30.9.03

Baudelaire desnudado



- Deus é o único ser que, para reinar, não precisa sequer existir.

- A qualquer pessoa, desde que saiba entreter os outros, é dado o direito de falar de si.

- Gostar de mulheres inteligentes é um prazer de pederasta.

- O que me entedia na França é que todo mundo se parece com Voltaire.

- Não podendo suprimir o amor, a Igreja quis pelo menos desinfetá-lo -- por isso inventou o casamento.

- Quanto mais um indivíduo cultiva as artes, menos trepa.

- A fila de pequenos literatos que se pode ver nos enterros, distribuindo cumprimentos a torto e a direito e procurando fazer-se lembrados dos fazedores de jornais.

- O homem de espírito, aquele que nunca estará de acordo com os outros, deve esforçar-se em apreciar a conversa dos imbecis ou a leitura de livros ruins. Disso extrairá amargas alegrias que compensarão sua fadiga.

- É por não ser ambicioso que não tenho convicções, como as entendem as pessoas do meu século.

- Quando Jesus Cristo disse "Bem-aventurados os que têm fome porque eles serão saciados", limitava-se a fazer um cálculo de probabilidades.

- O amor pode provir de um sentimento generoso -- o gosto de prostituir-se -- mas é logo corrompido pelo gosto da propriedade.

- Para uma natureza tímida, a portaria de um teatro assemelha-se um pouco ao Juízo Final.

- O que há de atraente no mau gosto é o prazer aristocrático que sentimos em chocar os outros.

- A glória pessoal não é mais do que o resultado da acomodação de um espírito à imbecilidade de um povo.

- Cultivei minha histeria com prazer e terror. Ainda continuo a sentir a vertigem e hoje, 23 de janeiro de 1862, tive um estranho pressentimento: senti a fria asa da imbecilidade passar sobre mim.

29.9.03

Viver é como cavalgar um tigre,
não se pode descer de suas costas.



-- coisa da China.



Pergunto-me quanta gente nesta cidade
vive em apartamentos mobilados.
Altas horas da noite quando olho os outros prédios
juro que vejo um rosto em cada janela
que me olha também
e quando volto para dentro
pergunto-me quantos se sentam às suas escrivaninhas
a escreverem isto mesmo.


-- Leonard Cohen, extraído de Ruialme.


28.9.03

Cartão-postal de uma puta em Mineápolis


Olá Charley, estou grávida
E morando na rua 9
Bem em cima de uma livraria nojenta
Na esquina da Euclid Avenue
Parei com as drogas
E não bebo mais uísque
O meu homem toca trombone
E trabalha na ferrovia

Ele diz que me ama
Ainda que o bebê não seja dele
Diz que vai criá-lo como a um verdadeiro filho
E me deu um anel que a mãe costumava usar
Sai comigo para dançar
Todo sábado à noite

E, Charley, penso sempre em ti
Todas as vezes que passo num posto de gasolina
Por causa da brilhantina que usavas no cabelo
Ainda tenho aquele disco de Little Anthony & The Imperials
Mas me roubaram o toca-discos
O que é que se há de fazer...

Aí, Charley, quase fiquei maluca
Quando o Mario entrou em cana
Por isso voltei para Omaha
Para viver com meus velhos
Mas todo mundo que eu conhecia
Ou morreu ou estava na cadeia
Então voltei para Mineápolis
E desta vez acho que vou ficar por aqui

Sabe, Charley, pela primeira vez desde o acidente
Parece que sou feliz
Só queria ter agora todo o dinheiro
Que costumávamos gastar com as drogas
Compraria uma oficina de carros usados
E não vendia nenhum
Para usar um diferente a cada dia
Dependendo do meu astral

Oh, Charley, pelamordedeus,
Quer saber a verdade?
Não tenho marido nenhum
Ele não toca trombone
E preciso de dinheiro emprestado
Para pagar o advogado
E olha, Charley, devo sair com a condicional
No dia dos namorados.


