todos que a masturbam", diz "ela flerta um pouco".
Não digas "ele entesa como um cavalo", diz "é um jovem completo".
Não digas "quando o chupam, descarrega no ato", diz "ele é muito espontâneo".
Não digas "tem a pixota grossa demais para a minha boca", diz "sinto-me pequena quando falo com ele".
Não digas "gozou na minha boca e eu na dele", diz "trocamos algumas impressões".
Não digas "tenho uma dúzia de consolos na gaveta", diz "nunca me aborreço sozinha".
Não digas "ele dá três sem desencavar", diz "tem um caráter muito firme".
Não digas "fode muito bem mas não sabe enrabar", diz "é um simplório".

-- Pierre Louÿs


Poema Datado (1)


mamãe vivia dizendo que ele não prestava
mas eu o achava um partidão
troquei os bobes pelas reformas de base

24.1.03

-- Eu não acredito em deus -- disse eu. Arlene começara a primeira das muitas margaritas que se seguiriam durante o dia. Fora avisada por seu médico para deixar de tomar tequila de manhã. Ele suplicara a ela que substituísse por um vinho leve, refrescante, bom para o desjejum, como os de Napa Valley. Ele mesmo possuía ações da viticultura. Venderia sua própria marca. "Mas vinho me dá gases", dizia Arlene com firmeza.

-- Ah, tudo é deus. -- Arlene olhou para o tudo a sua volta. Neste caso, tudo representava a treliça de sequóia ao redor da piscina que ela pintara de amarelo, um trecho de céu marrom de poluição, moitas de hibiscos empoeiradas, o passarinho morto que o jardineiro japonês vivia esquecendo de tirar do pequeno jardim de cactos.

-- Ou nada.

-- Isso é metafísico demais. -- Arlene gostava de me lembrar da boa educação que tivera no Meio-oeste. Porém, como era a primeira a confessar, ela esqueceu tudo que aprendeu, junto com as milhões de palavras que fora obrigada a decorar como atriz, cantora e camelô de TV. Quando menina, sempre disse que queria ser veterinária. Porém o mundo do show-business a havia agarrado pela bela garganta. No final dos anos 40 e início dos 50, ela foi quase, mas não chegou a ser, uma estrela de cinema. Agora, na meia-idade do nunca é tarde demais, ela era a camelô mais bem paga da TV, depois de Barbara Walters. Uma celebridade total.

-- Gore Vidal, em "Kalki".

23.1.03

Poeta bom é poeta morto


Para as grandes editoras, poeta bom é poeta morto. Bom aqui significando viável comercialmente. Viável comercialmente por sua vez tanto pode ser que dê lucros de vendagem ou que proporcione um verniz de seriedade ao catálogo da editora perante a mídia e o público leitor. Para a mão invisível do mercado, poeta bom é poeta morto principalmente se morreu jovem e/ou de forma trágica. Se você possui alguma notoriedade como poeta no seu pequeno círculo de amigos escritores ou aficionados por literatura, se já inclusive publicou seus textos naquelas brochuras ridículas de 32 páginas porque seu dinheiro não deu para pagar mais, ou teve a sorte de algum jornalista vagamente conhecido seu publicar um poeminha de sua autoria no caderno especial de um grande jornal ou num jornal pequeno lá do Nordeste, fique sabendo que se você se jogar do alto de um prédio ou enfiar a cabeça num forno, certamente vai ganhar muito mais espaço de divulgação. Se você for craque mesmo, é provável até que consiga uma edição de tiragem limitada de sua obra póstuma. Agora, se o suicídio não está na agenda de sua estratégia de marketing (até porque você é covarde demais para isso) e você sabe que no pequeno mundo de poetas maiores e poetas menores você não passa de mais um nanopoeta condenado a ouvir de sucessivos editores que o seu livro é muito bom mas que infelizmente a programação para o ano já está fechada, então eu só posso sinceramente nos desejar boa sorte.

Três semanas depois

Quando voltei de viagem
e entrei no meu apartamento
vi sobre a mesa aquele cinzeiro
que esqueci de esvaziar. ---
Há coisas que não têm desculpa.

