27.9.06




o passado está acabando rápido demais
7 reais o papelote
trepak cospe do último andar do prédio
e esfrega a gengiva
trepak acha que eu não existo
não vou desapontá-lo
seria um crime de lesa-majestade
amar demais esgota os recursos hídricos
de nosso teatrinho eletrônico
ele desvia a câmera e seus olhos consolam
os mil lagos da dinamarca



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23.9.06

Paco Urondo

si ustedes lo permiten, prefiero seguir viviendo






Bar "La Calesita"


Es el fondo de un bar. Es un lugar parecido a una
cueva donde uno se sienta, bebe y ve pasar a
hombres enrarecidos por distintos problemas. Es una
gran linterna mágica.

Es una gruta retirada del mundo que cobija a sus
criaturas. Uno se siente allí ferozmente feliz.

Acaba de aparecer el primer hombre, apenas ha
aprendido a caminar, aún no sabe defenderse.

El hombre sonríe y llora y sigue la fiesta.



Cárcel del pueblo


ciudadano de la clase 39
factor rh negativo
comunica
a la división de
investigaciones policiales
antidemocráticas
haber descubierto una cárcel del
pueblo
esta ubicada cerca de mi casa
es la villa
miseria
a la que da su espalda
la manufacturera
algodonera
argentina
sociedad anónima.



Breves


una mujer
una rama
y en el otoño algo más
asomado al flexible
horizonte
algo insignificante
sustantivo como la vida
en acción como los hombres
o el río



-- Paco Urondo


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18.9.06

estética dá vontade de comer


me muero por guarânias paraguaias
versos chacos de amor e morte
corpos afundados até a alma
saias descendo de cavalos
possíveis para as massas
possíveis para as mamas
gertrude stein é manha
galinha preta de encruzilhada
descarnada
sophisticated
estética carrancuda
dos zé coiós de rayban
ecstasy fossilizado
porque se o rosa é maior do que a rosa
asmática de repetição
pra quê manadas de bishops no curral do bom-letrismo
macacas do aibici, a poesia não é de ninguém
só armadilha de passarinho
poetas enterrados vivos, rebolem-se
mastiguem vidro
que essa anemia tem cura

no pound final.


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16.9.06



divinópolis - interior - preparando almoço. não estamos sós.
luzia:

" Desejo, como quem sente fome ou sede, um caminho de areia margeado de boninas, onde só cabem a bicicleta e seu dono. Desejo, como uma funda saudade de homem ficado órfão pequenino, um regaço e o acalanto, a amorosa tenaz de uns dedos para um forte carinho em minha nuca. Brotam os matinhos depois da chuva, brotam os desejos do corpo. Na alma, o querer de um mundo tão pequeno, como o que tem nas mãos o Menino Jesus de Praga."

ou:

"Ao entardecer no mato, a casa entre bananeiras, pés de manjericão e cravo-santo, aparece dourada. Dentro dela, agachados, na porta da rua, sentados no fogão, ou aí mesmo, rápidos como se fossem ao Êxodo, comem feijão com arroz, taioba, ora-pro-nobis, muitas vezes abóbora. Depois, café na canequinha e pito. O que um homem precisa pra falar, entre enxada e sono: Louvado seja Deus!"

cada poeta tem sua bíblia. me passa a asinha de frango.


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15.9.06




sexta-feira: 20:22

ouvindo no carro Rêverie de Debussy, o Bussyk, meu compositor favorito depois de Satie. uma surpresa. ah, Tom Jobim, você fez igualzinho no piano o seu primeiro verso: "Olha, está chovendo na roseira..." reparem só.



21:51 segunda parada

well, parece que descobri a pólvora, hum? Tom Jobim faz uma "citação" de Debussy. só eu não tinha percebido. a 120 por hora pelas estradas esburacadas de Minas, minha memória é névoa. estou no laptop puglado sobre a mesa encardida do bar Duas Cruzes. rumo a Divinópolis. depois de passar dias olhando os pombos se coçarem no peitoril de minha janela em JF, decidi ser stalker de adélia prado. o que fazer em Minas se eu não acredito em Deus? buscar adélia prado. assediar os seus versos. lentas tomadas em sépia. dou um gole na cerveja. polícia militar rodoviária a 500 metros, leio na placa. está escuro. o bar já vai fechar. penso nos versos que fiz esta semana e enviei para o Valter:

Verlaine era verde.
Às três da manhã sua boca verde
cochichava no ouvido de Rimbaud:
"Venez, chère grande âme,
on vous appelle,
on vous attend!"
Mas Rimbaud era daltônico
e se importava com outras coisas.
Perdeu-se n'África e nunca mais escreveu.

Às vezes a poesia dá um nojo.


eu não tenho nojo - angustura - dos versos de adélia. luzia, estou indo para Divinópolis, para a rua Ceará. acelerada, pneumática. se ela não me receber, vou me instalar numa carrocinha de cachorro-quente na frente de sua casa. será que a poeta tem balanços na varanda? as noites seriam mais curtas em divinópolis? antes que o dia amanheça estarei chegando em BH. dali para divinópolis é chão. esqueço das horas. ouço bois que não precisam da noite para mugir. minha boca tem gosto de prego. e do banco do carona vazio. o Duas Cruzes tem um jardim de gerânios secos no fundo. duas sepulturas. uma TV ligada na rede minas. minha orelha coça e descubro que é carrapato. a estiagem traz dessas coisas. estou seca. previsão de chuvas para o fim de semana. adélia não vai me deixar ao relento. ela deve ser educada. vai me receber com café e biscoitos. bolo de fubá. talvez me mostre a igreja da praça. um poema inédito. uma rua de terra. um quarto com crucifixo na parede. uma ampla cozinha onde se conversa da vida alheia enquanto se come à farta. isto é Minas. um silêncio na alma. meus pombos estão sozinhos no décimo quarto andar. eu só preciso agora pagar a conta e pisar no acelerador.


