25.9.05



Gosto de bares assim, logo que abrem para a noite. Quando o ar em seu interior ainda está fresco e limpo, tudo brilha e o barman dá uma última olhada em si mesmo no espelho, para ver se a gravata está no lugar e se o cabelo está bem penteado. Gosto das garrafas limpas no fundo do bar e dos belos copos brilhando, dessa expectativa toda. Gosto de ver o barman misturar o primeiro drinque da tarde e colocá-lo no copo com canudo e gelo e um pequeno guardanapo de papel dobrado ao lado. Gosto de apreciar isso tudo bem devagar. O primeiro e tranqüilo drinque da tarde num bar tranqüilo -- é ótimo... Álcool é como o amor. O primeiro beijo é mágico, o segundo é íntimo, o terceiro, mera rotina. Depois disso, tira-se a roupa da garota.



Raymond Chandler, em O longo adeus, 1953.


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23.9.05

É sempre o mesmo cachorro velho com uma coleira nova





"A Inglaterra daria boas-vindas e apoiaria um Hitler que oferecesse paz e tolerância."


Winston Churchill, o baluarte da democracia ocidental, em ensaio escrito em 1939 mas que viria à luz somente nos anos 60 (New York Times, 12-12-1965). A frase-título do post é de um operário catalão anarquista a respeito do governo da República durante a guerra civil espanhola.


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21.9.05

Dorothy Parker




Uma rosa perfeita


Dele só ganhei até hoje uma flor
E tão terna, com um coração à espreita
Pura, púrpura, tendo do orvalho o odor
Uma rosa perfeita.

Já conheço a linguagem do buquê
"Nestas frágeis folhas, meu coração se estreita"
E imagino perfeitamente em quê:
Numa rosa perfeita.

Por que é que nunca me dão
uma limusine perfeita, acaso você suspeita?
Ah, não, o meu destino é ganhar sempre
Uma rosa perfeita.



Dorothy Parker


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16.9.05




Projecto de Sucessão


Continuar aos saltos até ultrapassar a Lua
continuar deitado até se destruir a cama
permanecer de pé até a polícia vir
permanecer sentado até que o pai morra.

Arrancar os cabelos e não morrer numa rua solitária
amar continuamente a posição vertical
e continuamente fazer ângulos rectos

Gritar da janela até que a vizinha ponhas as mamas de fora
pôr-se nu em casa até a escultora dar o sexo
fazer gestos no café até espantar a clientela
pregar sustos nas esquinas até que uma velhinha caia
contar histórias obscenas uma noite em família
narrar um crime perfeito a um adolescente loiro
beber um copo de leite e misturar-lhe nitroglicerina
deixar de fumar um cigarro só até meio
Abrirem-se covas e esquecerem-se os dias
beber-se por um copo de oiro e sonharem-se Índias.



António Maria Lisboa

imagem: Laurent Askienazy


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14.9.05




A posse do silêncio


Não, não te assustes! Eu não quero mais este reino dos céus nem um milímetro por século. Num dia tão cheio de sol, hoje estou de pé diante do teu susto. Sim, sou eu mesma, vê? Sei que a ti pouco importa que não seja eu propriamente dita, mas a que convencionei chamar de eu. E estou aqui agora nesta página tão dentro dela como um desenho há trezentos mil anos numa caverna. Escuta sem susto e sem sofrimento: este meu reino também é do teu mundo. Não é a via-láctea, ou o paraíso perdido. É o nada em cada um de nós, fluido e constante. O grande vazio de nós é o meu lugar de existir, e quando atravessares minha escuridão, te encontrarás do outro lado contigo. Ah, não me descompreendas, não estou tirando nada de ti. Se venho aqui, é porque estou querendo que eu reviva da parte humana mais difícil: que eu viva do germe do amor neutro. Não, não te assustes como estou assustada: não pode ser ruim ver a vida no seu plasma. Espera, espera que eu ainda continue um pouco. Estou falando da morte? não, da vida. Não é um estado de felicidade, é um estado de contato. Tenho avidez pelo mundo, mas ao mesmo tempo não preciso de nada. Não preciso sequer que uma árvore exista. Eu sei agora de um modo que prescinde de tudo, que prescinde de mim. Eu sei agora da perda de tudo o que se possa perder e, ainda assim, ser. Mas volto com as mãos vazias, volto com o indizível.