-- Günter Grass, trad. MP.

Nota de rodapé sobre Roma


Eu não lanço moedas às fontes:
não penso em voltar.

Tanto Ocidente
parece suspeito.

Deixaram de fora mundo demais
e não há lugar
para os jardins japoneses.

-- Günter Eich, trad. MP.

22.1.03

DIALÉTICA NEGATIVA I

no não o sim
no sim no não o não
no não no sim no não o sim
no sim no não no sim no não o não
no não no sim no não no sim no não o sim
no sim no não no sim no não no sim no não o não

mas como vai ser possível

--------------------------------------


DIALÉTICA NEGATIVA II

não
não?
não não
não não?
não não não
não não não?
não não não não
não não não não?
não não não não não
não não não não não?
não não não não não não
não não não não não não?
não não não não não não não
não não não não não não não?
não não não não não não não não
não não não não não não não não?
não não não não não não não não não
não não não não não não não não não?
não não não não não não não não não não
não não não não não não não não não não?
não não não não não não não não não não não
não não não não não não não não não não não?
não não não não não não não não não não não não
não não não não não não não não não não não não?
não não não não não não não não não não não não não
não não não não não não não não não não não não não?

então tá


--- Helmut Heissenbüttel, trad. MP.

21.1.03

Bebo para
poder falar ao idiota.
O que me inclui.

-- Jim Morrison, em "As I Look Back".

É tempo de apertar os freios à minha inspiração e de deter na estrada por um instante, como quando se contempla a vagina de uma mulher; é bom examinar o caminho percorrido e lançar seguidamente num salto impetuoso os membros repousados. Não é fácil fazer uma caminhada de um só fôlego; e as asas cansam-se muito num vôo alto, sem esperança e sem remorso. Não... não levemos mais ao fundo a feroz matilha das picaretas e escavações através das minas explosivas deste canto ímpio! O crocodilo não mudará uma palavra ao vômito que lhe saiu de debaixo do crânio. Tanto pior se alguma sombra furtiva, levada pelo objetivo louvável de vingar a humanidade por mim injustamente atacada, abrir sub-repticiamente a porta do meu quarto, roçando a parede como a asa de um albatroz, e cravar um punhal nas costas do salteador dos destroços celestes! É indiferente que a argila dissolva os seus átomos dessa ou de outra maneira.

-- Conde de Lautréamont, em "Cantos de Maldoror".

19.1.03

genealogia da fome - depoimento "Tu Saiu de Onde?"



Para Quem Gosta de Histórias de Família


A Vila Ipiranga é um bairro de Porto Alegre e lá tem uma rua chamada Pascoal Parulla. Este senhor era meu avô materno e virou nome de rua porque em meados do século 20 foi um temido delegado de polícia local. Eu não conheci meu avô. Com a família provavelmente fugindo da fome em Lucca, na Itália (ou San Luca, na Calábria, há divergências), ele nasceu no navio que o trazia para a Argentina tempos antes do naufrágio do Titanic. Adulto, deixou a Argentina e foi tentar a vida no Uruguai com o irmão, acabando por se estabelecer em Porto Alegre sozinho, onde casou com Amanda que não era a minha avó e teve dois filhos (meus tios que cheguei a conhecer). Viúvo, casou de novo com uma certa Margarida e teve mais 5 filhos (não conheci nenhum). Pois bem, entre uma diligência policialesca  e outra ele conheceu minha avó, uma desquitada sem filhos, e "pôs casa para ela". Minha avó teve com ele dois filhos: meu tio e minha mãe, que passaram a ser conhecidos nas vizinhanças gaúchas como "filhos das ervas", por serem ilegítimos. Minha avó e seus filhos não podiam frequentar clubes e bailes da sociedade civilizada pois o acesso lhes era barrado por ser minha avó uma mulher de "moral duvidosa". E isto nos anos 1940. Minha mãe cresceu, casou com um Assis, teve minha irmã e eu e se mandou para o Rio de Janeiro, "morar em Copacabana", o must da época. Minha vó, findo o caso com o delegado e com o próprio pai poeta morto tragicamente, foi para o Rio também. Meu avô, sempre ao lado da esposa legítima e quase cego por diabetes, acabaria morrendo atropelado. Já o meu pai era neto de alemães da antiga Pomerânia que, provavelmente fugindo da fome, vieram plantar batatas no sul do Brasil. A mãe de meu pai, Helena Dufke, casou com um brasileiro e, para fugirem da fome, resolveram falsificar dinheiro. Foram detidos, fotografados pela imprensa, mas acho que não ficaram na cadeia porque o resto do imbróglio meus pais não contaram. Do meu avô paterno sei disso e também que morreu dando uma gargalhada na mesa do almoço. Hoje penso: Será que foi o pai de minha mãe quem prendeu os pais de meu pai? Eles eram culpados ou inocentes úteis? Pouco importa, hoje estão todos mortos e vão virar número nos registros genealógicos que começaram lá longe na Barcelona de 1574 com os Parulla fugindo de alguma coisa para a Itália, e na Áustria de 1705 com os Dufke fugindo de outra coisa para a Alemanha. Eu mesma já estou pensando nessas colônias da Lua.