-- Tom Waits

27.9.03

As coisas


A bengala, as moedas, o chaveiro,
A dócil fechadura, as tardias
Notas que não lerão os poucos dias
Que me restam, os naipes e o tabuleiro,
Um livro e em suas páginas a desvanecida
Violeta, monumento de uma tarde
Sem dúvida inesquecível e já esquecida,
O rubro espelho ocidental em que arde
Uma ilusória aurora. Quantas coisas,
Limas, umbrais, atlas, taças, cravos,
Servem-nos, como tácitos escravos,
Cegas e estranhamente sigilosas!
Durarão para além de nosso esquecimento;
Nunca saberão que partimos em um momento.


-- Jorge Luis Borges

26.9.03

Dicionário do diabo


J/ K/ L


Julgamento -- inquérito formal criado para provar e registrar a inocência de juízes, advogados e jurados.

Justiça -- uma decisão a nosso favor.

Kilt -- saiote que os escoceses usam na América e os americanos usam na Escócia.

Ladrão -- político.

Legado -- presente de alguém que está deixando este vale de lágrimas.

Lexicógrafo -- sujeito pernicioso que, com a justificativa de estar registrando determinado estágio do desenvolvimento de uma língua, faz o possível para interromper o seu crescimento, emperrar a sua flexibilidade e mecanizar os seus métodos.

Liberdade -- um dos bens mais preciosos da imaginação.

Lícito -- compatível com a vontade do juiz.

Língua -- órgão sexual que alguns degenerados usam para falar.

Linguagem -- música com a qual encantamos as serpentes que guardam o tesouro alheio.

Litigante -- pessoa que abre mão da própria pele na esperança de conservar os ossos.

Litígio -- máquina na qual entramos como porco e saímos como salsicha.

Lógica -- arte de pensar e deduzir rigorosamente de acordo com os limites e incapacidades do entendimento humano.

Longevidade -- medo da morte de duração incomum.

Loquacidade -- distúrbio que acomete um indivíduo tornando-o incapaz de refrear a própria língua sempre que nós queremos falar.

Lord -- na sociedade americana, diz-se de todo turista inglês com status superior a um verdureiro. Já os ingleses de nível inferior são chamados de "Sir".

Louco -- pessoa dotada de um alto grau de independência intelectual.

Luminar -- diz-se daquele que lança luz sobre algum tema sobre o qual um editor não quis escrever.


-- Ambrose Bierce

22.9.03

pensamentos de segunda


das pessoas que me detestam cordialmente
só aceito pagamentos à vista
embora elas não saibam
há indisponibilidade total de estoque
conceitos são pensamentos mortos
com que vou pastichando uns
poeminhas de ambulatório
você faz poesia prèt-à-porter
e diz que é generativo
se vende por um pedaço de broa
e me repassa as despesas postais
sei que nossa mizade não tem preço
mas, pense bem, não ia dar mesmo certo.

Aramaico


Amar é arte:
Equilibrar-se
no arame arcaico.


-- Letteri café

19.9.03



saber é pouco 

como é que a água do mar

entra no coco?





Leminski

18.9.03

A vida chata de Duarte

A vida de Duarte é tão chata que ninguém, nem mesmo
sua namorada, se ele tivesse uma, lhe chama pelo
primeiro nome. Não fosse sua identidade, onde está
escrito seu primeiro nome, e até mesmo Duarte
esqueceria seu próprio nome.
Duarte é dono de uma fábrica de sabão.
Como todos nós sabemos, sabão é feito de gordura.
Independente da fórmula, tudo dá na mesma.
Como chamar o Duarte de sabão, por exemplo.
Na cidade onde Duarte tem a fábrica todos o chamam de
Sabão. Sabão não tem tempo pra ficar se importando
com essas futricas. Mais importante é deixar a cidade
limpa. De preferência com o Sabão Duarte. Que é feito
de gordura. Independente da fórmula, todos somos iguais.
Apesar do Duarte, que é feito de sabão.


A vida chata de Juarez

Juarez tem muitos cedês de rap. Public Enemy, o cacete.
Juarez tem um devedê pirata de um show dos Racionais.
Juarez tem um amigo na polícia. E outro na Cruzeiro.
Ele é um cara bem relacionado pacas.
Tem um Land Rover e pratica trekking nos Aparados.
A namorada de Juarez posou no ClicRBS.
Juarez gosta de comida tailandesa.
Até mesmo vai passar uma temporada em Três Coroas.
Juarez é um cara demais. É zen. Foderoso.
Até mesmo o tiro que ele levou ontem à
noite na Bonja foi demais. Foi do caralho.
Negro é o teu cu, berrava Nêgo Junta com a doze na mão.
Juarez acordou morto com a bunda de fora na RS de Taquara.