23:19

consulto o mapa pela décima vez. tenho de seguir por congonhas para chegar a divinópolis. quem foi o filho da puta que me falou de BH? sinto uns tremores só de pensar no fantasma de aleijadinho. dizem que ele assombra as estradas. estou parada num trevo. consigo a conexão com dificuldade. a bateria não vai suportar. não sei a que horas chegarei em divinópolis. só sei que ela estará lá. é mais perto do que eu imaginava. poucos carros passam por mim a esta hora. todos me ultrapassando nas curvas pelo meio da pista. muitas carretas. o que é pior. espero chegar viva para adélia. não faz diferença. luzia nem sabe que existo.

23: 58

outra parada obrigatória. acidente na estrada. duas ambulâncias. um corpo de bombeiros. uma multidão em volta. não quero olhar as ferragens. teclo no banco do carona. cochicham dois morreram. mulher de mão seca, não sei o que dizer aqui. gostaria de escrever torrencialmente. mas minha vizinha do coração disparado emudece. às vezes penso que adélia é uma miragem. vou chegar na hora do catecismo, luzia.

sábado 00:39

london motel. beira de estrada. papel de parede verde. ventilador de teto. apartamento simples, 35 reais. café da manhã. 40 watts. janelas sem cortinas. chuveiro elétrico. o melhor da região. pelo menos o mais visível. sem sabonete. bíblia na cabeceira. faltando a página 109. apago o cigarro. boa noite.

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2.9.06

1 poema de Cesário Verde



Contrariedades


Eu hoje estou cruel, frenético, exigente;
Nem posso tolerar os livros mais bizarros.
Incrível! Já fumei três maços de cigarros
Consecutivamente.

Dói-me a cabeça. Abafo uns desesperos mudos:
Tanta depravação nos usos, nos costumes!
Amo, insensatamente, os ácidos, os gumes
E os ângulos agudos.

Sentei-me à secretaria. Ali defronte mora
Uma infeliz, sem peito, os dois pulmões doentes;
Sofre de faltas de ar, morreram-lhe os parentes
E engoma para fora.

Pobre esqueleto branco entre as nevadas roupas!
Tão lívida! O doutor deixou-a. Mortifica.
Lidando sempre! E deve a conta na botica!
Mal ganha para sopas...

O obstáculo estimula, torna-nos perversos;
Agora sinto-me eu cheio de raivas frias,
Por causa dum jornal me rejeitar, há dias,
Um folhetim de versos.

Que mau humor! Rasguei uma epopéia morta
No fundo da gaveta. O que produz o estudo?
Mais duma redação, das que elogiam tudo,
Me tem fechado a porta.

A crítica segundo o método de Taine
Ignoram-na. Juntei numa fogueira imensa
Muitíssimos papéis inéditos. A imprensa
Vale um desdém solene.

Com raras exceções merece-me o epigrama.
Deu meia-noite; e em paz pela calçada abaixo,
Soluça um sol-e-dó. Chuvisca. O populacho
Diverte-se na lama.

Eu nunca dediquei poemas às fortunas,
Mas sim, por deferência, a amigos ou a artistas.
Independente! Só por isso os jornalistas
Me negam as colunas.

Receiam que o assinante ingênuo os abandone,
Se forem publicar tais coisas, tais autores.
Arte? Não lhes convém, visto que os seus leitores
Deliram por Zaccone.

Um prosador qualquer desfruta fama honrosa,
Obtém dinheiro, arranja a sua coterie,
E a mim, não há questão que mais me contrarie
Do que escrever em prosa.

A adulação repugna aos sentimentos finos;
Eu raramente falo aos nossos literatos,
E apuro-me em lançar originais e exatos,
Os meus alexandrinos...

E a tísica? Fechada, e com o ferro aceso!
Ignora que a asfixia a combustão das brasas,
Não foge do estendal que lhe umedece as casas,
E fina-se ao desprezo!

Mantém-se a chá e pão! Antes entrar na cova.
Esvai-se; e todavia, à tarde, fracamente,
Oiço-a cantarolar uma canção plangente
Duma opereta nova!

Perfeitamente. Vou findar sem azedume.
Quem sabe se depois, eu rico e noutros climas,
Conseguirei reler essas antigas rimas,
Impressas em volume?

Nas letras eu conheço um campo de manobras;
Emprega-se a réclame, a intriga, o anúncio, a blague,
E esta poesia pede um editor que pague
Todas as minhas obras...

E estou melhor; passou-me a cólera. E a vizinha?
A pobre engomadeira ir-se-á deitar sem ceia?
Vejo-lhe luz no quarto. Inda trabalha. É feia...
Que mundo! Coitadinha!




Cesário Verde