21.3.11

Tesouros da Jumentude

Você é um sujeito que gosta de ler mas tem, digamos assim, certas limitações. Seus axônios, dendritos e sinapses não dão conta de frases que você julga rebuscadas e raciocínios que você acha rococós. Seu vocabulário esquálido o impede de ler Li-te-ra-tu-ra sem o auxílio para você inescapável de um dicionário, e você ODEEEEEEIAAAAA abrir dicionário, o que significa que você não consegue deixar de ser burro. Mas seu problema não é exatamente este, uma vez que é perfeitamente possível viver toda uma vida sem saber que os acantoquitoninos representam uma subordem de moluscos anfineuros, o que você também não tem a menor ideia do que significa e devo dizer que nem eu.

Seu problema é que você tem amigos que amam os clássicos, só leem os clássicos, só falam dos clássicos, em outras palavras, você é uma anta metida a culta que prefere ficar ali, meio com cara de pinhóim, soltando um "HAHAHA" ocasional e sonoro, um "Você tem razão" aqui, outro "Eu não tinha pensado nisso" ali, acolá um "Não é incrível?", numa tentativa ridícula de ocultar sua ignorância em vez de procurar sua verdadeira turma, digamos, num baile funk, no facebook, ou em centenas de milhares de blogs que se pandemizam pela rede, ou entre os leitores das dezenas de romances nacionais publicados atualmente às fornadas no Brasil (embora eu me pergunte se, apesar de todo o auê da imprensa especializada, tais romances têm mesmo leitores). Você gostaria de participar da conversa de seus amigos, mas como? Se ao menos você conhecesse a história de cada livro (sim, pois para você literatura é só entretenimento e o que interessa é a historinha), até poderia arrotar uma certa intimidade com as letras e dizer, "Mas o Bentinho não é assim meio viado?"

Pois agora, meu caro jumento, você vai poder arrotar à vontade.

Foi para você, que quer cagar erudição mas tem o vocabulário de um Paulo Coelho e a capacidade de raciocínio de uma Bruna Surfistinha, que criei a sensacional coleção TESOUROS DA JUMENTUDE. São vinte volumes em papel cuchê, ricamente encadernados em couro e filigranados em ouro (sim, porque burro gosta de livro aparatoso, cheio dos luxos, pra fazer vista na estante e as visita achá chique, sacumé), trazendo os maiores clássicos da língua portuguesa, todos em edição bilíngue (alfabeta/analfabeta), como, por exemplo, o badaladíssimo Machado de Assis e seu pra lá de batido Dom Casmurro:

PÁGINA ALFABETA

Há dessas reminiscências que não descansam antes que a pena ou a língua as publique. Um antigo dizia arrenegar de conviva que tem boa memória. A vida é cheia de tais convivas, e eu sou acaso um deles, conquanto a prova de ter a memória fraca seja exatamente não me acudir agora o nome de tal antigo; mas era um antigo, e basta.

PÁGINA ANALFABETA

Tem umas lembranças que só param de encher o saco quando alguém escreve ou fala delas. Um velho aí dizia que ficava puto com convidado que lembra de tudo. A vida tá cheia dessa gente, e por acaso eu também sou assim, apesar de poder provar que sou gagá porque não me lembro agora do nome do velho aí que eu falei; ele era velho e pronto.


PÁGINA ALFABETA

Depois que sacudi fora a tranca dos ideais ingênuos, sentia-me vazio de ânimo; nunca percebi tanto a espiritualidade imponderável da alma: o vácuo habitava-me por dentro. Premia-me a força das coisas: senti-me acovardado.

PÁGINA ANALFABETA

Depois que deixei de ser um mongo lesado, fiquei desanimado; pela primeira vez entendi que a alma não pode ser medida nem pesada: fiquei oco. As coisas ficaram com um peso danado: amarelei legal.

Mais um aperitivo, afinal este post deverá durar uma semana inteira para vocês, pois não, meus eus burrinhos? Vamos então a Eça de Queiroz e seu suculento Fradique, dando uma pinta das boas:

PÁGINA ALFABETA

Era um moço com cabelos ralos e cor de manteiga, sardento, apagado de idéias e de modos -- mas que despertava e se iluminava todo quando lograva "a chance de roçar por um homem célebre, ou de arranchar numa coisa original".