Clarice Lispector, em psicografia não autorizada, 2005.


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9.9.05

Paulo Coelho: uma leitura acadêmica








Nunca é demais lembrar a realidade do texto como coisa de palavras, onde identidade e valor se medem pela fluência de seus próprios materiais icônicos. Com isto em mente, Roman Iákobson sustentou a tese de que, na prosa, há uma inclinação natural para a metonímia e, na poesia, para a metáfora. No entanto, o que se observa na obra-invenção de Paulo Coelho é a transvaloração desta dupla polaridade, a saber, prosa/poesia e metonímia/metáfora.

A obra coelhiana transfigura, de forma irreconhecivelmente original, os dois universos de representação. Ao manipular livremente os pretextos sígnicos como se os transformasse em transparências, opacidades, Coelho des-hierarquiza o ritual/valor simbólico das palavras, atribuindo-lhes uma nova configuração numa hierarquia já agora transubstancializada dos caracteres físicos, articulando assim os novos signos-transparências numa espécie de descontexto em que falarão de tudo, menos do universo que o autor-leitor-autor vê a sua volta. Na recusa ao jogo fácil da poesia-dicionário e da prosa factual, Coelho implode o arame farpado das categorizações da literatura programática que se fez até agora para reinstaurar sua palavra liquidificada, transluzente e desritualizada no terreno livre, opaco e universal da pluri/nanossignificância, reinscrevendo assim o corpus literário no plano que lhe é de direito: um turbilhonante amálgama individuado de significados sem significado e de significantes des-significantizados.

Assim sendo, não seria hiperbólico afirmar que James Joyce e Guimarães Rosa têm em Paulo Coelho um herdeiro à altura, não como um discípulo do ABC poundiano, que tanto agrada às elites acadêmicas e à crítica mambembe de nossos resenhistas literários, mas enquanto a aurora de um novo paideuma: o XYZ da literatura.


7.9.05



mas quando tu reapareces
sob o hemisfério estrelado
ó brasil
meu coração feito de pedaços
se unifica
e proclama
a independência das lágrimas




-- versos de Oswald de Andrade



1.9.05

Katrina Blues




Dizem que a água cobriu New Orleans. Já não posso ver daqui a Nouvelle Orleans do Garden District, Niuorlins do French Quarter, da Bourbon Street, do French Market. Já não posso ver ma baby. A luz da noite não vem dos bares mas das lanternas de resgate. A cidade inteira transformada num imenso Voodoo Museum. Os gritos não vêm do Mardigras. A alegria acabou. Meu copo vazio encheu-se de água suja. Equipes mortuárias identificam corpos pelas ruas, mas não me viram. Helicópteros feito aves agourentas sobrevoando sobrados históricos e seus balcões de ferro, onde sempre apoiei meu braço cansado. Fats Domino pode estar pendurado num telhado, o velho safado. Só pode estar. Irão achá-lo, espero assim. Não ia dar essa bobeira. Espero por ele, longe do Mississippi, velho, longe do Mississippi. Meus companheiros estão comigo. Afinam os instrumentos. Evil Katrina. Katrina Blues. Ainda não decidimos o nome da música. Paciência. Temos tempo de sobra para esquentar a garganta.


Oh, when the saints go marching in,
Oh, when the saints go marching in;
Lord, I want to be in that number,
When the saints go marching in.

All my folks have gone before me,
All my friends and all my kin;
But I'll meet with them up yonder,
When the saints go marching in.