28.8.06

Agradecimentos


Obrigada, Aly. Minha primeira máquina de escrever foi uma Hermes Baby portátil, herança de minha irmã. Acho que era mais fácil escrever ali. Só para mim e uma garrafa de Domecq ao lado. O resto era silêncio. Agora há um carro de som em cada esquina. Funk ou propaganda eleitoral. Assusta as vacas. Minas é bela, mas fogueteira, genuflexória e politiqueira. Não sei se vou suportar por mais tempo. Saudade de um Rio que não há mais.


a novidade do dia
é que alguém morreu
ou está para morrer
daqui a pouco

no lento encontro das torradas
quebradas com a geléia
amostra grátis
de amora vencida



Obrigada, Bruna, pelos versos terminais aí de cima. Que leio ao lado de Caetés, do Graciliano, onde o homem lá pelas tantas diz assim: "Eu seria um marido exemplar e Marta uma companheira deliciosa, dessas fabricadas por poetas solteiros." Enquanto isso aguardo o livro da Beber, A fila sem fim dos demônios descontentes, até o final do ano.
E sobre a moda dos espíritos maldesencarnados que andam assediando a teledramaturgia global, obrigada, Ólabauti, pela conclusão de gênio: "Não basta morrer, tem que participar."
Obrigada, Angélica, pela dica de um excelente blog de poetas, o Escolhas Afectivas. A Angélica é poeta também e uns poemas dela saíram na última Inimigo Rumor. Seu livro Rilke Shake, ela me conta num furo de reportagem, está na boca do forno para publicação agora em novembro. Vamos conferir, baby. Confiram também o livro do blogger André de Leones: Hoje está um dia morto. Tudo nas melhores livrarias do ramo. Fal Vitiello, uma de minhas parceiras no Blog de Papel, já lançou o segundo livro solo: O nome da cousa. Falando em Blog de papel, a poeta Ane Aguirre convida para o lançamento da antologia Contos ao mar em setembro, da qual participa também o Sergio Fonseca. E o Bicarato manda avisar que quem não leu o Grande sertão do mestre Guimarães Rosa, é só baixá-lo aqui. Corre que é só até dezembro.

Recado: já está nas livrarias o último livro de um dos maiores escritores americanos -- Lunar Park, do Bret Easton Ellis. O melhor livro que ele escreveu após o sucesso do Psicopata americano. Tive a honra de ser a co-tradutora. A imprensa parece que fez vista grossa ao livro.

Agradeço ao povo gaúcho e à revista de cultura Aplauso pela simpática matéria ao meu respeito -- "Dura, mas sem perder a ternura" -- indicando a leitura do meu livro, Não feche seus olhos esta noite. A matéria está na seção "Spot", pág. 29, do último número (77) da revista, não saiu on-line.


E de Portugal soube do lançamento da revista on-line Minguante. Aberta à participação do leitor, especializada em micronarrativas. Vi um texto lá do Henrique Fialho que diz assim: Uma bicicleta pergunta-me as horas. Respondo-lhe que não tenho rodas. É o vento quem me guia, a luz me orienta, as sombras o que me move. A bicicleta olha-me indignada e comenta: "mas quem raio és tu que nem horas tem?"
E obrigada, Angela, pela Mona perversa polimorfa. E por falar em símbolos, se Plutão não é mais planeta, o que será do Zodíaco? Do mapa astral? "Vai-se o Zodíaco de ouro/sobre a planura espectral...", diz assim um poeminha do Nicolai Zabolótzki.



Obrigada a todos, porque alguém tem que tocar este blog.

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25.8.06




é tão tarde, a manhã já vem
todos dormem, a noite também
só eu velo por você, meu bem
dorme anjo, o boi pega neném
lá no céu deixam de cantar
os anjinhos foram se deitar
mamãezinha precisa descansar
dorme anjo, papai vai lhe ninar




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Rui Barbosa




Mentira de tudo, em tudo e por tudo. Mentira na terra, no ar, no céu, onde, segundo o Padre Vieira, o próprio céu mentia no Maranhão, e direis que hoje mente ao Brasil inteiro. Mentira nos protestos. Mentira nas promessas. Mentira nos programas. Mentira nos projetos. Mentira nos progressos. Mentira nas reformas. Mentira nas convicções. Mentira nas transmutações. Mentira nas soluções. Mentira nos homens, nos atos e nas coisas. Mentira no rosto, na voz, na postura, no gesto, na palavra, na escrita. Mentira nos partidos, nas coligações e nos blocos. Mentira dos caudilhos aos seus apaniguados, mentira dos seus apaniguados à Nação. Mentira nas instituições. Mentira nas eleições. Mentira nas apurações. Mentira nas mensagens. Mentira nos relatórios. Mentira nos inquéritos. Mentira nos concursos. Mentira nas embaixadas. Mentira nas candidaturas. Mentira nas garantias. Mentira nas responsabilidades. Mentira nos desmentidos. A mentira geral. O monopólio da mentira.