PÁGINA ANALFABETA

Ele era um cara meio careca e amarelinho, todo pintado, burro e sem-jeito -- mas que ficava um Amaury Júnior de tão assanhado quando conseguia "se esfregar num sujeito famoso ou se juntar com uma novidade".

Alguns de meus eus me indagam por que a maravilhosa e esclarecedora coleção TESOUROS DA JUMENTUDE não traz traduções de obras estrangeiras. O motivo é muito simples e perfeitamente compreensível (façam um esforço que vocês conseguem, meus eus). Uma palavra não é apenas um som, um bololô de fonemas; ela é também, em alguns casos principalmente, uma imagem evocativa. Sempre que leio "dizziness", por exemplo, sou tomada duma tontura psíquica que a palavra tonteira jamais conseguirá provocar. Certamente os franceses encontram um significado muito maior em "pomme de terre" do que nós em nossa prosaica "batata". Os alemães devem levar uma tijolada mental ao lerem "Gedankenübertragung", o que indica que a telepatia germânica sem dúvida é muito mais poderosa do que a nossa. Conclui-se daí que uma tradução já é, em si, uma paulocoelhização do texto. Seria uma redundância paulocoelhizar o que já está paulocoelhizado.

Mas a poesia, essa coisa sintética, um tanto hermética e, por que não dizer, caquética (sim, pois que existe desde que os gregos aprenderam a dizer alfa-beta-gama-delta, merda de blogger que não tem alfabeto grego, e -- meus eus hão de concordar comigo -- qualquer coisa, depois de tantos séculos de existência, não pode manter um frescor assim tão juvenil, que o digam a Hebe Camargo, o Paul McCartney e o meu pinico de ágata), também a poesia terá um volume todo seu (seu mesmo, dileto e iletrado leitor), por exemplo Gregório de Matos:

PÁGINA ALFABETA

Tempo, que tudo trasfegas
fazendo aos peludos calvos
e pêlos tornar mais alvos
até os bigodes esfregas:
todas as caras congregas,
e a cada uma pões mudas,
tudo acaba, nada ajudas,
ao rico pões na pobreza,
ao pobre dás a riqueza,
só para mim te não mudas.


PÁGINA ANALFABETA

Tempo, metido descarado
que põe careca o cabeludo
e cabelo branco em tudo
nem o bigode é poupado;
os mané é tudo ajuntado,
tudo de boca fechada,
arrasa tudo, não ajuda nada,
o rico cai na pobreza,
o pobre ganha a riqueza,
e eu na mesma parada.


Os demais volumes trazem José de Alencar, Manuel Antônio de Almeida, Aluísio Azevedo, Graciliano Ramos, Lima Barreto, Bernardo Guimarães, Rachel de Queiroz, José Lins do Rego, Érico Veríssimo, Pe. Antônio Vieira, Afonso Arinos, Josué Montello, Franklin Távora, Joaquim Manuel de Macedo, Campos de Carvalho e Hilda Hilst (os dois últimos merecem figurar entre os clássicos e são terrivelmente incompreendidos).

E aí, alguém vai querer?


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Extraído do extinto blog Um por Semana.


19.3.11

Carla Bruni




L'amour, hum hum, pas pour moi,

Tous ces "toujours",

C'est pas net, ça joue des tours,

Ça s'approche sans se montrer,

Comme un traître de velours,

Ça me blesse, ou me lasse, selon les jours


L'amour, hum hum, ça ne vaut rien,

Ça m'inquiète de tout,

Et ça se déguise en doux,

Quand ça gronde, quand ça me mord,

Alors oui, c'est pire que tout,

Car j'en veux, hum hum, plus encore,


Pourquoi faire ce tas de plaisirs, de frissons,
de caresses, de pauvres promesses ?