A vida chata de Jaime

Jaime estuda letras. Jaime é muito inteligente.
Ele já leu mais de duas vezes Ulisses.
Jaime quer criar uma língua.
Ele estuda semântica e se masturba com um
discurso em inglês do Noam Chomsky.
Jaime tem uma namorada.
O nome dela é Janete.
Janete gosta de chupar o pau de Jaime.
Jaime gosta de ver Janete chupando seu pau.
Depois de se chuparem, Jaime deita, afaga os
cabelos de Janete e pensa.
O que Joyce pensaria numa hora dessas?
E dorme depois de limpar o pau na
lista telefônica de 1998.


A vida chata de Janice

Janice está grávida. Por estar grávida, ganhou o direito de ficar
quatro meses em casa. Os direitos do trabalhador devem ser
honrados, disse o deputado federal eleito pelo Amapá.
Janice mora em Macapá. Não existe muita coisa para uma grávida
fazer em Macapá. Assim como não existe muita coisa para
uma grávida fazer em lugar algum.
Janice faz bordados. Uma meia azul, outra rosa.
O médico do posto disse que podem ser gêmeos.
Se forem gêmeos, que seja um casal, pensou Janice.
Os médicos de posto nunca erram.
Janice mora com a família da irmã mais velha.
Sua irmã cozinha muito bem. Muito bem mesmo.
Janice adora os pratos de peixe que sua irmã faz.
A irmã de Janice é descendente de índios.
Alguns deles foram mortos por brancos fazendeiros.
Janice foi estuprada por um branco fazendeiro.
Ela vai morrer no parto.
Os direitos trabalhistas, não.


A vida chata de Pedro

Pedro está em casa. Pedro sempre está em casa. Pedro
não sai de seu quarto. Sua mãe chega do trabalho e pergunta.
Pedro, sai desse quarto. Mas Pedro não sai.
O pai de Pedro mora em outra em casa.
Com outra família. Pedro tem outros irmãos.
Ele não conhece seus irmãos.
Ele não conversa com seu pai. O pai de Pedro é médico.
Sua mãe é professora de história. Pedro fuma maconha.
Assiste os Simpsons. Se masturba. Não com os Simpsons,
mas com o vídeo da Christina Aguillera.
Pedro não troca as cuecas. Toma banho quando quer.
As aulas da faculdade ainda não começaram.
A mãe de Pedro fala de novo.
Filho, lá fora tem sol. Aproveita a vida.
Ele não aproveita a vida. Pedro tem um blogue.


-- Vidas Chatas

17.9.03

Swing literário com o poeta Carlos Saraiva


fuga

papel e tinta
sopro e flautim
tudo que houver
aja por dentro
de mim


-- Carlos Saraiva

Meu medo se interessa por qualquer ruído.
Hoje quero alguém para conversar enquanto dirijo,
baixar os faróis em estrada litorânea,
enxergar pelas mãos.


-- Fabrício Carpinejar

16.9.03

(O adeus de) Teresa


A primeira vez que eu vi Teresa
Achei que ela tinha pernas estúpidas
Achei também que a cara parecia uma perna.

Quando vi Teresa de novo
Achei os olhos mais velhos do que
o resto do corpo.
(Os olhos nasceram e ficaram um
ano esperando que o resto do
corpo nascesse).

Da terceira vez não vi mais nada
Os céus se misturaram com a terra
E o espírito de Deus voltou a se
mover sobre a face das águas.


-- Manuel Bandeira, em brincadeira poética com os versos de "O Adeus de Teresa", poema de Castro Alves. A intenção era fazer uma "tradução para o moderno", 1925.

15.9.03

Das vantagens de ser burra feito uma porta


Ah, são incontáveis. Tentarei mencionar aqui as que julgo mais pertinentes, para que vossas senhorias e vossos senhorios possam entender este meu desejo deveras compreensível de, um dia, quiçá com o poder de minha descomunal força pensamentícia e um empurrãozinho da Marlene Mattos (já me preparo psicologicamente para o sacrifício de me sujeitar à sanha da cara-de-joelho), vir a me tornar a Xuxa.