-
dizem que em alguma parte
parece que no Brasil
existe um homem feliz

-- Maiakovski, 1913.

17.1.03

De modo algum eu revelaria o meu nome a vocês. Por dois motivos. Primeiro, e menos importante, porque ele é muito idiota. Pior do que burros, meus pais eram preguiçosos. No dia em que nasci, eles ligaram a TV do quarto do hospital e escolheram para mim o nome do morto célebre do dia. Sorte que era mulher, eu gostaria ainda menos se me chamassem por aí de Louis de Funès. O segundo motivo é aquele que diz que uma mulher não deve vir a público confessar suas intimidades, o que estou prestes a fazer neste exato momento. E não deve fazê-lo muito menos por escrito, o que dá à confissão um caráter de revelação oficial, inapagável. Mesmo assim, estou decidida a fazer tudo por escrito, embora não seja escritora. O fato de ter uma idéia na cabeça e um laptop à mão não faz de mim uma escritora, embora tenha gente que não pense assim. Como quase todo mundo, sou uma Homo sapiens alfabetizada. E já me dou por satisfeita. Faço questão de manter o meu narcisismo em rédea curta e assim livro os outros do inconveniente de ter de me dar respostas positivas a tudo que faço. Não pensem que é fácil. Mais difícil é abrir mão das reservas e me expor completamente aqui. De que forma introduzir o assunto? É um tema mundano que poucos homens abordam, quase sempre em tom de piada, para disfarçar o constrangimento ou para agredir propositadamente ouvidos puritanos. Mulher então, nem se fala. Sim, porque eu nunca vi uma mulher dizer com todas as letras que peida. Ufa, pronto. Saiu. Consegui afinal. É isso. Totalmente despida das vaidades mais pessoais, eu confesso que peido. E não é pouco. Peido pela manhã, à tardinha e à noite. Peido sempre que me sinto compelida a peidar. Peido na intimidade do meu banheiro, em ambientes semi-abertos e ao ar livre. Peido sem preconceito de tempo e espaço. E como se meus flatos tivessem mais urgência do que eu em cumprir o seu próprio destino, eles me convocam nas horas e lugares mais absurdos só para pôr à prova a minha coragem de extravasá-los. Numa reunião de condomínio, no cinema, numa pool-party, segundos antes do orgasmo, durante um brainstorming, na decolagem do avião, dentro de elevadores, na cadeira do dentista, descendo o Pelourinho, num almoço de negócios, num jantar em família. A princípio eu os interpretava como puros sinais de nervosismo. Tensão acumulada. Estresse. Mas com o tempo fui percebendo que eu peidava sob a pressão de quaisquer circunstâncias. Favoráveis ou não. Peidava de alegria e peidava de tristeza. Tudo era motivo para peidar. Falando assim, posso estar dando a impressão de uma personalidade compulsiva e abjeta. Nojenta mesmo. Mas não. Nunca me encarei desta forma. Nunca ninguém me encarou desta forma, pelo menos até o momento em que escrevo estas confissões. E sabem por quê? Porque antes de tudo, sou uma flatuosa discreta, anônima. Aqueles que me cercam certamente já desfrutaram o odor de minhas entranhas, mas jamais souberam localizá-lo. E mesmo se soubessem, dariam a importância que dão à atmosfera de Cubatão. Isto é dizer, nenhuma. Representantes privilegiados de uma classe média em órbita, meus amigos só sabem distinguir os perfumes pelo preço. Para eles só o que é barato fede. E como eu sou relativamente bem-sucedida e bem relacionada, o que os torna doentiamente dependentes da minha proximidade, para eles eu sou sempre cheirosa. E sou mesmo. Ninguém pode negar. Pode-se conhecer uma pessoa pelo cheiro. E ainda hoje, apesar da globalização, pode-se conhecer a nacionalidade de uma pessoa pelo cheiro. Os húngaros cheiram a cebola. Os armênios cheiram a carne crua. Os gregos têm cheiro de alho e iogurte. Os portugueses cheiram a chouriço e pão-de-ló. E os belgas, a roupa suja. Já os meus cachorros têm cheiro de roupa recém-passada. E eu, antes que me perguntem, tenho cheiro de sol. Um sol tão agradável ao olfato que até me esqueço que o que me trouxe aqui foi um motivo tão torpe. E você? Tem cheiro de quê?