A quoi bon se laisser reprendre

Le coeur en chamade,

Ne rien y comprendre,

C'est une embuscade,


L'amour, hum hum, ça ne va pas,

C'est pas du Saint Laurent,

Ça ne tombe pas parfaitement,

Si je ne trouve pas mon style ce n'est pas faute d'essayer,

Et l'amour, hum hum, j'laisse tomber


A quoi bon ce tas de plaisirs, de frissons,
de caresses, de pauvres promesses?

Pourquoi faire se laisser reprendre,

Le coeur en chamade,

Ne rien y comprendre,

C'est une embuscade.


L'amour, hum hum, j'en veux pas

J'préfère de temps en temps

Je préfère le goût du vent

Le goût étrange et doux de la peau de mes amants,

Mais l'amour, hum hum, pas vraiment.


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17.3.11

Miren Agur Meabe

Diagnóstico


Esta enfermedad es degenerativa.

Consiste en destruir los tejidos comunicativos:

en contraer la piel

(se pierde la sensibilidad a las caricias),

en reducir el foco visual

(se limita al espacio del libro que leemos).

Nos fatiga incluso hablar.

Y cada vez que pronunciamos un sonido,

nace provisto de largos pseudópodos grises

y se queda flotando en la salita,

como si ese fuera su destino:

una extraña ameba que ignora la hora de acostarse.

Nos afecta al oído, sordos en el búnker.

Papilas y lenguas ya están paralizadas.

La nariz es antena que percibe al instante

la chamusquina de una queja o el empalago de un suspiro.

Diagnóstico:

cáncer cíclico de silencio.

Periodo de incubación:

las rachas de impaciencia.

Previsión de recaídas ( salvo que la ciencia del perdón

descubra otros remedios):

tantas como fracasos del uno junto al otro.

Tratamiento profiláctico:

una cena en un bonito restaurante de vez en cuando

y cada mañana:

un pensamiento alegre al decir "buenos días".

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13.3.11

António Botto

Pedir amparo a alguém é uma loucura.
Pedir amor,
Também nada resolve – e para quê?
O amor corre – e em seus próprios movimentos
Isola-se, e de tudo parece que descrê;
E quando vem dizer-nos que é verdade,
Vê-se a mentira
Em que ele a rir afirma o que não vê.


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8.3.11

Sylvia Plath


Poemas são um mau começo: especialmente os mais complexos: eles me paralisam depressa demais por muito pouco. Melhor poemas curtos como exercício de descrição que não exijam desenvolvimento lógico ardiloso, verdadeiras armadilhas filosóficas. Pequenos poemas sobre o patim, a vaca ao luar, à Sow. Muito concretos, no sentido de que os mundos são personificados em minhas palavras, e não declarados em abstrações, ou em denotações espirituosas em três níveis claros. Descrições curtas nas quais as palavras tenham uma aura de poder místico: nomear o nome de uma característica: delgada, picante, lustrosa, chanfrada, lívida, luminosa, bojuda. Sempre nomeá-las em voz alta. Torná-las irrefutáveis.




Sylvia Plath, 17 de julho de 1957, começando um dia de trabalho. The Journals of Sylvia Plath.


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1.3.11

Mário de Andrade


PONTEANDO SOBRE O AMIGO RÚIM

(Março de 1927)


Enfim a gente não é mais amigo um do outro não.

Você anda facil, levianinho,
No labirinto das complicações.
Que subtileza! quanta graça dançarina!...
É certo que fica sempre
Bastante pó das asas de você
Nos galhos, nos espinhos,
Até nas flores dêsse mato...
Mesmo já pus reparo várias vezes
Nas asas de você estragadas pelas beiras...
Porém o essencial, o importante
É que apesar dêsse estrago inda você pode voar.

Eu não sou assim não.
Sou pesado, bastante estabanado,
Não tenho asa nem muita educação.
Careço de caminho largo, bem direito.
Si falta espaço, quebro tudo,
Me firo, me fatigo... Afinal caio.
No meio do mato eu paro, não posso mais caminhar.
Não posso mais.

Você... É possível que ainda me chame de amigo...
Mesmo perdendo um bocadinho de asa
Pousa no meu espinheiro e inda pode voar depois.
Mas eu, eu sofro é certo,
Porém já não sou mais amigo de você.

Você é amigo do mar, você é amigo do rio...