Primeiramente, a burrice, via de regra, sempre vem acompanhada da ignorância. Poucos são os burros com interesse no saber, na informação (o leitorzinho me dirá que conhece infindáveis; eu concordaria, se não estivesse falando de uma burrice do tipo pai d'égua). E nada é capaz de gerar mais neurose, angústia, paranóia, ansiedade e hipocondria do que o excesso de informação. Um bom exemplo é o consumo desenfreado de detalhes compositórios alimentares. Há não muito tempo, quando a alguém era oferecido algo que não conhecia, digamos, salmão, este alguém perguntava: "É gostoso?" Hoje, ao comedor vem a lembrança de um artigo em um destes inúmeros cadernos sobre saúde, digo, doença, presentes em qualquer jornal, e o comentário, "Ah, tem ácidos graxos ômega três que combatem os radicais livres e retardam o envelhecimento, e também é bom contra o câncer. Vou comer". Vai achar uma merda, mas comerá assim mesmo, em nome da "boa saúde". E quando se comia uma costeleta de porco frita, pensava-se (e até se dizia), "Hmmm, que delícia!". Hoje, quando olhamos uma costeleta de porco, vemos um infarto agudo do miocárdio resultante de uma artéria entupida de colesterol. Um bufê de comida mineira assemelha-se a um compêndio ilustrado de patologia forense. Um burro, e ignorante, continuará dizendo, entre uma dentada e outra, "Hmmmm, que delícia!", sem o menor pudor. E provavelmente o burro morrerá senil aos 98 anos. Vê-se, pois, que o que apressa a morte não é o colesterol, mas o fato de se saber que ele está ali, qual abutre rondando a potencial carniça cardíaca. O que apressa a morte é a informação.

Segundamente, um burro dificilmente tem grandes responsabilidades. Se trabalha em uma empresa, jamais chegará a chefe (estou falando de burros honestos; até porque, é preciso alguma inteligência a um desonesto próspero). Está livre, pois, de um sem-número de preocupações estressantes. Ninguém pedirá a um burro que procure resolver um problema insolúvel; aos inteligentes, exigem-se verdadeiros milagres. O inteligente morrerá de infarto por estresse aos quarenta anos; o burro morrerá senil aos 98. Vê-se, pois, que o que apressa a morte é o estresse.

Terceiramente, um burro tem um círculo de amigos burros. Um inteligente, por força das contingências intelecto-pensamentais, terá um círculo de amigos inteligentes. E em geral com alguma cultura, um ou outro com bastante cultura. O inteligente, então, devorará autores ilíveis segundo qualquer critério apenas para acompanhar o passo de seus amigos. Verá filmes invíveis, assistirá a peças de teatro inassistíveis, ouvirá músicas inouvíveis. Tudo em nome da "cultura", esta praga devoradora que a classe média a-do-ra pensar que tem. E o que é pior, terá de fazer um comentário inteligente e profundo a respeito de toda a tranqueira inútil que consome. O burro, sem outra preocupação a não ser a tabela do Brasileirão e o preço do cimento, manterá a cabeça fresquinha e ventilada, sem as obstruções sinápticas resultantes do vigoroso tráfego neuronal, e sem o intenso fluxo sangüíneo exigido por um encéfalo trabalhólatra. O inteligente terá um derrame aos sessenta anos; o burro morrerá senil aos 98. Vê-se, pois, que o que apressa a morte é a cultura.

Quartamente, um burro não se enche de culpa à toa. Pode se sentir culpado sim, por um crime terrível, por exemplo, ou por ter efetivamente magoado alguém, digamos, quando chama a namorada de "rolha-de-poço com cara de paca" e ela chora. Mas sempre por bons motivos, como podem ver. O inteligente sente-se culpado por tudo; um efeito colateral do excesso de reflexão e raciocínio, somados à informação. Freud sempre estará presente, acossando-o com o espectro da mãe que, segundo consta, ele quis comer e não comeu (se comeu, é hoje esquizofrênico e sociopata). Sentirá culpa por qualquer prazer que tenha na vida, comer, beber, fumar, cheirar, dormir, foder. Tudo. Um burro fará tudo isso e mais um pouco e ficará feliz como pinto no lixo. O inteligente, sempre bem informado, se martirizará a cada vez que gastar uma pequena fortuna em supérfluos, lembrando dos milhões que passam fome no mundo. O burro, se tiver a carteira recheada, comprará as maiores birutices que jamais vai usar só pelo prazer de comprar. O inteligente morrerá de câncer aos 58 anos; o burro morrerá senil aos 98. Vê-se, pois, que o que apressa a morte é a culpa.