15.1.03

MEU CORPO CAIU ASSIM


BATENDO BATENDO


QUERENDO QUE O VENTO


SE ESPATIFASSE NO IMPERFEITO

Como vão o seu revólver, a sua Bíblia e seus comprimidos para dormir? Você ainda continua pulando das janelas com roupas caras?

-- Tom Waits, em "Who are you?"

"A geração beat foi só um nome que usei no original de On the road para descrever caras como Moriarty, que percorriam o país de carro, atrás de biscates, mulheres e farras. Mais tarde foi aproveitado por grupos de esquerda da Costa Oeste e ganhou um sentido de "rebelião beat" e "insurreição beat" e outras bobagens. Eles só queriam se agarrar a um movimento qualquer da juventude para atingir seus objetivos políticos e sociais. Eu não tive nada a ver com isso. Eu era um jogador de futebol, bolsista da universidade, marinheiro, guarda-freios e redator de sinopses... e Moriarty-Cassady era um cowboy de verdade no rancho de Dave Uhl, em New Raymer, Colorado... Que tipo de beatnik é este? (...) Conhecíamos milhares de poetas e pintores e músicos de jazz. Não havia uma "turma beat"... O que me diz de Scott Fitzgerald e sua "turma perdida", ou de Goethe e da "turma de Wilhelm Meister"? Esse assunto é muito chato. Me passa aquele copo. (...) Ginsberg começou a se interessar por política, pela esquerda... como Joyce, eu disse a mesma coisa que Joyce disse a Ezra Pound nos anos 20: "Não me amole com a política, a única coisa que me interessa é estilo." Além disso, eu estou cheio da nova vanguarda e do sensacionalismo em ascensão. Estou lendo Blaise Pascal e fazendo anotações sobre religião. Eu gosto de andar com não-intelectuais, se quiser chamá-los assim, em vez de ter minha cabeça como vítima ad infinitum do proselitismo. Hoje tenho uma vida caseira, com um pequeno porre de vez em quando em bares das redondezas."

-- Jack Kerouac, em entrevista à Paris Review, 1967.

13.1.03

Dizem que o alemão não é um idioma bom para se conversar porque precisamos esperar até a conclusão da frase para saber o verbo e por isso nunca podemos interromper alguém. Já o português é bom pro seu Creysson emplacar Vidia i Obria. Agora bestséliu!

12.1.03

Sou um sujeito cheio de recantos.
Os desvãos me constam.
Tem hora leio avencas.
Tem hora, Proust.
Ouço aves e beethovens.
Gosto de Bola-Sete e Charles Chaplin.
O dia vai morrer aberto em mim.

