Mostrando postagens com marcador Mário Faustino. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Mário Faustino. Mostrar todas as postagens

10.5.08

Mário Faustino



Deixo a quem quer que seja
A quem queira, a quem possa, a quem sirva, a quem goste,
A tarefa de construir um mundo novo.
Minha obrigação, o mínimo
Que inda posso fazer
É ajudar acabar com este monturo
Onde inadvertidamente me jogou a
Senhora minha mãe.
Há múltiplas maneiras de ajudar a acabar
Com o monturo
(O monturo, aliás, não tem nada de grande,
é até fácil de arrasar.)
Há uma que particularmente me apeteceu.
Uma delas é arrebentar-lhe ostensivamente
com as regras do jogo.
A outra é desenvolver até o requinte
as referidas regras do jogo
E obedecer, também até o requinte,
as ditas regras do jogo.
Outra maneira é aumentar o monturo fazendo filhos
Educando-os e ensinando-os higienicamente
a fazer outros filhos.
Outra maneira é ir à missa todos os domingos
e contribuir para as obras da paróquia.
Outra maneira é lançar mais um jornal,
Mais um partido, mais um grupo de estudos,
Mas uma conspiração militar ou civil



Mário Faustino

--

12.10.04

A q u i
J a z



aquele cujo nome traçaram os vagalumes
cujo perfil formaram as pétalas caídas
antes do dia
e do vento



Mário Faustino, 1948


6.1.04

Mário Faustino: o poeta

Balada
(em memória de um poeta suicida)


Não conseguiu firmar o nobre pacto
Entre o cosmos sangrento e a alma pura.
Porém, não se dobrou perante o facto
Da vitória do caos sobre a vontade
Augusta de ordenar a criatura
Ao menos: luz ao sul da tempestade.
Gladiador defunto mas intacto
(Tanta violência, mas tanta ternura)

Jogou-se contra um mar de sofrimentos
Não para pôr-lhes fim, Hamlet, e sim
Para afirmar-se além de seus tormentos
De monstros cegos contra um só delfim,
Frágil porém vidente, morto ao som
De vagas de verdade e de loucura.
Bateu-se delicado e fino, com
Tanta violência, mas tanta ternura!

Cruel foi teu triunfo, torpe mar.
Celebrara-te tanto, te adorava
Do fundo atroz à superfície, altar
De seus deuses solares -- tanto amava
Teu dorso cavalgado de tortura!
Com que fervor enfim te penetrou
No mergulho fatal com que mostrou
Tanta violência, mas tanta ternura!

Envoi

Senhor, que perdão tem o meu amigo
Por tão clara aventura, mas tão dura?
Não está mais comigo. Nem contigo:
Tanta violência. Mas tanta ternura.