Quintamente, o inteligente tem angústias existenciais. Passa a vida chafurdando em porquês, o porquê da vida, o porquê da morte, por que a Xuxa, tão tacanha, é podre de rica e eu não. Devora filósofos cujo hermetismo faria o próprio Hermes quicar de vergonha. Por força do hábito de raciocinar e em busca de respostas, sai ligando A com B, B com C, liga todo o alfabeto ocidental e não chega a lugar nenhum. Desespera-se. O burro entrega tudo nas mãos de uma divindade qualquer e passa a vida cagando e andando, quase literalmente. O inteligente cortará os pulsos aos 43 anos; o burro morrerá senil aos 98. Vê-se, pois, que o que apressa a morte é a metafísica.

Estamos esclarecidos?

Eu quero ser a Xuxa!


-- All About Eve

13.9.03

Frío de soledad


Miro entre las sombras
y no se que estoy buscando,
mi cuerpo se tensa a cada paso,
se enfría a cada instante.
Toco ahora el frío piso,
cual hielo es ahora el mármol
como una lápida donde se arrastra mi ser,
un tenue carmesí cubre su blanca forma,
mientras me arrastro sobre él...
Todavía cálido, fuera de su dueña,
ese río carmesí es parte de mi dolor,
es el resultado de mi soledad y
el producto de mi pasión y tristeza,
ahora corre de mis venas al mármol
dejando vacío este cuerpo triste
que ruega por un dolor menos intenso,
que pide a gritos una leve caricia de la muerte misma...
Así como la rosa marchita en mi mano,
como la sangre que se seca sobre el frío mármol...
mi existencia se apaga, se enfría
mientras se arrastra y se pierde entre las sombras.


-- Mentes Torcidas


12.9.03

Giórgios Makrópoulos

quartos de solteiro


Quando você aluga quartos no andar de baixo da sua casa, isso quer dizer que é domador de pássaros ou se tornou oleiro. Porque, o mais das vezes, existe um mistério no caso. Em certos momentos do dia -- precisamente os mesmos -- você ouve ruídos muito discretos de arrastar de pratos ou xícaras, ou um indefinido tic-tac de prego na parede. A armadilha, porém, não está aí. Deixe que o inquilino lhe devolva a chave e se mude, para então você descer ao andar de baixo com um olho bem alerta, disposto a resolver o mistério. Aí é que está a armadilha. Será mister você ter servido no exército como apanhador de torpedos para poder levar adiante o trabalho, agora. Porque os inquilinos costumam largar pelo chão camisas velhas, uma cédula de identidade plastificada, alguma fotografia antiga, tirada ao lado de uma estátua ou em companhia dos pais diante de um transatlântico, no balneário de Kaiáfa, ou então cartas não postadas contendo frases do tipo "Quando eu era criança, queria ser músico. Hoje sou empregado de escritório", "Não precisa me esperar no porto". Sem suspeitar de nada, você as apanha com a natural sofreguidão dos solitários. A bomba portátil explode, você sofre apenas ferimentos leves, mas eis que surgem ambulâncias de sirenes abertas, anjos de avental branco e expressão severa te carregam de maca. Você lhes grita que não é nada disso que estão pensando. Eles são surdos. Começa a juntar gente. Metem você na ambulância, que parte incontinenti. Você sempre gritando, eles sempre surdos. O espetáculo termina, o ajuntamento se dissolve, e você lá dentro da ambulância. Sempre gritando. Cuida agora de acertar as coisas com os carniceiros. De lhes falar de quartos de solteiro, enquanto eles correm agitados pela enfermaria perguntando a você acerca do infortunado boletim e do histórico da amputação. Sempre a correr, eles, e você a falar a surdos-mudos.

Eu alugo quartos. Sou um cidadão tranqüilo, escrevia poemas e não incomodava ninguém. Pois quem foi que me amputou a mão?