Rui Barbosa, em discurso de campanha presidencial na Associação Comercial do Rio de Janeiro, 1919.

23.8.06

Oswald de Andrade



infância

O camisolão
O jarro
O passarinho
O oceano
A visita na casa que a gente sentava no sofá


adolescência

Aquele amor
nem me fale


maturidade

O Sr. e a Sra. Amadeu
Participam a V. Exa.
O feliz nascimento
De sua filha
Gilberta


velhice

O netinho jogou os óculos
Na latrina




Oswald de Andrade, "As Quatro Gares", 1927.





17.8.06



Eis como o cantador paraibano Manoel Camilo explica o que é a poesia, o que é ser poeta, numa genial trova escrita e publicada em 1958 no folheto "O Filho de Garcia":


Deus Grande Ser Incriado
Com os seus dons multiformes
Torna-se imaginário
Nos seus mistérios triformes
Simbolicamente fala
Aos gênios "aculeiformes".

E estes "aculeiformes"
Têm a visão "duplicia"
Que abstraticamente
Concretizando procria
Imagens compositórias
Eis o que é poesia.

Ser poeta é ser geníaco
Sensibilante ao ouvir
As magnificências; e
Unificar concretir
Na visão imaginária
Formar, criar, colorir.
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Para saber mais dos cordelistas, ver aqui.
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14.8.06

A filha de Maiakovski

Uma flauta-vértebra?







Alguém saberia dizer quem é esta simpática senhora da foto? Pois ela é nada mais nada menos do que a filha americana do poeta Maiakovski. A única filha. Seu nome é Helen Patricia Jones Thompson, filha do poeta russo com a emigrada russa Ellie Jones. Maiakovski conheceu Ellie por ocasião de uma palestra que proferiu em Nova York em 1925. Apresentados por David Birliuk, famoso pintor cubista amigo de Maiakovski e da família de Ellie, os dois tiveram um romance-relâmpago e a filha nasceria um ano depois, quando o poeta já havia retornado para a Rússia e para os braços de Lília Brik, sua eterna paixão. Ellie Jones depois se casou e a filha foi criada pelo padrasto, daí o sobrenome Thompson. Durante décadas a existência dessa filha foi mantida em segredo pela mãe e o próprio Maiacovski, que temia uma aproximação de Lília Brik, sua amante, editora e suposta agente da NKVD (futura KGB). Patricia cresceu sabendo que era filha do poeta mas não podia comentar com ninguém, tornou-se professora de filosofia numa universidade nova-iorquina, publicou vários livros e só em 1991, poucos anos após a morte da mãe e do padrasto, foi à Rússia revelar a sua identidade. Lília Brik, apesar de tudo, sabia da existência da menina mas fez o possível para apagar as evidências disso: após o suicídio do poeta em 1930, jogou fora a única foto que ele tinha da filha, aos 3 anos, e que mantinha em sua escrivaninha. Lília Brik foi a única herdeira do legado de Maiakovski, tomou posse dos direitos autorais e dos quadros de pintores famosos que o poeta ganhara de presente durante a vida, seus únicos bens, pois Maiakovski sempre viveu na penúria. A mãe e as irmãs do poeta ficaram a ver navios. Patricia Thompson, que tem um filho chamado Rodger, não reivindica o legado de Maiakovski e não acredita que o pai tenha se suicidado. A morte do poeta na verdade se deu em circunstâncias ainda abertas a muita especulação. Hoje Patricia Thompson também se chama Yelena Vladimirovna Maiakovskaia. Embora haja evidências da filiação de Patricia, creio que somente um exame de DNA poria um ponto final a dúvidas. Quem a conheceu disse que a semelhança é impressionante. Compare as fotos para ter uma idéia. Leia aqui uma entrevista exclusiva de Patricia falando a respeito de Maiakovski e do imbróglio com mais detalhes.





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9.8.06





que pode uma boca

esperar

senão outra boca?





(versos de eugénio de andrade)


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