-- Manoel de Barros

10.1.03

Crônica da casa assassinada


Ao colocar as flores no seu colo, ela reabriu os olhos e vi então que já parecia inteiramente ausente deste mundo. Poderia repetir ainda os mesmos gestos dos vivos, pronunciar até palavras semelhantes -- mas a força vital já se despedia do seu corpo, e ela se achava nesta fronteira indevassável de onde os mortos espiam indiferentes a área por onde transitamos. Mesmo assim, por um esforço de sobrevivência, ou quem sabe por uma simples imposição do hábito, tomou as violetas nas mãos e levou-as devagar às narinas -- tal qual fazia nos tempos passados, com a diferença que não sorvia mais o perfume com a mesma sofreguidão, e seu gesto de agora era relaxado e mole. O braço descaiu e as violetas espalharam-se sobre a cama. "Não posso", ela disse. Também nada mais reconheci naquela voz -- era um produto mecânico e frio, um som emitido com dificuldade, audível ainda, mas sem consistência, com a flacidez morna do algodão. Não tive coragem para dizer coisa alguma e fiquei simplesmente ao seu lado, pedindo a Deus, com lábios que não tinham nenhum calor da fé, que me transmitisse um pouco daquele sofrimento. Advertida talvez por essa última consciência dos moribundos, que os faz bruscamente destacar uma minúcia do amontoado em que as formas se aglutinam, fitou-me. Depois, com um lampejo de compreensão, procurou ocultar o que se passava com ela, e voltou a cabeça para o lado. Assim ficamos, perto e distantes, tendo entre nós dois a poderosa presença que nos dividia. Eu jurara que seria sensato e que forçaria a dor a calar-se no fundo do meu coração, não porque me importasse sua repercussão aos olhos alheios, mas unicamente a fim de evitar a criação dessa tensa atmosfera de adeus que circula entre os agonizantes. Vendo-a porém já meio submersa na noite, e tão apartada de mim como se sua presença fosse apenas memória, sentia galopar em meu peito o ritmo de um desespero, de uma raiva que não se continha mais. E por uma bizarra coincidência -- ou quem sabe precisamente pelo inelutável da hora -- eu adivinhava que em nossas memórias subiam apenas imagens do tempo esgotado.

-- Lúcio Cardoso.

9.1.03

"foi quando a boca do céu se partiu em pedaços -- e as carcaças de lobo não foram poucas. em algumas esquinas se fez uma grande festa, despropositada, onde se gritavam frases incompreensíveis, desarticuladas, em alta voz.

disseram-lhe então, mesmo que em névoas sonhadas: esse dado é tua vida. veja como o lançamos, descuidados, em poças de merda, em pântanos sujos -- e tenta ver, se quiser, que possível resultado se formou lá no fundo, se fizer de fato alguma questão de ver seja lá o que for."

Este texto é só um fragmento dos "Cantos Esquizofrênicos" que o misterioso Nel, ou p13571113, leitor-poeta/poeta-leitor deste blog, enviou-me gentilmente, a meu pedido. Desnecessário explicar mais. Nel é um poeta em silêncio. Era.

"Uma vida contemplada em bandeiras cinzentas.
-- seus olhos: quando foi que se tornaram tão inúteis?
sua própria vida. do que lhe restava,
(era possível esperar ainda) esperava não mais
que a caminhada macia, a contemplação cega.
-- deixa os dias passarem, deixa que passem
os dias...
os olhos de meu pai: digo que faz bem em se mudar pra praia.
os olhos de meu pai: e o medo de que não sejam espelhos."

8.1.03

A chuva, outra vez sobre as oliveiras.
Não sei por que voltou esta tarde
Se minha mãe já se foi embora,
Já não vem à varanda para a ver cair,
Já não levanta os olhos da costura
para perguntar:Ouves?
Ouço, mãe, é outra vez a chuva,
A chuva sobre o teu rosto.