-- Em "Pirotécnicos", 1979.

11.9.03

De súbito, um quarto com sua lâmpada surgiu diante de mim, quase palpável em mim. Nele eu já era canto, mas os postigos me perceberam e tornaram a fechar-se.


-- Rilke, fragmento de "Ma vie sans moi", trad. francesa.

família


rotina de quatro portas
brincadeira a sangue-frio
onde frito luas convulsivas
coloridas pela Disney

10.9.03

Federico Garcia Lorca

dois marinheiros à margem




Trouxe no seu coração
um peixe do Mar da China.

Que às vezes se vê cruzar
diminuto por seus olhos.

Esquece sendo marítimo
os bares e as laranjas.

Olha a água.




Tinha a língua de sabão.
Lavou suas palavras e calou-se.

Mundo plano, mar riçado,
cem estrelas e seu barco.

Do Papa viu os balcões
e os peitos dourados das cubanas.

Olha a água.


8.9.03

Dicionário do diabo


I


Idiota -- membro de uma grande e poderosa tribo de preponderante influência nos assuntos humanos. A atividade do idiota não se restringe a uma área específica do pensamento ou da ação, ela está em tudo. O idiota detém a última palavra em tudo, sua decisão é inapelável. Ele dita as modas, os gostos, as opiniões e estabelece os limites do discurso e do comportamento.

Ignorante -- pessoa que desconhece coisas que já sabemos e que sabe de outras que desconhecemos.

Imbecilidade -- espécie de inspiração divina que acomete os críticos severos deste dicionário.

Imigrante -- pessoa não esclarecida que acha que um país é melhor do que outro.

Imodesto -- pessoa dotada de forte concepção de seus próprios méritos e de uma frágil noção do valor dos outros.

Imoral -- inconveniente. Tudo aquilo que o ser humano acha inconveniente a determinados propósitos é rotulado de errado, doentio e imoral.

Impaciência -- esperar com pressa.

Imparcial -- incapaz de perceber uma vantagem pessoal na adoção de um dos lados de uma controvérsia ou de adotar uma de duas opiniões conflitantes.

Impiedade -- a sua irreverência à minha divindade.

Imposição -- ato de abençoar ou consagrar por meio da colocação das mãos. Cerimônia comum em muitos sistemas eclesiásticos, porém realizada com mais sinceridade por uma seita conhecida como os Ladrões.

Imposto -- preço que pagamos para poder criticar o governo.

Impostor -- aspirante rival às honras públicas.

Improvidência -- prover as necessidades de hoje com os rendimentos de amanhã.

Imprudente -- insensível ao valor de nossos conselhos.

Impunidade -- riqueza.

Incompatibilidade -- no casamento, diz-se da semelhança de desejos, particularmente o desejo de mandar.

Incorruptível -- diz-se daquele que cobra um preço alto demais.

Influência -- na política, um visionário quo que é dado em troca de um substancial quid.

Intelectual -- indivíduo capaz de pensar por mais de duas horas em algo que não seja sexo.

Intérprete -- alguém que possibilita que dois indivíduos de línguas diferentes se comuniquem mediante a repetição a cada um daquilo que o intérprete julga conveniente que seja dito de um para o outro.

Intimidade -- relação para a qual dois idiotas são arrastados para se autodestruírem.

Inventor -- sujeito que cria uma combinação de rodas, alavancas e molas e chama a isso de civilização.


-- Ambrose Bierce

5.9.03

blogs de amigos
blogs de humor
blogs de crianças
blogs de desempregados
blogs de donas-de-casa
blogs de ninguém
blogs de jornalistas
blogs de jornalistas famosos
blogs de amigos de jornalistas famosos
blogs de alguém
blogs de cantores
blogs de esquerda
blogs de direita
blogs de amigos de esquerda da direita
blogs de escritores
blogs de poetas
blogs de worst-sellers
blogs de inéditos
blogs esotéricos
blogs intimistas
blogs-trampolim
blogs céticos
blogs de utilidade pública
blogs de hackers
blogs-agenda
blogs homofóbicos
blogs de blogs
blogs bichas
blogs copy&paste
blogs lésbicos
blogs quero-ser-famoso
blogs solitários
blogs de blogs
blogs pra pegar
blogs pra ler
blogs pra dormir
blogs pra esquecer

