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28.7.17

Raymond Carver


Para Tess

Lá fora, no Estreito, a água está espumando,
como se diz por aqui. Está muito agitada, e me sinto feliz
por não estar lá fora. Feliz porque pesquei o dia inteiro
em Morse Creek, lançando uma isca falsa
para frente e para trás. Não peguei nada. Nenhuma
mordida, sequer. Mas tudo bem. Tudo ótimo!
Eu carregava o canivete do seu pai, e por algum tempo
fui seguido por um cão que o dono chamava de Dixie.
Por momentos me senti tão feliz que precisei parar
de pescar. Uma hora deitei na margem de olhos fechados,
escutando o barulho que a água fazia,
e o vento nas copas das árvores. O mesmo vento
que sopra no Estreito, mas também um vento diferente.
Por um momento, até imaginei que eu tinha morrido – 
e não me importei, ao menos por alguns minutos,
até que realmente mergulhei no: Morto.
Enquanto deitava ali de olhos fechados,
logo depois de ter imaginado como seria
se de fato nunca me levantasse outra vez, pensei em você.
Então abri os olhos e me ergui depressa,
e voltei a ficar feliz.
Eu sou grato a você, sabe? Eu queria te dizer.

(trad. Cide Piquet)


26.12.03

1 poema de Raymond Carver

Medo


Medo de ver o carro da polícia estacionar na porta de casa.
Medo de pegar no sono à noite.
Medo de não pegar no sono.
Medo do passado que volta.
Medo do presente que escapa.
Medo do telefone que toca de madrugada.
Medo de tempestades elétricas.
Medo da faxineira que tem uma verruga na bochecha!
Medo dos cachorros que não mordem.
Medo da ansiedade!
Medo de ter que identificar o corpo de um amigo morto.
Medo de não ter dinheiro.
Medo de ter demais, embora ninguém acredite.
Medo de perfis psicológicos.
Medo de me atrasar e medo de chegar antes dos outros.
Medo da caligrafia dos meus filhos em envelopes.
Medo de que eles morram antes de mim e da culpa que sentiria.
Medo de viver com minha mãe quando ela e eu estivermos velhos.
Medo da confusão.
Medo de que o dia de hoje termine num tom melancólico.
Medo de acordar e descobrir que você foi embora.
Medo de não amar e medo de não amar o bastante.
Medo de que o que eu amo seja mortal àqueles que amo.
Medo da morte.
Medo de viver demais.
Medo da morte.
Eu já disse isso.


-- Raymond Carver