-- Eugenio de Andrade, "Casa na Chuva".

Sobre a cômoda em Buenos Aires
o espelho reflete o vidro de água de colônia
Avant la Fête (antes,
muito antes da festa), reflete
o vidro de Supradyn, um tubo
de esparadrapo,
a parede em frente, uma parte do teto.
Não me reflete a mim
deitado fora do ângulo como um objeto que respira.
Os barulhos da rua
não penetram este universo de coisas silenciosas.
Nos quartos vazios
na sala vazia na cozinha
vazia
os objetos (que não se amam),
uns de costas para os outros.

-- Ferreira Gullar, "Ao Rés-do chão".

6.1.03

Vale-tudo literário



Como eu previa, mais cedo do que se imagina as editoras estarão lançando coletâneas de e-mails de escritores famosos. Para quem se choca com a invasão de privacidade de editores que publicam post-mortem cartas íntimas e esboços de textos de qualidade duvidosa sem a prévia autorização de seus autores, será um prato cheio. Numa época em que as bienais de artes plásticas expõem como ready-made cuecas e tênis sujos, não sei por que tanto alarde. Eu mesma já estou cá organizando minhas agendas velhas, meus recados de secretária eletrônica, meus postais, minhas cartas amarelecidas da era pré-internet, meus telegramas, minhas receitas culinárias, contas de supermercado, declarações de imposto de renda, bilhetes domésticos, post-it de geladeira, promissórias, listas de afazeres profissionais, receituários médicos, radiografias, recibos em geral, notas fiscais, contas de luz e telefone, minha coleção de bulas de remédio, minhas contas penduradas no boteco da esquina, meus vales-transporte. E por que não? Publique-se tudo! Ora, pinóias, afinal minha vidinha também é arte. Waaal.

Poetas ou scramblers?



Poetas são scramblers desde as primeiras décadas do séc.20 quando o dadaísta Tristan Tzara deu a sua receita para se fazer um poema dadaísta:

"Pegue um jornal.
Pegue a tesoura.
Escolha no jornal um artigo do tamanho que você deseja dar a seu poema.
Recorte o artigo.
Recorte em seguida com atenção algumas palavras que formam esse artigo e meta-as num saco.
Agite suavemente.
Tire em seguida cada pedaço um após o outro.
Copie conscienciosamente na ordem em que elas são tiradas do saco.
O poema se parecerá com você.
E ei-lo um escritor infinitamente original e de uma sensibilidade graciosa, ainda que incompreendido do público."

Entre dadaístas e "tribalistas" a diferença talvez esteja no espírito de época, ou no espírito dos métodos. Augusto de Campos deve ter sorteado no seu saquinho onomatopaico os significantes que julgou mais apropriados para confeccionar o seu poema fonético "Hiroshima, meu amor":

"Berr...bum, bumbum, bum...
Ssi...bum, papapa bum, bumm
Zazzau...Dum, bum, bumbumbum
Prä, prä, prä... râ, äh-äh, aa...
Haho!..."



3.1.03

Eu não sou eu nem sou o outro,
Sou qualquer coisa de intermédio:
Pilar da ponte de tédio
Que vai de mim para o Outro.

-- Mário de Sá-Carneiro.

2.1.03

Is it the sea you hear in me,
Its dissatisfactions?
Or the voice of nothing, that was your madness?

-- Sylvia Plath, fragmento de "Elm".

Poesia - disciplina tirânica


"Poesia é uma disciplina tirânica. Você tem de ir tão longe, tão rápido, em tão pouco tempo, que nem sempre é possível dar conta do periférico. Num romance talvez eu possa conseguir mais da vida, mas num poema eu consigo uma vida mais intensa." (...) "Não estou falando de poemas épicos. Falo do poema curto, não oficial. Como descrevê-lo? Uma porta se abre, uma porta se fecha. Entre os dois momentos você tem um golpe de olhar: um jardim, uma pessoa, uma tempestade, uma libélula, um coração, uma cidade... O poeta se torna um especialista em fazer as malas."

--- Sylvia Plath.