Câmara fria



Coloquei nos três cuzinhos
exatamente três bilhetinhos
todos perfeitamente iguais
igualmente apertadinhos
(ele haveria de achá-los
na hora do exame)

Um dia o tempo passou
e dos bilhetes não vi  resposta
mudei de plantão, mudei de amores
certo está que inda sou curiosa
do fim que levaram tão graciosos cuzinhos
pombos-correios prestimosos
de meus infames bilhetinhos



4.9.03

Emil Staiger


Ao poeta lírico, propriamente, não importa se um leitor também vibra, se ele discute a verdade de um estado lírico. O poeta lírico é solitário, não se interessa pelo público; cria para si mesmo. Porém tal afirmação exige esclarecimentos. Composições líricas também são publicadas. A colheita de anos e anos é reunida e entregue a um público. Correto. Mas já aqui, num volume de poesias, "o balbucio apaixonado em linguagem escrita apresenta-se deveras estranho", como disse Goethe. E colecionar folhas soltas não parece apenas a Goethe um contra-senso. Quando o livro está pronto, o que é que o povo faz com ele? Pode-se declamar poesias líricas, mas apenas como também se pode ler um drama teatral. Recitado, um poema lírico não pode ser apreciado como merece. Um declamador a recitar, diante de uma sala cheia, poesias exclusivamente líricas transmite quase sempre uma impressão penosa. Mais plausível é um recital para um círculo pequeno, para pessoas a cuja sensibilidade possamos abandonar-nos. Mas um trecho lírico só desabrocha inteiramente na quietude de uma vida solitária. E mesmo este desabrochar não é sorte que seja dada todos os dias ao leitor. Folheamos uma coletânea de canções. Nada nos comove. Os versos nos soam vazios e surpreendemo-nos com o poeta vaidoso que se deu ao trabalho de escrever tais coisas, catalogá-las e entregá-las a seus contemporâneos e à posteridade. Subitamente, porém, numa hora especial, uma estrofe ou toda uma poesia comove-nos. A esta juntam-se outras, e chegamos quase a reconhecer que é um grande poeta que nos fala. É o efeito de uma arte que nem nos retém como a épica, nem excita e causa tensão, como a dramática. O lírico nos é incutido. Para a insinuação ser eficaz o leitor precisa estar indefeso, receptivo. Isso acontece quando sua alma está afinada com a do autor. Portanto, a poesia lírica manifesta-se como arte da solidão, que em estado puro é receptada apenas por pessoas que interiorizam essa solidão.


-- Em "Conceitos Fundamentais da Poética".

Os melhores poemas entre 2 copos de vinho!


Da minha janela à tua
vai uma pouca de destância
vê lá se escorregas
numa casca de melãncia


-- Poesia?

3.9.03

Pequenas sugestões e receitas de espanto-antitédio para senhores e donas de casa
(fragmento)



Compre uma galinha daquelas lindas, vermelhas, gordotas, que esqueci o nome. Ensine o seu filhinho (só até 8 anos, porque senão vira "Farra da Galinha") a segurá-la (a galinha) abaixo das axilas, perdão, quero dizer das asas e naturalmente de costas para o seu rapazinho. Amarre o bico (da galinha, evidente) com um pequeno elástico colorido (para não fazer má impressão ao seu menino, a não ser que ele tenha tendências sádicas e aí, por favor não compre a galinha) para que a galinha não se vire subitamente e bique o piupiu do seu menino. (Isso não vai acontecer, madame, é apenas excesso de zelo do autor.) Ensine ao seu menino onde é o fiufiu da própria e deixe-os sozinhos na hora do recreio. Os dois vão adorar. Depois compre várias galinhas para que sua criança tenha opção de escolha. Instigue-o a convidar os amiguinhos da vizinhança. Para que as galinhas também tenham opção de escolha. Credo! Como é difícil o texto didático.


-- Hilda Hilst, em "Contos D'Escárnio".

2.9.03

Piu?


piu piu piu piu piu piu
piu piu piu piu piu piu
piu piu piu piu piu piu
piu piu piu piu piu piu
piu piu piu piu piu piu
piu piu piu piu piu piu